Repertório 451 MHz,
O caminho de Santiago
Silviano Santiago e seu biógrafo, João Pombo Barile, falam sobre os bastidores de Presente do acaso, ensaio biográfico que narra a saga para contar a vida do escritor
09out2026Está no ar o 216º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição apresenta uma conversa em homenagem ao escritor e crítico literário Silviano Santiago, que completou 90 anos em 29 de setembro. Ele bate um papo com o jornalista João Pombo Barile, autor de Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago (Autêntica, 2025).
O encontro entre biógrafo e biografado aconteceu durante A Feira do Livro 2026, e teve mediação do colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Também professor, Silviano Santiago é romancista, contista e autor de ensaios literários e culturais. Publicou, entre outros livros, os romances Em liberdade (1981, reeditado em 2022), Mil rosas roubadas (2014) e Machado (2016), o livro de memórias O menino sem passado (2021) e as coletâneas 35 ensaios de Silviano Santiago (2019) e Grafias de vida — a morte (2023), todos lançados pela Companhia das Letras. Venceu em 2022 o Prêmio Camões, maior honraria da língua portuguesa.
Já João Pombo Barile atuou na redação das editoras Abril e Nova Cultural e nos jornais O Tempo e Hoje em Dia antes de se tornar redator, repórter e diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais. Também dirige o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura. Presente do acaso é seu primeiro livro e venceu o Prêmio APCA de Literatura de 2025 na categoria Reportagem/Biografia.
Barile conta no episódio que a história do ensaio biográfico começou no fim dos anos 90, mas não envolvia Santiago. A ideia original era fazer um livro de conversas com o historiador mineiro Francisco Iglésias, “igual o Didier Eribon fez na França, com o [Claude] Lévi-Strauss”, diz, referindo-se a De perto e de longe (trad. Léa Mello e Julieta Leite, Cosac & Naify, 2005).
No entanto, Iglésias morreu em 1999, pouco depois de Barile lhe propor o projeto. Mais tarde, o jornalista retomou a ideia com Santiago, de quem ouve histórias desde os anos 2000. “Eu queria criar literariamente esse narrador, colocar no papel esse jeito dele de contar as coisas”, explica.

Mais Lidas
Santiago, porém, não topou o formato tradicional inicialmente proposto pelo jornalista, com um narrador oculto. “Ele falou: não vai ser isso de jeito nenhum”, lembra Barile. “Só posso falar depois que você encontrar o narrador”, lhe disse Santiago, impondo ao biógrafo sua obsessão pelo foco narrativo: “A cada novo livro, um novo narrador”.
A solução encontrada, que convenceu Santiago, foi um narrador “no meio do caminho” — entre o biógrafo, que narra sua saga e os bastidores da apuração, e o biografado, que intervém e dita os rumos da narrativa.
Vida ao acaso
Santiago revela no episódio que a palavra “cobaia”, que aparece no livro assim mesmo, entre aspas, não foi escolhida só por ser engraçada. Para ele, o termo descreve “um tipo de experimento de vida” — a sua.
Nascido em 1936, em Formiga, no interior de Minas Gerais, o escritor se mudou aos dez anos para Belo Horizonte, com a família de onze irmãos. Desde a juventude, diz, seus projetos nunca saíram exatamente como planejados. Graduado em letras, ganhou em 1961 uma bolsa de doutorado na Universidade Sorbonne, em Paris.
O período na França coincidiu com a Guerra da Argélia, que mudou seu olhar sobre o Brasil e sua história, ligada ao colonialismo. “Eu descobri o Brasil na Sorbonne”, brinca.

Ao perceber que o valor da bolsa era baixo para se manter na França, Santiago fez um concurso para ensinar literatura brasileira e portuguesa nos Estados Unidos. “Tudo me foi dado mais ou menos como produto do acaso”, resume, numa referência ao título da biografia — retirado do poema “Passagem do ano”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro A rosa do povo.
Paradigmas literários
Na conversa, Santiago também fala de literatura. Questionado pelo mediador Paulo Roberto Pires sobre o protagonismo da primeira pessoa nas narrativas atuais, ele diz considerar que essa subjetividade não é nova e surge de uma “quebra do paradigma europeu-brasileiro”, com Machado de Assis.

“A sociedade brasileira tem tais diferenças e são tão grandes as diferenças em relação à cultura europeia que seria impossível escrever um romance, aqui, repetindo Madame Bovary.”
Santiago diz que as biografias têm seu lado ficcional, embora sejam, segundo o escritor, como “um verbete de enciclopédia aumentado”. Barile ressalta que Presente do acaso exigiu muita checagem dos fatos narrados pelo biografado. “A gente é meio detetive de polícia civil. Investiga as coisas, não acredita e vai atrás”, compara.
Livro Marcador
No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades das artes e da cultura, o episódio traz a sugestão da cineasta e apresentadora Marina Person, cujo filme mais recente, Isabel, estreou no Festival de Berlim 2026. Ela, que ficou conhecida como um dos rostos da extinta MTV Brasil, onde trabalhou por dezoito anos, indica Só garotos, da norte-americana Patti Smith, que saiu em 2010 pela Companhia das Letras, em tradução de Alexandre Barbosa de Souza.

“Assim que saí da MTV, eu estava numa crise existencial, sobre o que eu ia fazer da minha vida. A minha grande aspiração era fazer cinema e trabalhar com cinema de outro jeito, não fazendo reportagens, como eu fazia na MTV”, diz.
“E aí eu ganhei o Só garotos, da Patti Smith. E o livro, nossa!, foi super importante para esse momento. Acompanhar a história dela e do Robert Mapplethorpe, daqueles jovens que tinham a grande certeza do que eles seriam na vida e eram movidos por uma grande paixão, que era justamente a vocação deles para a arte. Entrar naquela história colocou o mundo numa perspectiva diferente, foi bem importante.”
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
A luta continua
Amelinha Teles e Camilo Vannuchi conversam sobre a batalha pela democracia, o direito à memória e o papel das mulheres na resistência à ditadura militar
OUTUBRO, 2026
