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Darwin no coração das ciências humanas

José Eli da Veiga examina o debate sobre as possibilidades de usar a teoria da evolução em outras esferas do conhecimento

13nov2018 - 15h44 | Edição #8 dez.17-fev.18

Não são poucas as vicissitudes do materialismo no mundo atual, e a história do darwinismo é um capítulo dessa história. Na França, a própria palavra tardou a conquistar o meio científico: referia-se à evolução como “transformismo” — termo que remete diretamente a Lamarck, não a Darwin. Na mesma onda de incompreensão, também na França surgiu o malfadado “darwinismo social” — ideologia na qual falta exatamente o pensamento de Darwin.

E talvez essa “ausência de Darwin” tenha nos contaminado, por obra e graça da missão francesa que esteve na origem da Universidade de São Paulo: Darwin sempre foi, ali, uma ausência eloquente nas ciências sociais. Acrescente-se o eclipse progressivo que sofreu o ensino do marxismo, de sorte que o materialismo praticamente desapareceu do meio acadêmico. Em novo livro, o professor de economia José Eli da Veiga traz, como mensagem, a possibilidade de restaurar o materialismo via Darwin.

Ele lança um pequeno livro — Amor à ciência —  baseado em extensa bibliografia e voltado a quebrar essa tradição, ao se concentrar no materialismo darwiniano e seus desdobramentos nas ciências humanas, procurando situá-lo como raiz de todo materialismo moderno. E o faz atualizando o debate sobre o modo como se deu na França dos anos 80 em diante, a partir do novo entendimento da contribuição de Darwin nos termos de duas revoluções teóricas: uma, relativa à descoberta do mecanismo da seleção natural; outra, que decorre da “antropologia de Darwin” contida em A descendência do homem (1871). Este segundo aspecto é bastante relevante: afinal de contas, o mundo acadêmico brasileiro ainda não acordou para essa antropologia.

São quatro ensaios, nos quais Veiga apresenta rapidamente o que entende por materialismo para, em seguida, demorar-se um pouco mais no materialismo darwiniano e avançar por temas que se desdobram a partir dele. Não é um livro de leitura fácil.

O percurso do materialismo de Darwin começa com o jovem atormentado pela ideia cristã da divindade criadora, até desembocar na perda da fé, tornando-se, na segunda metade da vida, “adepto integral do ceticismo ou racionalismo”. Como o próprio Darwin dizia, ao discutir a evolução do olho, se não fosse possível demonstrar suas transformações, retornaríamos inevitavelmente ao “problema de Paley”, isto é, à teologia natural de Willian Paley. Mas, num sentido oposto, o mundo estava há um bom tempo esperando pelo materialismo de Darwin, como sugerem palavras proféticas de Kant, em 1790, ao observar que nos faltava um novo Newton que explicasse o mecanismo através do qual a natureza se transformava sem qualquer finalidade. Ele surgiria quase oitenta anos depois.

A descoberta do mecanismo da seleção natural levou Darwin a explicar a “economia da natureza” em termos da “tendência de os organismos descendentes de uma mesma origem divergirem em seu caráter, à medida que se modificam”, sem que ele ainda conhecesse o que viria a ser a genética. Essa ideia tão impactante — afinal, expulsara Deus do coração da natureza — foi extrapolada para o caso da humanidade, especialmente por evolucionistas como Herbert Spencer.

Segunda revolução

Seguindo o epistemólogo Patrick Tort, o autor expõe como a “segunda revolução” darwiniana parte de outro pressuposto: a seleção natural não transforma o homem da mesma maneira que aos outros animais; uma vez “pronto” fisicamente, seleciona os instintos sociais que favorecem as práticas solidárias, originando a civilização. Ao selecionar esses instintos, institui um mecanismo reverso que controla a seleção natural (e, portanto, a eliminação dos menos aptos) para dar lugar a práticas solidaristas (que respondem pela medicina como forma de preservar a vida humana em risco). “A nova vantagem adaptativa deixa de ser de ordem biológica, pois se torna social”, resume Veiga.

Assim, estamos diante do fato de que “a ideia geral sobre variações selecionadas devido a suas vantagens adaptativas — cerne do materialismo darwiniano — não constitui uma conjectura só aplicável ao reino orgânico ou biológico”. Mas é só até aí que Veiga acompanha Patrick Tort, que o surpreende “ao defender a existência de uma consciência celular”; isto é, ao dar uma solução inconvincente para “o desafio de entender a consciência. Afinal, essa também parece ser a mais importante das questões sobre as quais discordam os atuais adeptos do materialismo darwiniano”.

O livro tem o mérito indiscutível de tirar os cientistas sociais da zona de conforto em que se colocaram ao jogar o materialismo na lata de lixo

O segundo ensaio do livro Veiga dedica ao estudo da relação entre o darwinismo e as humanidades, na sua “pré-história” e especialmente sua história nos últimos quarenta anos. Trata-se de uma resenha difícil, se considerarmos que a simples busca da palavra darwinism na internet retorna com 830 mil resultados e darwin’s theory, com quase 1 milhão!

Para a “pré-história”, Veiga segue autores clássicos, como Ernst Mayr, e talvez falhe ao não se deter na acusação de outros historiadores da biologia, como Peter Bowler, segundo os quais Mayr traça uma história do darwinismo que converge para ele mesmo e seus companheiros de geração. No que se refere aos últimos quarenta anos, Veiga contempla movimentos paralelos e independentes que surgem após a consolidação da “síntese moderna”, isto é, a convergência entre genética e evolução, conforme pioneiramente fez Theodosius Dobzhansky, em 1937. Interessa-o a sociobiologia humana, a psicologia evolucionista, a antropologia e o estudo de populações, a memética, a economia e o mercado etc. 

Veiga termina esse passeio histórico detendo-se em controvérsias posteriores a 2005. Uma delas, provocada pelo aparecimento de Evolução em quatro dimensões, de Eva Jablonka, sobre as dimensões genética, epigenética, comportamental e simbólica. Jablonka propõe “uma visão muito diferente do darwinismo quando se levam em conta esses quatro sistemas de herança e as interações entre eles, pois mudanças induzidas e adquiridas também têm papéis na evolução. As heranças epigenética, comportamental e simbólica também fornecem variações sobre as quais pode atuar a seleção natural”, avalia Veiga.

No penúltimo ensaio, o autor aposta na rejeição da possibilidade de uma “unificação ontológica das ciências”, apesar da “notável aproximação epistemológica entre algumas”, promovida pelo materialismo darwiniano. Já no último (“Dialética, complexidade e emergência”), o autor se demora na análise dos usos da dialética de Hegel e Marx, sua complexidade e má sorte sob o regime stalinista, onde especialmente a genética foi banida pela figura abjeta de Lyssenko.

O que já era um mau entendimento de Marx sobre Darwin tornou-se uma impossibilidade de desenvolvimento científico. Substituiu-a, na visão de Veiga, a teoria da complexidade, trazendo fenômenos naturais “para o contexto das propriedades altamente genéricas de sistemas que se modificam com o tempo”, como as teorias da catástrofe e do caos e a noção de emergência. Nessa última, vê o autor a chance de um caminho de volta a Marx, quando este se aprofunda nos estudos sobre o funcionamento da economia capitalista e identifica ao menos três tipos de oposição na origem de processos: revolucionários, ondulatórios e embrionários.

Livro complexo de divulgação do materialismo darwiniano, Amor à ciência tem o mérito indiscutível de tirar os cientistas sociais da zona de conforto em que se colocaram ao jogar o materialismo — darwiniano e marxista — na lata de lixo da história das ideias. Para o autor, “o amor à ciência também levou Darwin a lançar princípios para uma antropologia básica de qualquer materialismo histórico. Daí decorre que “não poderá haver materialismo científico que não seja, antes de tudo, darwiniano”.  

Quem escreveu esse texto

Carlos Alberto Dória

É diretor da ONG C5 – Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, coautor de A culinária caipira da Paulistânia (Três Estrelas) e autor de Formação da culinária brasileira (Três Estrelas).

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.