Desigualdades,
A voz dos descartados
Em Vidas roubadas, pesquisadores se dedicam a um trabalho tão simples quanto difícil: ouvir pessoas miseráveis contarem a própria vida
10dez2025 • Atualizado em: 11dez2025 | Edição #101Foi lendo A felicidade nesta vida (Fontanar, 2018) que me encantei com as ideias de Francisco, o autor que morreu em 2025 e que também era papa. Passei a ouvi-lo (religiosamente) e aprendi uma expressão argentina que, talvez por ser meio intraduzível, ele sempre falava no original, em espanhol: no balconear. Queria dizer que os cristãos não deveriam assistir à realidade de longe, da sacada, mas tocá-la, descer para a rua. Jorge Bergoglio também usava outra expressão que foi recorrente no seu pontificado: os descartados. Eles seriam a consequência da “cultura do descarte”, da “epidemia de indiferença”. O conceito não trata exclusivamente dos pobres, porque abrange os excluídos de uma forma geral, mas os miseráveis são a aplicação leiga mais intuitiva da ideia.
O papa chamava atenção para a riqueza do encontro com os pobres, de não “balconear” e de tocar os descartados. Esse era um desejo que eu tinha e que me motivou a escrever Extremos: um mapa para entender as desigualdades do Brasil (Zahar, 2024). Uma das inspirações foi também Vozes do Bolsa Família: autonomia, dinheiro e cidadania (Editora Unesp, 2014), livro sobre os descartados escrito pelos professores Alessandro Pinzani e Walquíria Leão Rego e do qual Vidas roubadas: sofrimento social e pobreza, lançado em 2025, funciona como uma sequência. Espero que seja uma trilogia.
O trabalho dos professores é tão simples quanto difícil: ouvir pessoas miseráveis contarem em detalhes a própria vida. Vivemos em uma era abundante de dados, mas o esforço continua valendo a pena. Os pesquisadores investem em ganhar a confiança das pessoas e mineram ouro em relatos aparentemente irrelevantes.
Como no livro anterior, há muitos momentos à la Svetlana Alexiévitch, a ucraniana ganhadora do Nobel de Literatura em 2015. As histórias das mulheres que precisavam buscar água longe; as que eram estupradas no trajeto; a que não tinha nem um jumento para ajudar, porque o animal morreu de picada de cobra. Causos de um passado não tão distante, que servem para celebrar a tecnologia das cisternas e que marcam um contraste importante em relação ao livro anterior — que entrevistava mulheres após a primeira onda de recebimentos do Bolsa Família, quando a miséria absoluta não era só uma memória.
O estudo abre perspectivas sobre o Brasil de baixo e pode inspirar o leitor a fazer suas pesquisas
Lá estava a mãe que tinha medo de perder o benefício porque seu filho não queria ir à escola, vítima de deboche dos colegas por uma doença crônica que inchava sua mão e a enchia de feridas, provocando odor. Uma possível sífilis não cuidada em uma criança podia provocar o colapso financeiro da família pelas condicionalidades do Bolsa Família, moderna tragédia tecnocrática descrita no linguajar simples de uma mãe.
Estamos na época dos criadores, mas não se acha fácil conteúdo como esse. No novo estudo, o programa social já não é novidade, nem os usos para o dinheiro (como o parcelamento de celulares, descrito no livro anterior). Os relatos são direcionados à conjuntura política depois do impeachment de Dilma, com a ansiedade em relação à continuidade dos pagamentos sob Temer e Bolsonaro.
Questões culturais continuam importantes, como no comovente relato da mulher sertaneja que usa o benefício para comprar anticoncepcional, sem conseguir acessá-lo pelo sus, enfrentando crenças religiosas e se libertando da sina de continuar engravidando. Ela não tem interesse nas relações sexuais, mas entende que é uma obrigação inexorável por ter se casado. Um pouco de dinheiro, a pílula, alguma liberdade.
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Interesse acadêmico
Há em Vidas roubadas, como havia em Vozes do Bolsa Família, dois livros diferentes. Os relatos compõem a maior parte dos volumes, mas há longos capítulos acadêmicos no início de ambos que podem não interessar a todos os leitores (Pinzani é professor de ética e filosofia política, e Rego é professora de teoria social). Esse leitor com menos interesse acadêmico pode querer pular direto para os depoimentos, sem prejuízo.
O título Vidas roubadas alude ao desamparo que rouba tempo, desejos e sonhos. Entretanto, o Bolsa Família continua como fio condutor. O tempo do livro é um tempo de universidade, não o do noticiário: os relatos foram coletados anos atrás, antes de serem analisados com cuidado. Assim, o estudo não captura a vigorosa expansão das transferências de renda depois da pandemia: hoje o Bolsa Família tem um orçamento quase cinco vezes maior do que tinha no momento das entrevistas.
Paradoxalmente, essa expansão começa no governo Bolsonaro, diante do iminente retorno de Lula às eleições presidenciais após dezesseis anos. Se pode ser frustrante não ouvir relatos sobre essa nova realidade depois do benefício de seiscentos reais, há o que antecipar para, quem sabe, um terceiro livro. Com que estão gastando agora? Há empregos novos para as beneficiárias gerados pelo boom do consumo em suas comunidades?
Também não estão em Vidas roubadas relatos das periferias das grandes cidades: o foco continua sendo a análise da pobreza rural no Nordeste. Seria interessante poder ler sobre as novas realidades das famílias pobres do Brasil, com a expansão das igrejas evangélicas ou da violência urbana.
Por fim, as vozes ouvidas são quase totalmente femininas. Essa era uma opção intuitiva para Vozes do Bolsa Família, já que o benefício é pago em nome delas. A ênfase nas mulheres e o papel opressor que os homens desempenham nos depoimentos, dos pais autoritários aos maridos violentos, me fizeram querer saber mais sobre eles. Quem são? O que pensam esses tantos homens odiosos que povoam os dois trabalhos? Por que esses casamentos continuam, em um momento em que a política social registra altas das mães solo?
É claro que não deve caber apenas aos dois autores recolher tanto material. Temos poucos trabalhos, reportagens ou vídeos no YouTube sobre o que tem acontecido nas periferias. A extrema pobreza caiu pela metade entre 2019 e 2024. Que privações sumiram? Mercado de trabalho aquecido dá uma pista de que os efeitos podem ser vastos. Mas, fora os insuportáveis levantamentos sobre bets, temos pouco conteúdo, mesmo perto de novas eleições. Vidas roubadas abre perspectivas sobre o Brasil de baixo e pode inspirar o leitor a fazer suas pesquisas, acadêmicas ou não. No balconear.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “A voz dos descartados”