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Transcrição: Lira Neto no 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #133 do 451 MHz: um bate-papo sobre Oswald de Andrade com o biógrafo Lira Neto
12dez2025 • Atualizado em: 10mar2026No 133º episódio do 451 MHz, o convidado é o escritor e jornalista Lira Neto, que lançou a biografia Oswald de Andrade: mau selvagem (Companhia das Letras). Na pesquisa de mais de três anos para escrevê-la, Lira mergulhou na vida, nas contradições e nos excessos do escritor modernista, um dos líderes do movimento artístico que renovou sobretudo a literatura e as artes plásticas brasileiras nos anos 20 e 30 do século passado — e que teve seu ponto de virada na Semana de Arte Moderna de 1922. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi! Está começando o centésimo trigésimo terceiro episódio do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Duas vezes por mês, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Lira Neto [LN]:
Eu achei que era necessário colocar luzes sobre momentos não tão iluminados da vida dele. Porque, inclusive, tentar dissociá-lo simplesmente do ativista de 1922, para mim, é muito pouco resumir Oswald de Andrade a 1922 e ao próprio modernismo. Oswald de Andrade é muito maior do que isso.
PW:
Você acabou de escutar o escritor e jornalista Lira Neto. Eu ainda vou falar mais sobre ele, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio do 451 MHz é realizado com o apoio da Lei Rouanet e da Companhia das Letras.
O Lira Neto é conhecido pelas biografias de grandes personalidades da política e da cultura brasileira que ele escreveu. Com certeza, ele tem na casa dele um caderninho onde ele vai anotando uma lista daquelas biografias que precisam ser escritas ainda. Entre as biografias que o Lira já escreveu, tem o Getúlio Vargas, a cantora Maysa, o Padre Cícero, o José de Alencar e o Castelo Branco. E agora, essa lista acaba de ganhar mais um nome de peso: o escritor Oswald de Andrade. O Lira Neto acaba de lançar, pela Companhia das Letras, a biografia Oswald de Andrade: mau selvagem. No livro, ele mergulha na vida, nas contradições, e nos excessos de um dos maiores nomes do modernismo brasileiro, que até hoje influencia muita coisa que a gente lê, e ouve, e assiste. Nessa conversa, o Lira compartilhou detalhes sobre o processo de pesquisa e escrita desse livro, falou sobre os cadernos inéditos que ajudaram ele a revelar um novo olhar sobre o Oswald. A gente também conversou sobre o peso que as ideias do Oswald ainda tem na cultura brasileira e nos meios acadêmicos. Se você quiser entender melhor quem foi o Oswald de Andrade, ou conhecer mais essa figura, esse episódio é para você. Então, vamos lá para a primeira parte da conversa com o Lira Neto.
PW:
O Lira Neto está voltando aqui ao 451 MHz em grande estilo. Você veio primeiro falar aqui sobre aquele seu livro, que virou já um pequeno clássico da oficina literária, que é o livro sobre como escrever uma biografia [A arte da biografia: como escrever histórias de vida], e agora você mostra o que você estava fazendo ao mesmo tempo. A minha primeira pergunta era essa, se são dois livros paralelos, esse aqui do Oswald de Andrade, que você está lançando pela Companhia das Letras, se você escreveu ao mesmo tempo que você estava escrevendo, ou trabalhando no livro das biografias.
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LN:
Bom, Paulo, é um prazer enorme voltar aqui. Na verdade, Paulo, houve momentos de superposições, sim. Eu estava já na pesquisa do Oswald de Andrade e resolvi escrever ali aquele livrinho a partir das minhas notas de aulas dos cursos que eu vinha dando sobre escrita criativa de não-ficção. E aí pegou um pouco, sim. E, na verdade, é porque eu nunca trabalho num único projeto sozinho. Ao mesmo tempo, eu trabalho sempre… Tem uma fila de projetos. [Risadas]
PW:
Pois é!
LN:
Agora mesmo, por exemplo, já estou iniciando a pesquisa do próximo livro, e assim por diante. Então, os trabalhos, por vezes, realmente são paralelos.
PW:
E é “Oswáld” ou “Ôswald”? Porque aqui em São Paulo, tanta gente fala “Ôswald”. É uma velha questão. O Antônio Cândido já escreveu sobre isso, queria que você, biógrafo, falasse um pouquinho dessa controvérsia de pronúncia do nome do nosso biografado.
LN:
Eu tenho uma historinha pessoal sobre isso, e que envolve o Antônio Cândido. Eu era um jovem universitário lá em Fortaleza, quando o Antônio Cândido foi dar uma palestra. E eu era ali poeta marginal, poesia, bibliógrafo. E levantei a mão para fazer uma pergunta e… “Professor, o senhor foi muito amigo do ‘Ôswald’.” Ele: “para agora, para agora! Não existe ‘Ôswald’, é ‘Oswáld’.” E aí ele me deu aquela aula ali. Desde a juventude, então, eu venho dizendo “Oswáld”, que é como ele se chamava, como ele gostava de se chamar. Na verdade, os amigos o chamavam de Oswaldo. E a Marília, a filha do Oswald, que infelizmente faleceu há pouco tempo, ela me dizia: “eu não sei quem é esse Ôswald.” E ela explicava que essa pronúncia “Ôswald” é dos anos 70 para cá. É quando houve a redescoberta ali, depois do Zé Celso, da montagem do Zé Celso, da recuperação pelos irmãos Campos e pelo tropicalismo, então se inventou aí esse “Ôswald”. Porque a vida toda ele foi “Oswáld”. Não estranhem quando eu falar “Oswáld”, porque já está…
PW:
Pois é, isso é quase uma distinção de pronúncia de quem conhece ali um pouquinho da história. Aqui em São Paulo, talvez por causa dessa escola, né? Que todo mundo chama de “Ôswald”.
LN:
Exatamente, minhas filhas estudaram no Oswald. Tinha um único professor, professor de literatura, professor Adriano, que dizia, gente, não é “Ôswald”, o nome do colégio é “Oswáld”.
PW:
Bom, primeira controvérsia já esclarecida, entre muitas outras de calibre mais grosso. O próprio Antônio Cândido fala sobre isso. Ele começa esclarecendo essa questão da pronúncia para falar: “olha, depois essas outras polêmicas vêm aí.” E o seu livro entrega essas polêmicas todas. Pelo primeiro parágrafo, inclusive, né, Lira? Eu queria te perguntar, essa abertura do livro é uma cena de masturbação. Você, um biógrafo extremamente corajoso, você colocou o seu biografado se masturbando no primeiro parágrafo. Que decisão foi essa?
LN:
Eu detesto biografias que começam assim: “fulano de tal nasceu no dia tal, de tal, de tal na cidade tal.” Isso é a pior maneira de se começar uma narrativa, né? Então, assim, eu sempre busco introduzir o leitor na narrativa em um episódio que, seja na juventude, seja na maturidade, ou seja na infância, como é o caso, revele já de cara o biografado. Entregue já para o leitor quem é esse biografado. E no caso do Oswald de Andrade, que era um homem com uma profunda carga de sensualidade, às vezes, inclusive, de forma até agressiva, eu achei por bem colocá-lo naquilo que ele diz que tenha sido a sua memória mais remota de infância. E a memória mais remota de infância dele é uma ereção que ele teria tido aos quatro, cinco anos de idade, né? Então eu achei aquilo tão forte a ponto de já sinalizar para o leitor: “olha, você está diante de um homem cuja sexualidade não era só intensa, mas sempre foi precoce.” Então, é algo que vai permear toda a trajetória do biografado e, portanto, toda a narrativa do livro.
PW:
Pelo que eu entendi, não era apenas uma ereção. Ele próprio cita, logo no primeiro parágrafo mesmo, você fala…
LN:
É, porque ela passou a ser estimulada, né? Ele teve uma ereção, segundo ele, isso é memória dele, ele teve uma ereção espontânea e depois passou a estimular isto. Ele começa a descobrir a sexualidade de forma muito intensa. E é interessante que eu já coloco aí que essa descoberta precoce da sexualidade convivia com o rigor da religiosidade do lar em que ele nasceu, dos pais. Então tem esse contraste já desde cedo e já desde o início do livro, essa contradição entre um homem que era profundamente libertário em todos os sentidos, inclusive sexuais, e, ao mesmo tempo, era um homem de uma formação católica muito rígida. Ele que seria um anticlerical, isso é curioso… Entre as várias contradições do Oswald de Andrade, ele era um anticlerical que fazia promessa para Nossa Senhora, né? Então, é algo que está lá já como sinalizador para o leitor.
PW:
Sim, lá em Paris dizia que ia missa para os pais, nas cartas, né? “Estou indo à missa todos os dias.” Ele dizia.
LN:
É, exatamente. Ele tinha essa relação em que ele dizia: “eu guardei todas as taras da minha formação cristã.” Então, ele que fala muito nos textos dele contra o clero, contra a igreja, contra os padres. Tinha um trauma de juventude que o pai dele deixou muito dinheiro para os padres, né? Ele achava que aquilo não tinha sido justo para a própria família, no caso, para ele. Então, essas contradições vão aflorando ao longo da narrativa. Era um homem que era, ao mesmo tempo, lírico e profundamente sarcástico, de um humor violento, de um humor que chegava, muitas vezes, a machucar aquelas pessoas com quem ele convivia, os amigos mais próximos, as mulheres com quem ele conviveu. Ele levava a sério aquele chavão de não perder a piada, mesmo sob o risco de perder o amigo.
PW:
Ele vai colecionando inimizades, né? O subtítulo do seu livro poderia ser “como fazer inimigos e influenciar pessoas”, né? [Risadas] Porque é uma loucura como ele vai se indispondo.
LN:
É.
PW:
O primeiro companheiro de viagem dele para Paris já briga na viagem e vai aprontando mil e uma confusões. Lira, quantos caracteres tem o livro aqui? São 500 e tantas páginas.
LN:
Boa pergunta, Paulo. Eu achava que o livro ia ficar menor. Era até o desejo do meu editor, Luiz Schwartz, que o livro ficasse menor. Porque hoje ele tem uma variável terrível, que o livro, quando passa das 350 páginas, o preço vai muito lá para cima, né? O papel é muito caro. Então, o Luís tinha me aconselhado: “faz aí um livro de 300 páginas no máximo.” E eu fui com essa intenção, mas só que a pesquisa foi tão vasta, foi tão intensa, eu descobri tanta coisa, tive acesso a tanto material, a tantas fontes primárias, que não deu para guardar esse limite, né? Eu ultrapassei. O livro tem 500 páginas, contados logicamente aquilo que eu costumo fazer, que são as notas e todas as referências às fontes. A base da pesquisa é o acervo do Oswald de Andrade, que está sob a guarda do CEDAE, do Centro de Documentação Alexandre Eulálio, lá da Unicamp. São cerca de 4 mil documentos, incluindo muitos escritos íntimos, né? Escritos além das cartas, que são preciosas, mas também documentos memorialísticos, assim, que ficaram inéditos. Então, é um livro, realmente, que ficou grande. Mas eu penso que é um livro fácil de ler, porque é muito intenso. A vida dele é muito tumultuada, né? Tem muitos episódios.
PW:
E ele escreveu muito, deixou muito testemunho biográfico, né? Assim, você deve ter se deliciado com isso também, de pegar na obra toda ali e construir… O livro é muito bem costurado, de citações. Quase tudo que você diz tem algo que ampara ali com uma frase dele próprio, inclusive.
LN:
É, porque ele era muito autorreferente. Então, talvez ele fizesse já o que hoje está na moda chamar de “autoficção”, porque ele brincava um pouco com esses limites do literário e do real. Tudo o que ele escreveu, de certa forma, é autobiográfico. Claro que a biografia escrita e subvertida pela mão do ficcionista, no caso dele. E tudo o que ele viveu, de certa forma, também virou literatura. Sempre há, realmente, uma referência na obra dele. E outra coisa é que ele deixou muitos cadernos, deixou muitas cadernetas, deixou muitas anotações. E para quem queira e para quem almeje trabalhar com crítica genética, o Oswald de Andrade é um prato cheio, porque ele guardou todos os seus cadernos dos originais e as muitas transformações que esses originais foram passando ao longo do tempo. Ele demorava muito a escrever. Um romance, por exemplo, como Memórias sentimentais de João Miramar, que levou anos e anos para fazer. E é muito impressionante você comparar a primeira redação com a última, a publicada. Como ele modificou, como ele partiu de uma narrativa muito convencional, com muito apelo descritivo e tudo mais, e como depois ele vai implodindo esse original, vai fazendo uma espécie de composição cubista do texto até a versão que ele julgou pronta para ser publicada. É um parque de diversões para quem gosta de entender o processo criativo de um autor. Então, eu tive muita sorte de ter acesso a esse material.
PW:
Você está falando do processo de escrita do Oswald… No final, lembra um pouco a coisa do Mário de Andrade de ter guardado tudo, de ter arquivado sabendo que aquilo tinha um valor futuro — certamente ele tinha essa consciência. E eu queria saber de você, qual a diferença da primeira versão para a última? E como é que você foi desbastando esse texto, que imagino que deve ter sido doloroso esse processo. Enfim, acho que Oswald não cabe em 300 páginas, provavelmente. Acho que a constatação que você e o Luiz Schwartz devem ter feito no final das contas é essa. Mas eu queria saber um pouquinho, desde quando você está trabalhando nesse livro?
LN:
Uma vez perguntaram para a minha conterrânea Rachel de Queiroz se ela gostava de escrever, e ela disse: “não, eu gosto de ter escrito.” Ou seja, o processo é realmente sempre doloroso. No caso deste livro, eu não tive muito problema com corte. Como eu já tinha essa pré-determinação de escrever um livro que não passasse das 350, que acabou chegando às 500, significa que eu não tomei muito cuidado com esse conselho de meu editor. Exatamente pela profusão de episódios e pela imensidão do material com o qual eu pesquisei. Mas é um livro que eu venho trabalhando nele já há algum tempo. Eu estava em Portugal ainda, eu passei quatro anos em Portugal, fui fazer um doutorado e lá comecei a ler Oswald de Andrade. Reler, na verdade, Oswald de Andrade. Oswald de Andrade foi meu herói da juventude, toda a minha geração de poetas dos anos 70, anos 80, tinham Oswald de Andrade como referência no livro. Ele era o cara que tinha introduzido o coloquialismo, o cara que tinha optado por desvios da norma culta. Então, isso para a gente, para a minha geração, era formidável. Mas eu reli Oswald de Andrade quando estava nesses quatro anos fora do Brasil e ali foi que eu decidi que iria biografá-lo porque ele virou tema, inclusive, da minha tese que eu acabei não escrevendo, acabei voltando para o Brasil, e não publiquei e não escrevi a tese. Cumpri todos os rituais acadêmicos, menos a tese, que era exatamente a escrita de Oswald de Andrade numa perspectiva decolonial, pós-colonial, conforme queiram. Porque eu estava em Coimbra, no Centro de Estudos Sociais, que discute muito a questão da pós-colonialidade. E eu lendo Oswald de Andrade disse: “cara, tudo que vocês estão falando aí, Oswald de Andrade já falava nos anos 20, nos anos 30.” Esse era o meu objeto e logo percebi que ele era um homem biografável, bastante biografável. Por mais que boa parte da sua vida, ou alguma parte da sua vida seja já conhecida, já seja palmilhada, Semana de Arte Moderna de 1922, por exemplo. Mas eu achei que era necessário colocar luzes sobre momentos não tão iluminados da vida dele. Inclusive, tentar dissociá-lo simplesmente do ativista de 1922. Para mim é muito pouco resumir Oswald de Andrade a 1922 e ao próprio modernismo. Oswald de Andrade é muito maior do que isso e o livro tenta mostrar isso. Outros momentos, tanto do engajamento político dele nos anos 30, a antropofagia que ele retoma ao final da vida… Antropofagia, ele pensa ali no final dos anos 20, mas ao final da vida, depois de uma série de leituras mais densas, de leituras filosóficas, ele vai aprofundar esses conceitos que hoje, inclusive, na universidade, no meio acadêmico, a antropofagia é uma chave maravilhosa nos estudos culturais. Se discute muito culturas híbridas, se discute muito essa questão das importações e dos contrabandos culturais, de tudo isso. E Oswald de Andrade tinha na antropofagia uma metáfora muito mais sofisticada, muito mais complexa. Porque a cultura híbrida… O que é híbrido? Híbrido é a união de duas espécies que gera um terceiro que é infértil. E Oswald de Andrade propõe a devoração do outro, propõe a devoração das culturas, ou seja, a cultura não pode se isolar, a cultura não pode se museificar, ela tem que viver de empréstimos alheios e de contrabandos mesmo. Acho que essa é uma boa palavra para definir. Então, penso que Oswald de Andrade tem muito mais a colaborar, não só nos estudos literários, mas nos estudos culturais. É por isso que eu percebi que ele seria um bom biografado. E aí eu comecei. Eu acho que ali devo ter escrito esse livro há uns três anos, três anos e meio, mais ou menos.
PW:
O que eu queria saber, assim, entre tantos aspectos e tantas facetas, você falou do Oswald de 22, o comunista, o filhinho de mamãe, o filhinho de papai, que tem ali muito no começo do livro, que é muito saboroso. Mas tem esse cara mulherengo e também um tanto predador sexual, em algum sentido, que aparece no livro sem ocultações. Eu queria saber como que foi falar disso em tempos do Me Too, você tendo em perspectiva, sei lá, a cultura do cancelamento, de um cara como ele. Isso passou pela sua cabeça como jornalista de alguma forma e mudou de alguma maneira a forma de escrever o livro ou não? Se despiu desse véu, vamos dizer assim, contemporâneo para poder chegar no cara?
LN:
Eu acho que o biógrafo não pode ter medo de que o seu biografado seja cancelado, porque você vai expô-lo em todas as suas contradições, em todas as suas imperfeições. Então, no caso de um sujeito como Oswald de Andrade, que teve relacionamentos amorosos bastante tumultuados e bastante verticalizados, em que ele próprio assumia… Ele se dizia um monogâmico em série, mas, na verdade, era mentira. Ele não era monogâmico nunca, ele era um homem incapaz do exercício da monogamia. Isso está no livro, logicamente, não no sentido de fazer fofoca, mas no sentido de compreensão e de apresentação do personagem. E o próprio Oswald já foi cancelado na sua época, enquanto vivo, ele morreu cancelado. Ele morreu exatamente por isso, por causa dessa briga eterna com o mundo, com os amigos e com tudo mais, ele morreu esquecido, ele morreu no ostracismo, ele morreu, inclusive, pobre. Brigado com Deus e o mundo, com os livros fora de catálogo. Às vezes me espanta, Paulo, o espanto que as pessoas têm em relação a como é que o mundo funcionava até bem pouco tempo. Até bem pouquíssimo tempo. E Oswald de Andrade, logicamente, era um homem do seu tempo. E era sempre um exagerado, superlativo em tudo. E nessa questão afetiva, amorosa, ele seria muito bem o que hoje, atualizando o sinal, sem querer cair em algum risco de anacronismo, mas ele seria um homem tóxico, um esquerdomacho, vamos dizer assim.
PW:
O grande esquerdomacho da literatura do século 20, vamos dizer assim.
LN:
Sim, sim. E, ao mesmo tempo, eu quis mostrar como cada uma dessas muitas mulheres, seis, sete, oito mulheres que ele teve, para citar aquelas com quem ele conviveu de forma mais íntima, todas elas, de um modo ou de outro, também são responsáveis por muito da própria produção oswaldiana. Como sempre se fala muito, logicamente, em Pagu e em Tarsila, porque são as duas mais famosas, os dois casos talvez mais duradouros… Mais duradouros nem tanto, porque a Maria Antonieta, que é a última, também foi o amor de maturidade dele, foi um caso bastante estável, mas todas elas cumpriram papéis específicos. Eu chego a dizer que, no caso, por exemplo, não existiria o movimento antropofágico se não houvesse aquilo que Mário de Andrade chamava de Tarsivald, né? Ou seja, o casal Tarsila e Oswald. Não teria havido Tarsila sem Oswald, não teria havido Oswald sem Tarsila, do ponto de vista da antropofagia. Foi um movimento gestado, pensado, gerado pelo casal. No caso da Pagu, por exemplo, é importante perceber que todo o engajamento político do Oswald de Andrade decorre dessa relação dele com Pagu, que já foi uma infidelidade em relação a Tarsila. A Pagu era uma espécie de discípula, de pupila de Tarsila, que Tarsila levou pra casa e Oswald de Andrade se apaixonou perdidamente, e Pagu, vice-versa. Mas todas as outras, né? Maria Antonieta foi, pra ele, eu acho, a mulher mais importante de todas. A última mulher, a que ele encontrou na maturidade e que conviveu com ele até os últimos dias. A própria Landa, que é a primeira grande paixão arrebatadora dele, a pequena bailarina…
PW:
Que tinha 13 anos de idade, né?
LN:
Tinha 13 anos. Ele já tinha 20 e alguma coisa, 26. Então, assim: “ah, vai falar sobre isso? Vai falar que ele teve um caso, que hoje nós poderíamos dizer que era um caso de pedofilia?” Hoje não, na época foi tratado com escândalo, principalmente nos jornais do Rio de Janeiro. Jornais paulistas, onde ele já era conhecido, já tinha um certo nome, abafaram um pouco o caso, mas os jornais cariocas exploraram. Mas, por exemplo, tem a Miss Cyclone, ou a Daisy, que pra mim é uma mulher importantíssima na trajetória de Oswald de Andrade, uma jovem normalista de 19 anos, que frequentava a garçoniere da Libero Badaró, que pra mim é o momento de conversão do Oswald de Andrade ao modernismo, sabe? Muito da Daisy tem a ver com isso, muito da relação dele com a Daisy, com aquela garçoniere. Então, assim, as mulheres tinham que estar presentes no livro, tinham que estar bastante evidenciadas, sem esconder nada. A biografia não é feita pra homenagear ninguém, né, Paulo? A biografia não é feita pra santificar ninguém, muito pelo contrário. Eu sempre digo que a biografia é feita pra fazer o mito descer do pedestal e caminhar nas ruas como um mortal, como um imperfeito, como nós. Uma biografia que tenta só desconstruir o personagem, ela tem um pecado de origem, assim como aquela que quer simplesmente exaltá-lo. Então, a biografia é isso, a biografia é transgressiva sempre nesse sentido. Agora, isso me deu uma lembrança, Paulo. Eu queria fazer uma homenagem à Marília de Andrade, a filha do Oswald de Andrade, que morreu duas ou três semanas antes do livro ser publicado. E ela tava aguardando ansiosamente pelo livro, e o que é mais importante nessa minha pequena homenagem agora, é que ela, mesmo sabendo quem era o pai dela, quem foi o pai dela — o homem complicado, de personalidade complexa, de comportamento às vezes pouco ortodoxo — em nenhum momento Marília me pediu qualquer coisa, e muito menos pra ler qualquer linha. Eu acho que isso é muito relevante do ponto de vista da compreensão do que é o fazer biográfico, ou seja, que biografar, necessariamente, para os herdeiros é sempre uma complicação. Então assim, no caso da Marília, assim como já tinha acontecido comigo no caso do Getúlio, com a Celina Vargas, que também não leu os originais do livro antes de ser publicado, isso pra mim é uma demonstração de maturidade, de conhecimento e de sensibilidade em torno do fazer biográfico, em torno da biografia.
PW:
Profissionalismo, né, Lira? A gente sabe que se não for assim, não dá pra levar a sério, e a gente percebe isso logo desde a primeira linha, quando a coisa não tem essa liberdade que você tá falando. Mas você acha que alguma coisa que você escreveu ia assombrar a Marília?
LN:
Não, porque ela conhece muito bem o pai. Às vezes, ela me contou algumas dessas histórias. [Risadas] Mas assim, na letra de forma, depois de publicada, você nunca sabe qual vai ser a reação da pessoa, do herdeiro, de alguém que tem um envolvimento afetivo com o biografado. Mas no caso da Celina, por exemplo, que ela fez questão de me dizer que não leria o segundo volume da biografia de Vargas porque era sobre o Estado Novo, e ela não quereria ler sobre tortura, prisão de intelectuais. Mas ela, de forma muito consciente, disse pra mim: “mas se você não escrever sobre essas monstruosidades, não será a biografia do meu avô.” Então, eu acho que é isso. Eu não sei o que assombraria a Marília. Eu acho que ela sempre reforçava: “meu pai era esse homem, mas, ao mesmo tempo, era um homem muito carinhoso.” Isso é interessante, ela me dizia a todo momento: “não esqueça que ele era um homem muito afetuoso com os dois filhos mais novos.”
PW:
É uma família que gosta muito dele, mas nem sempre isso acontece. Às vezes, tem questões psicanalíticas que ficam depois da morte, que ficam evidentes. Não parece ser muito o caso. E a você, o que você ficou assombrado em saber sobre o Oswald? Quando você caiu ali, bateu a picareta numa pepita [risadas], e você percebeu o que era… O que te assombrou nesse livro?
LN:
Na verdade, quanto mais ele me assombrava, mais ele me fascinava. Como biógrafo, é exatamente essas contradições que me fascinam. Então, quando ele cometia, sei lá, algum… A relação dele com o Mário, por exemplo, é algo assustador em determinado momento. Como ele fazia gracejos e piadas de péssimo gosto, em referência não só à aparência física do Mário de Andrade, que era notoriamente um homem muito feio, mas principalmente em relação à sexualidade do Mário de Andrade, num momento em que o Mário jamais poderia falar sobre isso, falar livremente, num tempo em que isso pra ele seria absolutamente… O Oswald de Andrade brincava com isso, com aquele humor dele, corrosivo. E aí, ao mesmo tempo que isso me assombrava, me incomodava, eu via ali o que os amigos pensavam. Tem aquela carta deliciosa do Manuel Bandeira pro Mário, numa das tantas piadas de mau gosto que o Oswald faz, o Manuel Bandeira diz: “Mário, se tratando de Oswald, só tem duas opções: ou se afastar dele, ou ser mais sacana ainda do que ele.” Aí o próprio Manuel Bandeira dizia: “mas tanto uma coisa quanto a outra, é impossível! Porque que sujeito engraçado, que sujeito terrível.” E ele diz: “que filho da puta gostoso.” Né? [Risadas] Ou seja, então… É isso, o Oswald de Andrade é esse filho da puta gostoso.
PW:
Você não pensou nesse título, não? Dava um bom título também, né? [Risadas] Não que esteja mal. Mau selvagem é excelente, né?
LN:
[Risadas] É, eu acho que… Que seria até um título mais engraçado e tal, né? “Que filho da puta gostoso”. Mas o “mau selvagem”, pra mim, ele tem uma amplitude de sentidos, né? Ele define não só esse comportamento satânico, vamos dizer assim, do Oswald de Andrade, como também faz referência à antropofagia. A imagem do “mau selvagem” em contraposição ao “bom selvagem” de Rousseau. Eu acho que o Mau selvagem aí, ele é mais polissêmico. Ele agrega mais…
PW:
Vai mais fundo, né? Assim…
LN:
Vai mais fundo, mas ao mesmo tempo dá mais nuances, porque é o espírito do Oswald de Andrade. E uma coisa, viu, Paulo? Eu já disse isso algumas vezes, antes mesmo de escrever esse livro, quando estava escrevendo e quando publiquei A arte da biografia — deve ser muito monótono escrever sobre a vida de um homem bom. Sabe? Deve ser um saco, né?
PW:
Mas não existe o homem bom, né? Vamos cair entre nós, né?
LN:
Pra começo de conversa, né?
PW:
É, é verdade.
LN:
Porque quando você falou agora há pouco de algumas questões relacionadas ao cancelamento do Oswald de Andrade, às vezes me surpreende um pouco esses fiscais da imperfeição alheia, sabe? Como se todos nós não pudéssemos sobreviver sem um crivo sobre nossa vida privada, sabe? Qualquer um de nós não resistiríamos cinco minutos em praça pública se as nossas vidas, se as nossas privacidades, nossos inúmeros defeitos viessem à tona explicitamente. Eu acho que há um pouco de moralismo, um pouco de puritanismo, e às vezes eu fico um pouco assustado em perceber, mesmo nas alas mais progressistas — e que deveriam ser as menos caretas —, uma certa fiscalização sobre o comportamento da vida privada dos outros, sabe? E principalmente quando dizem respeito a episódios do passado, como se todos nós não fôssemos passíveis de erro, de culpas, de sacanagens mesmo, de perfídias. Aquilo que o Fernando Pessoa, naquele poema maravilhoso, falava da vida em linha reta, né? Ou seja, ele que se assumia, tantas vezes vil, não via ele em par no mundo, porque parecia que no mundo, todo mundo era perfeito. Mas não somos perfeitos, né, Paulo? Todos nós temos uma série de defeitos. Então todos nós temos uma série de imperfeições. Todos nós já fomos vis em algum momento da nossa vida, a não ser que você queira ser a Ave Maria Imaculada sem pecado, que eu não acredito que possa existir.
PW:
Estamos para conhecer essa Ave Maria Imaculada, né? Talvez na segunda vida, para quem acredita, né?
LN:
É por isso que um personagem como Oswald de Andrade é importante e é necessário escrever sobre essas coisas, sobre este homem complexo, né?
PW:
E essa questão da vida amorosa, que certamente foi muito conturbada, e cheia de questões, também teve algo, por exemplo, com a própria Cyclone, a Daisy, ele viveu uma relação que era uma relação aberta para os dois lados, não era?
LN:
Exatamente. Apesar dos ciúmes dele. Apesar dos ciúmes, mas era uma relação aberta.
PW:
É, mas ciúme está presente, imagino, para todo mundo que tem relação aberta também. Não é uma coisa que você deve se livrar com tanta facilidade, talvez.
LN:
É verdade.
PW:
Mas eles tinham essa relação que foi muito “para frentex”, como se dizia.
LN:
É. E a própria Pagu, em missões do partido, por determinação do partido, teve também que manter relacionamentos para arrancar informações privilegiadas de determinadas pessoas. Então, assim, é tudo muito mais complexo do que simplesmente uma disputa entre o bem e o mal, o bom e o mau, sabe? Entre aquilo que é o certo e o errado. Acho que quando você estabelece de forma muito rígida essas fronteiras entre certo e errado, você cai, inevitavelmente, num moralismo cristão, num moralismo absurdo e anacrônico. Então, é algo que precisa ser discutido. Hoje em dia, Oswald de Andrade está aí para isso.
PW:
Ele também estava muito embebido desse moralismo cristão, como você bem falou.
LN:
Sim.
PW:
Essa matriz, essa infância tão religiosa. E com a própria Daisy, ele se casa In Extremis, como se dizia, né?
LN:
Isso.
PW:
Quer dizer, com ela no leito de morte.
LN:
Então… É mais uma das grandes contradições de Oswald de Andrade. Esse homem profundamente religioso, no sentido mais do espiritual, e, ao mesmo tempo, esse anticlerical de que eu falava. Esse homem que era amoroso na relação íntima com os filhos e era um crápula na relação com muitos amigos, por vezes. Então, assim, é isso que é fascinante no Oswald de Andrade. Por exemplo, eu acho que a maior mostra dessa possibilidade dessas contradições de Oswald de Andrade é o próprio texto, d’O Rei da Vela. Eu nunca li um texto tão violento e, ao mesmo tempo, tão engraçado. É impressionante. O Rei da Vela é um texto muito engraçado, irresistivelmente você lê as gargalhadas. E ao mesmo tempo, é uma gargalhada nervosa, porque é um texto violentíssimo, panfletário, é um texto agressivo. Então, Oswald de Andrade era isso. Ele era o Deus e o demônio ao mesmo tempo, né? Inclusive, alguém chegou a dizer que ele e Tarsila, era a deusa e o diabo do modernismo brasileiro.
PW:
Pois é. E essa recuperação que aconteceu dele pelo tropicalismo, com O Rei da Vela e a ideia de antropofagia foi também um dos ingredientes do tropicalismo e tal. Foi ali que ele saiu de um esquecimento bravo que ele tava, né? Assim, porque a gente hoje não tem ideia de que ele tinha sido… Virou um autor raro de se encontrar [um livro] num sebo. Desconhecido, né? Foi recuperado, literalmente.
LN:
Desconhecido. A Marília me contava uma história muito sintomática. Ela disse que quando adolescente, numa aula de literatura, o pai dela já morto, o professor foi falar sobre Semana de Arte Moderna. E ela, muito orgulhosa, levantou a mão e disse: “professor, o meu pai organizou a Semana de Arte Moderna.” Aí ele disse: “seu pai? Você é quem? Marília de Andrade? Poxa, eu não sabia que o Mário de Andrade teve filhos.” E ela disse: “não, eu não sou filha do Mário, eu sou filha do Oswald.” E o professor de literatura disse: “esse eu nunca ouvi falar.” Isso era no começo dos anos 60. Porque o Oswald de Andrade só vai ser recuperado, tirado desse esquecimento, ali com os irmãos Campos, inicialmente, quando dedicam o número da revista de vanguarda, Invenção, a trechos da obra, principalmente da poética oswaldiana. O Zé Celso, na sequência, monta O Rei da Vela — precisava ser um maluco também para compreender a complexidade daquele texto. E na montagem, numa das sessões d’O Rei da Vela, na plateia estava um jovem baiano de 20 anos, cabeludo, e disse: “é isso que eu quero fazer.” Esse cara era Caetano Veloso, e que disse: “está tudo aí. É isso aí, a antropofagia é o norte, é o farol.” E aí, essa mistura… O que é, no fundo, o grande legado de Oswald de Andrade? É eliminar essas fronteiras entre uma série de interditos e interdições. Seja entre o erudito e o popular, entre a cultura de massa e a cultura dita clássica, entre o nacional e o universal, entre o bom gosto e o mau gosto. Isso é a antropofagia. E está muito evidente que foi aí que Caetano bebeu na fonte para a Tropicália. E no próprio Verdade tropical, aquele livro fabuloso do Caetano, ele se refere ao Oswald de Andrade em muitas passagens, em muitos capítulos. Dedicando ao Oswald de Andrade, inclusive, um capítulo chamado Antropofagia, do Verdade tropical. É essa turma que vai redescobrir o Oswald de Andrade. E aí, ele surge como “Ôswald”. [Risadas] E um dos concretistas, o Décio Pignatari, dizia uma frase que eu acho até hoje atualíssima e serve para esse livro, ele dizia assim: “toda vez que o cadáver de Oswald de Andrade é exumado, ele ainda nos assusta.” Então, é isso.
PW:
Você acaba de fazer a última exumação, então, vamos dizer assim, né?
LN:
Eu não sei. Como eu não acredito em biografias definitivas, é a mais recente, digamos assim. Porque Oswald de Andrade é tão plural que ainda podem ser escritas muitas outras biografias. Já tinha duas boas biografias escritas sobre ele, da Maria Eugênia Boaventura e da Maria Fonseca. Duas boas biografias, mais acadêmicas, mais literárias, mais intelectuais, vamos dizer assim. Mas é como isso, é como todos os personagens. Todo personagem pode ser alvo e objeto de inúmeras biografias porque tem muito do biografado na biografia.
PW:
E ele tem também essa edição importante que saiu recentemente do Diário confessional, que é um livro que traz uma fonte incrível de leitura para você e para os leitores de Oswald.
LN:
É, eu me baseei muito nos diários — esse que foi publicado com o título de Diário confessional — para contar os últimos anos da vida dele, exatamente esse momento em que ele, que tinha sido um milionário na juventude, passa por muitos perrengues financeiros, tendo que empenhar quadros, vender quadros. E esse momento coincide também com a sua falência física. E aí, aquele homem que sempre tinha o erotismo como um dos seus combustíveis, como a sua força motriz, ao final da vida, ele se lamenta, exatamente, da perda dessa virilidade. Como isso, para ele, deve ter sido doloroso. Nesse processo de decadência financeira e física ter também esse momento que a doença o impossibilitou de exercer a vida na sua plenitude. Ou pelo menos naquilo que ele considerava a plenitude.
PW:
E ele estava também com um certo descrédito intelectual. A USP recusou a entrada dele, né?
LN:
Isso é um momento interessante, que eu acho que é pouco comentado de uma forma geral, e o livro trabalha para tentar explicitar isso, que é o momento em que ele se aproxima de uma nova geração de intelectuais oriundos da universidade. Ele, como todos da geração dele, muito autodidata, ou seja, com leituras meio erráticas, meio anárquicas, ele percebe ali que está chegando uma nova moçada. O próprio Antônio Cândido, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Sales Gomes, que vinham da universidade com um repertório muito mais denso e mais sistematizado.
PW:
Que ele já chamou de chato-boys, né? Já de saída, o cara já se indispôs chamando de chato-boys.
LN:
Esse “chato-boys” era essa piada irresistível, porque tudo ele fazia piada, mas eu percebo que havia da parte dele um certo entusiasmo e, ao mesmo tempo, uma certa inveja da formação intelectual daquela garotada. E aí que ele vai fazer um projeto pessoal de leituras, isso se percebe muito claramente nos seus cadernos, na sua própria obra, quando ele começa a citar autores que antes ele não citava. Então, quando ele começa a ler filosofia, principalmente. E a ponto de escrever uma tese para ingressar na filosofia da USP, que é a Crise da Filosofia Messiânica, que é um trabalho muito interessante, muito instigante, porque é um trabalho acadêmico, mas, ao mesmo tempo, é oswaldiano, é muito criativo. Não é aquele pensamento acadêmico engessado, cheio de muletas metodológicas, é algo que transcende essas prisões do texto acadêmico. E é um texto brilhante e um texto de maturidade.
PW:
Sendo que, na época, o texto acadêmico era muito engessado. Hoje, há quem escreva bem na academia, também não vamos fazer aqui uma injustiça, porque existem grandes autores acadêmicos.
LN:
É verdade. Eu acho que a academia, a universidade, hoje percebeu que ela precisa dialogar para fora dos próprios muros, inclusive. Acho que isso é uma grande virtude.
PW:
E a própria geração do Antônio Cândido que trouxe uma limpidez de escrita e leitura, eu até diria, que foi um caminho que quem soube seguir se deu bem.
LN:
Se você me permite um rápido parágrafo de alguns segundos. Eu me lembro da minha querida orientadora do mestrado na semiótica ali na PUC, a Jerusa Pires Ferreira, grande Jerusa. A Jerusa, quando eu mostrei a minha primeira versão da dissertação para ela, ela disse assim: “isso está um lixo.” [Risadas] Eu disse: “por que, Jerusa?” E ela disse: “porque isso aqui não é você. Você está querendo agradar a banca. Solte o seu texto, escreva como você gosta de escrever.” Aquilo para mim foi iluminação.
PW:
A Jerusa era uma grande intelectual e também muito antenada com a fala na escrita, então, ela certamente sabia o que estava falando. Acho que você estava contando dessa tese do Oswald. Só para retomar, eu te interrompi. Ele foi rejeitado… Só para o ouvinte aqui que não conhece a história. Ele foi… Vou dar um spoiler aqui, a tese dele foi rejeitada pela USP e ele não entrou na USP.
LN:
Ele teve, Paulo, duas tentativas. Ele fez duas tentativas. Na Literatura, que apresentou uma tese sobre Arcádia e a Inconfidência e que ele ficou pau a pau com Antônio Cândido ali, empatou no concurso, mas acabou não sendo aceito. Ele tentou depois na Filosofia, que é aí que ele faz a tese da Crise da Filosofia Messiânica, esse trabalho fantástico. E ele não foi aceito, no caso porque a banca exigiu formação em Filosofia, e ele não tinha formação em Filosofia, ele tinha sido formado em direito muito tempo atrás, mas ele ganhou o título de livre docente, e que exibia com muito orgulho. “Sou livre docente da USP.” Ele não foi para a sala de aula. E essas eram tentativas, eu presumo, assim, no final da vida, tentativas muito de sobrevivência, muito de tentar encontrar um lugar no mundo porque ele estava rejeitado de tudo, não foi por outro motivo. Ele chegou a se candidatar a deputado e perdeu também nas eleições. Ele disse, talvez pelo slogan dele, que era: “Oswald de Andrade, o candidato do eleitor inteligente.” Do eleitor inteligente. Talvez tenha faltado eleitores. Não sei. Mas o fato é que, no final da vida, ele tentava de todas as formas, desesperadamente, ter dinheiro para pagar o colégio da filha, dinheiro para comer, para almoçar. Então, ele pegava, saía com o filho pela cidade de São Paulo em busca de possíveis terrenos ainda pertencentes à família. Porque vale dizer que o pai dele, Oswald também, José Oswald, como ele, era dono de praticamente toda a Zona Oeste aqui de São Paulo, toda essa área nobre de São Paulo, o bairro de Pinheiros, o que viria a ser depois a Vila Madalena, a Vila Pompeia, Cerqueira César, tudo isso pertencia à família, ali a Doutor Arnaldo. Desde a crise de 30, com a crise que também afetou o mercado imobiliário, ele começou a perder muito dinheiro, a submeter a muito agiotas — que é o tema d’O Rei da Vela, por sinal —, hipotecas, empréstimos bancários e toda essa fortuna foi sendo dilapidada, carcomida, rapidamente. Para mim, um dos momentos, assim, mais dolorosos para ele deve ter sido quando ele teve que empenhar na Caixa Econômica o busto da Miss Cyclone, da Daisy, um busto de mármore, feito pelo [Victor] Brecheret. Imagino a afeição que ele deveria ter por essa peça e ele tem que empenhar na Caixa Econômica e não consegue reaver. E hoje esse busto lindo, esse Brecheret maravilhoso, está no Palácio dos Bandeirantes, foi incorporado porque a dívida não foi paga, não foi resgatada e foi incorporado ao patrimônio do Estado. Era a Caixa Econômica Paulista e hoje faz parte do Palácio Bandeirantes, Palácio do Governo. Então, ele, nesse momento em que ele está sem dinheiro, tendo que vender seus quadros — ele era um colecionador de quadros de obras de arte moderna —, se desfez de praticamente tudo. Fazia uma espécie de roleta russa, ele empenhava um quadro, quando estava para vencer o penhor, ele empenhava outro, que resgatava aquele, e fazia essa ciranda o tempo todo. E ele morre muito amargurado, exatamente por não ser reconhecido como um grande escritor, por não ter sido levado a sério, vamos dizer assim, na sua época. Seus livros já não vendiam mais — sempre foi um autor que vendeu muito pouco, na época. Pagou o preço por ter sido experimental, o preço das vanguardas. As vanguardas não são compreendidas necessariamente no seu tempo. Então, portanto, todos os seus livros foram impressos em pequenas tiragens, e logicamente viraram raridade bibliográfica muito cedo. É uma vida que termina de modo muito trágico.
PW:
E essa dor enorme do final da vida, tem um momento ali também dez anos antes da morte dele, que é a morte do Mário de Andrade, esse cara que era o grande amigo e ao mesmo tempo se tornou um desafeto enorme. Queria que você falasse um pouco desse episódio, porque foi um momento em que ele perdeu o chão completamente, né? Morreu o Mário repentinamente, de maneira muito precoce. Como é que foi esse episódio? Conta pra gente.
LN:
Todo mundo que conheceu os dois… Eram considerados, assim, opostos complementares, eram assim um Apolíneo e o outro Dionisíaco. E por causa das piadas e das maldades de Oswald de Andrade, eles ficaram rompidos durante muito tempo. Oswald de Andrade tentava a todo custo fazer as pazes, reatar a amizade, mas a mágoa de Mário de Andrade, segundo ele próprio, era tão intensa que ele jamais teria qualquer vontade de reatar. E Oswald de Andrade estava fora de São Paulo, quando lê o jornal e recebe a notícia de que o Mário não só tinha morrido, como já tinha sido sepultado. Então, pra ele aquilo foi um baque, ele realmente, como você diz, ele perdeu o chão ali. Todo mundo que estava com ele, disse que ele não teria propriamente chorado, mas teria ficado transtornado, abalado, exatamente pela ideia de que o Mário morreu sem que eles pudessem ter se reaproximado. Pra ele, foi uma perda enorme. É engraçado isso, todas aquelas maldades que a própria revista de antropofagia fez em relação ao Mário de Andrade, desacatando a figura do Mário, tentando desconstruir a figura de Mário, todas aquelas maldades eram tipicamente oswaldianas também, ou seja, eram maldades e ao mesmo tempo ele tinha uma devoção e um carinho pelo ex-amigo, no caso. Essa figura, mais uma vez, tão controvertida de Oswald de Andrade era capaz desse tipo de gestos, de ser violento com alguém para quem ele tinha um afeto grande, uma admiração intelectual enorme, tanto é que muito depois da morte do Mário ele vai reconhecer isso e vai dizer que a grande figura do modernismo brasileiro era Mário de Andrade.
PW:
E que o Macunaíma é a grande obra antropofágica.
LN:
Exatamente. Se há uma obra antropofágica na literatura brasileira, esta é Macunaíma do Mário de Andrade
PW:
Traduzindo aqui para as novas gerações, ele fazia o bullying no Mário, e o Mário respondia com ghosting.
LN:
[Risadas] É mais ou menos isso. Acho que traduzindo, atualizando os sinais, é um pouco isso.
PW:
Maravilha, Lira. Então, agora vamos encerrar. Eu queria te perguntar, então, para você dizer para a gente qual é esse outro livro que você já está trabalhando em avançado estado de composição aí, sua próxima biografia.
LN:
Bom, Paulo, ainda quando eu estava fazendo doutorado lá em Portugal, quando eu decidi biografar Oswaldo de Andrade, ali eu também decidi já o outro, o próximo, porque eu disse: “eu vou escrever duas biografias, serão meus dois próximos livros.” Um, Oswald de Andrade, o Sudestino, mas eu preciso escrever uma outra biografia de um outro grande intérprete da alma nacional, e aí pensei em Luiz Gonzaga. Então, eu estou escrevendo a biografia de Gonzaga, que também foi meu herói de juventude, eu também sou contraditório, eu também gosto das vanguardas oswaldianas mas também tenho um coração implantado no Nordeste onde eu nasci. Passei minha infância e minha adolescência ouvindo, minha irmã tinha aqueles discos todos do Gonzaga, que eu colocava pra tocar. Então, estou iniciando agora esse novo trabalho e aí mais uns dois, três anos teremos aí a biografia de Luiz Lua Gonzaga.
PW:
Que maravilha. E eu acho, Lira, que ele é um dos artistas mais influentes do século 20 no Brasil, hoje a geração da música paulista é totalmente influenciada pelo Luiz Gonzaga, sem falar no tropicalismo mesmo, e é uma coisa da maior importância.
LN:
Sim, o Luiz Gonzaga,para além do mundo musical, é um personagem da cultura brasileira. É um dos inventores, vamos dizer assim, se a gente pode falar dessa forma, da ideia de Nordeste. Ele traduz, incorpora, de forma inclusive também antropofágica, viu? Cá pra nós. Incorporou aquele chapéu do cangaço, o blusão, o gibão de couro do vaqueiro, a sanfona, ou seja é uma série de referências de colagem, uma bricolagem e transformando, quase aquela logomarca. O Luiz Gonzaga é uma logomarca, você olha pra ele, assim como o Padre Cícero e Lampião, são figuras que se você nota só pelos seus acessórios, você já sabe de quem você está falando, né? Tanto é que alguns discos do Gonzaga eram só o chapéu de couro em cima da sanfona. Não precisa dizer de quem era o disco, já se sabia.
PW:
Eu tava pensando na Carmen Miranda, né?
LN:
Claro, também!
PW:
Acho que talvez seja a única figura comparável a ele, desse ponto de vista de uma estética própria, né?
LN:
É verdade.
PW:
Beleza. Vamos esperar, então, vai ter que voltar aqui.
LN:
Será sempre um prazer, sempre um prazer.
PW:
Então, Lira Neto, muito obrigado e parabéns pelo livraço. Primeiríssimo lugar, por enquanto, na corrida pros melhores do ano, os livros mais importantes que estão saindo aqui no comecinho de 2025, que é Mau Selvagem, a biografia do Oswaldo de Andrade, muito obrigado Lira.
LN:
Eu que agradeço Paulo. É sempre um prazer falar com você, obrigadíssimo. E daqui a pouco a gente vai voltar pra conversar sobre o Luiz Gonzaga, em breve, até já!
PW:
Abração, cara, valeu, tchau, obrigado.
PW:
E antes de me despedir eu queria passar pro quadro do 451MHz que traz o melhor da literatura LGBTQIA + de todos os tempos. LGBTQIA + significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. A cada episódio, a gente convida autoras e grandes leitores em geral pra indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis pra todos os leitores.
E o quadro de hoje traz uma dica do grande Rui Campos que é livreiro e fundador da Livraria da Travessa, essa incrível livraria carioca, que começou lá nos anos 80 numa lojinha no centro do Rio de Janeiro, e hoje tem filiais em São Paulo e até em Lisboa. Se você quiser saber um pouco mais sobre a Travessa e quiser conhecer um novo projeto da Quatro Cinco Um, é só visitar o nosso Guia de Livrarias no portal Bagagem Literária que a gente acabou de inaugurar lá no site da revista. Então, vai lá no quatrocincoum.com.br e clica em Bagagem Literária pra você conhecer os perfis das melhores livrarias brasileiras, e muitas coisas mais. Então, vamos lá pra dica do Rui. Ele indicou o romance Sodomita do escritor e diplomata brasileiro Alexandre Vidal Porto, que foi publicado em 2023 pela Companhia das Letras. Além de escritor e diplomata, o mais importante sobre o Alexandre Vidal Porto é que ele é nosso ouvinte entusiasta.
Rui Campos
Eu sou Rui Campos mineiro, livreiro, fundador da Livraria da Travessa e gostaria de indicar o espetacular livro de Alexandre Vidal Porto, Sodomita, editado pela Companhia das Letras. Cheio de ironia e com um português arcaico inventado, super criativo, Alexandre nos leva a passear pelas aventuras de um personagem que, graças ao seu talento em criar um estilo próprio, em que nunca sabemos o que é invenção ou realidade, refletimos sobre temas de total atualidade. Homossexualidade, Brasil, Portugal, Estado, tirania, liberdade, escravidão, entre tantas outras coisas. Isso tudo com muito humor e seriedade, ao mesmo tempo. E é esse constante balançar que nos prende, fazendo da leitura de Sodomita um momento de muito prazer e reflexão.
PW:
Então essa foi a dica do Rui Campos, Sodomita do Alexandre Vidal Porto — nosso ouvinte entusiasta —, livro que foi lançado pela Companhia das Letras, em 2023.
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
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Porque você leu Podcast
Transcrição: especial Fernando Pessoa no podcast 451 MHz
Episódio narrativo investiga a vida e o legado do poeta português nos noventa anos da morte do autor
JULHO, 2026
