Ciências Sociais,

A dupla fratura da modernidade

Malcom Ferdinand escreve sobre o sempre evitado encontro entre a questão ambiental e a colonial

01jan2023 - 08h51 | Edição #65

Está cada vez mais difícil ignorar o movimento — podemos chamar talvez de crise — que vem transformando este planeta convidativo para a vida da nossa espécie em um mundo hostil. Antropoceno, mudanças climáticas, desaparecimento da biodiversidade, extinção em massa, poluição e desmatamento são termos que já fazem parte do nosso dia a dia. Nossa rotina, porém, é também permeada pelas notícias dos consecutivos fracassos em lidar com tais fenômenos: a temperatura segue em ascensão, as espécies continuam desaparecendo, o desmatamento avança e a poluição se espalha. A dimensão de tais insucessos e de suas terríveis consequências deveria conduzir a uma reflexão sobre suas razões e suas origens. No entanto, não é o que acontece. Um dos motivos é que na raiz da crise ambiental está o legado colonial, entranhado no planeta mas continuamente empurrado para debaixo do tapete.


Uma ecologia decolonial, de Malcom Ferdinand, coloca em xeque o discurso tecnocrático do ambientalismo

É esse encontro entre a questão ambiental e a colonial, sempre evitado, que Malcom Ferdinand chama, em seu livro, de a dupla fratura da modernidade. Essa fratura resulta, por um lado, em uma ecologia e uma forma de lidar com as questões ambientais que não levam em conta as consequências do colonialismo e da escravidão, tampouco o racismo e a misoginia que persistem; e, por outro, a desatenção dos movimentos sociais e antirracistas com os temas ambientais. Uma fratura ambiental e uma fratura colonial, uma dupla fratura que nos condena a pensar o mundo como uma arca de Noé ou como um navio negreiro. Para nos deslocar dessas condenações, Ferdinand propõe ir além dessas fraturas, costurando possibilidades em busca de um “navio-mundo” onde seja possível construir alianças que permitam lidar com a fratura colonial e a ambiental, passando por instrumentos políticos e jurídicos para lidar tanto com nossas relações com os não humanos como também com a necessária busca por justiça dos colonizados e escravizados.

O livro coloca em xeque o discurso tecnocrático do ambientalismo, esvaziado de seus conteúdos políticos e de suas heranças históricas

Ferdinand é da Martinica e propõe, em seu livro, pensar o mundo a partir do Caribe. Além de examinar o legado colonial francês, traz casos específicos da região que mostram uma prática ecológica que reforça o colonialismo, as desigualdades e o racismo. Casos esses que poderiam ser acrescidos de inúmeros exemplos brasileiros onde essa prática é uma constante. Comunidades deslocadas, expulsas de seus territórios, em nome de uma ecologia colonial, que substitui modos de vida, subalternizados e desprezados, por um aparato tecnocrático de conservação da biodiversidade que invariavelmente falha em cumprir seus objetivos.

Navio negreiro

Para além da escolha da figura do navio como metáfora do mundo, cada capítulo é aberto por relatos sobre navios negreiros, suas viagens e seus conteúdos. Tais relatos acrescentam ao livro uma dimensão poética e, ao mesmo tempo, atroz, , funcionando como uma âncora que não permite que não fiquemos à deriva nem que nos lancemos para a frente sem que o navio negreiro — e tudo o que ele significa — esteja sempre presente.

Ferdinand traz à tona um mosaico de fraturas, a começar pela própria ideia de humanidade. A ecologia e o ambientalismo insistem em benefícios, perigos e ameaças para a humanidade. Mas que humanidade seria essa? Como disse Lévi-Strauss em sua conferência sobre Rousseau, em 1962:

Começou-se por cortar o homem da natureza e constituí-lo como um reino supremo. Supunha-se apagar desse modo seu caráter mais irrecusável, qual seja, ele é primeiro um ser vivo. E permanecendo cegos a essa propriedade comum, deixou-se o campo livre para todos os abusos. Nunca antes do termo destes últimos quatro séculos de sua história, o homem ocidental percebeu tão bem que ao arrogar-se o direito de separar radicalmente a humanidade da animalidade, concedendo a uma tudo o que tirava da outra, abria um ciclo maldito. E que a mesma fronteira, constantemente empurrada, serviria para separar homens de outros homens, e reivindicar em prol de minorias cada vez mais restritas o privilégio de um humanismo, corrompido de nascença por ter feito do amor-próprio seu princípio e noção.

Aqui, explícita, está a fratura colonial sobre a qual Ferdinand se debruça, fruto da contínua subalternização dos não brancos e dos constantes epistemicídios. Passaram-se sessenta anos e a fratura segue exposta, sem remédio. Por outro lado, passaram-se trinta anos da conferência Eco-92, na qual as grandes convenções ambientais surgiram e nenhum avanço se verificou. A caracterização dessas convenções como instrumentos coloniais ainda está por ser feita, mas Uma ecologia decolonial abre caminho para tanto, colocando em xeque o discurso tecnocrático do ambientalismo, esvaziado de seus conteúdos políticos e de suas heranças históricas.

Fontes da Martinica, como Cesaire e Fanon, e outras caribenhas, africanas e latino-americanas alimentam os argumentos

Ferdinand faz isso seguindo a perspectiva de Aníbal Quijano sobre a colonialidade do poder, que considera entre seus fundamentos o racismo e a ideia de raça, o eurocentrismo, a colonialidade do saber e o movimento indígena como uma possibilidade de futuro. Quijano fala em um sistema-mundo moderno derivado da chegada dos europeus à América, cuja precondição é a colonialidade. É essa entidade territorial e social, a América, que se constitui como o sistema mundial moderno, hierarquizando estados e fronteiras administrativas diante da autoridade colonial, criando categorias étnicas antes inexistentes — como “negro”, “índio” e “branco” — que se converteram na matriz cultural do sistema mundial e inventando o racismo para organizar a exploração colonial do sistema-mundo moderno.

Fontes da Martinica, como Aimé Cesaire e Frantz Fanon, e outras caribenhas, africanas e latino-americanas, também alimentam os argumentos do livro, em uma costura ampla e original. Ao correlacionar de forma direta a questão ambiental com a colonial e a racial, Ferdinand coloca o dedo em uma ferida que continua ignorada — talvez propositadamente — pelos ambientalistas brancos e deixa clara a inutilidade de seus esforços. Por outro lado, dá uma dimensão nova ao desafio ambiental pois, ao conectá-lo diretamente com o desmonte do colonialismo e a busca por justiça para os escravizados e colonizados, oferece um caminho para a resolução da questão. Mas, diante da resistência dos colonizadores e da dificuldade dos brancos em admitir seus privilégios, suas responsabilidades e seu racismo, trilhar tal caminho se apresenta como uma tarefa quase impossível.

Crise de justiça

As alternativas sugeridas por Ferdinand para uma política do encontro, a construção de um “navio-mundo”, passam tanto pelas urgências ambientais — como deter o aquecimento do planeta e a destruição dos ecossistemas — como pela redistribuição de riquezas e de justiça social, e ainda pela tarefa descolonizadora que deve reconhecer um lugar digno para povos originários, ex-colonizados e pessoas racializadas. Embora Ferdinand insista que observa a tempestade moderna para além dos limites da dupla fratura, como singrar os mares que nos conduzam a essa política do encontro permanece uma questão. Como ele próprio ressalta, a crise ecológica é uma crise de justiça, mas a forma de operacionalizar essa justiça segue sendo uma charada. Vale mencionar que o livro não dedica muita atenção ao capitalismo e suas conexões umbilicais com a colonialidade, certamente um componente importante do quebra-cabeça que junta ambientalismo, colonialismo, relações de dominação patriarcal e racismo.

Ferdinand coloca o dedo em uma ferida que continua ignorada — talvez propositadamente — pelos ambientalistas brancos

No epílogo do livro, Ferdinand sugere que passemos a reconhecer a intrusão de Gaia — termo utilizado para designar a ideia de que não podemos mais ignorar os fenômenos que acontecem no planeta pois eles passaram a nos afetar cotidianamente — como intrusão de Ayiti. Gaia é como a Mãe-Terra é designada na mitologia grega e Ayiti é o termo que o povo taíno, habitante originário do Haiti, usava para designar a ilha, a Mãe-Terra para eles. A intrusão de Ayiti significaria reconhecer os traços da colonização, das escravidões, do racismo e das dominações patriarcais na biodiversidade e nos ecossistemas. Ayiti deveria ser bem-vinda, e seria, na construção da política do encontro proposta no livro. Até o momento, porém, ela segue trancafiada no porão de um navio negreiro.Como aponta o livro de Ferdinand, a construção de uma ecologia decolonial é uma tarefa urgente. Ao mesmo tempo, porém, trata-se de uma tarefa infinitamente árdua, que encontra muitas linhas de resistência. Resta fazer coro às palavras de Francia Márquez e trabalhar “até que a dignidade se torne costume.”

Quem escreveu esse texto

Nurit Bensusan

Bióloga, é autora de Cartas ao morcego (Mil Folhas/Instituto Socioambiental).
 

Matéria publicada na edição impressa #65 em outubro de 2022.