Crítica Literária, Flip,

Concepção de um clássico

Livro restabelece fontes de informação, inspiração e interpretação sobre Canudos para entender como o conflito entrou no imaginário brasileiro

01jul2019

O que faz um trabalho acadêmico ultrapassar o interesse dos muros universitários e se transformar num clássico? No calor da hora, pesquisa de Walnice Nogueira Galvão para obtenção do título de livre-docência, por exemplo, reúne algumas respostas óbvias — ineditismo, relevância, estilo — em graus superlativos. 

O ineditismo, por exemplo: a pesquisa, iniciada nos anos 1970, debruçou-se sobre reportagens e artigos produzidos por oito jornais brasileiros (cinco do Rio, dois da Bahia e um de São Paulo) sobre a Guerra de Canudos. Ao lado das reportagens publicadas por Euclides em O Estado de S. Paulo, já mapeadas por outros autores, esse levantamento constitui um conjunto por si só precioso de olhares jornalísticos.  

Parte desse conjunto de reportagens foi a fonte do então redator do Estadão, Euclides da Cunha, para os dois artigos de sua autoria que foram publicados antes de ser destacado como repórter enviado ao interior da Bahia, como membro da comitiva do Ministério da Guerra, para acompanhar a quarta e definitiva ofensiva a Antônio Conselheiro e seus seguidores.   

O trabalho, apresentado para a obtenção do título de livre-docência na USP em 1972, foi a primeira tese universitária que teve por tema a fatura da obra de Euclides, setenta anos após sua publicação. Curiosamente, Galvão nem sabia disso à época, como conta em nota da nova edição: “[…] até recentemente, eu ignorava ter sido essa a primeira tese no campo dos estudos euclidianos — algo que se tornou corriqueiro desde então, contando-se teses às dezenas e às centenas”. 

Poligênero

Das centenas aludidas pela autora à inauguração de um campo de estudos euclidianos se depreende a relevância de No calor da hora, transformado em livro em 1974 e citado a torto e a direito nos trabalhos posteriores em diversos campos do conhecimento, dado que as reportagens de Euclides deram origem a um livro raro dentro da tradição brasileira. Trata-se de uma obra híbrida que desafia a classificação de gêneros literários — além da observação jornalística, Euclides lançou mão de conhecimentos de geografia, história e etnografia para construir uma narrativa monumental, excessiva e, bem, literária.  

Ora reinvindicado pelos estudos literários, ora pelos das ciências humanas, Os sertões também pode ser lido como um livro-reportagem (ainda que bem mais pretensioso, volumoso e hiperbólico do que de costume). Em “O correspondente de guerra Euclides da Cunha”, ensaio publicado em Saco de gatos (1976), Galvão afirma: “A Guerra de Canudos foi o acontecimento jornalístico de maior importância do ano de 1897, no Brasil. Os mais destacados jornais do país enviaram correspondentes especiais ao local da luta, ou encomendaram a participantes dela a remessa regular de notícias”.

Passados mais de cem anos, certos traços ainda persistem na maneira como são tratados os excluídos nos meios de comunicação

Nesse sentido, restabelecer as fontes iniciais de informação, inspiração e interpretação sobre o que se passou com a gente de Antônio Conselheiro e, sobretudo, os enfrentamentos com as forças da repressão imperial se torna uma chave essencial para entender como esse conflito entrou no imaginário que constituiu a identidade do Brasil no século 20. Assim, além da reprodução de reportagens e artigos de O Diário de Notícias e Jornal de Notícias (Bahia), Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, Jornal do Commercio, A Notícia e O País (Rio de Janeiro) e  O Comércio de São Paulo (São Paulo), a autora apresenta o modo de fazer jornalismo no ano de 1897 e organiza as representações que o conflito de Canudos suscita nos jornais das grandes cidades.

Ainda que as reportagens propriamente ditas tragam alguma observação de fatos, mesmo que envelopadas pelos mais variados vieses, a análise límpida que Galvão faz de como o “mistério” de Antônio Conselheiro e da resistência que os conselheiristas impuseram  à repressão em outros textos — editoriais, artigos,  versinhos, anúncios etc. — constitui leitura preciosa de como a elite se inteirava e reagia aos miseráveis de então.  

E é impossível não fazer ilações de como, passados mais de cem anos, certos traços ainda persistem na maneira como são tratados os excluídos de hoje nos meios de comunicação. O “galhofeiro”, o “ponderado”, o “sensacionalista” ainda são modos de representação perfeitamente identificáveis quando se trata dos pobres, pretos e periféricos de hoje. 

As reportagens, organizadas em ordem cronológica e por veículo, transcritas na segunda parte do livro, contam uma história de choque, perplexidade e sangue — e não são apenas pelas dificuldades técnicas que impedem os correspondentes de ver o que estava sob seus olhos. Em descrições semiliterárias e, por vezes, imaginativas, as reportagens desconhecem a humanidade do “inimigo” — e, quase sempre, compram a versão dos militares. Ou seja, se não fosse sua importância para os estudos literários (e que fez a pesquisadora enveradar por mais doze livros sobre o tema), No calor da hora seria esssencial para estudos sobre jornalismo e comunicação no Brasil, área eternamente carente de pesquisa e sistematização de conhecimento.

Por último, o livro também se destaca pela fluência de leitura: objetivo no tratamento da informação e ágil na costura das interpretações, o texto tem ritmo e graça. A profusão dos dados da leitura atenta dos jornais nunca embaraça o prazer das descobertas (dela), e o uso comedido, mas preciso, das marcas da autora consegue transmitir a qualquer leitor a excitação e a diversão da descoberta.

Quem escreveu esse texto

Bia Abramo

Jornalista, é autora de Aperto de mão (Conrad).