Fotografia,

Retratos da vida caipira no interior de São Paulo

Álbum reúne imagens de famílias de lavradores no Vale do Paraíba

08nov2018 - 15h04 | Edição #2 jun.2017

Vida caipira, originalmente uma tese de doutorado defendida no Departamento de História da Universidade de São Paulo (Fotografia e histórias de vida), é bastante inusual: sua documentação básica é um conjunto de 127 fotografias feitas pelo autor, todas em preto e branco, contra não mais que 24 páginas de texto. É fruto de uma vivência prolongada no sítio da família Monteiro, de lavradores que moram próximos à cidade de Cunha (SP), no Vale do Paraíba.

O caipira corresponde ao caboclo imerso numa agricultura de subsistência que se expandiu por São Paulo, Minas, Goiás, Mato Grosso e Paraná

O relato etnográfico e a observação participante, mais próprios da antropologia do que da história, mostram uma flexibilização da ortodoxia acadêmica em prol de conhecimentos de novo tipo.

Pedro Ribeiro, o autor, procura valorizar “os elementos estéticos” da experiência, como “homenagem às comunidades tradicionais que se encontram na raiz de nossa formação social e cultural”. E faz assim a revisitação a uma certa sociologia que esteve em voga nas primeiras décadas do século 20, que procurava retratar a diversidade do Brasil a partir de tipos humanos regionais (sertanejo, gaúcho, caipira etc.).

O caipira corresponde ao caboclo imerso numa agricultura de subsistência que se desenvolveu no chamado “sertão de Leste” (Vale do Paraíba, Vale do Ribeira e sul de Minas Gerais), expandindo-se ao longo dos primeiros séculos por São Paulo, Minas, Goiás, Mato Grosso, Paraná.

Enquanto pôde, ele produziu excedentes para as minas de ouro; quando se esgotaram, reverteu à subsistência, consolidando uma vida isolada, relacionando-se quase que só com parentes e vizinhos.

As fotografias, entre instantâneos e retratos, trazem para primeiro plano uma camada arqueológica do Brasil. Homens, cães, porcos, galinhas, burros, cavalos, santos e igrejas, violeiros, panelas areadas, cuscuzeira, o milho, a cana — tudo se enlaça como fragmentos de uma vida esfacelada, que parece nos dizer que sabemos nada sobre nós mesmos.

O livro compõe, ao lado do clássico Arquitetura rural da Serra na Mantiqueira, do arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz (publicado pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi em 1996), o pequeno e valioso acervo fotográfico dessa parcela de brasileiros que teima em emergir diante de nossas vistas.     

Quem escreveu esse texto

Carlos Alberto Dória

É diretor da ONG C5 – Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, coautor de A culinária caipira da Paulistânia (Três Estrelas) e autor de Formação da culinária brasileira (Três Estrelas).

Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.