História,

A caça às bruxas

Feminista italiana mostra como a repressão às mulheres teve papel na ascensão do capitalismo

13nov2018 - 15h51 | Edição #8 dez.17-fev.18

A filósofa belga Isabelle Stengers vem sugerindo que o capitalismo deve ser pensado como um “sistema de feitiçaria sem feiticeiro”. Ao contrário da noção ocidental de “ideologia”, que permite aos “conscientes” uma rota de escape, na feitiçaria todos estamos expostos. Stengers mostra que resistir é fabricar contra-feitiços, e as bruxas seriam as especialistas na sabotagem.

Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, empreende uma viagem arqueológica às origens do capitalismo, entre o fim e o começo de um mundo. Tomada pela mesma corrente de Stengers, Federici navega por práticas, relações e modos de pensar que foram destruídos no curso de um dos maiores massacres da história. O livro é um tratado de redenção que restaura a dignidade da resistência feminina à nova ordem.

Fruto de uma pesquisa de quase 30 anos, o livro reconstrói o período da transição do feudalismo para o capitalismo da perspectiva dos vencidos: mulheres acusadas de bruxaria, camponeses expulsos de suas terras, indígenas colonizados nas Américas, o corpo negro escravizado. Convoca personagens apagados pelas histórias oficiais para seguir os rastros da caça às bruxas dos séculos 16 e 17 e  apresenta ao leitor uma história outra feita de corpos marcados pela violência e disciplina perpetradas pelo capitalismo e seu projeto de progresso.

Ainda que a acusação de bruxaria fosse dirigida a uma grande variedade de práticas femininas, foi especialmente contra as curandeiras, parteiras, feiticeiras e adivinhas que ela agia (também eram acusadas as “esposas desobedientes” e as mulheres de vida sexual livre). As práticas de magia eram uma fonte de poder e por isso fragilizavam o poder das autoridades. A feitiçaria e as experiências de cura também infundiam confiança sobre a capacidade dos mais pobres de manipular a natureza e fortalecer seus vínculos. As fogueiras e torturas pretendiam queimar todo um modo de vida.

Ao reconstruir as portas de entrada dos nossos tempos, o livro revela que os pilares mais sólidos do capitalismo — a sociedade salarial e a separação radical entre produção e reprodução da vida — foram, desde o início, fabricados por relações de violência e despossessão e assentados no terreno da hierarquização de gênero. O corpo disciplinado do homem proletário e sua inserção no novo regime do trabalho assalariado só pôde existir por conta do grande contingente de trabalho não pago das mulheres: o trabalho fundamental da manutenção e reprodução da vida passava a habitar a zona invisível do espaço doméstico.

A “força de trabalho” produtiva dos homens apenas poderia funcionar se as mulheres fossem exiladas de seus corpos e liberdades. Enquanto o salário instituía-se como a forma de pagamento para o “trabalho produtivo” masculino e fabril, o trabalho feminino ganhava camadas densas de desvalorização. Uma feminilidade domesticada foi o resultado mais importante da caça às bruxas, assim como a destruição das formas de vida comunitárias sustentadas por mulheres que agora ficavam isoladas em suas casas.

Sexualidade apagada

A riqueza capitalista só funciona com o infinito trabalho de cuidados, alimentação, limpeza e administração dos afetos feito pelas mulheres, sem falar no controle da reprodução biológica, que fez das mulheres máquinas de produzir novos trabalhadores. A consolidação da família nuclear e de uma sexualidade feminina apagada pelo casamento foram centrais ao funcionamento dessa engrenagem.

No percurso, o leitor é atravessado por paisagens, documentos e imagens literárias da época. Da Megera domada de Shakespeare aos tratados políticos e filosóficos do “racionalismo moderno”, vamos conhecendo a arquitetura moral e intelectual dos tribunais e práticas de tortura cujo sentido era neutralizar e demonizar a desobediência feminina. Não só a sombra obscurantista do fanatismo papal sustentava a guerra às mulheres, mas também um novo projeto científico e político: a bruxa encarnava o lado “selvagem” da natureza — tudo o que parecia incontrolável e, por isso, antagônico à nova ciência cartesiana.

Calibã e a bruxa conta a história do mundo moderno a partir da cozinha, mostrando o racismo e o sexismo como partes integrantes do comando central de funcionamento do capitalismo. A perseguição às “desobedientes” nunca cessou e hoje se atualiza com o feminicídio, a violência doméstica e a criminalização do aborto. O livro nos ajuda a desviar das fogueiras e a manter a resistência em brasa.  

Quem escreveu esse texto

Alana Moraes

É pesquisadora da UFRJ e coautora de Investigação operária (IIEP).

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.