Podcast,

Transcrição: Tati Bernardi no podcast 451 MHz

Leia a transcrição do episódio #134 do 451 MHz, um bate-papo com a escritora, roteirista e podcaster Tati Bernardi

12dez2025 • Atualizado em: 10mar2026

No 134º episódio do 451 MHz, a escritora, roteirista e podcaster Tati Bernardi fala sobre o desejo, a raiva e a graça de fazer parte do mundo controverso e sedutor da elite intelectual paulistana. Fã de autossociobiografias, Tati descreve suas origens e esses sentimentos no seu novo romance, A boba da corte, lançado pela editora Fósforo. Nesta conversa, ela fala da escrita e de uma das questões centrais do livro: sua saída do Tatuapé, bairro da zona leste de São Paulo, para Higienópolis, centro dessa “bolha paulistana”. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais. Ouça a seguir e saiba mais aqui.

Leia a transcrição:

Paulo Werneck [PW]:

Oi! Está começando o centésimo trigésimo quarto episódio do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Duas vezes por mês, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

Tati Bernardi [TB]:
E o meu livro é um pouco a raiva que eu tenho quando vem uma pessoa da elite, que já nasceu na elite intelectual, falar que eu sou menos escritora porque eu atiro para todo lado. “Porque o escritor mesmo é o cara que mora num quarto e sala e se dedica apenas à literatura dele, porque se ele gostar de dinheiro, ele é um vendido.”

PW:
E se você é ouvinte do 451 MHz e de outros podcasts também, você com certeza já passou por essa voz. Essa que você acabou de escutar é a escritora e podcaster Tati Bernardi, que está lançando o romance A boba da corte, pela editora Fósforo. Eu ainda vou falar mais sobre ela, mas antes, eu preciso te avisar que esse episódio do 451 MHz é realizado com o apoio da Lei Rouanet e da Companhia das Letras.

PW:
A Tati Bernardi é escritora, roteirista e podcaster. Ela é colunista da Folha de São Paulo e autora de Homem-objeto e outras coisas sobre ser mulher, que foi publicado em 2018, e também de Você nunca mais vai ficar sozinha, de 2020, ambos pela Companhia das Letras. Cinco anos depois do último lançamento, esse de 2020, a Tati está lançando um novo livro e fala aqui em primeira mão com o 451 MHz. A Tati também já é bem conhecida no mundo dos podcasts, ela já apresentou o famoso podcast Calcinha larga, e é a showrunner do Meu inconsciente coletivo, que mescla assuntos de psicanálise com temas culturais, e também Se ela não sabe, quem sabe?, que é um podcast voltado para entrevistas com mulheres mais velhas, os dois são publicados pela Folha. A Tati também está no ar com Desculpa alguma coisa, que é um podcast de entrevistas muito bem humoradas, produzido pelo UOL. Mas antes que você vá correr ali no seu tocador de podcast para ouvir isso tudo, eu te convido a ficar aqui para ouvir a Tati falar sobre o novo romance dela. Ela é uma grande leitora da Annie Ernaux, também do Édouard Louis, que são grandes escritores franceses que tratam das suas próprias vidas nessa tendência que foi chamada de autossociobiografia, e é o que ela faz ali com muito humor, com muita graça, nesse novo romance, A boba da corte. A gente traz aqui essa conversa, então, sobre como foi escrever esse livro, as origens sociais da Tati, que nasceu no bairro do Tatuapé, que na geografia de São Paulo é um bairro muito demarcado, importante, e também acabou sendo um percurso em direção a Higienópolis, que é um bairro que muita gente já conhece, mesmo não sendo de São Paulo, um bairro da burguesia e da elite ilustrada da cidade. Então, ela conta com muita graça como foi percorrer esse caminho, como foi de escola em escola, de casinho em casinho, de amor em amor, até chegar nesse lugar de grande autor da literatura brasileira que ela ocupa hoje em dia. E tudo isso é feito com muito humor e ironia, a gente vai dando sorrisos e, às vezes, de nervoso ou gargalhadas a cada página, e ela não recusa as contradições de pertencer a essa bolha, a essa elite cultural do nosso país. Então, sem mais delongas, vamos ouvir a Tati Bernardi.

Tati Bernardi na casa de sua infância, no bairro do Tatuapé, em São Paulo

PW:
Então estamos aqui com a grande Tati Bernardi, de volta ao 451 MHz, e de volta às livrarias, com esse livro muito esperado pelas suas editoras e pelo público. A boba da corte, que acabou de sair pela editora Fósforo, e já está saindo também em Portugal logo mais, já está fazendo estrada aí. Eu queria te perguntar primeiro, que livro é esse, A boba da corte? Desde o seu último livro, que foi lançado exatamente cinco anos atrás.

TB:
Foi no meio da pandemia, lancei num momento bem errado o livro. Bom, primeiro te agradecer, Paulo, você sabe que eu escuto sempre esse podcast, eu amo. E dizer que esse livro demorou três anos para ficar pronto — o que parece meio ridículo quando a gente olha para o livro e vê que ele não tem nem 100 páginas, ele vai até 97 páginas, é um livro fininho. Mas é porque foi tantas coisas que eu fui substituindo, deletando, mudando de ideia. Fiquei três anos: “que livro é esse? Que livro é esse?” É um livro que eu negociei muito comigo, porque eu estava no maior tesão de fazer esse livro, mas ao mesmo tempo, eu ficava com medo, tentando entender como que eu ia fazer ele, sem parecer a trajetória de uma heroína branca. Porque isso seria muito ridículo, eu sou uma mulher branca, que pinta o cabelo de loiro, que mora em Higienópolis, e se eu quiser contar a minha trajetória de vitória, acabou a minha carreira. Eu mesma não vou me respeitar nunca mais. Mas ao mesmo tempo eu queria contar — isso já antes da febre do Édouard Louis, antes de eu ficar completamente apaixonada por ele, pela Annie Ernaux, e também pelos últimos livros da Tati Salem… Esses livros bem autobiográficos, e sobretudo o Édouard Louis e a Anne Ernaux, que falam de ascensão social, intelectual, eu queria contar um pouco e com humor — que eu acho que aí difere um pouco deles — como foi. Eu nasci na Zona Leste, morei no Tatuapé até os 20 anos, e não era o Tatuapé Anália Franco, era o Tatuapé do lado do metrô Carrão, morava numa casa que não tinha livro, meus pais não fizeram faculdade, mais da metade da minha família — hoje eu consigo dar nome — eles eram extremamente bolsonaristas desde antes da gente saber que isso teria um nome. E de repente eu começo essa caminhada… a pertencer a uma certa elite intelectual paulistana, Zona Oeste, centro expandido, e nessa caminhada tem muito humor, tanto de tudo que eu faço para conseguir pertencer, como perceber também esses personagens todos que tem pelo caminho, as pessoas que eu vou conhecendo. É um livro mais de humor, ele não tem uma pretensão, “nossa, um livro que faz um tratado sobre luta de classes!” Pelo amor de Deus. Até porque eu era princesinha da ZL, assim, minha família… Eu estudei em colégio particular, tinha uma certa grana ali, bem diferente do Édouard Louis e da Annie Ernaux. Tem muita história boa nesse meio, porque a verdade é que, assim, uma coisa que aconteceu comigo, que foi a principal motivação desse livro, foi há 13, 14 anos, quando eu comecei a ter uma coluna na Folha. E a minha coluna, logo que eu entrei, ela era muito lida, tinha público. A grande pergunta que chegava para mim, alguns amigos falavam: “olha, as pessoas estão incomodadas porque elas querem saber de onde você veio.” Tinha essa pergunta, assim: “de onde veio essa mulher? De onde ela saiu?” Eu pensava: “como assim, de onde eu saí? Eu não estava em outro país, eu não estava presa há 20 anos. Como assim, de onde eu saí?”

PW:
Não queriam saber se era cesárea ou parto normal, essa discussão? [Risadas]

TB:
[Risadas] Exatamente, de onde ela saiu, né? Como que ela chegou?

PW:
Isso muda tudo, hein? Se você nasceu de cesárea…

TB:
Não, e eu nasci de cesárea, então já complica.

PW:
Ai, Tati…

TB:
Mas mamãe tentou muito tempo o parto normal, na época não existia doula, já devia existir, mas não estava ainda tão bem retratada em Instagram. Mas tinha essa pergunta, e aí eu fui entender que essa pergunta era: “mas gente, ela não fez Santa Cruz, nem Vera Cruz, nem Bandeirantes, nem Gracinha, ela não fez literatura comparada na USP. Onde ela estava?” Era como se ela não existisse até o momento em que eu chego na Folha, e eu achei isso muito interessante, porque era algo que em um primeiro momento eu não entendi. Aí eu falei: “ah, então tem aqui uma coisa também.” Porque eu tinha trabalhado muito tempo em agência de publicidade, a primeira elite que eu conheci foi a elite da grana, e ali é muito escancarado, tudo que é ridículo na elite com grana… Principalmente o novo rico, né? Aquela elite bem, sei lá, Itaim, que tem de ridículo ali é escancarado. Mas na elite intelectual, a coisa é toda muito disfarçada, perfumada, então, “de onde ela saiu?” era uma pergunta que vinha com muitos disfarces, e eu achei isso extremamente interessante. Então, é um livro sobre isso, de onde eu saí.

PW:
Ah, mas é muito divertido e eu acho que muito bem escrito, e mostra essa galeria de personagens que você vai conhecendo na vida e que são cômicos. Eu acho que você traz retratos que todo mundo conhece, seja as pessoas da família, seja as pessoas que você vai conhecendo na publicidade, no jornalismo, nos apartamentos dos escritores de Perdizes, né? Você vai frequentando uma geografia que… Eu acho que esse título seu, eu fiquei pensando muito antes de ler o livro: “que título é esse?” Tem aquele seu livro famoso, Depois a louca sou eu, a louca, né? E aqui é A boba da corte. Queria te ouvir sobre a escolha desse título.

TB:
Sei lá… No colégio, em algum momento, a gente estudou o que era “o bobo da corte”, e eu fiquei fascinada por essa pessoa que tem esse poder gigante, porque tá ali colada na elite, faz rir a elite. Então, tem um certo lugar cativo ali, colado. Parece que é um lugar muito subalterno, parece que é um lugar de estar se humilhando pra fazer o rei rir, mas na verdade, ele é o único que pode rir do rei, o rei se diverte quando ele ri dele. Fora que, assim, o bobo da corte devia trazer pra casa as melhores fofocas, porque ele tava ali colado na fofoca principal que queriam saber, ali no babado quente, né? E eu fiquei muito fascinada com isso e guardei essa sensação, guardei essa informação, esse dia da escola em que a gente estudou o que era o bobo da corte, nunca mais esqueci. Muito tempo depois, eu fazia terapia — eu sou analisada há muito tempo — e eu tive a sorte de, um longo período da minha vida, eu fiz análise com a Noemi, que é uma professora maravilhosa, e eu lembro de falar pra ela que foi bem um momento da minha vida dessa chegada… Porque o que eu saquei, pra além do meu desejo de ascensão intelectual e social, eu saquei que não tinha muita escolha, porque a verdade é que existe sim facilidade se você pertence a um certo núcleo, a uma certa bolha. As pessoas te conhecem, as pessoas te chamam… E eu via isso de fora, antigamente, e eu era crítica a isso. Mas depois que você entra, você acha gostosinho, essa que é a verdade. Eu via de fora, quando eu era uma escritora, antes da Folha de São Paulo, antes da Companhia das Letras, quando eu só era chamada pra fazer texto de sexo na revista VIP, eu pensava: “poxa, eu acho que eu escrevo bem, por que eu não pertenço a esse núcleo dos escritores?” Eu olhava com um certo fascínio de querer pertencer, uma certa paixão por essas pessoas, uma coisa meio platônica, mas depois, um certo bode. É um núcleo que se retroalimenta. Que porcaria é essa? Aí, na verdade, é que depois que você entra, é uma delicinha. Não tô dizendo que seja só isso, mas tem um pouco disso também. Então, eu quis muito e fiz muito pra chegar nesse lugar desse pertencimento, até porque é um trabalho muito solitário você ficar em casa escrevendo, então eu quis muito isso. Só que eu percebia que eu nunca era — eu ainda acho que eu nunca sou —, e eu achava que isso podia ser ruim, mas isso é muito bom. Eu nunca vou esquecer quando eu comentei com o Otávio Frias, da Folha, que as pessoas perguntavam o tempo inteiro de onde eu vinha, ele entendeu antes de mim a pergunta e ele falou assim pra mim: “acho que em breve você vai entender que pergunta é essa. O que eu posso te dizer é que, justamente por você não vir de onde elas acham que você deveria vir, é que a gente vai te dar mais espaço e é o teu diferencial aqui, e é por isso que eu gosto do seu texto. Porque você pode bater um pouco no lugar comum desse pertencimento da elite intelectual…” Que segundo ele, gerava sempre um mesmo tipo de crônica, muito parecido. Agora, tem uma coisa, em A boba da corte na verdade surge mais forte, essa compreensão, quando, lá no começo dessa trajetória de pertencimento, eu começo a trabalhar com publicidade, conheço uma galera com grana, e aí sim frequento ambientes de dinheiro, que não necessariamente é o ambiente da grana que eu falo tanto no livro, Perdizes, Higienópolis, progressistas, grana, bibliotecas. Era uma grana, talvez, até mais direitosa — talvez não — era uma grana bem mais de direita. E aquelas pessoas eram muito ridículas, e eu podia rir delas. Então, nesse momento, muito forte o bobo da corte. Na elite intelectual, eu acho que aparece de uma outra forma, que é, como eu estava te dizendo, mais protegida, porque assim, já escutei de pessoas que o meu jeito, eu fazer muita piada, a maneira como eu escrevo, até o meu comportamento um pouco mais ZL, Tatuapé… Uma direita conservadora tosca, que é muito escancarada e óbvia, pode falar para mim: “nossa, você não é moça para casar.” Sei lá. A esquerda jamais diria isso, mas a esquerda diria: “nossa, em vez de você ser tão nervosa, por que você não medita e faz yoga?” Isso é mais ou menos a mesma coisa, é um comportamento que não encaixa, é uma mulher brava. Eu sinto que é mais ou menos a mesma coisa, só que é mais maquiado. Então, o bobo da corte, ele vai um pouco nesses dois lugares, só que em um, eu era esculachada com um pouco mais de obviedade, que era muito fácil de apontar, porque era muito escrachada e tosca.

PW:
Você falou do Otávio Frias, que é um cara que realmente gostava muito do seu trabalho, de você, e ele escreveu a orelha do seu livro, Depois a louca sou eu, e ele falava assim, eu vou lembrar de cabeça, que era uma coisa meio do tipo: “esse livro é uma oportunidade de abrir a cabeça, de desparafusar a cabeça da Tati Bernardi, olhar o que está acontecendo lá dentro.” Que é uma ideia boa. Mas eu acho que esse livro aqui tem outra coisa, a coisa da boba da corte me lembrou uma conversa que eu tive com o Rodrigo Naves, que é crítico de arte, e ele falou sobre a presença dos anões nos quadros de Velázquez, das, sei lá, trinta e poucas telas que o Velázquez pintou, vinte e oito têm anões, e são bobos da corte, e eles eram chamados lá na corte espanhola de hombres de placer, e porque eles agradavam o Rei, mas sobretudo, eles tinham trânsito, da cozinha até a sala do rei, que ninguém mais tinha, nenhuma pessoa da corte podia ir da cozinha à sala do rei, os cozinheiros não podiam, os nobres não podiam ir pra cozinha, nem o rei podia pisar na cozinha. Então, ele tinha de certa forma mais poder que o rei, e ele era fundamental nesse trânsito de informações, justamente, que ele era o cara que sabia de tudo, ele passava para o Rei a fofoca da cozinha, e passava para a cozinha a fofoca do que estava acontecendo lá no Rei. Então, é muito interessante, porque não é a figura da “louca”, é uma figura mais empoderada, para usar uma palavra aqui.

TB:
Exato, é, tem um… Gostei que você trouxe outro livro, parece que tem um crescimento de “louca” para “boba da corte”.

PW:
Eu acho que sim. Aqui a capa do outro livro mostrava aqueles remédios… “Vamos medicar essa pessoa!” E aí eu acho que esse novo livro já tem esse substrato de psicanálise que você fala, embora não seja uma coisa que apareça no livro, você não fica falando de psicanálise. E eu lembro que você falou também no podcast do Ricardo Araújo Pereira, que fez essa coisa, enfim, maravilhosa, chamado Coisa que não edifica nem destrói, que, inclusive está saindo agora em livro aqui pela nossa Tinta-da-China, fazendo um merchan rápido. Então, para o ouvinte saber e ouvir, que a Tati deu uma entrevista lá para o Ricardo, que ficou muito boa, e ela fala que você não gosta de cortes, não é verdade, Tati? Eu acho que isso também, o seu livro traz isso. Você, na verdade, você falou da delicinha, mas é importante o diminutivo, porque no final você não se encaixa.

TB:
A delicinha é o que me serve, não é a delicinha para eu passar cinco dias. E assim, dentro dessa elite, eu encontrei os meus, num primeiro momento.

PW:
Até eles lerem o livro! Aí eu quero ver. [Risadas]

TB:
Sim, sim.

PW:
Como é que vai ser? A galera vai vestir a carapuça? Você acha que vai ficar mais blasé?

TB:
Eu mandei… Que a minha editora não ouça, porque ela acha isso perigoso, e ela tem razão. Mas eu mandei esse PDF para tanta gente, tipo, antes até da última edição do livro. Por exemplo, teve uma coisa muito legal, mandei para o Gregório Duvivier, que é uma das pessoas mais brilhantes que a gente tem no país, e que é um grande amigo meu, que eu amo, que é um cara bem da elite. E assim, eu mandei para muita gente. Então, teve pessoas muito elite intelectual que amaram. “Puts, dei risada para caramba, conheço um monte de gente assim, me vi em alguns personagens.” Mandei para pessoas de outra realidade, completamente diferente da minha, que vieram da periferia, que são pessoas pretas, periféricas, e que também se divertiram. Recebi algumas críticas. O Gregório mesmo falou: “o livro é ótimo, mas volta para ele e tira as partes em que você se autoelogia, porque não precisa.” E eu achei isso brilhante. No primeiro momento, eu falei: “peraí, é um homem branco dizendo que eu não posso me elogiar, né?” Aí eu entendi que ele é maravilhoso, só estava me ajudando, porque de fato derrubava o parágrafo. Porque assim, quando eu leio Édouard Louis, e ele diz assim: “e naquela hora do recreio na escola, quando todos me humilharam, eu pensei, um dia eu vou vencer.” Sei lá, dá a entender que o livro dele é uma vingança, que ele ter se tornado um escritor conhecido, ganhou grana, foi morar em Paris, fez lá mestrado, doutorado… Quando ele diz que isso é uma vingança nos livros dele, eu amo aquilo, eu circulo, eu piro com aquilo. E acho que eu errei um pouco no livro, porque eu ficava tão excitada com isso, que aí eu terminava o parágrafo dizendo: “mas o fulano nunca ia fazer uma piada melhor do que esta minha.” Sei lá. E ele falou: “volta para o livro e tira toda a parte que você se elogiou, porque não precisa, você derruba o parágrafo.” E ele tinha toda a razão, ele falou: “o parágrafo já é engraçado.” Então essa parte foi importante. Fiquei feliz que deu tempo de tirar. O que acontece nesse livro e em outros livros que eu fiz, e na minha coluna da Folha também, é que os personagens, primeiro são resultado de uma grande mistura de cinco, seis pessoas, ninguém ali está exatamente como era. O namorado que eu cito no livro, ele é uma mistura de três, quatro. Eu peguei um pouco de história de cada coisa que eu vivi, até porque eu não namorei pouca gente da elite intelectual.

PW:
Você mandou para o seu advogado ou não? [Risadas]

TB:
Não mandei, mas eu mandei para uns dois ex-namorados. “Poxa, eu estou meio chateado, mas beleza, a gente continua a amizade, está tudo bem, pode publicar.” Os outros personagens também são misturados, eles estão com nomes que são fake, idade fake, estão protegidos, mas o que importa está ali, o que importa dizer está ali e parte de coisas que de fato me aconteceram.

PW:
Ah, muito bom. Eu acho que você traz isso com muita coragem e humor. Eu acho que o humor é a chave que nos traz uma coisa que… Por isso que eu não vejo vingança, mas talvez tenha um certo acerto de contas que você faz com mil pessoas aqui. Dá a impressão que você está conversando ali desde o seu tio, que você chamava de nazi, até o carinha que trabalhou com você na agência, o carinha que você namorou, que pegou lá nos anos 2000 e pouco. Quer dizer, tem um acerto de contas geral. E eu acho que você não faz o que você preconiza no seu curso lá, que é: fale mal, mas fale de você, aqui você fala mal dos outros, de alguma forma você está…

TB:
É, mas eu dou uma bela detonada em mim nesse livro também, eu ainda tenho um prazer muito grande em me detonar. Se é um livro que é para pôr o dedo na cara, no sentido de usar mesmo essas histórias para extrair humor, eu sempre me coloco nessa turma. Então, acho que tem um parágrafo ali que até foi um comentário, que vários amigos meus fizeram, que eu digo que eu me deslumbrei muito com dinheiro quando eu comecei a trabalhar em agência de propaganda, e que eu fiquei realmente ali meio abobada com aquilo tudo, porque imagina: eu saí lá da ZL, de repente eu vou fazer estágio no W/Brasil, eu chego lá e é outro mundo, parecia que eu de fato estava em outro país. Eu conto, tem um longo capítulo em que eu conto desse meu deslumbramento com dinheiro, e vários amigos meus, super de esquerda, politizados, falam para mim: “cara, é muito legal ter uma mulher de esquerda, feminista, dizendo ‘cara, eu gosto de dinheiro, eu deslumbrei com dinheiro.'” Ele falou: “isso é muito diferente dos livros, e é legal que tenha isso, você se zoando nesse lugar.” Então, ali eu acho também que eu pago, se eu estou expondo outras pessoas, ali eu me exponho bastante também, né?

PW:
É, mas você também, de outra maneira, se você se deslumbrou por dinheiro, você acabou escolhendo o lado mais pobre da elite, né?

TB:
Exato, é. Mas é porque eu acho que é um livro que eu me zoei o tempo inteiro como uma pessoa deslumbrada por poder. Quando eu entendi que, na verdade, o que me seduzia era o poder dessas pessoas intelectuais, eu só migrei. Eu narro um pouco esse meu deslumbramento com o poder, que talvez eu tenha chegado em algum lugar, eu olho e falo: “puxa, mas era só isso?” É também um livro sobre: “puxa, mas era só isso?” Quando eu consigo algum dinheiro, quando eu consigo algum reconhecimento como escritora, super legal, mas eu consegui isso e também não sou essa Coca-Cola toda. E hoje em dia eu convivo com pessoas, que eu era, nossa… E são pessoas normais. Sei lá, esse “ah, legal!” era só porque eu era muito novinha e deslumbrada, então tem um pouco de tirar sarro disso também.

PW:
Além da sua questão individual e da questão da Zona Leste e tal, nossa geração nasceu ali… Eu nasci em 78, a gente cresceu nos anos 90 na adolescência, num mundo super neoliberal, onde dinheiro era realmente uma coisa que parecia ser a grande realização de uma pessoa, definidora da sua… E ser escritor, sei lá, nos anos 90 e tal, tudo bem, tinha os escritores famosos, mas não era uma opção profissional para ninguém. Na verdade, até os filhos da elite podiam ser escritores, porque tinham patrimônio, porque tinham outro trabalho. Mas eu acho que nesse meio tempo, a profissão de escritor se profissionalizou, tanto no audiovisual… Você também é uma super roteirista, ganhou possibilidades também, não vou dizer de ganhar dinheiro nesse sentido mais vulgar, mas de ganhar a vida, né?

TB:
Sim, exato.

PW:
Você ganha a vida com a sua escrita, né, Tati? Isso é uma coisa maravilhosa, né?

TB:
Assim, primeiro eu tive que atirar para todo lado. Quando eu resolvi sair de propaganda, que de fato, quando eu comecei, era um lugar que ainda tinha muito dinheiro, hoje em dia eu escuto de amigos meus que continuaram publicitários, que isso diminuiu muito, mudou completamente, mas na época ali, eu comecei a trabalhar no final dos anos 90 em agência, a galera assim de 25, 26 [anos], ganhava cinquenta mil dólares, era um absurdo, sabe? Aquilo, de fato, eu fiquei muito deslumbrada com aquilo, porque era só fazer piadinha para papel higiênico, eu falei: “gente, que mundo!” E tem bastante isso no livro também, eu tiro um pouco de sarro disso. Mas quando eu resolvi sair de propaganda e falei para minha mãe: “eu vou ser escritora, vou ser roteirista.” E a minha mãe falou: “a sua família é pobre, você está agindo como uma pessoa irresponsável.” Ali, muito nova, eu entendi que eu ia ter que atirar para todo lado. E até hoje, mesmo eu já… Assim, eu já poderia viver bem como escritora, eu tenho o meu trabalho na Folha de São Paulo, eu tenho os livros, eu escrevo para teatro, por exemplo, para cinema, então, assim, isso já me daria…

PW:
Para a Quatro Cinco Um, onde você ganha uma bufunfa! Você ganha muito bem na Quatro Cinco Um.

TB:
Eu ganho uma fortuna na Quatro Cinco Um!

PW:
Exatamente.

TB:
Mas isso, só que eu não consigo parar, aí eu vou e invento seis podcasts, isso é um pouco aquela mentalidade da minha mãe falando: “você vem de família pobre, não se dê ao luxo de ser só artista.” Eu fico inventando um monte de coisa com essa percepção de atirar para todo lado, porque só o artista não sobrevive. E o meu livro é um pouco a raiva que eu tenho quando vem um herdeiro, uma pessoa da elite, que já nasceu na elite intelectual, falar que eu sou menos escritora, porque eu atiro para todo lado. “Porque o escritor mesmo é o cara que mora num quarto e sala e se dedica apenas à literatura dele, porque se ele gostar de dinheiro, ele é um vendido.” Bom, meu amigo, eu sustento a minha mãe numa casa, meu pai em outra, eu na minha e mais uns três parentes do Tatuapé. Se eu for brincar de quarto e sala… Eu tenho filha. Então, tem um pouco essa cobrança de o que é um escritor de verdade, se você tem um monte de podcast, você não é um escritor de verdade. Então, esse meu livro é um pouco da raiva que isso me gera também.

PW:
Sem dúvida, eu disse aqui que a profissão se viabilizou, mas ela é cheia também… Você tem que ter mil outros…

TB:
Se viabilizou justamente porque as mídias aumentaram, não é mais só o livro de ficção do homem branco. Hoje em dia é um monte de coisa, você pode estar em várias mídias, tem os podcasts, tem os videocasts, tem o cinema, em vários momentos da minha vida ele aqueceu, desaqueceu, mas eu peguei cinema aquecido em vários momentos. Então, isso também facilita você ganhar algum dinheiro como escritor.

PW:
Tem uma coisa que eu acho que é muito forte, que é essa crítica mesmo, à própria elite intelectual. Você fala desse pessoal mais Faria Lima e tal, mas fica claro que você não vai ficar ali naquele negócio. E já o mundo mais intelectual, porque você, naturalmente, como escritora, é óbvio que você vai se enturmar e ficar. Eu queria te falar, esse famoso “vale encantado”, salvo engano, foi a primeira vez que eu leio essa expressão num livro, eu já li muito na internet, né? Esse “vale encantado”, não sei se eu preciso explicar aqui para os ouvintes, mas é esse conjunto de escolas progressistas, final dos anos 70, anos 80, que são as escolas de São Paulo, onde a elite intelectual estudou, estudava, estuda, e que o maior símbolo é o Colégio Santa Cruz, que formou aí toda…

TB:
Todas as pessoas que frequentam minha casa hoje. [Risadas]

PW:
Mas e aí, o que você acha disso? Qual é a sua relação, por exemplo, com o Santa Cruz?

TB:
Eu acho isso muito curioso, porque eu tinha até uma piada… Num primeiro momento, quando eu venho para Perdizes, quando eu saio lá com 20 ou 21 [anos] do Tatuapé, começou a ficar muito longe voltar para casa. trabalhava, estudava, ainda tinha que atravessar a Radial Leste toda parada, todo dia. Eu conheço a galera Santa Cruz, mas a galera das agências de publicidade, que é completamente diferente dos meus amigos de hoje em dia. Então, eram pessoas que fizeram Vera Cruz, Santa Cruz, Bandeirantes, Gracinha, sei lá, e que tinha aquele sotaque típico. E quando eu venho para a Zona Oeste, me dói o ouvido e eu percebo que me dói porque eu estou, sei lá, um pouco invejosa, ressentida, que eu não pertenço a essas pessoas, mas é completamente diferente do… Isso é muito louco, o sotaque do Tatuapé, que é 15 minutos de carro se você não pegar trânsito, é completamente diferente. Então, era uma coisa mais anasalada, mais afrescalhada, e eu fico observando aquele sotaque e tentando entender o que ele causa em mim.

PW:
Aliás, uma pergunta típica de uma festinha de São Paulo: “onde você estudou?”

TB:
Você sabe que quando eu morei no Rio de Janeiro, eu perguntava para todo mundo no que eles trabalhavam, e eles odiavam essa pergunta. Eles falavam: “essa pergunta é muito paulistana.” E eu falava: “não, a verdadeira pergunta paulistana é ‘onde você estudou?'” Eu estudei num colégio chamado Augustiniano São José, que é um colégio de padres, que fica no Belenzinho, um colégio particular, mas que não era um colégio progressista, era um colégio católico, enfim.

PW:
Eu acho essa questão do “vale encantado”, é interessante sociologicamente falando, né?

TB:
Ela é muito interessante, eu acho que esse meu livro ainda vai gerar outras coisas, porque realmente é muito fascinante isso.

PW:
Essas escolas dos anos 80, né, Oswald, Equipe, que na verdade é a anterior, a de 68, elas são um pouco o fruto do Paulo Freire voltando do exílio. E aí, naqueles anos 80, a redemocratização, você funda novas escolas, porque, afinal, qual escola a gente queria? Uma escola religiosa ou uma escola pública que estava aos pedaços? E que foi a grande falha da redemocratização brasileira, de não conseguir reconstituir a rede pública do ensino médio, o ensino fundamental como era antes, pelo menos a qualidade. E, por outro lado, isso que é tão legal e que, pô, são escolas bacanas, que refletem sobre a questão brasileira e tal, por outro lado, elas reproduzem todas as perpetuações das maldades brasileiras, né? E essa coisa de…

TB:
Mas isso é… Assim, a minha filha já tem esse sotaque. A minha filha tem sete anos de idade. Não vou dizer, acho que é meio expor demais falar o nome do colégio, da escola dela, mas ela estuda numa dessas. Eu acho incrível, ela tem aula de francês, espanhol, inglês, português, muita aula de arte, muita aula de cinema. Ela discute Tarsila do Amaral e Anita Malfatti desde os cinco anos de idade, eu fico maravilhada, eu falo: “poxa, minha filha tem o que eu me ressenti por não ter.” Sabe? Ao mesmo tempo, ela já tem esse sotaquezinho, da elite com dinheiro intelectual. E eu tô formando alguém muito parecida com as pessoas que, quando eu cheguei na Zona Oeste, eu olhei e falei: “não é a minha turma.” Então, é uma loucura. É um pouco o que você tá falando, são os colégios progressistas, mas sai muita gente de direita dali, justamente porque são os colégios pra onde vão os ricos.

PW:
E tem progressismos e progressismo. Tem um colégio em que o… O trabalho de campo é no Vale do Silício. Não é caricatura, não, é de verdade. E tem colégio aqui, do “vale encantado” também, que vai pra Cubatão fazer trabalho de campo. Então, eu acho que tem um lado que… Eu queria muito ler uma resenha do seu livro da perspectiva da educação, porque eu acho que ele é um dos temas do seu livro. Eu acho que você está falando sobre a questão da educação e sobre como o Brasil falhou em democratizar a educação. Na verdade, é como uma boa educação, uma educação, digamos, progressista, com consciência social, que é tudo isso que essas escolas verbalizam, ela não se completou no país. Não existe o “vale encantado” para todos. E, ao mesmo tempo, essas escolas são lugares que perpetuam também, que a gente tem visto eclodir, problemas de racismo, problemas…

TB:
Eu fiz até uma coluna sobre isso, porque é muito legal a política de inclusão, mas ainda é pouca criança. Então, assim, tem uma criança preta na sala, tem uma criança periférica na sala. Na escola da minha filha, além de ter esse projeto de inclusão com crianças periféricas, tem também com crianças refugiadas, então é muito legal. Mas como tem uma por sala, ou uma a cada três, quatro salas… Tem uma questão também de grana da escola, enfim. É perigoso isso, mas continua perpetuando. Eu vi uma cena, Paulo, que é perigosíssima falar, eu vi uma cena, e a minha filha inclusa nessa cena… Numa dessas festas infantis, e que a criança da classe que é bolsista, na hora que deu uma briga ali, formou um grupo de oito crianças brancas apontando o dedo pra essa menina. E eu falei: “gente, o que fazer?” Sabe? Eram seis crianças, na verdade, eu conheço os pais, os pais são todos de esquerda, as crianças são super legais e minha filha, criança maravilhosa, tem pai e mãe de esquerda. Mas, assim, eu vi aquela cena e falei: “será que eu tô vendo coisa aqui? Não tô vendo coisa aqui.” E ninguém tá pronto pra ter essa conversa. Os pais falaram: “Tati, você tá vendo coisa onde não tem. Meu filho não é criado pra ser racista.” Já tá errado, todo branco é racista. Então, aí eu fui na escola conversar sobre essa cena e a escola falou: “gente, mas a mãe não percebeu, a criança tá ótima, você tá inventando coisa.” Eu não sei… Eu realmente, assim, eu acho que deveria ser obrigatório, primeiro ano de faculdade, ser Ciências Sociais pra qualquer curso que você escolher. Eu sou muito ignorante de entender isso tudo. E eu tô tentando falar no livro, eu tô tentando dar conta de um assunto que eu não sei falar sobre ele. Por isso que eu vou pro humor e pra histórias pessoais. Mas a minha vontade era parar tudo hoje e fazer uma formação em Ciências Sociais, porque eu acho que, além disso ser interessantíssimo, deveria estar no currículo da formação de qualquer ser humano.

PW:
E são coisas hoje que são centrais na resolução de qualquer conflito. O saber da antropologia e da sociologia hoje são… A gente achava lá nos anos 90 que era a decadência total. Você ser de humanas, fazer Ciências Sociais, era uma… Hoje, até mesmo pelas redes sociais e esses fenômenos, a gente precisa mais do que nunca das Ciências Sociais pra entender esse lugar que a gente tá.

TB:
É, e eu acho que esse livro é um convite pras pessoas da elite intelectual branca, que hoje em dia eu pertenço, pra gente se olhar e dar risada. Que isso eu também faço no livro, quando eu conto que contratei uma cozinheira e trouxe ela pro meio da sala e pedi que todos a aplaudissem. E aí, no meio dos aplausos, eu pensei: “meu Deus do céu, preciso nascer de novo.” Sabe? Porque aquela foi uma cena muito ridícula. E quando eu sento com o meu ex-marido e falo: “cara, a classe dela só tem riquinha, o que a gente faz? Vamos enfiar ela num teatro pra ela conviver com várias… Vamos!” Quando a gente vê, a gente tá fazendo matrícula num teatro aqui de Higienópolis, e as crianças da sala do teatro são mais ricas que as da escola. Então, assim, a gente é ridículo o tempo inteiro. Esse é o único olhar que eu consigo ter, porque, de fato, eu não estudei isso que eu tô falando. Mas eu consigo contar as histórias, e eu me sinto ridícula o tempo inteiro.

PW:
Eu acho que você tem uma lucidez que é, assim, nítida no livro. Tem uma coisa do humor que me lembrou muito, também, coisas do Nelson Rodrigues. Acho que por causa dessa geografia até sexual que tem na obra dele um pouco, essa questão da Zona Norte pra ele, né? Zona Norte e Zona Sul era um tema que ele trabalhou muito na obra dele toda.

TB:
É, ele gostava muito de jogo de poder, que é uma coisa que eu gosto muito, também, e que é o meu embate com o feminismo. Apesar de eu ser uma mulher feminista, eu acho que na hora da literatura, personagens que estão com tesão por jogo de poder é muito rico. Na vida pessoal, aí, é mais complicado. Mas isso tem muito na obra do Nelson Rodrigues, e eu piro nisso, eu acho fantástico.

PW:
E mesmo nessa questão da educação, tem aquela peça Sete gatinhos, tem a ver com escola. É uma família de um crápula que prostitui as filhas pra financiar uma formação perfeita pra mais nova, né? Aí, na escola, ela é surpreendida matando uma gata que [dá a luz a] sete gatinhos numa cena aterrorizante. E aí, enfim, essa elite, também, paulistana, que é perversa e que, ao mesmo tempo, põe seu filho em uma escola maravilhosa, e o filho volta cometendo um ato racista, e você fica assustado. “Nossa, como é que o meu filho fez isso?” É uma coisa que é muito incômoda, né? Porque a perversidade, a gente não consegue acabar com ela, né? Não tem jeito. Não adianta você pôr o seu filho na melhor escola.

TB:
É, não é só a perversidade, é a diferença mesmo. É o privilégio. A gente ri dele, fala mal dele, mas usufrui dele o tempo inteiro. Então, assim, eu não consigo imaginar, agora, eu tirando minha filha dessa escola, que ela tá falando quatro línguas e tendo aulas incríveis de cinema e de arte, e colocar ela numa outra que ela vai conviver com crianças de outras classes sociais, mas, de repente, eu detesto essas escolas que “formam o próximo CEO”. Esse discurso eu odeio, mas a real é que a gente, apesar de criticar e odiar, tá imersa nesse discurso. Eu quero minha filha competitiva no mercado de trabalho, pra uma universidade. Coloquei no “vale encantado”, então, é muito complicado. A gente perpetua.

PW:
Bom, é um puta livro, Tati. Parabéns, ele tem muito humor. A gente tá falando muito sério aqui dele, mas eu acho que isso não traz todos os sorrisos e gargalhadas que um leitor tem durante a leitura, tem várias anotações culturais e sociais e elementos e coisas, tem muita piscadela pro pessoal da nossa geração, né? Eu fiquei me perguntando se as pessoas mais jovens sabem quem era Myriam Rios, [risadas] que é uma das suas referências, né? Conta pra gente quem era a Myriam Rios. Ou quem é, né? A Myriam Riostá por aí ainda, né?

TB:
[Risadas] Será que eu vou cometer agora um erro horrível aqui? Mas eu acho que eu coloquei a Myriam Rios no livro porque em algum momento ela saiu contra o sexo anal, não teve isso?

PW:
Exatamente. Ela fala que… E você fala da sua mãe. Você fala assim: “a minha mãe, assim como a Myriam Rios, era contra o sexo anal.”

TB:
Contra o sexo anal, né? Eu fui criada pela minha mãe dizendo pra eu jamais cometer o ato sexual anal. Então, isso é muito engraçado. E aí lembrei de Myriam Rios. Eu acho muito engraçado que enquanto as minhas amigas aprendiam a sentar com a coluna absolutamente ereta, cortar a carne a favor da fibra e usar os talheres do peixe, mamãe me ensinava a não fazer sexo anal. Cada um teve a educação.

PW:
Isso é muito divertido. O sexo anal aparece mais de uma vez no livro como motivo de grandes piadas maravilhosas. Mas eu queria te perguntar também… Porque isso é uma essência do humor, né? Até voltando ao falar do Ricardo, ele fala, tem um capítulo do livro dele chamado Sobre xixi e cocô. Por que que a gente afinal tá falando sempre de xixi e cocô, né? O humorista, o mais refinado deles, acaba falando desse assunto, alguma hora. E o sexo anal, ele traz uma coisa que eu acho que tem muito aqui no seu livro, do humor popular, você tem um humor que é de natureza popular. Tem uma hora que você fala: “ah, italianada, né?” Essa coisa meio escrachada, desbocada, que realmente não é de bom tom nas melhores mesas da Zona Oeste, né? Eu me lembro de ir numa peça uma vez, quando eu era pequeno, chamada Porca miséria, que era sobre os imigrantes italianos e eu fui com um amigo e tal. E eu lembro que eu achava que eu não podia rir daquelas piadas, porque elas eram muito vulgares. Elas eram piadas meio da TV, né? E eu queria te perguntar, por que que você não foi pra esse lado também, por exemplo, de, tipo, Paulo Gustavo, de ser uma humorista popular no sentido de o seu público ser… Eu acho que até é, né? O filme da louca.

TB:
Sim, acho que pra cinema eu fui um pouco mais pra esse lado. Eu acho que… Eu tenho no meu trabalho, assim como eu tenho dentro da minha cabeça, um desejo sempre de misturar. Então, por exemplo, nos meus podcasts, que a maioria tem psicanalista, eu sempre dou um jeito de enfiar um psicanalista em tudo que eu faço. Eu acho que eu tenho esse prazer em pegar uma pessoa muito acadêmica e dar uma quebrada nela e isso virar um podcast de humor. Mas é um podcast de humor e de repente eu vou começar a falar de cocô, mas é com um professor da USP que foi ali pra falar, sei lá, de Lacan.

PW:
O Freud falava de cocô. 

TB:
[Risadas] Exato. É legal porque vários desses psicanalistas tinham programas de rádio, eles próprios eram populares. Eu lembro quando, acho que a vez que eu fui mais cancelada na vida, foi quando eu inventei um podcast com o Christian Duker e o Twitter enlouqueceu. “Como é que esse cara acadêmico tá com essa mulher que não é acadêmica?” De novo aquela coisa “de onde ela veio?”, né? “Ela não fez as escolas e as faculdades que ela deveria ter feito.” Aí a resposta do Christian Duker foi maravilhosa, ele respondeu: “eu só tô com ela porque eu tenho dívida de jogo.” Eu amei. Ele entrou total ali na piada. E a outra resposta que ele deu foi: “ué, vocês estão me reclamando que eu tô andando com uma louca? Mas psicanalista gosta de andar com louco.” Então ele cagou praquilo, né? Só pra… Já que estamos falando de cocô. Mas eu adoro essa mistura, poder quebrar, sabe? Misturar. Então, pra cinema, eu confesso que eu peguei a onda do cinema comedião e foi divertido, porque eu também consigo transitar por esse lugar, e era uma época que tinha uma oferta de grana pra isso, e eu me divertia fazendo, mas meu prazer não tá ali, meu prazer tá nessa mistura, que é um pouco o que eu tento fazer nos livros, na crônica. Nunca vai ser o texto de uma pessoa sisuda ou intelectual, mas também nunca vai ser um escracho completo sem… Eu gosto da misturinha.

PW:
Tá muito bem dosada aqui, eu acho, no livro. E vamos ver as reações da galera vestindo a carapuça, tô curioso pra ver isso. Mas é isso, Tati. Eu acho que um livro muito legal, faz pensar e faz rir também. É raro a gente ter livros que façam as duas coisas.

TB:
Obrigada.

PW:
Então, eu vejo aqui você plenamente no domínio da sua escrita e da sua pessoa também. Eu vi muito do Molière no seu texto, até porque ele trabalhava muito com essa coisa da corte e das imposturas intelectuais, o poder do médico, o poder do intelectual, do conhecimento e tal. Então, eu achei que tem muito a ver com o Molière. Você chegou a ler o Molière? 

TB:
Não, eu já dei um monte de entrevista e essa referência já apareceu. Eu preciso ir atrás disso até pra me preparar pra próxima vez que falarem. Nunca li, nunca li.

PW:
É uma delícia e eu acho que ele traz muito isso. E ele também é esse personagem que frequenta a corte, mas que também não pertence àquilo. Essa coisa da corte também, voltando à educação. Uma coisa que me contaram outro dia é que o INSPER, a famosa faculdade, significa… Não sei se você sabe o significado de INSPER. É inspirar e pertencer.

TB:
Olha, não sabia não. Eu achava que era Instituto Nacional de…

PW:
De pesquisas, de não sei o quê.

TB:
De pesquisa!

PW:
Exatamente, e não. É inspirar e pertencer, que eu acho que traz um pouco desse espírito que você faz do livro, essa ideia de um pertencimento que, na verdade, é um pertencimento de classe. É um pertencimento que não é o pertencimento como deveria ser, na verdade.

TB:
Exato. Se eu tivesse esse pertencimento real, eu teria lido, por exemplo, Molière de cabo a rabo.

PW:
Isso é porque você não estudou na França quando você estava na adolescência.

TB:
E nem no “vale encantado”, que na terceira série vocês já estavam lendo Molière.

PW:
Por aí, por aí. Mais ou menos isso. Muito legal, Tati. Parabéns pelo livro. A boba da corte está chegando nas livrarias agora pela editora Fósforo aqui no Brasil, em Portugal vai ser em junho, lá na Tinta-da-China.

TB:
Tinta-da-China.

PW:
Maravilha. Como é que é? Você foi para Portugal recentemente e você me parece que é adorada por lá, né?

TB:
Nossa, eu já fui para Lisboa a trabalho umas quatro, cinco vezes, é a maior alegria da minha vida. Essa última vez que eu fui, fiquei impressionada, como os podcasts de psicanálise que fazem sucesso lá. Eu acho que desse monte de brasileiro que foi morar em Lisboa foi muito psicanalista. E a psicanálise não era forte lá, só que eles começaram a trabalhar lá. Então Lisboa, que é uma cidade pequena, se apaixonou por psicanálise, e as pessoas que se apaixonaram por psicanálise começaram a ouvir tudo do Christian Dunker, da Vera Iaconelli e chegaram nos meus podcasts. Então, eu fui lançar um livro lá e tinha uma fila gigante, eu falei: “meu Deus, eu sou muito lida aqui.” E as pessoas vinham e falavam: “ó, comprei seu livro para saber sobre o que você escreve. Mas, na verdade, eu estou aqui pelos seus podcasts.” Aí eu ia ficar meio chateada, mas eu pensei: “não, não posso ter raiva de mim mesma na outra mídia, eu sou essa mistura.” Então, eu também sou a pessoa que fez o podcast. Muita gente foi comprar o livro por causa do podcast, do Meu inconsciente coletivo, que eu faço para a Folha, e é muito legal. Sempre que eu vou lá, eles leem muito, eles são muito interessados na gente. A gente deveria ser mais interessado na cultura deles também.

PW:
Mas está acontecendo. E eu acho, até via podcasts. O Rui Tavares, né? Também o livro que a gente publicou aqui foi um sucesso no Brasil. O Ricardo agora também, é um livro que nasceu como podcast. E eu acho que esse trabalho seu com os podcasts de psicanálise é fundamental, era uma preocupação do Freud, a popularização.

TB:
Sim. Democratizar o que ele estava… Tanto que você lê os livros do Freud sem nunca ter estudado psicanálise, você entende tudo. Ele fez para ser democratizado.

PW:
Então, acho que isso é uma coisa importantíssima. E em Portugal vai ser incrível se a gente conseguir fazer algo como os argentinos conseguiram fazer aqui no Rio, São Paulo, que é trazer uma cultura psicanalítica, e quem sabe… Eu tenho um amigo em comum com você, inclusive, portuguesa, que um dia eu falei: “ah, estou indo para análise.” Ela falou: “mas o que é isto? Aqui não temos disto.” Ela falou. É, tipo… [Risadas]

TB:
Mas está começando a ter bastante.

PW:
É, isso é bem legal.

TB:
Eles estão bem apaixonados por psicanálise.

PW:
Muito bom, Tati. Parabéns pelo seu trabalho todo também com os podcasts. Parabéns. Sucesso com o seu livro.

TB:
Muito obrigada, Paulo. Adorei. Adoro participar aqui da 451 MHz, que é o meu segundo podcast mais ouvido. O primeiro nesse momento tem sido o Calma urgente, que eu estou apaixonada, mas o seu já é ali, ó, grudadinho.

PW:
Excelente. Estou em ótima companhia com o Gregório, o Bruno e outros amigos do “vale encantado”.

TB:
Sim.

PW:
Muito Obrigado, então, Tati, e um beijo para você.

PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451 MHz, que traz o melhor da literatura LGBTQIA + de todos os tempos. LGBTQIA + significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. A cada episódio, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores. 

O quadro de hoje traz uma dica da escritora Aline Bei, que vai estar presente lá n’A Feira do Livro 2025 e é autora de O peso do pássaro morto, que foi publicado pela editora Nós em 2018, e também de Pequena coreografia do adeus, que foi publicado pela Companhia das Letras em 2021. Aline indicou As lágrimas amargas de Petra von Kant, que é uma peça do cineasta e dramaturgo alemão Rainer Werner Fassbinder, e foi publicada em uma nova edição pela editora Cobogó, em tradução do Marcos Renaud, em 2024.

Aline Bei:
Olá, tudo bem? Aqui é Aline Bei e eu gostaria de indicar uma peça maravilhosa chamada As lágrimas amargas de Petra von Kant, que é do escritor alemão Rainer Fassbinder, ele que foi um dos percursores do novo cinema alemão, que tem uma influência da Nouvelle Vague, e essa peça estreou em 1971. Em 1972, ela se tornou filme, e agora ela foi publicada pela Cobogó, com uma tradução de Marcos Renaud. 

E As lágrimas amargas de Petra von Kant conta a história de Petra, uma estilista famosa, conceituada, culta, que está passando por um período de pós-divórcio, e ela conhece uma mulher misteriosa, pela qual ela se apaixona perdidamente, amargamente, a Karen. E a Petra também tem uma assistente, chamada Marlene, que é uma figura central e emblemática nessa peça, um grande símbolo das camadas ocultas desse texto clássico maravilhoso. 

E essa edição da Cobogó tem duas versões da peça, a versão original e a adaptação que a companhia BR-116 fez desse espetáculo que está, no mês de março, em cartaz em São Paulo, com a Bete Coelho no papel de Petra von Kant. Então, recomendo a peça, a leitura da peça, recomendo o espetáculo e também o filme. E é isso, um beijo grande.

PW:
Então, essa foi a dica da Aline Bei, As lágrimas amargas de Petra von Kant, publicado pela Cobogó em 2024.

Siga o 451 MHz e ouça no seu aplicativo favorito: Apple Podcasts, Spotify, Deezer, Amazon Music, Castbox, YouTube. Saiba mais sobre este episódio e confira outras entrevistas sobre grandes livros e grandes autores aqui.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza
Edição e mixagem: Igor Yamawaki
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais
Para falar com a equipe: [email protected]