Ciências Sociais,

Cidades celestes

Em antologia de textos, índios Guarani Mbya fazem uma contundente crítica ameríndia ao modo de vida ocidental

01nov2018 - 05h51 | Edição #18 nov.2018

Este é um dos mais belos ensaios etnográficos recentes, realizado através de uma parceria intelectual engajada com um povo ameríndio. Escrito com fluidez e concisão, O perecível e o imperecível é entremeado de traduções bilíngues de depoimentos e narrativas recolhidos pelo antropólogo Daniel Pierri entre interlocutores Guarani Mbya, aos quais se dedica desde 2005. 

O conjunto de traduções é um dos principais méritos do trabalho, dada a escassez de publicações capazes de revelar com competência o estilo intelectual dos povos originários a partir da análise de suas próprias palavras. O argumento principal, uma “crítica xamânica ao fetichismo da mercadoria e ao cristianismo”, ecoa aquele de outro livro nascido clássico: A queda do céu, de Davi Kopenawa Yanomami e Bruce Albert (Companhia das Letras, 2015). 

Cegueira colonialista

É com atraso que começamos a defrontar com essa capacidade crítica, sistematicamente negada aos ameríndios pela cegueira colonialista típica de parte de nossa intelligentsia, mas que, agora, vai se impondo por sua urgência e inevitabilidade.

Assolados pelo saque de suas terras e pela perseguição, os Guarani Mbya resistem por jamais terem deixado de pensar e de projetar o sentido de sua existência para um fim que os brancos desprezam: a capacidade, como dizem, de “produzir em nós mesmos a humildade” por meio de práticas corporais como a alimentação. É assim que pretendem conquistar um “estado de imperecibilidade” que lhes permitiria, ainda em vida, aproximarem-se da condição dos Nhanderu — magníficas entidades divinas das quais extraem sua força e conhecimento. 

Os brancos, por sua vez, são aqueles que “estão condenados à vida breve por mobilizarem as imagens perecíveis da tecnologia dos deuses, e por conservarem um modo de vida que pode ser dito arrogante, pois depositam muita presunção em sua política, em seu direito e em sua religião, sem conseguir fazer jus, na prática, ao que pregam no discurso”. 

O apego a essa “imagem da tecnologia”, derivado da escolha em assassinar seu demiurgo, teria feito com que os homens brancos se tornassem “vulneráveis diante da morte”, ao passo que os Guarani, por escolherem respeitá-lo, terminaram pobres, porém desapegados e, por isso mesmo, capazes de superar através do corpo a descontinuidade com a divindade que caracteriza a condição humana. 

Vemos, assim, como os Guarani empregam de maneira crítica, e a seu favor, o problema mítico da escolha primordial que teria levado à separação assimétrica entre brancos e índios, estudada por Lévi-Strauss em uma obra fundamental, a História de lince (1991). 

A despeito do estado desolador em que atualmente se encontram, nem por isso seu pensamento deixa de apontar os efeitos deletérios da decisão tomada pelos brancos: “por que pediríamos perdão? Não fomos nós que erramos para Nhanderu, foram eles que erraram”, reflete o xamã Vera Mirin. E continua: “Até parece que eles têm mais sabedoria com essas leis rigorosas. Mas eles não conseguem cumprir isso em nenhum lugar, eles não estão vivendo como nós gostaríamos. Nós sabemos mais que eles”. 

O pensamento dualista a partir do qual se estabelece tal crítica xamânica do capitalismo e do cristianismo esconde complexidades adicionais, que Pierri pretende tratar. A começar pela própria assimetria entre as “imagens terrestres” que caracterizam este mundo, marcadamente perecíveis, e suas contrapartidas nos mundos divinos das “cidades celestes que vão se renovando, criando coisas novas a cada repetição do ciclo anual”; cidades mais bem providas de “energia elétrica que nunca apaga, [de] carros que fazem com que não precisem pisar no chão, [de] um fogo imperecível que nos poupa do esforço de mantê-lo aceso, e assim por diante”. 

A instabilidade dos pares produz, assim, uma série de desdobramentos que multiplicam coisas divinas e suas contrapartidas, as imagens perecíveis terrestres, assim sugerindo a Pierri a expressão “platonismo em perpétuo desequilíbrio” para descrever o pensamento cosmológico guarani. 

As imagens celestes guarani são corpóreas, assim produzindo uma espécie de recursividade cosmológica incompatível com o platonismo

Platonismo, entretanto, que estabelece uma “flagrante inversão” com tal matriz de nossa filosofia, ao postular, por exemplo, que os protótipos celestes, dos quais os elementos deste mundo são mera imagem, poderiam ser acessados não pela razão, mas pela maturação corporal e pelo uso elaborado da palavra, poética, diríamos nós, da qual Platão desconfiava. O autor nota, ainda, que as imagens celestes guarani, assim como tantas outras ameríndias, são elas também corpóreas (embora melhores), produzindo uma espécie de recursividade cosmológica incompatível com o platonismo.

Por mais que o contraste com a filosofia platônica renda argumentos comparativos, sua aposta na expressão “platonismo em perpétuo desequilíbrio” me parece menos produtiva. Se são ontologias opostas, cujas derivações civilizatórias terminaram por produzir um dos encontros mais funestos da história, por que insistir em uma expressão que, embora elaborada com a intenção da contradição, não ilumina a originalidade intelectual ameríndia como pretende a obra? 

O contraste entre uma concepção matricial da razão (aquela do platonismo) e a maturação corporal guarani poderia dar a entender que esta última não é racional à sua maneira, quando sua mobilização pela crítica xamânica, tão bem explorada por Pierri, evidencia justamente o contrário. Afinal, são outros os corpos ameríndios, bem como a possibilidade de pensamento que eles projetam. 

A despeito de tal questão menor, O perecível e o imperecível é firmemente sustentado pelo encontro entre o pensamento guarani e a linhagem da antropologia que vai de Lévi-Strauss a Eduardo Viveiros de Castro, esta última marcada pela influência decisiva do pensamento de Deleuze e Guattari. É esse legado que permite a Pierri postular uma “teoria da diferença” para tal pensamento originário, feita em compasso com a especulação contrastiva das narrativas das sociedades ameríndias. 

O livro nos ensina que a antropologia tem muito a oferecer em sua arte de traduzir e intermediar outros mundos possíveis e que, mais ainda, “não seria preciso um horizonte utópico para que outras sociedades tenham muito o que nos ensinar”. Assim compreendemos o profetismo parcialmente otimista sobre o cataclismo iminente: “desta vez, já não haverá mais espaço para os brancos e seu modo de vida sujo. Não será o fim do mundo, mas a sua limpeza, e certamente em um mundo limpo os brancos já mostraram não ter lugar”. Espero que tal desfecho — ao menos tal como descrito por Pierri — poupe ao menos aqueles brancos, infelizmente ainda minoritários, que têm insistido em produzir outros modos de existência.

Quem escreveu esse texto

Pedro de Niemeyer Cesarino

Antropólogo, escreveu Quando a Terra deixou de falar (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #18 nov.2018 em novembro de 2018.