Os autores Pedro Martinelli e Carlos Maranhão (Bob Wolfenson/Divulgação)

Fotografia,

O Fotógrafo é um Pescador

Escritas em conjunto com o jornalista Carlos Maranhão, memórias de Pedro Martinelli criam história visual da imprensa brasileira

19ago2026

Navegamos em uma canoa voadeira pelo rio Içana, na chamada Cabeça-do-Cachorro, onde o extremo norte do Brasil morde o território da Colômbia, as distâncias são maiúsculas e as horas de barco não cabem no relógio. De tempos em tempos, o Pescador manda parar o barco, chegar perto da vegetação nas margens do rio ou entrar em um “lago”. Ali, onde os troncos das árvores ficam meio recobertos pelas águas, ele começa a lançar a vara com iscas artificiais em forma de mosca.

Em quase silêncio, com movimentos lentos e pacientes, o homem se absorve em estado de butuca. Lança longe, como se fosse um estilingue, e com o molinete vai puxando o fio de volta lentamente. Lança de novo e puxa o fio, fazendo com que a mosca pareça voar sobre a superfície da água. Lança tantas vezes até que um tucunaré iludido dá o bote para devorar o que pensa ser uma presa, um golpe semelhante ao de um pequeno tubarão.

Pesca com arco e flecha às margens do Rio Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso, 1973 (Pedro Martinelli/Divulgação)

A cena muda, a calma silenciosa se altera — o Pescador agora tem que ser forte, dar corda ao peixe, que se debate, para não arrebentar a linha e a carretilha. Quase ao mesmo tempo, retesa o fio para cansar o bicho. Puxa o molinete e logo dá corda novamente ao predador arrependido. A cena vai durar uns tantos minutos, e quase sempre o desfecho será uma refeição deliciosa (como exceção, os peixes que não chegam a agarrar a isca, e escapam, e os muito grandes, que quebram o fio).

O Pescador é um fotógrafo: fica um longo tempo esperando o momento em que todos os elementos — peixe, isca, linha, vara e seu corpo — se alinham em perfeita conjunção com a presa, que se atrai pela isca para produzir o instante decisivo, um grande peixe. A satisfação do Pescador é contagiante: parece o goleiro que pega um pênalti decisivo ou o goleador que converte um chute magistral. Se algo não der certo, o peixe vai embora, às vezes sem ser visto.

O Fotógrafo é um pescador: para captar uma imagem única, que logo se perde, espera longamente, atrás do visor da câmera, o “instante decisivo em que a forma visual, a luz e a emoção de uma cena se alinham em perfeita harmonia” (Cartier-Bresson).

Martinelli pertence a uma geração para a qual fotografar exigia deslocamento, espera

O pescador e fotógrafo Pedro Martinelli viveu por cerca de dez anos pescando imagens e peixes na Amazônia. Deslocava-se, comme il faut, em um barco. Nesse período, jamais documentou a grande imagem do momento em que o peixe “dá o tiro”, como ele diz, pula de boca aberta para devorar a isca.

Susan Sontag, em Sobre fotografia (trad. Rubens Figueiredo, Companhia das Letras, 2004), cita coisas que se podem ou não fazer com uma câmera: “usar uma câmera não é um bom jeito de chegar em alguém sexualmente”, escreve Sontag. “Entre o fotógrafo e o seu objeto deve haver uma distância.” E completa: de longe, a câmera permite intrometer-se, invadir, distorcer, explorar e até assassinar; não consegue fazer sexo, estuprar, possuir. A autora não cita, mas podemos incluir o pescar.

Fotografia da aldeia Jerusalém, na região do rio Içana, na Amazônia, 1997 (Pedro Martinelli/Divulgação)

No período na Amazônia, a pesca era paixão, esporte e alimentação, e  também uma forma de abrir a porta e o coração dos entrevistados e retratados. Um peixe de presente aqui, uma anedota de pescador ali. Como diz Alex Atala, grande chef e pescador, “a comida foi a primeira rede social do mundo”. E Pedrão, com jeito de urso alemão, a usou para interagir com aquele Brasil onde todo mundo é índio, menos quem não é, como disse Eduardo Viveiros de Castro. Ou não sabe que é.

Caçar e cozinhar

Comida e conversa são o motor de Olho no mundo, livro de Pedro Martinelli produzido em parceria com o jornalista e escritor Carlos Maranhão. Os dois gostam de cozinhar, comer e conversar. Em um encontro na casa de Martinelli, surgiu a ideia de reunir as memórias do fotógrafo em uma edição. Assim nasceu o livro.

Nascido em 1950, em uma família de origem italiana em Santo André (SP), filho de um açougueiro e de uma mulher que cozinhava como grande chef, Martinelli aprendeu ainda pequeno a caçar, pescar e cozinhar. Tornou-se jornalista por acaso: na adolescência, fez muitos bicos, aprendeu datilografia e um dia ganhou o emprego de vendedor de anúncios na Gazeta Esportiva. Conheceu um fotógrafo e virou seu assistente.

O projeto gráfico reproduz fac-símiles das páginas em que as imagens foram originalmente publicadas

Transformou-se em um grande contador de histórias de pescador — e sobre fotos, futebol, Copas do Mundo, Olimpíadas, mortes, eleições, visita de Papas, guerras, contato com grupos indígenas isolados e bastidores da imprensa brasileira. Na editora Abril, onde trabalhou durante muitos anos, produziu de tudo: moda, carros, mulheres nuas, conflitos na América Central, viagens papais, competições esportivas, personagens anônimos e figuras centrais da vida pública. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, praticamente todo tipo de reportagem passou pelas lentes de Martinelli.

Conversa à mesa

Carlos Maranhão produziu o relato em primeira pessoa, com a fluidez de uma conversa à mesa. De tempos em tempos, no meio de uma lembrança, surge uma pequena lição de fotografia: como se aproximar de Pelé; de que maneira a simpatia do papa João Paulo 2º ajudou a abrir caminhos; que lentes usar em determinada situação; como vencer a escuridão da floresta para conseguir uma boa imagem; como se posicionar quando todos os fotógrafos parecem ter escolhido o lugar mais óbvio; como “roubar” fotos em uma zona de segurança militar ou um retrato do radialista Zé Bettio (1926-2018), que odiava fotógrafos.

Entre tantas imagens que produziu, algumas têm a força de um golaço. A história mais sensacional, que o projetou no mercado profissional, foi a do primeiro indígena Krenakarore no dia do contato com a expedição liderada por Orlando Villas-Bôas, em 1973. Era uma daquelas imagens quase impossíveis: desejada, difícil, carregada de tensão histórica, política e simbólica. Martinelli ficou na floresta depois que toda a imprensa tinha desistido de esperar e ido embora. E, como o pescador diante do tucunaré, viu o momento em que tudo se alinhou: presença, distância, luz, risco, acaso. E fisgou a imagem.

Primeira aparição de um índio Kranhacãrore, no Rio Peixoto de Azevedo, 1973 (Pedro Martinelli/Divulgação)

Outra fotografia memorável é a do pênalti defendido por Taffarel na final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, contra a Itália, quando o Brasil se sagrou tetracampeão. Martinelli contrariou o senso comum e fez diferente dos fotógrafos que cobriam a disputa. Em vez de se posicionar no meio de campo ou atrás do gol onde os pênaltis seriam cobrados, foi para a grande área oposta, munido de uma poderosa teleobjetiva.

Fui para a marca do pênalti do gol vazio, de frente para o Taffarel, com a lente 600mm. O quadro era tão cheio que cortava suas mãos quando ele fazia o movimento para os lados. Como ele, eu tinha que adivinhar o lado certo. Esta foi a única foto que eu e ele acertamos tudo.

Ele capturou o instante em que a mão do goleiro interrompe a trajetória da bola chutada por Daniele Massaro. Como na pesca, era preciso alinhar tudo para conseguir o peixe.

Pedro Martinelli fotografou, para a revista Placar, o pênalti defendido por Taffarel na Copa de 1994 (Placar/Reprodução)

Além do texto em primeira pessoa, conduzido por Maranhão, e das fotografias de Martinelli, Olho no mundo tem uma camada de informação significativa: o projeto gráfico opta por reproduzir muitas imagens em fac-símile das páginas em que foram originalmente publicadas. Com isso, o livro se torna uma espécie de história visual da imprensa brasileira — ou, mais precisamente, uma história dos modos como a imprensa brasileira organizou graficamente o mundo diante dos olhos de seus leitores.

Essa dimensão aparece desde a capa do Diário do Grande ABC com a notícia da vitória do Brasil na Copa de 1970, quando Martinelli fotografou a tela da televisão — o jornal não tinha dinheiro para enviar uma equipe ao México. Passa pela capa de O Globo com a foto do primeiro indígena avistado no dia do contato e a manchete: “O Globo foi o primeiro a chegar aos Krain-a-Kore”. Inclui imagens chocantes do trágico incêndio do edifício Joelma, em São Paulo; as páginas da revista Veja com a cobertura da guerra na Nicarágua; a eleição do papa João Paulo 2º e sua viagem ao Brasil; cenas de Olimpíadas; reportagens de comportamento, política e aventura. E desemboca na longa fase em que Martinelli se dedicou de maneira quase integral à Amazônia.

Fotografia de Martinelli na capa do Diário do Grande ABC em 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial (Diário do Grande ABC/Reprodução)

Curiosamente, apesar da imagem inicial do pescador, há poucos peixes no livro. São apenas duas as fotografias diretamente ligadas à pesca: uma na Patagônia e outra feita pelo antropólogo Beto Ricardo, em que Martinelli segura um grande peixe já moqueado, preto como carvão.

Nostalgia

Uma das marcas mais fortes do texto é certa nostalgia, sobretudo quando Martinelli fala da Amazônia. Não se trata de nostalgia decorativa, nem de saudade vaga de um passado idealizado. É a dor de quem viu um mundo desaparecer rápido demais. A Amazônia que Martinelli conheceu, com seus rios, povos, caminhos, silêncios, indígenas isolados e ribeirinhos em atividades centenárias, já não é a mesma. Sua angústia aparece em vários momentos do livro, às vezes de modo explícito, às vezes como sombra atrás das histórias.

Há também a percepção do desaparecimento do tempo em que a imprensa mandava seus enviados especiais para documentar fatos em todos os cantos do mundo, passar meses a espera de um indígena ou correr para a guerra da Nicarágua, para Roma ou Atlanta. Martinelli pertence a uma geração para a qual fotografar exigia deslocamento físico, espera, risco e criatividade — tudo que a decadência dos meios jornalísticos faz desaparecer como as árvores da floresta. Por isso suas histórias despertam tanto interesse: lembram que uma fotografia não começa no clique. Começa muito antes, como na pesca do tucunaré.

Olho no mundo é um livro sobre fotografia, imprensa, amizade, comida, viagem, Amazônia e tempo. E, principalmente, sobre um homem que passou a vida com o olho no mundo, à espera do momento em que uma foto dá o bote. 

Quem escreveu esse texto

Leão Serva

É diretor internacional de jornalismo e correspondente em Londres da TV Cultura e autor de A fórmula da emoção na fotografia de guerra (Edições Sesc).