Ciências Sociais,

O laboratório e o mundo

Biografia de Lévi-Strauss, intelectual discreto e original, percorre os tempos e espaços em que forjou seu pensamento

20nov2018 - 16h47 | Edição #12 jun.2018

Claude Lévi-Strauss atravessou o século 20 de uma ponta a outra, deixando nele marcas essenciais, por meio de uma obra monumental que continua fertilizando a reflexão contemporânea, não apenas na antropologia mas nas humanidades em geral. A biografia que a historiadora da vida intelectual francesa Emmanuelle Loyer produziu faz jus à sua atuação e às suas ideias, reafirmando o seu lugar como um grande pensador, razão suficiente para saudarmos a bela edição brasileira do livro, em tradução empenhada de André Telles. 

Mas a pesquisa realizada pela historiadora em arquivos franceses, brasileiros e norte-americanos, alguns deles até então inexplorados, desvela traços menos conhecidos de seu perfil, que vêm à tona nos cadernos de campo, na correspondência e na ampla documentação, escrita e fotográfica. Assim, o Lévi-Strauss que chega ao Brasil em 2018, com o livro de Emmanuelle Loyer, apresenta-se de outros ângulos, conforme as fontes coligidas, é certo, mas também sob a influência da argúcia interpretativa e do talento narrativo da autora, que compõe um quadro vivo e complexo. 

Não é a primeira vez que Lévi-Strauss aporta em terras brasileiras. No ano de 1935, o então jovem professor de filosofia desembarca no porto de Santos, ao lado de Pierre Monbeig, Fernand Braudel, Jean Maügué e outros intelectuais contratados pela recém-criada Universidade de São Paulo. Responsável por uma das cadeiras de sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, auxiliaria a formar as primeiras gerações de alunos da USP, entre os quais alguns futuros grandes críticos — Antonio Candido, Gilda de Melo e Souza e Décio de Almeida Prado, por exemplo — e importantes sociólogos, como Florestan Fernandes.

Além do trabalho na universidade, no período brasileiro (1935-39) Lévi-Strauss realizou seu batismo etnográfico entre os Nambiquara, os Cadiuéu e os Bororo, que tocaram profundamente a sua obra e o seu pensamento. Na cidade de São Paulo, por sua vez, atuou ao lado de Dinah Dreyfus — então Dinah Lévi-Strauss — e Mário de Andrade na Sociedade de Etnografia e Folclore, criada no interior do Departamento de Cultura da prefeitura paulistana, dirigido pelo autor de Macunaíma. Juntos, eles colocaram em ação um verdadeiro “laboratório de antropologia”, nos termos de Luisa Valentini: realizaram incursões de campo nos arredores da cidade, deram cursos de formação de pesquisadores, publicaram boletins, organizaram coleções, partilharam projetos e ideias.

Tensões 

É certo que houve tensões, intelectuais e políticas, entre o jovem professor francês e a universidade paulista. Essas tensões se expressaram nas estratégias de que ele lançou mão para ensinar antropologia no interior de uma cadeira de sociologia, na não acolhida pela USP de seu projeto de criação de um Laboratório de Antropologia Física e Cultural, e por fim na não renovação de seu contrato. Se isso é verdade, Lévi-Strauss esteve longe de passar desapercebido no Brasil dos anos 1930, deixando marcas em alunos e colaboradores, bem como nos projetos acalentados no âmbito da Sociedade de Etnografia e Folclore. Em contrapartida, o Brasil, sobretudo os ameríndios, alterou de forma definitiva o seu percurso e pensamento.  

Releituras das ‘Mitológicas’ vêm levando intérpretes como Viveiros de Castro a localizar o eco de uma voz pós-estruturalista ao longo de toda a sua obra  

Na década de 1960, Lévi-Strauss volta ao país, desta vez não em carne e osso, mas por meio de sua obra, que teria papel fundamental para os estudos das sociedades Jê do Brasil central em função do reexame de tópicos como a organização dualista (que diz respeito a sociedades divididas em metades complementares). Suas ideias regressariam anos mais tarde, auxiliando a reabilitar o tema do parentesco entre nós. As releituras mais recentes das Mitológicas, por seu turno, estão na raiz de novas revisões, que vêm levando intérpretes como Eduardo Viveiros de Castro a localizar o eco de uma voz pós-estruturalista, algo na surdina, ao longo de toda a produção do autor, e que se torna audível na análise dos mitos. 

Mas o Lévi-Strauss que chega agora ao Brasil com o livro de Emmanuelle Loyer apresenta-se de outros ângulos, movimentando-se entre tempos e espaços díspares, como revela a estrutura do volume, organizado em quatro grandes partes. A primeira delas, “Os mundos subjacentes”, corresponde aos anos de formação, aos primeiros passos na vida profissional e à militância socialista. “Os novos mundos” é dedicada aos períodos passados no Brasil, onde se forma o americanista, e nos Estados Unidos, onde o estruturalismo é elaborado. Em seguida, “O Velho Mundo” traça um amplo arco desde o seu retorno à França, em 1947, e do ingresso tumultuado nas instituições francesas, ao momento de “cristalização do estruturalismo”, de criação de novos espaços de atuação — o Laboratório de Antropologia Social, por exemplo — e de conquista da notoriedade. 

O segmento “O mundo”, finalmente, diz respeito aos anos posteriores à década de 1970: o encontro com a Columbia britânica e à descoberta apaixonada do Japão; a entrada na Academia Francesa; as críticas e dissidências. O final do livro aponta na direção dos renascimentos da obra, relida sobretudo pelos filósofos franceses nos dias que correm, o que nos endereça a um retorno à filosofia da qual Lévi-Strauss quis expressamente se afastar no início da carreira, como confessa em seus Tristes trópicos (1955).

Não parece demais insistir na difícil tarefa enfrentada por Emmanuelle Loyer: debruçar-se sobre um personagem célebre e sobre o qual já se encontrava disponível um grande número de escritos e análises no momento em que ela iniciara a pesquisa. Como se aproximar de uma personalidade intelectual tão renomada e original? Como enfrentar o autor de vasta obra, parte dela de difícil acesso? Como biografar um homem discreto e silencioso? 

Eu diria que a posição relativamente estrangeira da autora em relação ao biografado e ao seu domínio tiveram um papel decisivo no êxito do empreendimento, pois permitiu-lhe certa distância e liberdade em relação ao “superego” do campo da antropologia, como ela própria reconhece. Posição relativamente estrangeira, é preciso sublinhar, já que Lévi-Strauss ocupa lugar importante em um de seus trabalhos anteriores, Paris à New York — Intellectuels et artistes Français en exil, 1940-1947 (2005). 

A autora soube tirar partido desse lugar de observação, ao mesmo tempo de longe e de perto, para colocar de pé uma construção muito bem-sucedida, sobretudo pelo modo como logra equilibrar as relações entre a vida e a obra de Lévi-Strauss, sem fazer da vida um determinante, nem da obra uma espécie de epifenômeno de quadros sociais ampliados. Os nexos entre as experiências sociais e as ideias são tramados por meio de procedimentos analíticos seguros, claramente explicitados. 

Assim, ao inserir o autor em seus diversos círculos de formação (a família, as instituições pelas quais passou como estudante e depois como professor e pesquisador) e ao recuperar os contextos de produção da obra, Emmanuelle Loyer afasta a biografia dos modelos do tipo “uma vida exemplar”, que tendem a isolar os sujeitos em foco; procura, ao contrário, os elos firmes entre o autor e sua época, entre o seu itinerário e o dos seus companheiros de geração (Raymond Aron, por exemplo), mas sem fazer com que desapareça entre seus coetâneos, como uma espécie de subproduto do meio. 

Isso para dizer que o Lévi-Strauss que sai dessas páginas não é típico nem excepcional, ainda que se mostre figura ímpar, dotada de traços distintivos. O compromisso da autora é capturar uma “personalidade intelectual e epistemológica” forjada nas possibilidades colocadas pelos contextos históricos e culturais, das experiências partilhadas e de escolhas muito próprias, que definem um perfil singular e de difícil classificação, a despeito da fidelidade do autor ao seu campo disciplinar (a antropologia) e a certos temas (o parentesco e os mitos). 

Essa etnografia do percurso intelectual e afetivo de Lévi-Strauss deixa à mostra um trajeto acidentado, marcado por sucessos e fracassos

Trata-se, como ela diz, de descrever o universo mental e a cosmogonia de Lévi-Strauss, de presumir um temperamento epistemológico forjado desde cedo pelo “olhar aguçado por uma constelação de curiosidades cultivadas na infância, o gosto pela coleção, o saber taxinômico (minerais, animais), a arte, as deambulações na realidade urbana em diversas dimensões, a descoberta da natureza”.

Etnografia intelectual

No texto da orelha, Eduardo Viveiros de Castro define o livro de Loyer como a etnografia de uma trajetória intelectual e afetiva, mais do que uma biografia no sentido convencional do termo. Concordando com ele, eu diria que a “grafia” do percurso pessoal e intelectual de Lévi-Strauss realizada por Emmanuelle Loyer traz consigo uma etnografia das práticas científicas que nos possibilita seguir o antropólogo em seus espaços de trabalho, munido de ferramentas e de objetos os mais diversos: fichas, quadros, mapas, livros. 

É o interesse da autora pelos modos de confecção do conhecimento que dirige a sua atenção aos espaços: o gabinete, o laboratório, as bibliotecas, os museus, os apartamentos nos quais viveu e trabalhou; lugares de leitura, de escrita, de organização dos materiais levantados. “Em que espaços, em que lugares os homens de saber trabalham e como os habitam?”, pergunta-se ela no capítulo “A vida científica”, voltado para as rotinas e hábitos que permitiram a construção das Mitológicas, a tetralogia lévistraussiana sobre os mitos. Conseguimos efetivamente imaginar o antropólogo em seu gabinete, como ela propõe: Lévi-Strauss entregue aos selvagens, embalado pela música e pelo tabaco. 

Assim, menos do que uma vida que se desenrola no tempo, em uma sucessão de fatos e episódios, ou de uma obra que se apresenta como rol de realizações acabadas, essa etnografia do percurso intelectual e afetivo de Lévi-Strauss, como quer Eduardo Viveiros de Castro, ou a etnografia das práticas de conhecimento, como acabo de sublinhar, deixa à mostra um trajeto acidentado, marcado por sucessos e fracassos, dúvidas e realizações, momentos de reconversão e de espera, de bifurcações e crises, de encontros e desencontros. 

Do mesmo modo, e de acordo com o desenho movimentado dos trajetos percorridos pelo antropólogo ao longo dos anos, somos apresentados ao seu perfil multifacetado, que faz lembrar uma composição cubista, dotada de volumetria. Se os diferentes traços do retratado se modificam no tempo — como não poderia deixar de ser —, eles não desaparecem na sucessão das idades, mas terminam por conviver no retrato final, no qual estão presentes rastros de experiências diversas: as raízes judaicas da família; a intimidade com as artes e com a bricolagem; a sensibilidade forjada em suas duas experiências americanas; a erudição burilada pelas leituras, pela convivência com dicionários, enciclopédias e compêndios científicos; o fascínio simultâneo pelas cidades (São Paulo, Nova York e Paris), por campos, montanhas e florestas. 

Refletindo um pouco mais sobre o modo como Emmanuelle Loyer compõe o percurso e perfil do antropólogo, eu diria que ele se ampara no uso de focos alternados e complementares. Quer dizer: os refletores mobilizados pela autora ora incidem sobre a experiência pessoal, ora sobre a cena artística e intelectual do século 20; repousam por vezes sobre as instituições científicas e artísticas, em outras sobre as relações internacionais e a história política. 

Tais feixes de luz dão lugar aos fragmentos curtos e encadeados que formam as quatro grandes partes do livro, e me levam a indagar se o artifício compositivo e narrativo da autora não encontraria certa inspiração no teatro, que ela conhece em razão de outros trabalhos, como Le Thêatre citoyen de Jean Villar, une utopie d’après-guerre (1997), sobre o criador do Festival de Avignon. Isso para dizer que, apesar do andamento cronológico, o texto não faz desfilar imagens e acontecimentos em uma série sucessiva, mas antes ajusta o foco, levanta o pano e ilumina cenas, tempos e espaços que se apresentam de modo alternado diante dos olhos do leitor-espectador. 

Em seus termos: trata-se de “erguer o pano sobre a estratigrafia dos tempos” de que se alimenta o espírito científico e o temperamento romanesco de Lévi-Strauss, equilibrado entre ciência e arte”. O procedimento, eu suspeito, não é mobilizado somente nesse trecho, mas marca todo o livro, que tem seu andamento ritmado pelo levantar e abaixar de cortinas a partir dos quais vemos os amigos — Mário de Andrade, Alfred Métraux e Roman Jakobson; entrevemos nomes algo esquecidos (como o de Marcel Granet, fundamental para os estudos do parentesco); experiências menos tratadas  — por exemplo, o seu importante e relativamente longo engajamento na Unesco — e produções subestimadas ou desconhecidas: o artigo escrito para a revista surrealista Triplo V, editada em Nova York nos anos 1940; o texto ácido sobre O  pensamento selvagem (1962) que Dina Dreyfus, sua ex-mulher, publicou em 1963, ou ainda as querelas envolvendo a tradução inglesa da mesma obra. 

A ‘política da discrição’ que ele empreendeu, na contramão do intelectual engajado, incide sobre sua concepção de antropologia e sua visão de mundo

Do retrato plural esboçado por Emmanuelle Loyer, chamo a atenção para um traço por ela enfatizado, que contraria certos lugares-comuns sobre o autor: a política. A “política da discrição” que ele empreendeu ao longo da vida, na contramão do modelo do intelectual engajado, incide sobre sua atuação e produção, e também sobre a sua concepção de antropologia e a sua visão de mundo. Os textos escritos para o jornal italiano La Repubblica (1989-2000), dedicados a questões ainda atuais, são eloquentes nessa direção; neles, Lévi-Strauss, avesso a pronunciamentos e palanques, se manifesta sobre a procriação artificial, as novas parentalidades e filiações, as doenças epidêmicas e as relações com os animais. 

Assim, esse homem do século 20, que volta e meia se apresentava como pertencente ao anterior, mostra-se engajado de corpo e alma no século 21, habitado e transformado por diversas temporalidades e pelos diferentes mundos que percorreu. 

Quem escreveu esse texto

Fernanda Peixoto

Professora de antropologia da usp, é autora de A viagem como vocação (Edusp).

Matéria publicada na edição impressa #12 jun.2018 em junho de 2018.