Ministério da Cultura apresenta

Repertório 451 MHz,

Reprise | A terra dá, a terra quer

451 MHz reprisa episódio com raro registro do pensador Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, que contrapõe o modo de vida e os saberes quilombolas aos da sociedade colonialista

26dez2025 • Atualizado em: 10abr2026

Está no ar mais um episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz a reprise de um dos programas mais ouvidos de 2025: uma conversa com o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, mais conhecido como Nego Bispo. 

A conversa dele com a colunista da Quatro Cinco Um Bianca Tavolari, uma rara oportunidade de ouvir o intelectual e ativista piauiense, aconteceu durante A Feira do Livro de 2023, na mesa “Da praça pública ao quilombo”, poucos meses antes da morte de Bispo, aos 63 anos, em dezembro daquele ano. O episódio foi originalmente publicado em abril de 2025 e foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Na conversa, Nego Bispo discute ideias presentes em seu A terra dá, a terra quer (Ubu e Piseagrama, 2023), coletânea de ensaios em que explica o conceito de contracolonização, também chamado de contracolonalismo. No livro e nesta edição do 451 MHZ, ele contrapõe o modo de vida nos quilombos ao da sociedade colonialista e fala sobre território, pensamento circular e cosmologia quilombola.

Nascido no vale do rio Berlengas, no quilombo Saco Curtume, interior do Piauí, Nego Bispo foi o primeiro membro de sua família a ser alfabetizado. Antes de A terra dá, a terra quer, ele publicou Quilombos, modos e significados (2007) e Colonização, quilombos: modos e significações (2015), nos quais traduziu para a escrita os saberes do seu povo e seu pensamento contracolonizador. Também escreveu artigos e poemas e, como ativista dos direitos quilombolas, mediou as relações de sua comunidade com o Estado.

Bianca Tavolari e Antônio Bispo n’A Feira do Livro 2023 (Sean Vadaru)

Conhecida dos leitores da revista dos livros, Bianca Tavolari é colunista da editoria As Cidades e as Coisas. Especialista em meio urbano e nas relações sociais e culturais que envolvem as cidades brasileiras, ela também é professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), diretora do Mecila, centro de estudos em ciências humanas e sociais na América Latina, e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

A terra dá, a terra quer

Bispo inicia a conversa contando a origem do título de seu livro. “Eu estava na roça chupando uma manga, a manga caiu no chão, eu me apressei para pegar e, caçando água para lavar, Mãe Joana [sua avó] disse: ‘deixa essa manga aí, ela é da terra. A terra dá, a terra quer, vá tirar outra manga para você’”, conta, demonstrando o jeito quilombola de se relacionar com a natureza. 

“Quando a gente diz ‘a terra dá e a terra quer’, a gente está dizendo que a terra, e tudo que existe na terra, é uma biointeração, é uma vida orgânica, cíclica”, continua Bispo. “Então, esse título, ele é orgânico, porque ele não está dizendo ‘preserve o meio ambiente’. Ele está dizendo ‘se relacione com o ambiente’. O ambiente não precisa dos nossos cuidados, o ambiente é quem cuida de nós, e nós nos relacionamos com o ambiente.”

Questionado por Tavolari, Bispo comenta a frase “eu não sou humano, eu sou quilombola”, que também aparece no livro. Para o pensador, o humano é o “euro-cristão-monoteísta”, que se vê como superior aos animais e à natureza. Já ele, como quilombola, convive em harmonia com os demais seres naturais. 

Contracolonialismo

Crítico da ideia de decolonialidade ou descolonialidade, Bispo explica seu pensamento que propõe o enfrentamento da colonização, o que ele chama de contracolonialismo. “A decolonialidade é uma teoria, não tem trajetória histórica”, diz. Segundo o pensador, só quem foi colonizado é que pode ser descolonizado — o que não se aplicaria a comunidades quilombolas e indígenas, por exemplo.

Em contraposição ao que considera falta de trajetória histórica do movimento decolonial, ele cita populações que resistiram à colonização desde a chegada dos europeus às terras brasileiras. “Se você me perguntar qual é a trajetória histórica dos contracolonialistas, nós somos quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco, marisqueiras, marisqueiros, pescadores, agroecologistas”, enumera. “Nós temos uma história para contar.”

Mais na Quatro Cinco Um

A terra dá, a terra quer, de Nego Bispo, foi resenhado pelo jornalista Jefferson Barbosa na edição #72 da revista dos livros. Ele afirma que Bispo “nos mobiliza a entender, a partir de elementos da própria terra e da existência humana, como o sistema criado pelas sociedades ocidentais vai contra a nossa própria existência”. Leia a íntegra aqui

O livro também foi apresentado por Bianca Tavolari na coluna As Cidades e as Coisas no texto “De volta à terra”. Para a pesquisadora, Nego Bispo “subverte a forma como pensamos o espaço urbano e nos relacionamos com o cosmo”. Leia mais aqui.

Além da seção que edita na Quatro Cinco Um, Tavolari já participou de outras edições do 451 MHz. Sua estreia foi em 2020, no 13º episódio do podcast, para apresentar o espaço que inaugurava na revista. 

Ano passado, ela voltou ao programa no episódio “Metrópoles em disputa”, em que conversou com a arquiteta e escritora Joice Berth sobre as questões em jogo nos disputados espaços das cidades. Ouça aqui.

O melhor da literatura LGBTQIA+

Este episódio traz uma sugestão literária da antropóloga e escritora Aparecida Vilaça, colaboradora da Quatro Cinco Um e autora, com Geoffrey Lloyd, do recém-lançado Onças e borboletas: diálogos entre antropologia e filosofia (Todavia). Ela indica o romance De quatro, de Miranda July, que saiu em 2024 pelo selo Amarcord, da editora Record, com tradução da poeta Bruna Beber.

“Embora o livro De quatro, de Miranda July, tenha sido apontado em críticas como tendo a perimenopausa como eixo narrativo, eu o li como um livro tremendamente sexy, em que o tesão e a abertura para a experimentação sexual dão a tônica das reflexões e ações da protagonista”, afirma a antropóloga.

De quatro foi tema do 128º episódio do 451 MHz, que contou com a participação da tradutora Bruna Beber e de Branca Vianna, apresentadora de podcasts como o Rádio Novelo Apresenta e o Fio da Meada. Elas falam justamente sobre as mudanças no corpo e na cabeça feminina durante a perimenopausa. Ouça aqui

Confira a lista completa de indicações do podcast 451 MHz no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.

Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Brenda Melo, Vitor Pamplona, Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Igor Yamawaki
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

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