
Filosofia,
A solidão e a multidão
Obra sobre Espinosa redigida na prisão e livro sobre o fôlego curto das revoltas contemporâneas marcam duas facetas de Antonio Negri
31maio2019 | Edição #23 jun.2019Toda produção que pertence a uma vasta obra exige de quem a comenta um esforço de perspectiva. Assembly, de Antonio Negri e Michael Hardt, vem a público depois da trilogia que os consagrou no plano internacional, composta de Império, Multidão e Bem-estar comum. O leitor que não conhece tal conjunto pode ler Assembly avulsamente? Sim e não; isto é, sim, porém com perdas. Vale o mesmo para a dura tarefa de resenhá-lo, mas como não é viável recapitular aqui os meandros de outras mil e tantas páginas, resta tratar de seus termos essenciais, na dosagem delicada entre a inevitável simpatia — inspirada pelo tema do livro e pela figura de Negri — e o dever de se lhe expor os fundamentos com a mesma honestidade que guiou sua escrita.
A baixa estamina das revoltas populares ou das conflagrações disruptivas contemporâneas é o pano de fundo de Assembly. Seu problema principal está expresso já nas páginas intensas de seu prefácio, notadamente em uma asserção de síntese: “Protestar […] não basta. Os movimentos sociais [propositores de alternativas ao establishment] devem também operar uma transformação social duradoura” e devem fazê-lo preocupando-se não apenas em “tomar o poder”, mas também com o “tipo de poder” a ser tomado e com aquilo que tais movimentos pretendem se tornar.
Experiências libertárias recentes cederam ao que combatiam: a apropriação do comum por uma minoria
Epidermicamente, a crise da representação e as insuficiências correntes da política tradicional resumem o desafio maior a ser vencido para a efetivação dessa nova perspectiva, “socialista e democrática”. Segundo os autores, a expressão “liderança democrática”, por exemplo, perfaz uma contradição obstaculizante de qualquer mudança efetiva (e duradoura!), um paradoxo ao qual nos mantemos presos apesar dos episódios de rebelião — vivamente horizontalizantes — que coalharam o mundo na última década. Por isso, talvez, tais rebeliões vêm se acumulando globalmente à medida que aumenta sua efemeridade, sua incapacidade de criar “uma nova sociedade, mais democrática e mais justa”, “novas subjetividades” ou “relações sociais [novas e] duráveis”.
Em um nível mais profundo, entretanto, o mapa-múndi sobre a mesa de Negri e Hardt cartografa experiências libertárias interessantes, porém fugazes, que, mesmo chegando a derrubar algum líder autoritário, simplesmente terminam sumindo de vista. Em sua visão, essas são experiências que tendem a sofrer repressão brutal ou sucumbir à mentalidade dominante da verticalidade. Ou seja, acabam cedendo àquilo mesmo que queriam combater: a velha apropriação do comum e da riqueza socialmente produzida por uma “minoria ínfima que comanda a vida de muitos e extorque o valor social criado por aqueles que produzem e reproduzem a sociedade”.
Esse fardo devolve tais experiências ao colo do pragmatismo-realismo, à lógica mercantil, à deturpação da vontade geral por indivíduos distantes da coletividade, à mecânica da palavra monárquica e ao império do biopoder — conceito cunhado por Michel Foucault nos anos 1970 para descrever, na modernidade, o poder soberano de controle e disciplinamento da vida e dos modos de viver. Feitas as contas da agitação que nos cerca, cabe descobrir o que falta apreender para sermos capazes de reconfigurar a vida social planetária, revertendo ou refreando os processos atuais de corrosão da política, privatização dos bens comuns, aumento da desigualdade, degradação ambiental acelerada, proliferação de violências e de genocídios.
Personas
Há que se notar, sem dúvida, a estrutura impecável de mais este livro de Antonio Negri. Essa estrutura tem duas características básicas: 1) a decupagem de um assunto ao limite de sua exaustão; 2) a presença de um prefácio em rajadas, que funciona não apenas como apresentação geral mas também como livro no interior do livro.
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O comentário exegético é justificado, já que temos em pauta a reedição concomitante de outro trabalho de Negri: A anomalia selvagem, sua dissecação da filosofia de Espinosa, escrita na passagem dos anos 1970 para os 80. Assembly e A anomalia correspondem a dois momentos distintos de sua biografia e, mais do que isso, a duas personas filosóficas bem diferentes.
A primeira delas se expressa n’A anomalia, livro no qual uma forma rigorosa de discurso reflexivo é posta a serviço de um trabalho mais convencional: uma monografia canônica a respeito de um vulto da tradição ocidental. Canônica não em seu conteúdo estrito, mas no modo de enfrentar seu objeto. É claro que as motivações de Negri são (quase) sempre políticas e que sua leitura de Espinosa é uma leitura de utilidade e atualidade. Negri não se dedica ao holandês por diletantismo e nem o faz, tampouco, nutrindo ilusões puristas quanto a uma história da filosofia que possa ser escrita com base em teletransportes lógicos, emulando-se desde o presente a mentalidade de um pensador do passado para daí extrair palavras finais ou resumos objetivos. Negri se coloca como um leitor de Espinosa, seguindo a fórmula-título de outra de suas obras, a charmosa coletânea Como e quando li Foucault.
A anomalia selvagem é um livro de ostracismo, resultante do apartamento de um militante daquilo que o movera até então: a política e o movimento operário. Acusado de ser o mentor das Brigadas Vermelhas, Negri foi preso em 1979 por incitação ao terrorismo e à luta armada, num processo que terminou apenas em 2003. Nesse interregno, o filósofo chegou a ser eleito deputado ainda no cárcere, exilou-se na França após a suspensão da sua imunidade parlamentar e retornou à Itália no final dos anos 1990 para cumprir o restante da pena. Mentado e redigido na prisão, o Spinoza de Negri se desenha na procura por dele extrair algo que lhe sirva para pensar o contemporâneo e ativar novas ações práticas. “Quero […] tentar uma forma às avessas de leitura do passado”, dizia Negri no prefácio d’A anomalia. “Quero tentar uma forma de leitura do passado que me permita […] localizar os elementos passíveis de comporem, juntos, a definição de uma fenomenologia da prática revolucionária constitutiva do futuro.”
Já em Assembly, é outra a persona que impera. Aí, mais até do que nos outros títulos da trilogia, o Negri mais contido dá lugar a um pensador que se ergue francamente contra o espírito crítico porém resignado (de tipo essencialmente adorniano) e procura combinar seus deveres e rigores analíticos a um conjunto sistemático de proposições positivas, em fricção direta com os movimentos sociais concretos. De certa maneira, é o Negri dos anos 1960/70 quem retorna com vigor, um Negri anterior ao cárcere, alguém que buscava refletir atuando e atuar refletindo a partir da “criação incessante e essencialmente indeterminada” dos movimentos sociais, da juventude e dos trabalhadores.
Negri e Hardt misturam incursões pelo campo da teoria social e passeios pela cena das praças e ocupações
Em que pese a retomada arriscada e duvidosa de um tema que lhe custou a liberdade anteriormente, isto é, o tema da violência revolucionária, agora tratada como legítima defesa perante as tendências aniquiladoras do biopoder e da barbárie generalizada, temos aqui um Negri que procura equilibrar o que há de belo na equação biográfica do próprio Marx. Ele tenta, assim, conectar os polos do engajamento direto — nos momentos históricos de alta temperatura — e do retiro conceitual junto aos livros — nos momentos de refluxo dos projetos de autodeterminação com os quais se identifica. Em Assembly, o horizonte é expressamente político: buscar contribuir para que a multidão plural, insatisfeita e informe constitua uma alternativa real (e duradoura!) à crise da própria civilização. Uma alternativa que vença e que não se corrompa. Daí que o texto abrace uma perspectiva aberta, misturando incursões detalhistas pelo campo da teoria social e passeios entusiasmados pela cena viva das praças e ocupações.
O projeto é utópico e por vezes antinômico. As sensibilidades mais ácidas haverão de acusar o fato de que o impulso afirmativo-propositivo que impregna essa assemblage intelectual esbarra frequentemente nas ciladas que o próprio pensamento analítico identifica, evocando a antiga contradição de ânimos entre as duas vocações dissecadas por Max Weber (a ciência e a política). Mais fecundo, entretanto, seria pensar o inverso: ao buscar as respostas que a teoria não tem para dar — pois quem as dá é o tempo histórico e social —, Negri e Hardt expõem no espelho, por contraste, o dual rebaixamento das aspirações contemporâneas, prensadas pela depressão estruturalista (à esquerda) e pelo amor necrofílico a uma ordem decrépita (à direita).
Matéria publicada na edição impressa #23 jun.2019 em maio de 2019.
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