Filosofia,

Voo cego rumo ao futuro

Conceito de natureza ao longo da história amarra bom livro de ensaios sobre a evolução

28nov2018 - 17h03 | Edição #19 dez.18/fev.19

Dizia a professora Otilia Arantes, diante dos seus alunos embasbacados, que aprender filosofia é como aprender a nadar: é preciso se atirar na água. Não nado bem, mas gosto de água. E, numa época dogmática e obscurantista, uma obra voltada para revolver o pensamento filosófico — numa questão mantida “viva” no terreno da fé, como a finalidade do mundo natural  — é uma proeza digna de toda atenção, pois pode ensinar a nadar.

A trama da natureza é uma reflexão filosófica, em linguagem clara, sobre o estatuto da natureza na cultura do Iluminismo e posteriormente. Trata-se de um conjunto de ensaios de Pedro Paulo Pimenta que lhe serviu de trabalho de livre-docência no Departamento de Filosofia da usp. 

Pimenta não se furta a analisar aquele que foi um dos desafios que mais angustiavam Darwin: a questão da formação do olho

Nele, é discutida em detalhes a questão da finalidade da natureza, segundo entendida sob várias perspectivas a partir do Iluminismo. Conforme se lia na Enciclopédia, “a natureza é o sistema de leis estabelecidas pelo Criador para a existência das coisas e a sucessão dos seres”, mas na controvérsia sobre a relação entre Deus e o Mundo, situava-se também um pensamento como o de Buffon, tido como “pai da biologia”, para quem a natureza era independente de um Criador. 

História natural

Em termos intelectuais, “natureza” remete ao domínio da investigação que recebeu, na época, o rótulo de “história natural”. O que Pedro Paulo Pimenta faz, portanto, é um estudo de história da filosofia em que os problemas, expressando coisas diferentes no Iluminismo, são apresentados como “trama”, isto é, como diferentes versões de uma metafísica da natureza que desembocará, em seus desdobramentos, na biologia. 

Trama é também o modo como o autor tece sua narrativa, conectando os argumentos dos autores que analisa e que estabeleceram pontos de apoio desse pensamento que, na sua trajetória revelada, ilumina a aventura do espírito. Hume, Diderot, Buffon, Kant, Goethe, Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e tantos outros, até Darwin.

Não lhe escapará da atenção, por exemplo, o pequeno texto de Goethe, a Metamorfose das plantas, escrito em polêmica com Schiller — e um dos pilares da filosofia botânica de Rudolf Steiner — onde o vivente aparece como coleção de transformações de uma mesma forma ou força vital, o arquétipo da folha, que se metamorfoseia estruturando os vários órgãos da planta de uma mesma maneira. Mais profunda será a análise do debate de Cuvier com Saint-Hilaire — que o próprio Goethe viu como um verdadeiro “vulcão que entrava em erupção” no plano da cultura científica, em 1830 — ou da obra de Kant, na qual este trata da natureza (Crítica da faculdade do juízo).

Supremo relojoeiro

E não se furta Pimenta a analisar aquele que foi um dos desafios que mais angustiavam Darwin: a questão da formação do olho, esse órgão complexo que, na sua evolução, por ser feito de tecido mole, não deixa vestígios arqueológicos e, portanto, registros de formas intermediárias. Ele chegou mesmo a escrever, em carta ao botânico norte-americano Asa Gray, que se não conseguissem comprovar essa evolução, restaria sempre “o problema de Paley”, referindo-se a Willian Paley e à sua metáfora de Deus como o “supremo relojoeiro”, na qual se funda boa parte dos argumentos de sua teologia natural, coisa que ainda hoje encanta o simplismo dos criacionistas. E é dessa questão em particular, que parece desafiar a seleção natural, que Pedro Paulo Pimenta parte para analisar o pensamento de Darwin no capítulo “Seleção natural e analogia técnica”.

O autor — que acaba de traduzir A origem das espécies para a editora Ubu — demonstrará que, a partir de Darwin, a seleção natural surge como o mecanismo que promove a superação de qualquer forma específica “ao propiciar o surgimento de uma espécie aprimorada que toma o seu lugar na disputa pelos recursos essenciais à sobrevivência”, isto é, “seres vivos  são como máquinas, no sentido preciso de serem constituídos por um princípio interno de autorregulação que os torna funcionais”. Assim, com base em um modelo derivado da economia política (é Darwin quem afirma isso em suas considerações sobre Malthus), a biologia é tomada como sistema tal qual uma máquina que se autorregula e se adapta às circunstâncias.

O voo cego e sem instrumento que é a evolução nos solidariza com todas as espécies vivas

Essa nova analogia entre vida e técnica — que substitui aquela vigente na teologia natural de Paley, e em outros autores do século 18 — prenuncia uma época na qual já se pode abrir mão do finalismo, para deslumbrar o terreno de desenvolvimento do materialismo do século 19.

Nesse novo terreno, nem sequer o homem tem lugar permanente garantido, a despeito de se colocar como pináculo da evolução. Ao contrário, “a lição da evolução é outra”, pois “ensina à espécie humana sua transitividade em meio a um processo que a atravessa”. Esse voo cego e sem instrumento, que nos solidariza com todas as espécies vivas, é o que justamente nos coloca diante de um futuro como lugar nenhum preestabelecido.

Modernamente, o conforto da teologia natural cedeu passo ao conforto da “teologia da prosperidade”. E o que Pedro Paulo Pimenta faz é nos atirar na água -— onde, se não aprendermos a nadar, será indiferente a razão pela qual nos afogaremos.

Quem escreveu esse texto

Carlos Alberto Dória

É diretor da ONG C5 – Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, coautor de A culinária caipira da Paulistânia (Três Estrelas) e autor de Formação da culinária brasileira (Três Estrelas).

Matéria publicada na edição impressa #19 dez.18/fev.19 em novembro de 2018.