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Transcrição: Eve Babitz – Adriana Ferreira Silva e Cecília Madonna Young no 451 MHz

Leia a transcrição do episódio #139 do 451 MHz, com Adriana Ferreira Silva e Cecília Madonna Young

12dez2025 • Atualizado em: 06jul2026

Entre artistas, roqueiros e Hollywood, Eve Babitz retratou com leveza e humor a era de sexo, drogas e rock and roll da Los Angeles dos anos 70. A redescoberta da escritora norte-americana nos últimos anos e seu livro Dias Lentos, encontros fugazes (Amarcord) são o tema deste episódio do 451 MHz. Paulo Werneck e a colunista Bruna Beber recebem duas grandes leitoras de Babitz, a jornalista Adriana Ferreira Silva e a escritora e tradutora Cecília Madonna Young, para falar sobre os casos curiosos contados no livro, a mistura de gêneros literários e ainda da amizade e rivalidade entre Babitz e Joan Didion, precursora do novo jornalismo americano. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Leia a transcrição:

Paulo Werneck [PW]:

Oi! Está começando o centésimo trigésimo nono episódio do 451 MHz, o podcast pra quem lê até com os ouvidos. Eu sou Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Duas vezes por mês, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

Adriana Ferreira Silva [AFS]:
“É muito Virginia Woolf ler o livro da Eve. Tantas histórias muito legais que uma mulher poderia contar sendo como ela., tendo um teto todo seu, dinheiro para se sustentar. Ainda que ela tivesse esse privilégio todo, a irmã dela fala que ela era a única em várias situações, a única mulher no bar com um monte de homens.”

Cecilia Young [CY]:
Eu leio a Eve e, ao mesmo tempo que ela tá muito distante de mim, eu me identifico com certas coisas dela. Eu não paro de falar isso, mas parece que você está falando com uma amiga. Mudou todo esse tempo, mas ainda assim eu tô quase conversando com ela, sabe?

PW:
Essas vozes que você acabou de ouvir são da Adriana Ferreira Silva e da Cecília Madonna Young. A gente já vai voltar a falar sobre elas, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio do 451 MHz é realizado com o apoio da Lei Rouanet.

A Adriana Ferreira Silva é uma colaboradora de longa data da Quatro Cinco Um. Ela é jornalista, escritora, editora e curadora. Quem sempre acompanha o 451 MHz, já reconheceu a voz dela. a Adriana participou, por exemplo, de um episódio memorável com a querida Heloísa Teixeira, que morreu no final de março. Ela também já entrevistou e resenhou livros de grandes nomes da literatura contemporânea para a Quatro Cinco Um, como o francês Édouard Louis e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Já a Cecília Madonna Young é jornalista, escritora e tradutora. Ela começou a enveredar pelo universo literário bem cedo, muito por influência da mãe, a escritora e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019. A Cecília lançou o primeiro livro dela, Tudo que eu posso te contar, em 2024, pela editora Record.

E como tradutora, ela acabou de estrear com a tradução de Dias Lentos, Encontros Fugazes, o primeiro livro da escritora americana Eve Babitz publicado no Brasil. Ele saiu em fevereiro pelo selo literário Amarcord da editora Record. Em Dias Lentos, Encontros Fugazes, a Babitz apresenta a sua Los Angeles dos anos 70 em dez contos, que também poderiam muito bem ser reportagens ou ensaios pessoais, enfim, [ela pratica] uma mescla de gêneros. A Eve Babitz descreve o glamour e a decadência da cidade de Los Angeles no auge do sexo, drogas e rock ‘n ‘roll. O livro foi publicado originalmente em 1974, mas, assim como muitos outros dela, permaneceu fora de catálogo por décadas, inclusive lá nos Estados Unidos.

A Babitz só foi redescoberta nos últimos dez anos e então veio conquistando uma nova geração de leitores. Nesse episódio, Cecília e Adriana falam dessa grande autora, desse grande segredo muito bem guardado, que agora a gente revela para o ouvinte do 451 MHz.

A gente fala também sobre a relação de rivalidade e admiração com a Joan Didion, que é uma outra escritora e grande repórter da mesma geração. E a Eve Babitz veio parar aqui, do 451 MHz pros seus ouvidos, pelas mãos da nossa nova colunista, a grande poeta Bruna Beber, que uma vez por mês está participando junto comigo no episódio, convidando pessoas, e acionando todo o seu repertório de leituras e de escrita.

Então eu convidei ela para falar junto comigo e com a Cecília e com a Adriana Ferreira Silva. Então vamos lá para a nossa conversa.

Bruna Beber, Adriana Ferreira Silva e Cecília Madonna Young

E hoje a gente vai falar aqui no 451 MHz da Eve Babitz, essa autora que nunca tinha sido publicada no Brasil. Daquelas lacunas editoriais que fazem a alegria dos editores, de poder ainda descobrir autores, poder trazer novidades pro público brasileiro. E a Eve Babitz vem pelas mãos da Cecília Madonna Young, assinando a sua primeira tradução. Tudo bem, Cecília? Seja bem-vinda aqui ao 451 MHz.

CY:
Ai, obrigada. Estou muito feliz de estar aqui. Esse convite foi… Eu comecei a pular assim. Uhul! Eu adorei.

PW:
Ainda mais porque está na companhia da nossa nova colunista, a Bruna Beber. Oi, Bruna, tudo bem?

BB:
Oi, Paulo. Oi, Cecília. Oi, Dri.

AFS:
Oiê!

PW:
E a Dri é a Adriana Ferreira Silva, que é velha conhecida aqui dos ouvintes do 451 MHz e também dos leitores da revista. A Dri é uma leitora de literatura, jornalismo, seja bem-vinda de volta.

AFS:
Ah, muito obrigada, Paulo. Oi, Bruna. Oi, Cecília. Tô super feliz de estar aqui porque, para mim, a Eve foi uma descoberta muito feliz deste ano de leituras.

PW: 
Que bom! Então, vamos lá. Eu vou entregar vocês nas mãos da Bruna Beber, que está aqui uma vez por mês. Queria lembrar aos ouvintes que a gente convidou ela para ser colunista, ou seja, conduzir um pouquinho a pauta e as conversas aqui no podcast. Então, essa é mais uma das ideias que ela trouxe aqui para a nossa pauta, falar da Eve Babitz.

Eu vou perguntar primeiro para você, então, Bruna, por que você falou “cara, vamos fazer um programa sobre a Eve Babitz”? E quem foi ela, né?

BB:
Eu já conhecia a Eve Babitz, sabia que o trabalho dela ainda não circulava aqui, e quando eu vi que tinha saído a tradução, eu falei: “Nossa, finalmente”. Aí eu vi que a Cecília tinha traduzido, li o livro, gostei bastante. Gostei da tradução, já gostava do original.

E falei: “Pô, está na hora, finalmente, de falar da Eve Babitz”. Porque chegou a Joan Didion, chegou a Renata Adler, chegou uma galera, o John Fante está circulando aí há décadas no Brasil. Faltava a Eve Babitz.

E agora, descobrindo que foi a Cecília que contrabandeou a publicação dela no Brasil, queria saber como que rolou isso.

CY:
Você falou da Joan Didion, eu descobri a Eve por ela, porque tem toda essa coisa que elas são arqui-inimigas, amigas, existe todo um drama entre elas. Então, eu descobri a Eve por ela. E eu fiquei obcecada, porque era uma mulher muito genial e à frente do seu tempo, escrevendo umas coisas muito doidas, mas inteligentes, e que fazem você parar para pensar.

Eu fui lendo e comprando todos os livros dela e eu ficava: “Gente, mas por que não tem em português? Pô, só tem em inglês”. Aí quando eu fui na Record falar do meu livro, Tudo que eu posso te contar, eu cheguei já lá falando: “Oi, tem uma autora muito boa que me inspirou, que me inspira e que ninguém conhece”. Eu acho que nem só no Brasil, eu acho que ela não é tão falada no mundo inteiro, ela tá só começando a ser falada agora.

Tem livro sendo publicado sobre ela, sobre ela e a Joan Didion e eu achei que tava na hora dela chegar aqui, porque é divertido, eu acho que mesmo que ela fale sobre os anos 60 e 70, é um monte de fofoca bem escrita.

AFS:
Posso fazer uma pergunta para a Cecília, aproveitando que o tema é fofoca?

CY:
Oi, claro.

AFS:
Eu fiquei um pouco curiosa, porque eu não sabia dessa treta que ela tinha com a Joan Didion, que eu não sei se na verdade era uma treta. Porque eu fiquei ouvindo uns podcasts, várias entrevistas com a Lili Anolik, que é a biógrafa da Eve Babitz, né? Que foi quem encontrou uma caixa. A irmã da Eve entrou no apartamento pra fazer uma limpeza depois que ela já tinha morrido e tal, encontrou umas caixas cheias de cartas, e ali tem as cartas que ela escreveu pra Joan Didion, mas ela nunca mandou. E aí no podcast, elas entram ali em várias questões, vários podcasts de jornalistas mulheres conversando com ela [Lili Anouk], autoras e tal, e algumas defendem que, na verdade, a Joan Didion queria ser a Eve, ela queria ter a liberdade da Eve. E quando ela se refere a algumas coisas, na verdade, ela não tá falando dela ou da Eve… eu queria saber mais dessa treta.

CY:
É, eu li o livro [Didion and Babitz, escrito por Lili Anolik] e eu vou ser bem honesta, eu tive meus problemas com o livro. Porque, ao mesmo tempo que eu amo a Eve, a Eve é tudo, eu amo a Joan também. Eu acho que o livro ficou muito do lado da Eve e fez da Joan a pessoa má na história, a vilã.

E eu não acho que é exatamente isso, eu acho que as duas estavam escrevendo sobre o mesmo tempo, na mesma época, mas elas tinham vidas totalmente diferentes, uma era casada com o filho e outra era uma artista vivendo a vida roqueira de ir em show e experimentar tudo. Eu acho que as duas sentiam inveja uma da outra. A Eve teve um caso com o Jim Morrison, e a Joan Didion era obcecada pelo Jim Morrison. Ela queria ser um pouco mais festeira como a Eve, mas ao mesmo tempo, a Eve também queria ter a fama da Joan, ela queria ser respeitada como a Joan era. A gente não fala tanto da Eve porque ela não recebeu o respeito que ela deveria ter recebido na época. Lendo o livro, por mais que eu tivesse problemas com o que a autora falava sobre determinadas coisas, foi incrível porque é sobre duas mulheres, [e] sobre essa relação de mulheres que eu acho que é muito atemporal, né? Eu li aquilo e me identifiquei muito com essa inveja de certas coisas, de certas pessoas e nunca saber se você tá traçando o seu caminho certo… Isso é uma coisa que aparece muito também na Eve, nos textos dela, ela tá sempre fazendo tudo, mas ao mesmo tempo parece que ela tem um pé pra trás.

AFS:
E eu imagino que eles devem ter criado algum tipo de… Imagina, duas mulheres escrevendo na mesma época, vivendo na mesma cidade. Tem sempre aquela de: ai, quem, né, Ainda mais sendo mulher, né? Deve ter rolado uma coisa de crítica de jornalista ali, “quem é a grande?”

BB:
Eu acho que a rivalidade vai sendo criada, muito menos pelas autoras do que por quem tá no mercado literário recebendo as obras. E ela vai sendo amplificada, e isso não é por acaso. Porque, primeiro,são mulheres, e se a gente pensar: o que elas tinham em comum? Elas tinham Los Angeles em comum, elas comentavam o high society e a podridão das elites, e elas morreram no mesmo ano. Mas cada uma tinha uma busca diferente, a Didion foi pro ensaio, então ela tem uma escrita e uma produção muito mais rígida, mais austera, entre muitas aspas “séria”, né? 

Então eu acho que na literatura, o descompromisso e o improviso, que não necessariamente significa menos trabalho de escrita, ele é mal visto. Então se a gente vai exportar alguém, se a gente vai pegar alguém pra elevar ao cânone vivo, e a Didion foi um cânone vivo, a gente vai pegar o trabalho mais “sério”, mais bem recebido, menos desbocado. Então, esse puritanismo é triste, porque a gente vai fazendo injustiças. E dá pra todo mundo, tem espaço pra todo mundo, bem-vinda a escrita de frescor e entusiasmo da Babitz e bem-vinda a pesquisa e o andarilhado que a Didion fez no mundo.

CY:
Foi a Joan que fez a Eve ser publicada pela primeira vez, na Rolling Stone, foi uma proposta pra Joan, e a Joan falou: “olha, eu tenho uma amiga que eu acho que é muito mais coerente, que tem muito mais a ver com vocês”. A Joan fez esse grande favor pra ela, ela também editou o primeiro livro da Eve, e eu não tinha ideia disso. Eu acho que a sociedade colocou elas uma contra a outra.

AFS:
E continua colocando. Porque eu dei um Google, “Eve Babitz”, todas as matérias que aparecem, sei lá, os 20 links, 30 links, é sobre a rivalidade. “Eve Babitz versus Joan Didion”, é totalmente concentrado nessa guerra das escritoras. É impressionante.

PW:
Pois é, mas essas rivalidades literárias são muito frequentes, né? Vamos pensar aqui no Brasil, Mário e Oswald de Andrade. Quer dizer, essas grandes amizades que viram grandes rivalidades. E eu acho que o legal das gerações irem se sucedendo umas às outras é que você pode gostar dos dois, você não precisa herdar o desafeto uma geração depois. Não faz sentido nenhum você falar assim: “não vou ler o Mário de Andrade porque eu gosto é do Oswald”.

BB:
Não, e nem privilegiar e preterir, porque a gente tende a fazer: “não, isso aqui é mais sério, isso aqui deve ser lido primeiro”. Por que essas separações? É um pouco mesquinho. Essa mesma rivalidade foi criada e incorporada com a Anne Sexton e a Sylvia Plath, e elas tinham bem mais em comum, né? Elas tinham tudo em comum! Escreveram na mesma época, a Anne Sexton começou a publicar antes, tem um livro também sobre essa rivalidade entre as duas.

CY:
Qual o nome? Three Martini Afternoons at the Ritz? Nossa, obrigada.

BB:
Porque, além de tudo, elas tomavam martini no mesmo lugar, porque elas começaram a escrever numa oficina de escrita em Boston, então elas também faziam um happy hour no mesmo lugar.

CY:
É foda, né? Porque ao invés de falar: “olha, tinha duas muito boas que a gente pode ler”. Tem muitos textos que são sobre o mesmo assunto e são visões muito diferentes, e é muito interessante de ler. Pra mim, o exemplo mais legal é que as duas escreveram sobre a família Manson e todo o caso da Sharon Tate. O texto da Joan é toda uma coisa séria, que ela fez quase uma assessoria pra uma das meninas que ia depor sobre isso, que fez parte da família. E o texto da Eve Babitz é só ela falando: “gente, uns anos atrás eu deixei esse doido dormir no meu apartamento por, tipo, três dias, ele era um chato, só falava de coisas deprimentes, e depois eu descobri que ele foi um dos caras que matou lá no Manson. Olha que loucura!”. É esse o texto dela, sabe? Eu gosto dessa diferença, eu gosto de ter esses dois lados da história.

BB:
E a simples diferença que é, por exemplo, a Didion, ela vai e fala a respeito de um vento, o Santa Ana, e a Babitz fala a respeito de um vento também, mas tem uma trepada no meio, tem um trisal que acontece… Então são duas visões muito diferentes de uma sociedade, apesar de transitarem ali nos mesmos escombros.

PW:
Dá a impressão que esses dois lados que vocês estão falando são como se fossem os lados de um disco, né? Porque a Joan Didion era mais o lado A, como a cultura do álbum, era a música que ia fazer mais sucesso, a coisa que ia ter um alcance, e o lado B, em geral, era aquela música mais transgressiva, mais doida, menos comercial.

AFS:
Então, é e não é, né? Porque eu acho que seria um lado A e um lado A, talvez, não tanto o lado B. Porque a Eve era muito privilegiada, o Stravinsky era padrinho dela, a mãe dela era artista plástica. Era um lado B se você pensar no fato de ser uma mulher falando sobre sexo, drogas e rock ‘n ‘roll, né? Uma mulher contando o lado B, talvez. Mas isso também a Joan fazia, ali naquela história de contar a experiência de encontrar uma criança louca de LSD e tal, acho que as duas circulavam por esse lado B. É que a Eve, ela era uma personagem, na verdade, desse lado B, ela era amiga da galera, tava na balada.

BB:
Ela era cronista, né? Ela era sempre personagem.

CY:
É, falam que as obras dela são de ficção, mas, na verdade, é tudo real, ela só mudava os nomes, eu acho, pra evitar problemas na vida dela mesmo.

PW:
Eu ia perguntar pra vocês sobre o gênero literário. Porque ‘crônica’ é um gênero que costuma ser associado ao Brasil, à literatura brasileira ou então de língua portuguesa. E aí elas estão na fronteira de uma reportagem, um ensaio pessoal, uma crônica… Isso que é o interessante também, né? É um gênero meio híbrido, isso talvez tenha atrapalhado na divulgação, no fato de não ser um gênero tão claramente demarcado. Não é uma reportagem clássica, né?

CY:
É, no final das contas, ela nunca foi levada a sério porque não dava muito pra entender o que ela era. Porque, ao mesmo tempo que ela era escritora, ela também fazia capa de álbum pra artista de rock, e várias vezes, até no livro, ela fala que não queria ser… No dia que ela quase foi famosa, ela entrou em pânico. O fato dela não ter sido respeitada no nível que ela deveria ter sido foi porque, talvez ela não se visse nesse nível. É… é um lado triste, Eu acho que ela poderia ter feito muito mais coisa, mas que às vezes ela não se deixava por não querer ser igual a Didion e ser ‘a escritora’. Eu acho que ela também não queria ser ‘artista’, então ela ficava nesse meio termo de só querer viver tudo aquilo. E ao mesmo tempo ter que falar sobre isso. Vão acontecendo coisas tão loucas, que eu vejo nos textos dela essa necessidade de falar pra alguém, de deixar isso registrado.

AFS:
Sim, agora, tem uma coisa dela como leitora, né. Sabe aquela fase da juventude que você começa a ler Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, todos os beatniks, o Burroughs e tal? Como teria sido muito legal se esses livros tivessem próximos, se essas mulheres tivessem sido traduzidas, circulando, porque uma das coisas mais emocionantes é essa mulher ali naqueles anos 60, 70 muito loucos naquela cidade, vivendo no meio daquele bando de artista, contando a história. Pra quem teve o olhar sobre essa época totalmente formado por esses beatniks ou por esses autores todos homens, é muito Virginia Woolf ler o livro da Eve. Quantas histórias muito legais que uma mulher poderia contar sendo como ela? Tendo “um teto todo seu”, dinheiro para se sustentar, acesso a todas as coisas… Ainda que ela tivesse esse privilégio todo, numa dessas entrevistas aí que eu ouvi, a irmã dela fala que ela era a única, às vezes, em várias situações. A única mulher no bar com um monte de homem. Mesmo tendo esse lugar de privilégio de ser artista, filha de artista e conhecer todo mundo, ela era a única ali contando essas histórias. Ver essa cidade por esse olhar de uma mulher, tão inteligente, que escreve bem pra caramba.

CY:
Sim, é muito legal ver esse lado. Porque a gente viu muito pelo olhar de homens e também vimos essa coisa muito romantizada, e ela mostra a realidade mesmo. Ela fala: “gente, eu entrei e tava um nojo”. Ela vai falando como se fosse uma amiga do seu lado falando: “nossa, ontem eu saí, você não tá entendendo, eu vi coisas que…”. E a Eve tá lá dentro pra contar esse lado que a gente não viu depois de toda essa ascensão de Hollywood, esse brilho de Hollywood. E essa decadência também, rápida, que tava na verdade, por trás de todo esse brilho, né? Porque, querendo ou não, não tava ninguém sóbrio, ninguém muito felizinho e normal.

BB:
É a famosa putrescência do delírio hollywoodiano, né? Eu vou ler um trecho aqui pra vocês. “Uma festa na casa de alguém em Beverly Hills. Uma tenda rosa, duas orquestras, um casal de diretores comunistas franceses com jaquetas Pierre Cardin, chili e hambúrgueres da Chasins. A mulher de um ator inglês senta-se à mesa sozinha. Ela raramente vem à Califórnia, embora o marido trabalhe bastante tempo aqui. Um americano que pouco a conhece se aproxima da mesa. Que maravilha ver você aqui, ele diz. É? Faz tempo que está aqui? Tempo demais. Ela pega uma bebida na bandeja de um garçom e sorri para o marido que está dançando. O americano tenta outra vez, menciona o marido dela. Ouvi dizer que ele está maravilhoso nesse filme. Ela olha para o americano pela primeira vez e, quando finalmente decide falar, enuncia cada palavra com muita clareza: Ele, além disso, é uma bicha. Ela afirma em tom simpático.” Esse é um trecho de Rastejando até Belém, da Didion, com tradução da Maria Cecília Brandi. Poderia ser um trecho de Dias Lentos e Encontros Fugazes.

CY:
Podia, super.

AFS:
Podia, totalmente.

CY:
Totalmente. Porque elas estavam na mesma festa, é muito provável que a Eve estivesse lá do lado da Didion escutando isso e as duas olharam uma para a outra e fizeram: “nossa, que isso…”.

AFS:
Isso dá um texto, isso dá uma crônica.

BB:
E ela segue, no outro fragmento ela começa, “a história oral de Los Angeles está escrita nos Pianos Bar”, e é por aí, entendeu?

AFS:
Dá muita vontade de ter feito parte disso. Ao mesmo tempo que dá um medinho de tipo, “nossa, calma, tava intenso”, você fala: “ai, mas devia ter sido divertido ter visto e vivido tudo isso”.

PW:
Mas será que hoje isso não é mais possível? Eu ia perguntar para vocês, será que não tem mais essas doideiras acontecendo? Ou não tem quem escreva, quem tenha coragem? Ou de repente esse tipo de coisa migrou para outra plataforma que não é mais o jornalismo?

AFS:
Eu acho que tem essas doideiras acontecendo, acho que tem gente escrevendo sobre isso, mas não vejo, acho que o cenário é outro. Pensando assim, em especial hoje, nos Estados Unidos, essa cena que a gente é tão fascinado, tanto a de Nova York, com os beatniks e a Patti Smith, e quanto a de LA, não consigo imaginar hoje, nesse país tão em decadência, algo tão legal acontecendo, que valha esse registro. Mas sei lá, eu acho que aqui no Brasil, por exemplo, tem uma galera da poesia e da literatura trans. Quando você lê um livro da Camila Sosa Villada, você está lendo isso, né? É outra turma agora que está escrevendo sobre esses cenários.

PW:
Numa outra chave, né?

AFS:
Exatamente.

PW:
Porque uma coisa das pessoas que viveram os anos 70 falam muito, é que na verdade, era muito ruim. Na verdade, tinha muita caretice, tinha muita repressão nessa época…

AFS:
Heloísa Teixeira nos disse isso na nossa última gravação de podcast, inclusive.

PW:
Sim, mas muita gente, inclusive as mulheres, costumam falar isso, que essa liberação sexual era para os homens. E talvez a Eve Babitz, por ser rica, privilegiada e tal, como você disse, era mais fácil, vamos dizer assim…

CY:
Eu não sei nem se foi o privilégio dela, eu acho que foi mais a cara de pau de chegar e fazer, sabe? De estar lá. Obviamente ela tinha uma porta aberta, mas muitas mulheres não iam ter a coragem de entrar lá e ficar com os caras da banda. Eu acho que ela tinha essa coragem, que eu acho que transparece bastante nos textos.

AFS:
Mas você tem razão, Paulo, isso que você falou, né? Essa coisa desse período de todo mundo porra louca, liberdade e tal… eternamente me lembrarei da última entrevista que eu fiz com a Helô Teixeira, que foi para a Quatro Cinco Um, inclusive, e que também depois a gente gravou o podcast. Quando ela foi estudar nos anos 80 nos Estados Unidos e descobriu o movimento feminista lá, ela descobriu que a vida dela era uma merda, que o casamento dela era abusivo, que o pai era uó, que a mãe era uó, que os filhos eram um saco e por aí vai, e que era muito machista. Aquela turma da Eve aqui no Brasil seria a turma do Cinema Novo, Rio de Janeiro, praia, Copacabana, Ipanema e tal, que era a turma que a Helô tava. E a Helô falava que era um horror, que os caras eram hipermachistas, em especial aquela turma do cinema. Não só, óbvio, mas a turma do Cinema Novo, inclusive.

CY:
É, então, uma coisa que até me fez lembrar essa coisa de hipermachismo, voltando pra Joan Didion rapidinho, a Eve fala na carta pra ela que a Joan se escondia por trás do marido e que o marido ajudava ela a entrar em lugares que ela não poderia entrar. Eu acho que o que a Eve tinha de privilégio por causa da família dela, a Joan tinha, não pelo marido, eu acho que ela também tinha essa força meio quase masculina, de seriedade, e eu acho que precisava disso mesmo pra sobreviver àquela época. Eu acho que não era uma época muito legal pra mulheres e a Eve sobreviveu do jeito que ela poderia, sobreviveu conseguindo publicar os seus livros, conseguindo publicar os seus textos e aparecer e fazer capas de álbum e fazer artes e aparecer numa foto pelada com Duchamp, mas ela não atingiu esse nível desse grupinho fechado de homens que a Joan conseguiu por… Eu não acredito que tenha sido pelo marido, eu acho que a Eve foi um pouco injusta de falar isso, eu acho que a Joan ajudou muito o marido dela também a ser quem ele virou, como escritor.

AFS:
Eu acho que talvez ela tenha usado isso assim [num outro] sentido, porque ela [Eve] não teve filhos, ela pegava todo mundo e tal, e a Joan, ainda não dê pra falar que ela era careta, ela tinha mais esse formatinho de família, filha…

CY:
Que talvez seja menos assustador. É menos assustador pra um grupo de literatura masculina em Los Angeles nos anos 70, uma mulher que chega com um marido e que tem uma filha eque trabalhou na Vogue por vários anos. A Eve não teve esse negócio, né? Ela chegou, ela foi fazendo as artes dela, foi tentando adentrar grupos, adentrou esse movimento mais do rock ‘n ‘roll, foi pra todo canto e uma mulher [assim] assusta às vezes. É engraçado pensar que, na época, eu não consigo imaginar como foi ler tudo aquilo, porque até hoje em dia você lê e você fica meio “nossa, que honesta”. Ela falando das drogas, de tudo, e aí ela foi num date com esse cara e depois foi pra casa do outro, aí teve os ventos e ela teve um caso a três, um ménage à trois.

AFS:
Que termina no café da manhã.

BB:
Só pra arrematar, porque a Dri falou dos beatniks, a Cecília falou também, mas eu falei do John Fante no começo e quando a gente tá lendo o livro da Babitz, essa mistura e essa insegurança que é muito boa, entre a autoficção, a memória, a crônica e a fofoca, eu como leitora gosto dessa insegurança de gênero e é também um pouco dessa falta de brio. Quando eu li o Pergunte ao pó, por exemplo, eu tinha 17 anos, foi um livro escrito no final da década de 30, mas que circulou pouco e ele só foi reimpresso na década de 70, né? Então aí começou a circular entre os beatniks e também entre essa geração autora de Los Angeles. Quando eu li o Pergunte ao pó e eu tava ali do lado do ponto de vista do Bandini, eu queria saber o que a Camila escreveria, né? O que a Camila do Pergunte ao Pó escreveria? E quando eu li o Dias Lentos, eu pensei assim, acho que agora eu tô vendo, 20 anos depois, um pouco desse ponto de vista que me interessou lá atrás, assim só por essa mistura, de personagem, eu sei que uma coisa é ficção e não é ficção, a outra é um romance, etc.

PW:
E falando do livro, ele é uma espécie de guia, de cartografia de Los Angeles, ele vai por lugares que vão puxando as histórias. Querem falar um pouquinho do livro? Que livro é esse? Porque ela tem vários outros, tem inclusive um chamado L.A. Woman. E ela é essa grande autora de Los Angeles, que se confunde com a cidade, tem uma coisa muito legal de simbiose, um retrato de uma cidade difícil da gente mentalizar. Nova York, todos os autores e autoras de lá, a gente tem uma clareza. Los Angeles, por ser espalhado, por ser um lugar meio mitológico também, é uma cidade difícil de apreender a leitura e tal, isso é muito legal o que ela faz.

CY:
Com certeza, ela te coloca lá dentro. Realmente é um mundo muito distante que você não consegue se colocar lá dentro, porque as coisas são tão, como você disse, mitológicas e tão fora do que parece ser real, que aí ela transformar numa coisa real, em uma coisa quase banal. Porque ela conta de uma maneira como se “ah, é outro dia”, e que pra ela era. Esse livro foi o segundodela, o primeiro foi o Eve’s Hollywood, Besse daqui é bem mais organizado do que o Eve’s Hollywood, esse talvez por ela ter separado mais em histórias, eu gosto muito, porque é como se fossem vários encontros com essa amiga muito doida, que a cada encontro ela tem uma coisa pra falar, uma história nova.

AFS:
Eu amei como ela faz isso de Los Angeles. Eu conheço a Los Angeles do cinema, né? E fisicamente eu estive na cidade uma única vez, e foi muito pouco tempo, a trabalho… então eu me senti com vontade de ir para Los Angeles, conhecer a Los Angeles de Eve, ainda que essa Los Angeles não deva existir mais. Foi a mesma sensação que eu tive quando eu li Just Kids da Pat Smith, todas as outras vezes que eu fui para Nova York, é um guia pra mim. O Just Kids (Só Garotos), da Patti Smith, é o guia de Nova York, são os lugares por onde eu quero passar, todas as vezes que eu vou em Nova York, e a Eve me deu um pouco essa vontade de sentir essa coisa desse vento que ela fala, que deve ser insuportável, né, de estar nesses brunches que ela ama, e aquela descrição que ela faz, maravilhosa, daquela casa daquele super rico, que elas vão e estragam o final de semana da dona da casa;

CY:
Que ela fica muito puta, é muito bom isso.

BB:
Eu também nunca estive em Los Angeles, mas eu posso dizer que eu cheguei em Los Angeles em 2001, 2002, quando eu vi Cidade dos Sonhos, do David Lynch, então eu tenho a plena convicção que eu estive em Los Angeles quando eu estava vendo esse filme. Mas o Dias Lentos, Encontros Fugazes, ele pra mim é sobretudo um livro sobre o tempo, porque se fala muito da juventude, se fala muito da passagem do tempo, tem essa putrescência que a gente já mencionou. Ele pra mim é um pouco da síntese de Los Angeles… porque quando a gente pensa em Los Angeles, a gente pensa num sonho, então é uma fabricação artificial do onírico para o mundo. O cinema é a liberdade, e o Dias Lentos é um livro que tá o tempo inteiro em busca da identidade, em busca da liberdade. Então tem um desplante mesmo pela busca da liberdade, eu acho que nesse ponto a Eve consegue sintetizar muito o espírito da cidade, o sonho, a liberdade, a identidade.

AFS:
E dos personagens da cidade, né, Bruna? Porque esses personagens que a gente tem no imaginário são os personagens que fazem parte de Los Angeles, que é aquela coisa da turma dos jovens atores e atrizes que vão lá pra ser famosos em Hollywood, e os galãs, e a vida dupla dos super famosos e tal… E ela conta essa história desses personagens sendo um deles, porque ela é uma personagem, ela tá entre essas pessoas, é muito fascinante.

BB:
A promessa do poder e do glamour, né? Numa tacada só. Hoje, por exemplo, a gente lê a Los Angeles da Miranda July, em De Quatro a gente tem cenas de festa, o audiovisual de Los Angeles.

AFS:
Você chegou onde eu queria, porque essa Los Angeles da Eve, que ela mostra no livro, a gente vê como é hoje pelo livro da Miranda, né? E eu acho que vejo muita coisa da Miranda com a Eve, da Miranda também ser essa pessoa que é branca, magra, privilegiadíssima, que tem medo de ser famosa,e ao mesmo tempo quer ser famosa, fica nessa dualidade.

CY:
As duas são muito parecidas. Pode ser uma descrição sobre as duas, esse pé pra trás, falando, “ah, eu quero, mas eu não quero”.A Eve, pelo menos, eu acho que ela via como algo quase cafona, ao mesmo tempo que ela queria estar naquele grupinho, ela achava cafona, ela não queria fazer parte disso, então ela ficava na dela, escrevendo as coisas loucas dela. Toda essa coisa de querer ser famosa, não querer ser famosa, falar uma coisa, não falar uma coisa, que em Los Angeles deve ser uma loucura, né. Eu cheguei a ir pra Los Angeles depois que eu li a Eve. Eu fui no Chateau Marmont, porque tem essa energia do livro lá, eu acho que ela conseguiu traduzir muito bem, é um retrato de Los Angeles. Eu não sei se é porque eu fui depois de ler, aí já fui com esse olhar da Eve, mas eu acho que ela traduz muito bem toda essa podridão que brilha, né? Uma podridão que você quer fazer parte.

PW:
Pois é, essa coisa da Califórnia como um lugar, assim… Ao mesmo tempo que vocês estavam falando, do David Lynch, fiquei pensando muito na nossa geração, na minha, pelo menos. Era Red Hot Chili Peppers, Los Angeles, naquela música Under the Bridge, era uma espécie de imagem. E que foi se degradando, essa Califórnia, o Schwarzenegger era o governador. Foi virando um negócio meio distópico. Hoje mesmo, esse grande incêndio que teve lá, com aqueles carrões queimados, parece uma cena de ficção mesmo, né? Mas vocês acham que é a nostalgia que fisga um pouco? De um mundo que não existe mais.

CY:
Eu acho que a minha geração tá bem obcecada com nostalgia, né? Eu também sou.

PW:
Ah, é? Por quê, hein? Como é que é isso?

CY:
Bom, toda hora a gente vê essas trends novas de anos 90, anos 2000, anos 80. E eu também adentro, eu amo, eu só gosto de ver filme antigo. Mas eu acho que é porque talvez você perceba que, ao mesmo tempo que o mundo mudou, o ser humano é igual. Eu leio a Eve, ao mesmo tempo que ela tá muito distante de mim, eu me identifico com certas coisas dela, que eu não paro de falar, mas parece que você tá falando com uma amiga, mudou todo esse tempo, mas ainda assim, eu tô conversando com ela, sabe? Ela tá aqui do meu lado. Ela é uma pessoa parecida comigo, não parecida, mas que eu poderia conversar, Eu acho que essa coisa legal de nostalgia é perceber, por mais que seja diferente, ainda tem essa coisa humana, que é muito interessante, que é atemporal.

AFS:
Bom, primeiro, quando a Cecília fala “essa nostalgia anos 90”, eu tenho vontade de chorar.

BB:
Eu também.

AFS:
(risos) Mas eu acho que essa coisa da nostalgia é muito legal, porque a gente que nasceu nos 70, a nossa nostalgia é a dos 60, 50, loucos anos de Paris, década de 20, né? E era nisso aí que a gente ia buscar essa coisa. Mas pra mim, o grande lance é que hoje a gente pode ler tudo isso que a gente tinha, esse desejo que a gente tinha, né, desse underground, né, porque, óbvio, eu lia os beatniks e ficava louca, né, falando: “meu Deus, olha isso”. Mas o que eu acho mais legal é que hoje a gente pode ler isso pela visão, por exemplo, das mulheres, por esse recorte, né. Eu lembro que quando eu li a primeira vez, quando a Veneta, acho que foi que publicou aqui a Diane di Prima, que é a beatnik que a gente nunca tinha ouvido falar, eu falei: “putz, elas estavam lá, elas existiam”.

CY:
Eu falo pro meu pai, que nasceu em 59, que eu queria ter nascido nesse exato ano, porque ele viveu todos os tempos bons. Não tô falando fora da cultura, eu sei que tava uó, mas conseguir ter vivido os anos 60 e ver tudo… Eu tava assistindo ontem, aliás, um documentário do Kubrick com ele, e ele tava falando como ele foi ver 2001 com a família e como ele nunca tinha visto algo assim, eu fico “nossa, deve ter sido tão legal”.

PW:
Essa questão da nostalgia, uma vez conversando com o crítico de arte Lorenzo Mammi, ele falou sobre os anos 70 na Itália, que hoje a gente olha pra trás e é um grande momento da cultura italiana, mas ele falou que foi horrível na época, que era um extremamente abafado o ambiente. Então a cultura, muitas vezes, nasce nos ambientes mais adversos, isso parece um clichê, mas de certa maneira acontece. Enquanto a Eve Babitz estava lá, escrevendo e fazendo essas loucuras, tava rolando o Vietnã, tinha presidente sendo assassinado, candidato a presidente. Quer dizer, era muito hostil o ambiente político, a sociedade tava pegando fogo com a coisa do Vietnã, particularmente. E é uma loucura porque a gente pensa que o que nos separa hoje daquela época é muito mais tempo. São 60 anos hoje que a gente tá aqui falando das coisas que ela escreveu, é como se a gente estivesse falando lá dos anos 20, do Scott Fitzgerald, até tem um pouco esse clima, tem até no prefácio, o organizador faz um paralelo com a Zelda e o Scott Fitzgerald.

BB:
É, tem semelhanças também com Paris é uma Festa, que foi escrito na década de 60 e também tem esse lado da fofoca.

AFS:
Foi outro livro que também virou guia pra mim. Eu morei uma temporada em Paris e quando eu cheguei eu fiz todos os lugares de Paris é uma Festa. E é muito louco, porque os lugares que ele descreve, hoje são tudo uns pontos de turistas, daqueles mais turísticos horrorosos do planeta, mas estão lá. E nesse ponto aí a Nova Iorque de Patti Smith é mais interessante.

CY:
Antes, falando de guia, você falou de Cidade dos Sonhos, quando eu fui pra Los Angeles eu falei: “eu tenho que ir na casinha”. Eu tenho que ir na casa que inspirou o filme do David Lynch, inspirou Branca de Neve, o Elliot Smith morreu lá… Eu cheguei lá, gente, era a maior decadência do mundo, mas me mostrou, é isso mesmo, né, a gente fica romantizando, mas o negócio…

AFS:
É tipo ir no Chelsea Hotel, né?

CY:
Exato.

AFS:
Você chega lá no Chelsea Hotel… Fui lá tirar selfie, aquela coisa toda.

CY:
É, eu também já passei por essa, eu fui com um casacão de pele porque eu falei pra minha irmã assim: “eu quero parecer a Janis Joplin”.

PW:
Mas é porque a estética original já é decadente, né? Ela fala nos motéis decadentes da Califórnia, por exemplo. De certa forma, antecipou muito do que até o cinema faria, assim, de retratar esses lugares.

CY:
A gente fala de decadência, eu acho que tem gente que pode achar que a gente tá falando de algo ruim, pra mim é algo maravilhoso, eu acho…

AFS:
É o decadence avec elegance.

CY:
É uma elegância, é total.

PW:
E é quando as coisas viram arte, né, Piglia que falou isso, é quando as coisas ficam obsoletas, tipo, TV, né, o formato, vira uma forma artística depois que ela perde a utilidade prática de mercado mais imediato, então, pode começar a virar arte, fazer séries de TV.

BB:
Isso que a gente tava falando das mulheres, as mulheres falando, as mulheres publicando, e existe também um atraso aí entre as mulheres que tinham mais proeminência. Por exemplo, a Patti, porque ela tava na música, em comparação com as mulheres que, por exemplo, eram poetas ou escritoras marginais, digamos assim, de Nova York. Então, um exemplo bom dessa época é o Chelsea Girls, da Eileen Miles, que foi escrito na década de 90, e, inclusive, a Patti é um personagem. E a Eileen tava naquele submundo, entre muitas aspas, da poesia, da música também, do zine e tal, e das lésbicas, de uma vida queer em Nova York. E ela escreveu esse livro 10, 11 anos antes do Just Kids, e ele só voltou a circular por causa do lançamento do Just Kids. Então, eu recomendo muito a leitura, porque eu acho que o Chelsea Girls, ele é uma versão, uma versão mais bastidores, e por isso mais nua e crua do que a Patti tá contando no Just Kids.

AFS:
Muito legal isso que você falou, Bruna, porque no movimento feminista, nas redes sociais, nas hashtags, tem aquela historinha de uma mulher puxar outra, e acho que não só uma mulher, um autor negro, um autor ou uma autora queer e por aí vai. Uma delas faz muito sucesso, você descobre um tanto de outras que escreveram antes, ou estavam escrevendo na mesma época, estavam ali do lado que não foi traduzida, ou que não tinha sido lançada. Porque teve a [Tove Ditlevsen]…

BB:
É impossível eu falar esse nome. Fala Tovinha, Tovinha, Tovinha.

AFS:
É, Tovinha, da trilogia de Copenhague, que eu descobri também esse ano, essa autora maravilhosa, estupenda, leiam todas, por favor, quem não leu ainda, leia, maravilhosa. E ela, eu fui, né, eu li o livro, eu fiquei louca, e comecei a pesquisar. Tava todo mundo falando dela ao mesmo tempo, esse livro foi lançado aqui, e foi lançado também nos Estados Unidos e tal. Então todo mundo agora, na mesma época, falando dessa trilogia de Copenhague da Tove. Que, gente, que mulher estupenda, e que vida infernal que ela teve. A minha vontade foi também descobrir quem eram as outras que estavam ali do lado da Tove, sabe. Esse movimento de uma vai puxando a outra, é muito feliz essa época que a gente vive.

CY:
Eu também, descobri agora uma autora chamada Izumi Suzuki. Ela é dessa época também. E ela tava, claro, em outro país. Mas eu li o Tédio Terminal, que é bem doido. É bem ficção científica, então não posso falar que é a realidade que ela tava contando que tava acontecendo, porque isso claramente não tava. Mas ela pega talvez um jeito de falar da época que eu também identifico em todas essas. Um jeito de falar de si mesma, que tava bem presente na época, como uma mulher se descobrindo, mas ao mesmo tempo vivendo nesse mundo que não tava fácil. Que não é fácil até hoje, mas que realmente não tava fácil pra mulheres naquela época. É esse negócio que você vai entrando esses mundos, vai lendo essas autoras e vai descobrindo tantas outras maravilhosas. E quantas mais tem? Que bom que a Eve tá sendo traduzida agora pro Brasil, né? Porque quantas mais a gente vai encontrar daqui a pouco? Que publicaram um livro em 1965, que só teve uma edição, mas que é maravilhoso, e que ninguém leu, sabe? Tem um mundo a ser descoberto que é muito louco.

BB:
Quando uma mulher escreve uma história, ela traz outras histórias que foram escritas por mulheres, e ela impulsiona as mulheres que tão chegando. Então, por exemplo, com o sucesso da Elena Ferrante, a gente voltou a ler Elsa Morante, que é uma das papas dela, E e outras autoras italianas que tão surgindo aí a todo tempo.

PW:
E a própria Natália Ginzburg voltou a ser lida também, né.

AFS:
E a Lisa Ginzburg veio parar aqui também, já vira uma estrela.

PW:
Acho que essa arte que a Cecília, nesse caso, teve de ir atrás da nota de rodapé, do personagem que é citado no livro de maneira mais lateral e falar: “vamos se interessar por esses personagens mais marginais”. No sentido, acho que a Babitz acabou ficando assim. Se a Joan Didion virou mainstream total, bestseller, né, com livros adaptados pro cinema. E aí pra concluir, gente, eu queria saber se vocês sabem um pouco do final da vida dela. Eu li na Wikipédia, desculpem a referência, que ela teve aquela doença de Huntington, que é super barra pesada, uma doença que causa muito sofrimento.

CY:
O final da vida dela não é exatamente um final de vida feliz, isso me deixa muito… Eu acho que isso foi um dos motivos porque eu queria trazer ela, porque eu acho que ela foi muito injustiçada. Nos anos 90, ela se acidentou com fogo, se queimou inteira. E aí ela ficou reclusa, se excluiu da sociedade. Na biografia da Lili Anolik, ela fala que quando você entrava na casa dela, ela era uma acumuladora. Então não é exatamente muito feliz, ela passou esses últimos anos meio que não querendo mais aparecer. E morreu dessa doença, que eu acho que o pai dela também teve.

PW:
Sim, é uma doença genética super grave, que a pessoa tem convulsões dolorosíssimas, um negócio terrível.

CY:
Exato, é. E morreu cinco… não sei se foi cinco dias antes ou cinco dias depois da Joan. Ainda bem que Lili Anolik quis falar sobre ela e entrou em contato com ela esses últimos anos. Eu acho que por isso que esses dois livros que ela escreveu sobre a Eve, um só sobre a Eve e um sobre a Eve e a Joan, são interessantes pra você descobrir mesmo como que foi. Porque ela não falava com ninguém mais e ela confiou nessa mulher pra falar pra ela.

PW:
E foi deixando discípulas, né, a grande repórter Jia Tolentino, da New Yorker, escreveu sobre ela e tal, e é claramente uma herdeira.

CY:
É, é uma herdeira total, o livro dela é… esqueci o nome, é O Espelho?

BB:
[Falso] Espelho, saiu pela Todavia. É, quando eu tava terminando de ler a tradução da Cecília, eu pensei assim, será que a Jia Tolentino já escreveu alguma coisa sobre a Eve Babitz? E aí eu fui procurar e claro, tinha lá o ensaio.

PW:
Muito bom, gente, então viva a Eve Babitz, que ainda tem essa feliz coincidência de ter vários Bs no sobrenome, né, Bruna?

BB:
Eve Beber.

PW:
Pelo visto é uma afinidade que você encontrou com ela.

BB:
É só o nome!

AFS:
Olha, foi por isso que ela escolheu! (risos)

BB:
É só o nome, gente. (risos)

PW:
Legal, vocês querem concluir, querem falar alguma coisa? Acrescentar alguma coisa?

BB:
Eu quero fazer uma indicação de livro. Porque reler todas essas mulheres para o nosso episódio, Eve, Didion, Eileen Miles, falamos de Anne Sexton, Sylvia Plath, o meu pensamento chegou num livro que saiu no Brasil em 1999, que não é escrito por uma mulher, mas é um livro saborosíssimo e que conversa com tudo isso que a gente conversou hoje. Que é o livro Minhas Mulheres e Meus Homens, do Mário Prata, que não sei nem se ele ainda está circulando, mas é um livro maravilhoso, saboroso e tem muitas histórias ali da literatura, da arte e da política brasileiras, que eu acho que é um livro que vale ser relido e é uma crônica também, uma crônica em forma de catálogo, digamos assim.

PW:
Muito bom, catálogo telefônico.

BB:
Catálogo telefônico.

PW:
Não sei se você sabe, esse livro é uma adaptação literária da caderneta de telefones do Mário Prata. Porque era uma coisa que usavam nos saudosos anos 80, Cecília, as pessoas tinham uma cadernetinha assim com letras para você anotar. E era precioso, imagina a caderneta do Mário Prata, né? Então ele foi puxando verbetes a partir dessa caderneta, sobrou para todo mundo. E é uma fofoca extremamente bem escrita, né, Bruna?

BB:
Muito bem escrita.

AFS:
Olha, eu vou fazer uma publi gratuita que é falar desse selo, o Amarcord. Eu acho que eles têm sido muito felizes nos livros que eles lançaram desde que ele foi criado dentro da Record, que foi justamente o De Quatro, agora a Eve, O Mau Hábito, da Alana Porteiro, que também é incrível. Então eu acho que tem um feeling ali muito bacana de, já que eles estão ouvindo, eles podiam já lançar a biografia da Eve para a gente, que eu fiquei louca de vontade de ler depois que a Cecília falou.

CY:
Ah, eu posso já falar também que eu posso traduzir!

AFS:
Olha aí!

CY:
Pronto.

PW:
Mas e aí, a sua proposta de tradução atrasou o andamento do seu livro?

CY:
Não, o meu livro nasceu do meu TCC. Para vocês verem como a Eve está bem lá no meu fundo, o meu TCC foi sobre novo jornalismo, eu fiz jornalismo. Nele eu falei da Joan, falei do Truman Capote, Tom Wolfe, toda essa gente, mas eu também quis colocar a Eve. Eu falei: “eu também vejo ela como novo jornalismo e eu vou colocar ela”. Então, o produto, que foi o meu livro, são meus diários da quarentena e meio que adentrei eles. Acho que essa é a melhor maneira de descrever. Foi muito inspirado pelo que eu estava lendo, que era a Joan e a Eve.Eu comecei a traduzir a Eve no momento que o meu livro foi publicado. Então, não bateu. Mas, enquanto eu estava editando o meu livro, eu fiz a prova para fazer a tradução, mas deu certo.

PW:
Muito obrigado, então, Cecília, Bruna.

BB:
Gente, adorei a conversa. Obrigada, Cecília, Adri, Paulo.

CY:
Ah, eu adorei também.

AFS:
Obrigada. Adorei o convite, gente.

PW:
Muito bom. Obrigado, Adriana. E até a próxima, então, gente.

E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451MHz que traz o melhor da literatura LGBTQIA +, de todos os tempos.

LGBTQIA + significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. A cada episódio, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores.

O quadro de hoje traz uma dica da Ana Lima Cecílio, que é curadora da Festa Literária Internacional de Paraty. A Ana indicou Sara É Isso, romance de estreia da francesa Pauline Delabroy-Allard, que saiu em 2021 pela editora Nós, com tradução da Raquel Camargo.

Ana Lima Cecílio:
Esse livro é uma história de amor, uma história de amor arrebatada, como poucas vezes a gente vê na história da literatura, entre duas mulheres. A narradora é uma mulher que tem um namorado e tem uma filhinha e leva a vida de um jeito meio entediado, até que passa esse vendaval da paixão por essa mulher chamada Sara e ela fica completamente enlouquecida. 

E o que é lindo desse livro é que, quando ele traz todas as coisas que vêm com a paixão, a loucura, o despertencimento, o sair do lugar, a revolução na vida, ele tem uma linguagem que vai acompanhando esse ritmo. É muito impressionante, a gente se sente dentro da cabeça dessa mulher arrebatada e apaixonada. E é um livro que a gente se apaixona um pouco também junto com ela, porque o texto é muito envolvente.

PW:
Então, essa foi a dica da Ana Lima Cecílio, Sara é Isso, da Pauline Delabroy-Allard, traduzido pela Raquel Camargo e publicado pela Editora Nós.

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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza
Edição e mixagem: Mariana Franco e Igor Yamawaki
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