Biografia,

Feminino e viril

Memórias do primeiro homem transexual a passar por cirurgia de redesignação de sexo no Brasil mostram seu ativismo pioneiro

01mar2020 - 01h00 | Edição #31 mar.2020

Em 1977, o carioca João Nery realizou cirurgias clandestinas de redesignação sexual e obteve uma série de documentos falsos (inclusive de reservista) para finalmente ser reconhecido como homem. Em troca, perdeu seu diploma de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ufrj), um mestrado em curso e os pacientes de seu consultório. Passou a ganhar a vida como pedreiro, operário, pintor de paredes, lavrador e professor de informática para terceira idade.

Quando, juntamente com ele, “outras transidentidades saíram da clandestinidade e conquistaram um espaço de cidadania”, Nery passou a  atuar como escritor e ativista. Essa história extraordinária já virou livro autobiográfico três vezes. O mais recente é Velhice transviada, publicado em 2019 pela editora Objetiva. Outra obra de sua autoria, Viagem solitária, lançada originalmente em 2011, ganhou nova edição recentemente.

O título deste último alude ao fato de Nery só ter conhecido outro homem trans dez anos depois da sua transformação. Não havia movimento, interlocução. O livro conta a sua vida cronologicamente e como a transexualidade a afetou completamente. Por outro lado, diferentemente das histórias de muitas pessoas trans, ele encontrou parceiras com quem teve relações longevas, tornou-se pai e foi, na medida do limite de cada um, acolhido por seus pais e irmãos: “Quanto a mim, papai não me rejeitou. […] Mas no seu íntimo sei que nunca aceitou minha transição”. Seu último casamento durou 22 anos e só foi interrompido com sua morte, em outubro de 2018, aos 68 anos.

Viagem solitária é uma reelaboração do primeiro livro de Nery, Erro de pessoa: Joana ou João?, publicado em 1984, com prefácio do dicionarista Antônio Houaiss, que nos convida: “Leiam-no e humanizem-se”. Humanizar-se como uma das definições de seu dicionário: “Tornar(-se) mais sociável, mais tratável; civilizar(-se), socializar(-se)”. Ou seja, é a pessoa dita “normal” que precisa se civilizar.

A literatura de testemunho é, no mais das vezes, considerada menor.  Eu discordo. As histórias extraordinárias não exigem grande requinte narrativo, mas, se bem contadas, são experiências sensíveis, marcantes, como as oferecidas pelas grandes obras da literatura. Quando saiu a primeira edição de Viagem solitária, um jovem leitor, estudante de linguistica, escreveu para Nery, como se pode ler no blog do autor:  “A consistência narrativa que você dá à sua história é incrível! E a sua franqueza, ainda que dê sentido e pontue muitas questões que o leitor vai sanando na medida em que o texto vai sendo lido, não deixa de esburacar as opiniões enrijecidas e as certezas dispensáveis: apesar de contar o já vivido, não é uma obra fechada; ou ainda, mais que uma obra aberta, é justamente uma obra que abre… abre-nos para e perante nós mesmos”.

Em transição

Para o leitor ou a leitora que está tendo dificuldades com nomenclaturas, gêneros e orientações sexuais, um bom começo é ler autorxs lgbt. O autor se define como um homem feminino e viril: “A minha virilidade, contraditoriamente, passou a servir também como um instrumento para que eu pudesse combater o mundo heterocentrado, patriarcal”. Pertencente à velha guarda do movimento lgbt, mostra como, ao longo da sua militância, abre a cabeça para todas as sexualidades e gêneros. O autor explica que as transidentidades incluem outros gêneros, como os sem gênero e os não binários. Por isso a sigla está em permanente transição: usa-se também lgbtq, lgbti, lgbtt, lgbtqi, lgbtquia, lgbt+ etc. Em postagem de 2018 no Facebook, Nery explica: “Um transmasculino não precisa ser sarado, nem ter barba, nem se hormonizar ou ter pênis e se operar. Basta saber quem são e que se sentem do gênero masculino”.

Há um diálogo entre vários amigos trans homens em Velhice transviada que é muito didático para entender a diferença entre orientação sexual e gênero. Um deles declara: “Sempre tive um pouco de interesse por homem, mas não ousava admitir nem para mim. Sentia-me muito mal sendo vista como mulher, preta, boazuda e ‘estuprável’. Depois das cirurgias e de bigode na cara, com a minha nova identidade de gênero definida, pude expor o meu desejo. Sei que agora vou ser desejado como um homem gay ou um trans gay. Além disso já tive durante anos um grande romance com uma travesti, mas com ela era uma relação heterossexual”. Muitos outros depoimentos brotam assim, sem tabu.

Outro passo para compreender a sexualidade e o gênero na contemporaneidade é admitir que não é da sua conta saber se uma pessoa tem pênis e peito, silicone no corpo, se não tem peito mas tem vagina, se nasceu com pênis e morreu com vagina, se usa barba, batom e saia e como faz sexo. A não ser que você queira amá-la ou transar com ela. Não é uma questão de tolerância; ninguém quer ser tolerado. As pessoas querem apenas existir sem ser agredidas.   

Ao mesmo tempo, para o leitor mais conservador, os livros de Nery mostram uma trajetória como a de qualquer pessoa em busca de sonhos e realizações, que nada tem a ver com aberrações e perversões doentias que ainda povoam o imaginário de muita gente quando o assunto gira em torno da transexualidade.

Formado em psicologia, Nery rechaça o complexo de Édipo, uma das bases da psicanálise freudiana. E acha estranho e machista explicar comportamentos com base na inveja que a menina tem do pênis. Num recente artigo sobre a sexualidade na contemporaneidade, o psicanalista Joel Birman escuta essas subjetividades afirmando com todas as letras que nas pessoas trans não há estrutura edípica, e é a psicanálise que deve se renovar.

A filósofa Judith Butler coloca o problema teórico em termos de experiência: “Quando uma pessoa vive enquanto um corpo que sofre reconhecimento indevido, possivelmente insultos ou assédios, discriminações culturais, marginalização econômica, violência policial ou patologização psiquiátrica levam a uma maneira desrealizada de viver no mundo, uma forma de viver nas sombras, não enquanto um sujeito humano, mas como fantasma”. As escritas de Nery e outrxs autorxs trans são em geral autobiográficas, pois é urgente realizar-se, tornar-se real para si e para o outro.

Tarefa árdua

No capítulo “Corpo trans-tornado”, de Viagem solitária, a puberdade é o ponto alto do sofrimento. “A coisa começou a aparecer aos catorze anos, quando veio a primeira ‘monstruação’. A ideia daquilo ter vindo dentro de mim me repugnava.” Numa tarde, diante do espelho, ele nos faz sentir o horror de ver seu próprio reflexo: “Pegava nos peitos, amassando-os como se fossem um excremento podre para se jogar fora. Cadê o pau para ter relações sexuais? E puxava o clitóris com toda força, querendo agigantá-lo, arrancá-lo da terrível escuridão”.

Com personagens que trocam roupas supostamente masculinas e femininas, livro infantil questiona os papéis sociais de gênero

Nery viveu por um período socialmente como lésbica, apesar de nunca ter se considerado nem mulher nem homossexual. Começou a se travestir, experimentou ser homem como motorista de táxi, com os peitos esmagados por uma faixa. Depois dos capítulos sobre a extração dos seios, do ovário e do útero e a adoção de documentos falsos sob o nome João, sua narrativa muda. Não é mais uma pessoa no corpo que julga errado, é um homem realizado que abriu mão de todo o conforto da vida pregressa.

Essa memória da juventude não aparece tanto em Velhice transviada. Ele, que foi pioneiro como homem trans operado no Brasil, reconhece-se como uma raridade por ser uma pessoa trans velha. Sabe-se que a média de vida de uma pessoa trans é de 35 anos. Envelhecer depois de tanto estigma e preconceito é uma tarefa árdua. Nery não só reconta suas memórias sem cronologia a partir da velhice, como na segunda parte convida outras pessoas trans velhas a compartilharem as suas histórias, procurando se coletivizar, criar essa rede de pessoas raras, porque os demais não sobreviveram — é a estes últimos que o livro é dedicado.

A obra ganha outro tema ao longo da escrita:  a própria morte do autor é anunciada — ela, que era esperada nos próximos anos, viria nas próximas semanas. O que era para ser uma narrativa da vida vivida se torna a da morte também. E essa transição é apresentada sem drama, como se fosse um diário dos últimos dias. Nery se afirma canceroso, palavra que todos evitam usar; a palavra “câncer” é tabu, falam-se outros nomes, conta-se em segredo. O autor quer desmistificá-la, “mesmo envolvendo as cercanias da finitude”. Um pijama confortável é valorizado, e o fumo que causou a doença não é demonizado: “Na adolescência ouvi de uma garota: ‘Você fuma com um charme tão viril…’. Era tudo o que eu precisava ouvir para me viciar”. O livro é sobre a velhice, a beira da morte, mas o autor está em paz com a vida.

João Nery, juntamente com Anderson Herzer, de A queda para o alto (Vozes, 1982), e Lóris Ádreon, de Meu corpo, minha prisão: autobiografia de um transexual (Marco Zero, 1985), são pioneirxs no que a crítica literária e escritora Amara Moira vem chamando de literatura de autoria trans. Moira é também autora trans, tendo publicado E se eu fosse puta (Hoo, 2016). Sua excelente aula aberta sobre o tema, em 2018, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — onde fez doutorado —, pode ser vista no canal da universidade no YouTube.

Não é coincidência que esses livros tenham aparecido na década de 1980, pois só puderam existir com o início da redemocratização no Brasil e como resultado dos movimentos feminista e lgbt das décadas de 1960 e 1970, que mexeram com as sensibilidades e o entendimento sobre a sexualidade de uma parte da população ocidental.

Desde então, temos assistido a avanços no campo das ideias, do direito e da medicina, mas há muito ainda a ser feito. Vinte anos depois das cirurgias de Nery, o Conselho Federal de Medicina (crm), em 1997, autorizou as operações de redesignação sexual. Hoje em dia, cerca de vinte cirurgias são feitas por mês pelo Sistema Único de Saúde (sus), no Ambulatório Transdisciplinar de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas, em São Paulo, além de outros acompanhamentos clínicos, principalmente as terapias hormonais.

Nery viveu poucos meses depois do anúncio feito pela Organização Mundial da Saúde (oms), em 2018, de que na nova versão do Código Internacional de Doenças (cid-11) a transexualidade não figurava mais como doença. É bom lembrar que a homossexualidade deixou de ser doença só em 1990, quando o cid-10 foi publicado!

No Brasil, algumas instituições públicas de ensino passaram a reconhecer, a partir de 2008, o nome social ou a autodenominação das pessoas trans. Depois disso, várias outras instituições e legislações municipais e estaduais reconheceram esse direito, até que, em 2016, a então presidenta Dilma Rousseff assinou o decreto que reconhece o nome social de travestis e transexuais, possibilitando constar em documentos oficiais ao lado do nome civil.

Devido à sua trajetória e militância, João W. Nery é o nome do Projeto de Lei 5002/13, dos deputados Jean Wyllys e Érika Kokay, sobre identidade de gênero. Para além do nome social, o projeto prevê “a retificação registral de sexo e a mudança do prenome e da imagem registrados na documentação pessoal”. Infelizmente, o projeto foi arquivado em janeiro do ano passado. O ex-deputado Jean Wyllys, atualmente professor em Harvard, reproduz no prefácio de Velhice transviada palavras que Nery lhe dirigiu: “Sabe, menino, eu gosto de você como se fosse um filho. Mais que um pai, eu sinto como se fosse uma mistura de pai e mãe, porque você desperta mais o meu instinto materno, se é que isso existe, do que o paterno”.

Quem escreveu esse texto

Silvana Jeha

É autora de História da tatuagem no Brasil, publicado pela Veneta.

Matéria publicada na edição impressa #31 mar.2020 em fevereiro de 2020.