Crítica Literária,

A emanação aérea do ferro

Obra de Carlos Drummond de Andrade é lida por meio da relação do poeta com sua cidade natal, Itabira, um centro de mineração

28nov2018 - 11h06 | Edição #18 nov.2018

“Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê”: com esse verso assombroso começa um dos poemas de “Lanterna mágica”, série-poema de Alguma poesia, livro de estreia de Drummond. É, na obra em livro, a primeira referência explícita a Itabira, cidade natal do poeta. 

Na aventura crítica que este livro de José Miguel Wisnik representa, o pequeno poema funciona ao mesmo tempo como ponto de partida de uma narrativa — a que começa com as primeiras referências de Drummond à terra da infância e à sua condição mineira, e termina talvez com a leitura de Boitempo como livro tardio sobre a memória e a transformação da cidade natal — e ponto de chegada de uma progressiva revelação da obra de Drummond a partir de um aqui e agora insistentemente inscrito no texto. 

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Reside talvez nesse duplo movimento o maior fascínio deste longo ensaio, objeto crítico de uma unidade incomum. Já o sabíamos: Wisnik é um ensaísta de poucas obras, mas é profundamente original, desde logo, pela concepção dos seus livros, motivados pela identificação de questões a que procuram fazer justiça com o rigor da composição. 

Se Veneno remédio, no seu complexo jogo figural com os cruzamentos potenciados pelo futebol na cultura brasileira, já o mostrava, Maquinação do mundo faz da figura da máquina — dispositivo de representação, dispositivo de dominação — a armação ao mesmo tempo visual e conceitual do ensaio.

Itabira no tempo

O livro começa com uma cena aparentemente circunstancial: uma visita de Wisnik, em 2014, a Minas, no contexto de um festival, o Inverno Cultural, que implicou a primeira ida de um leitor de décadas da obra de Drummond a Itabira. Tudo acontece nessa cena original que funciona, em rigor, como uma cena de leitura. 

No choque entre a Itabira atual e a Itabira lida, uma complexa operação de releitura tem início, e Maquinação do mundo é, entre muitas outras coisas, o romance dessa operação: a revelação de Itabira, num sentido quase fotográfico, sobre o fundo da obra de Drummond; e a revelação da obra de Drummond, e de um dos seus veios subterrâneos, a partir do filtro da Itabira de hoje, escavada e esvaziada pela mineração. 

O livro transforma em acontecimento o embate entre a memória da poesia e a leitura do lugar

Talvez a maior prova da delicadeza do modo de leitura de Wisnik é que esses dois movimentos sejam desde o início indestrinçáveis no livro: ao transformar em experiência e acontecimento o embate entre a memória da poesia e a leitura do lugar, o livro se transforma também numa interrogação, a partir do lugar da leitura, da temporalidade ao mesmo tempo atual e suspensa da representação poética. Nessa interrogação, o nó que une a coincidência à consequência se revela determinante para a inscrição de uma historicidade dupla, da paisagem e do texto, que o livro anuncia como seu propósito e, ao mesmo tempo, como sua pergunta. As descobertas sucessivas que a visão da mina em Itabira desencadeiam ancoram, no mesmo gesto, a poesia de Drummond na instabilidade da paisagem histórica e na própria natureza movediça do solo poético. E sendo um livro sobre escavações e erosões, é também, ou talvez mais, um livro sobre persistências: presenças surdas, ecos, reverberações, resistências. 

Curiosamente, esse ensaio tão centrado sobre o tempo se apresenta, desde o início, como uma experiência cartográfica, pois duas descobertas marcam a viagem a Itabira que está na origem da concepção do livro. A primeira — invertendo a ordem com que Wisnik as apresenta, num dos golpes de teatro narrativos de um livro que procura transformar em efeito de leitura o efeito do lugar — é o que as fotografias que abrem e fecham a seção fotográfica do livro tentam captar. Se toda a poesia itabirana de Drummond parece ter como ponto de fuga o imponente pico do Cauê, a paisagem atual de Itabira faz dela uma poesia orientada, visualmente, para um vazio. 

“A montanha do Cauê”, como diz Wisnik, “cuja efígie o lugar nos induz a ver pelo vestígio de sua localização espectral, não está mais lá, a não ser como presença alucinada de uma ausência”. Comida por décadas de exploração mineira, a montanha se transformou, lentamente, no seu contrário: uma imensa cratera (“montanha virada do avesso na forma de um sino descomunal, arruinado e de ponta-cabeça”) de onde foi levado — “no trem maior do mundo”, dirá Drummond — todo o ferro exportado. 

É aqui que a natureza fotográfica da revelação se faz mais clara: a poesia de Drummond revela essa ausência, não apenas porque efetivamente a regista e acompanha (e o último poema da série iniciada com o poemeto “Itabira” seria talvez “A montanha pulverizada” de Boitempo), mas sobretudo porque a torna legível, hoje, na sua devastadora elisão. A poesia de Drummond se transforma assim, para Wisnik, numa espécie de filtro através do qual se lê, inscrita na paisagem, a história da mineração e suas articulações com décadas de história brasileira: a promessa gorada de desenvolvimento dando lugar à exportação e exploração feroz dos recursos, a Segunda Guerra pedindo o ferro que fundirá irremediavelmente Itabira e o mundo, as repetições e os ecos da exploração de Itabira em devastações mais recentes. 

A segunda descoberta desse encontro com Itabira é de ordem espacial, e é decisiva para o modo de leitura que o livro vai ativando. No centro da cidade mineira, Wisnik descobre o que deveria ser óbvio, através dos poemas drummondianos que o descrevem, mas de fato não o é: a escala cerrada daquele centro de cidade, a extrema concentração do palco arquitetônico da infância de Drummond. 

Colada à prisão e à Câmara Municipal, a casa ficava a dez passos da igreja do Rosário, com a montanha ao fundo. Como diz Wisnik: “Se a frente da casa dava para o pico, o fundo dava, ‘a dez passos do sobrado’, para a Matriz do Rosário, com seu poderoso ‘sino Elias’ e seu relógio, cuja hora ressoava ‘grave/ como a consciência’ e cujo som é ‘para ser ouvido no longilonge/ do tempo da vida’”. 

A importância dessa vizinhança é imensa para o empreendimento do livro, porque é a partir dela que a poesia de Drummond aqui descrita se deixa atravessar pelo som do sino. Na figura do sino, Wisnik encontra a principal figuração do tempo que animará Maquinação do mundo: um sino-relógio capaz de dar ao tempo a matéria sonora da reverberação. 

Numa crônica de 1970 que o livro recupera, Drummond escrevia: “era um sino que soava longe, como o relógio da fachada era um relógio que dominava todas as horas: no friozinho do amanhecer, na preguiça da tarde, no tecido confuso da noite. Horas especiais saíam dele, nítidas, severas, ordenando o trabalho de cada um, a reza de cada um. No silêncio absoluto, quando pessoas e animais pareciam mortos, tinha-se consciência da vida, porque o relógio avisava e repetia o aviso”. 

É essa vinculação do sino a uma “consciência da vida” que a leitura de Wisnik acompanha, perseguindo não apenas a presença obsessiva dos sinos ao longo da obra de Drummond como um tema que reconduz, de forma muitas vezes insuspeita, ao teatro da infância e da memória, mas também, de maneira luminosa, seu poder “disparador” de um sentimento do mundo nos dois poemas-máquina de Claro enigma, duplo ponto de fuga da leitura proposta: “A máquina do mundo”, com seu “sino rouco” marcando a descrição do fim de tarde, e “Relógio do Rosário”, em que o sino de Itabira instaura a sombra em plena luz. 

As duas figuras de Itabira (pico e sino) se fundem, a dada altura, na coincidência que amarra em consequência todas as hipóteses dessa leitura. O sino Elias que Drummond descreve na igreja do Rosário caiu quando a torre da igreja ruiu, em novembro de 1970. Drummond escreverá sobre o desmoronamento, e sobre o modo como fazia ruir, com a torre, a ilusão infantil de uma matriz que existiria sempre, sem o relacionar, porém, com a exploração mineira de Itabira. 

É a vinculação do sino a uma ‘consciência da vida’ que a leitura de Wisnik acompanha

Já a crônica local, recorda Wisnik, associa a queda aos abalos provocados pelas explosões no interior da montanha. E é essa associação que Maquinação do mundo explora, naquela que talvez seja a mais visível das coincidências propícias que movem a narrativa dessa interrogação (outra seria a da viagem de avião sobre a paisagem mineira e da composição de “A máquina do mundo”), revelando nesse risco assumido um dos traços mais reconhecíveis do modo ensaísta de Wisnik. 

Por quem os sinos dobram

A vinculação entre sino e mina representa no livro, como dirá Wisnik a propósito de um verso de Drummond,  sua “chave de ferro”, articulando memória pessoal e histórica numa figura poética poderosa: ressoa, por exemplo, na definição luminosa do som do sino, que não é senão, para Wisnik, “a  emanação aérea do ferro”; ou no poema “Itabira”, que comecei por comentar, onde lemos: “Na cidade toda de ferro/ as ferraduras batem como sinos”. 

Através dela, a história da mineração, que o livro reinscreve materialmente na poesia de Drummond, faz-se reverberação, disponível para o trabalho subterrâneo da poesia. É nessa articulação vertiginosa entre dimensões que a força figural da leitura de Wisnik se mostra mais claramente. 

Neste livro, afinal, os sinos dobram por todos: ecoam pela poesia de Drummond como uma inscrição do tempo pessoal e histórico, construída no movimento pendular da leitura. E recordam o modo como no disco Pérolas aos poucos Wisnik musicou, imitando a cadência lenta e oscilante do sino, o poema “Anoitecer”, de A rosa do povo: “é a hora em que o sino toca/ mas aqui não há sinos”.

Quem escreveu esse texto

Clara Rowland

Docente da Universidade Nova de Lisboa, escreveu A forma do meio (Edusp/Editora da Unicamp).

Matéria publicada na edição impressa #18 nov.2018 em novembro de 2018.