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Transcrição: 451 MHz revisita a viagem pela Amazônia de Mário de Andrade
Leia a transcrição do episódio #129 do 451 MHz, um especial em formato narrativo sobre o diário de bordo do escritor modernista que deu origem ao clássico O turista aprendiz
12dez2025 • Atualizado em: 10mar2026O 129º episódio do 451 MHz é o sétimo episódio da coleção Narradores do Brasil, que o podcast inaugurou em 2021. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi! Está começando mais um episódio do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Duas vezes por mês, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de sair no Brasil.
E hoje a gente vai falar sobre literatura de viagem, sobre um diário de viagem, uma coisa que as pessoas faziam antes das redes sociais existirem. Iam viajar com uma ou com várias cadernetas em branco, lápis e caneta. Mas esse diário de viagem aqui, que nem chegou a ser publicado durante a vida do autor, se tornou um clássico da literatura brasileira.
E se naquela época a Amazônia era totalmente desconhecida da maioria dos brasileiros, hoje, 100 anos depois, ela acabou virando um grande assunto para o mundo inteiro. Só que ela ainda permanece desconhecida, inclusive aqui no Brasil. Além de falar sobre a Amazônia, esse diário de viagem também diz muito sobre quem viajou, quem escreveu ele.
A paisagem não é só a imensidão das águas, a floresta, as pessoas que ele conheceu ao longo do caminho. Quer dizer, é isso também. Mas aqui, o viajante também fala de si mesmo. Ao lado das cartas que o Mário de Andrade escreveu, esse livro é uma das principais portas de entrada para entender o escritor de carne e osso.
Mário de Andrade tinha 33 anos quando embarcou nessa viagem de 69 dias pela Amazônia, em 1927. As anotações dessa viagem de 100 anos atrás deram origem a um livro que ele não chegou a ver publicado, mas ele já sabia o título e o subtítulo. O turista aprendiz: viagens pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega.
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Esse “aprendiz” do título era sobre o viajante Mário, e não só por causa da idade dele, 33 anos, o que a gente chama hoje em dia de jovem escritor. Naquela altura, o Mário já era reconhecido como um dos principais articuladores do modernismo no Brasil. Cinco anos antes, ele tinha participado da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Ele ainda não tinha publicado o principal livro dele, Macunaíma: o Herói Sem Nenhum Caráter, que só saiu em 1928, mas ele tinha acabado de escrever.
O Macunaíma se passa na Amazônia e é uma rapsódia. Ou seja, um gênero que é ligado à literatura épica. Só que o autor nunca tinha pisado na Amazônia, só conhecia pelos livros. Então, ele agarrou a oportunidade de largar as 200 mil coisas que ele fazia em São Paulo para ir viajar pelo rio Amazonas até o Peru, pelo rio Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega. É o que diz o subtítulo.
O Mário levou várias cadernetas, uma bengala novinha, chapéu e uma Kodak. Ele escrevia assim com C-O-D-A-Q-U-E. Uma “codaque”, uma máquina fotográfica portátil. As anotações e as fotos ficaram guardadas até 1943, quando ele decidiu passar a limpo aquele material. Então o Mário pegou a Manuela, que era como ele chamava a máquina de escrever dele, e que tinha esse nome em homenagem ao Manuel Bandeira. O Mário bateu o texto todo na Manuela e ainda deixou um prefácio curtinho, dizendo que aquilo não era para ser publicado.
Ele era um cara muito organizado, ele deixava a papelada em perfeita ordem, milhares de fichas, partituras, páginas de originais, eram vários livros que ele escrevia ao mesmo tempo, tratados, romances, poemas e até dicionários — para não falar nas cartas. Esse cuidado de deixar tudo certinho acabou sendo fundamental para que o trabalho dele não se perdesse.
Pois é, porque dois anos depois de passar a limpo os originais do Turista aprendiz na Manoela, no dia 25 de fevereiro de 1945, há 80 anos, o Mário estava em casa, na Rua Lopes Chaves, na Barra Funda, São Paulo, e teve um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha só 51 anos. Isso foi uma tragédia, ele ainda tinha muita coisa para fazer, tinha vários projetos em andamento e não teve tempo de terminar.
Então a USP criou um instituto especialmente para preservar, estudar e publicar a papelada do Mário de Andrade. O Instituto de Estudos Brasileiros, o IEB. Graças a esse trabalho, a gente pode ler as cartas dele, os diários de viagem e outras obras inéditas. O turista aprendiz saiu pela primeira vez em 1976, 31 anos depois da morte dele, em uma edição organizada pela escritora e pesquisadora Telê Ancona Lopez. E a influência do Mário na cultura brasileira cresceu cada vez mais durante a segunda metade do século XX e agora nas primeiras décadas do século XXI. E é por isso que eu estou aqui te convidando para embarcar na canoa do 451 MHz e acompanhar o Mário nessa viagem incrível.
Por que que até hoje, um século depois, a gente ainda está falando de uma viagem de uns sudestinos deslumbrados pela Amazônia? Esse é um episódio especial, em formato narrativo, do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. A gente vai falar sobre a viagem que o Mário de Andrade fez pela Amazônia e sobre o diário de viagem que ele escreveu lá, O turista aprendiz.
Hoje, quase 100 anos depois da viagem e 80 anos depois da morte do Mário de Andrade esse livrinho é um clássico da literatura brasileira de viagem e acabou de ganhar uma nova edição pela Tinta da China Brasil, que é o nosso selo editorial aqui na Quatro Cinco Um.
Beatriz Sarlo [BS]:
“Mario tiene una frase que a mí me parece muy hermosa y que se puede aplicar tanto a la Argentina como al Brasil en el momento en que él la pronuncia, que es allí donde el concepto de patria es casi una quimera. La patria todavía como una entidad que no había terminado de definirse.”
PW:
Essa voz é da crítica literária Beatriz Sarlo na Flip 2015, que teve o Mário de Andrade como autor homenageado. A Beatriz, que morreu agora em dezembro de 2024, participou da abertura da Flip fazendo uma comparação entre a geração modernista de 1922 com os argentinos da mesma época.
Ela diz que o Mário tem uma frase que ela acha “muy hermosa”, muito bonita, e que pode ser aplicada tanto à Argentina quanto ao Brasil, ali onde o conceito de pátria é quase uma quimera. A frase completa: “país de povo desleixado, onde o conceito de pátria é quase uma quimera, a não ser para os que se aproveitam dela.” E a Beatriz termina dizendo que a pátria era uma entidade que ainda não havia terminado de se definir.
BS:
Cronológicamente se sobreimprimen, es como si se avisaran que van a sacar un libro. Los libros de Mario están saliendo en el mismo momento en que salen los de Borges y en el mismo momento en que salen los de Oliverio Girondo.
PW:
Ela diz que os livros do Borges e do Oliverio Girondo, por exemplo, saíam ao mesmo tempo que os do Mário e companhia, como se um tivesse avisado o outro. Realmente, esses autores tinham algumas coisas em comum como, por exemplo, a ideia de que cabia à arte e à literatura terminar de definir essa quase quimera que era o conceito de pátria, de nação. Mas existiam mais diferenças do que semelhanças entre os portenhos e os paulistas de 1920.
BS:
De todas maneras, se podría decir que Mario y los argentinos, Borges, Girondo y sus compañeros, son absolutamente diferentes. Mario hace cosas que no hubiera pasado por la cabeza de un escritor argentino de ese momento. Para empezar, sus investigaciones musicales.
PW:
Só que, para além dessa questão da pátria, esses autores eram totalmente diferentes. A começar, diz a Beatriz, pelas pesquisas musicais do Mário, que eram de um rigor que os argentinos não tinham. E qual era, afinal, a outra grande diferença que o Mário tinha em relação aos argentinos da mesma época?
BS:
“La segunda son los viajes. Los argentinos viajan a Europa. Los argentinos viajan a París. ¿Qué es lo que pasa? La segunda son los desplazamientos en el territorio nacional de Brasil. Estos desplazamientos, la Amazonia, esto hubiera parecido a los porteños de Buenos Aires, excursiones extravagantes. Es como si fueran hombres de dos culturas diferentes. Mario yéndose por la Amazonia y estos porteños de Buenos Aires se hubieran dicho, pero che, este brasileño está loco, decididamente está loco.”
PW:
É isso, essa história de viajar pelo interior do país parecia, aos olhos de um portenho da época do Mário de Andrade, uma excursão extravagante. O Mário decidiu fazer o percurso inverso do herói sem nenhum caráter que ele tinha acabado de criar, o Macunaíma, e foi de São Paulo para a Amazônia. E a Beatriz Sarlo tem razão, naquela época, quem tinha uma ideia dessas, “che, decididamente está loco.” Na verdade, o plano dele não era ir para a Amazônia naquele momento.
Em 1927, o Mário de Andrade estava preparando uma viagem para o Nordeste, ele queria sistematizar um conhecimento sobre o folclore brasileiro. Assim como a Amazônia, ele conhecia essas coisas pelos livros e partituras, mas não ao vivo, na prática, e ele queria pesquisar os cantos e danças do Brasil, fazer registros, entrevistar artistas populares, etc.
Então, veio o convite da Olívia Guedes Penteado, ela era mecenas, quer dizer, uma pessoa muito rica que patrocina os artistas e as artes. Ela fazia parte da oligarquia do café, era uma figura ilustre na alta sociedade paulista, por isso, ela era chamada por todo mundo de Dona Olívia. Ela estava planejando uma expedição pelo rio Amazonas e já tinha organizado tudo. Isso era crucial, porque naquela época as pessoas não faziam turismo pela Amazônia, não era uma viagem fácil nem barata, não dava para perder aquela oportunidade.
E, de fato, o Mário não conseguiu resistir. Ele pegou dinheiro emprestado com o irmão, pediu licença do conservatório, onde dava aula de música, largou a papelada na escrivaninha, comprou uma bengala nova e partiu para uma grande aventura. A viagem do Nordeste ia ter que ficar para depois e ela acabaria formando o segundo livro d’O turista aprendiz.
Amara Moira [AM]:
7 de maio de 1927. São Paulo. Partida de São Paulo. Comprei pra viagem uma bengala enorme, de cana-da-índia, ora que tolice! Deve ter sido algum receio vago de índio… Sei bem que esta viagem que vamos fazer não tem nada de aventura nem perigo, mas cada um de nós, além da consciência lógica, possui uma consciência poética também.
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é de uma intelectual que tem algumas afinidades com o Mário de Andrade. Ela vai se apresentar para você.
AM:
Meu nome é Amara Moira. Eu sou escritora, pesquisadora da História LGBTQIA + brasileira e uma grande leitora e admiradora de Mário de Andrade.
PW:
É ela quem vai ler os trechos do livro para a gente, encarnando o Mário de Andrade. A Amara é paulista e no ano passado publicou pela Companhia das Letras, Neca: romance em bajubá. Escrever em linguagem coloquial brasileira é uma das afinidades da Amara com o Mário de Andrade. E ser uma intelectual LGBTQIA + é outra. Eu pedi para ela nos contar qual é a importância do Mário de Andrade na formação intelectual e universitária dela.
AM:
O Mário entra na vida de todo mundo que faz o ensino médio, fundamental, pensando sobretudo no vestibular, em prestar vestibular. Então, o Mário entra cedo na minha vida. Entra como aquela figura das leituras obrigatórias. Quando eu começo a faculdade de letras, ele vai aparecer de novo.
E mais recentemente, quando eu começo a me interessar pela literatura LGBTQIA+ brasileira, ele volta com muita força. Então, ele é uma figura chave dessa literatura. Uma figura que inclusive no seu tempo, a sua maneira, foi cartografando outras obras LGBTQIA+ que já haviam sido produzidas, né? Ele tem artigos muito interessantes falando sobre precursores e figuras que foram trazendo essa temática para dentro das suas obras.
E além de tudo isso, uma das grandes questões que me fascina na sua produção é o amor que ele tem pelo português coloquial, é o amor que ele tem pelo português que de fato se fala no Brasil. Então, ele tenta trazer isso para dentro da sua literatura. Ele tenta fazer disso um instrumento de produção literária e faz isso de forma muito sofisticada.
PW:
O turista aprendiz tem a estrutura de um diário, com as entradas — que é como a gente chama os fragmentos de um diário — escritas no calor da hora, como se fossem fotografias, é uma escrita que se faz ao vivo.
Flora Thomson-DeVeaux [FTDV]:
Eu conheci o Turista Aprendiz na Flip em que o Mário foi homenageado, e eu acho que…
PW:
Essa voz que a gente está ouvindo é da Flora Thomson-DeVeaux.
FTDV:
Talvez eu nunca tivesse conhecido O turista se não fosse o acaso da minha mulher, a Paula Scarpin, ser a moderadora de uma mesa justamente chamada O turista aprendiz. Que era sobre… Enfim, o livro, o Mário, mas também narrativas de viagem de forma geral.
PW:
Os nossos ouvintes já conhecem a Flora aqui do 451 MHz e também do Rádio Novelo Apresenta, do Praia dos Ossos e vários outros podcasts. Além disso, a Flora é tradutora literária, ela fez uma tradução famosa do Machado de Assis para o inglês. E também de um outro livro brasileiro. Adivinha qual? Quem adivinhar ganha um bombom de cupuaçu.
FTDV:
Um dos motivos de ter uma nova edição já estava ali patente, que a gente não conseguiu comprar o livro físico naquela hora, não tinha na Estante Virtual. Mas eu li pela primeira vez em PDF, que é uma coisa que eu detesto, assim… Não dá para canetar direito, enfim.
PW:
É das coisas do Brasil. Como é que um livro desses não estava disponível nas livrarias justo no ano em que o autor foi homenageado pelo principal festival literário brasileiro? Na verdade, até agora há pouco, era mais fácil encontrar O turista aprendiz numa livraria de Nova Iorque do que em Belém, em São Paulo ou no Rio. E foi a partir dessa constatação, e também da voz irresistível da Paula Scarpin, também da Rádio Novelo, que a Flora se apaixonou pelo turista e decidiu traduzir para o inglês.
FTDV:
Eu acho que em 2024, esse livro traz várias coisas. Eu sou muito sincera quando digo que eu nunca li um livro como O turista aprendiz. Então, só o fato da gente conseguir encontrar um livro que não é como nenhum outro, isso já poliniza de um jeito muito bom a nossa cena literária. Ele foge da mesmice num grau que é até desconcertante, que você não sabe categorizar realmente esse livro.
PW:
Desconcertante, né? Ou, como diria o próprio Mário no prefácio que ele fez em 1943, “cheira a modernismo e envelheceu bem”.
FTDV:
E além disso, ele é ao mesmo tempo um registro histórico de uma Amazônia que não existe mais — que já estava deixando de existir, na época em que o Mário estava lá. Ele também é um registro vivo, muito bonito e acurado da Amazônia que a gente ainda pode perder, que a gente está perdendo na nossa inação, na nossa negligência, em tudo que a gente está fazendo que está permitindo que isso se perca.
Então, acho que tem uma importância literária contemporânea mesmo, tem importância social, ambiental e tem uma importância para a gente entender melhor todo o resto da obra do Mário. Ao conhecer o Mário d’O turista, eu acho que a gente lê com outra luz todo o resto da obra dele.
PW:
E foi por isso tudo que eu convidei a Flora a organizar uma nova edição do livro na Tinta-da-China Brasil, que é a nossa editora aqui na Quatro Cinco Um, e assim recolocar em circulação nas livrarias brasileiras esse texto tão importante.
FTDV:
Então, pela primeira vez… Enfim, O turista está voltando a circular, estava esgotado. E pela primeira vez essa parte amazônica está saindo de forma independente e com algumas modificações na sequência dos textos, que foi uma coisa que eu tinha feito na minha tradução.
Enfim, a gente pode entrar mais nas minúcias, na natureza do datiloscrito, mas foi uma coisa que eu senti que melhoraria a função, a aceitação e a legibilidade mesmo desse texto. Então, O turista está soltinho, está puramente amazônico, e o mais importante é que está disponível para mais pessoas terem contato com esse livrinho estranho e bonito.
PW:
Isso que ela chama de datiloscrito é um original, um livro inédito, só que batido à máquina. É aquele manuscrito datilografado que o Mário fez em 1943 com a ajuda da Manoela, a máquina de escrever dele. Foi desse material que a Flora partiu para organizar o livro.
FTDV:
E a minha edição é engraçada. Eu não parti dessa ideia de vou fazer uma nova edição eu estava só navegando pelo texto e fazendo a minha tradução e uma das coisas que eu fiz, que eu achei muito importante, óbvio, era consultar o datiloscrito, que está no IEB, no Instituto de Estudos Brasileiros, junto com as fotografias maravilhosas, que passei uma tarde agradabilíssima fotografando e contemplando as fotos, que são pequenininhas, mas são umas janelinhas para esse mundo amazônico, que a gente pôde trazer algumas delas, tanto na minha tradução, quanto nessa edição da Tinta-da-China.
PW:
Organizar um livro de um autor morto significa uma enorme responsabilidade, exige várias decisões importantes. E a primeira decisão importante é desobedecer a indicação que o autor deixou de que aquilo não era para ser publicado. Será mesmo?
Muitos escritores que pediram isso acabaram sendo traídos pelos organizadores póstumos das suas obras. Se queria tanto destruir, por que não destruiu você mesmo? O Franz Kafka é o maior exemplo desse dilema. Max Brod, que era o melhor amigo dele, não cumpriu a promessa de queimar os manuscritos. E é por isso que a gente conhece A metamorfose, O processo e vários outros livros importantíssimos.
E ao organizar o livro, o organizador — ou a organizadora no caso — acaba decidindo a forma final do texto, o que no jargão editorial é chamado de “estabelecimento de texto”. Então, o organizador completa o trabalho que o escritor não teve tempo ou não quis fazer, como tomar decisões de estilo, encaixar fragmentos soltos nos lugares supostamente certos, etc.
FTDV:
E alguns desses fragmentos tinham anotações muito claras, de assim: “isso aqui vai no dia tal, isso aqui vai no dia tal.” Então, beleza, você vai inserindo, e é isso que as edições anteriores seguiram. Mas alguns dos fragmentos não têm essa indicação, são coisas que o próprio Mário, no momento em que ele fez o datiloscrito, não inseriu ali, não deixou nenhuma indicação. E as edições anteriores foram inseridas em pontos que eu chamaria de prováveis.
Eu acho que, assim, são suposições bem razoáveis sobre onde que essas coisas poderiam entrar em determinada altura da viagem. Então, em vez de inserir ao longo, dentro do corpo do texto, deixei juntos essas pequenas brincadeiras do Mário, que podem ser apreciadas dessa forma, sem que se sintam como interrupções, mesmo, no texto.
PW:
A edição que a Flora organizou traz um mapa que mostra o caminho de ida e volta da viagem, além de 14 fotos tiradas pelo Mário. Pois é, lembra que ele levou aquela máquina fotográfica no bolso e, por isso, é impossível falar n’O turista aprendiz sem falar nessas imagens. Textos curtos, imagens de praias, paisagens, pessoas, coisas pitorescas encontradas no caminho, legendas engraçadinhas. Seria perfeito para bombar nas redes sociais hoje em dia. Só faltam mesmo alguns emojis. Só que ele não conseguiu esconder o mau humor e a solidão desde o primeiro dia de viagem. Isso o Instagram não mostra, né?
AM:
“7 de maio. Não fui feito pra viajar, bolas! Estou sorrindo, mas por dentro de mim vai um arrependimento assombrado, cor de incesto. Entro na cabina, agora é tarde, já parti, nem posso me arrepender. Um vazio compacto dentro de mim. Sento em mim.”
PW:
Foi essa infelicidade dele que levou a Flora a parodiar o começo de Anna Karenina, o grande romance do Tolstói, no texto dela que saiu na nova edição d’O turista aprendiz. “Todos os viajantes felizes se parecem. Cada viajante infeliz é infeliz à sua maneira. E poucos viajantes infelizes se sentindo deslocados e fora do lugar são tão interessantes quanto o Mário de Andrade na Amazônia.”
FTDV:
Eu me reconheci muito no Mário nessa dificuldade crônica de viajar. Porque tem esse grande problema que a gente nunca deixa a gente em casa, por mais que a gente troque de paisagem, troque de roupa, troque de tudo, a gente está sempre com essa companhia da gente mesma.
PW:
O Mário pegou um trem no sábado, 7 de maio, com destino à capital da República, o Rio de Janeiro. Era lá que saíam os navios a vapor que subiam pelo oceano até o norte. O Mário ia aproveitar as escalas do barco dele, o Pedro I, para visitar amigos pelo caminho.
Jason Tércio [JT]:
Antes dele ir ao nordeste surgiu a oportunidade de uma viagem para a Amazônia. Uma viagem inesperada, na verdade.
PW:
Esse é o Jason Tércio. Ele é jornalista e escritor. O Jason Tércio passou mais de 10 anos mergulhado na obra do Mário para escrever Em busca da alma brasileira, uma biografia de 500 páginas publicada pela Estação Brasil em 2019.
JT:
Dona Olívia Guedes Penteado era uma senhora rica, que tinha muito tempo livre e que costumava viajar mesmo pelo mundo, inclusive pelos países árabes e tal. Ou seja, ela era uma mulher muito independente e gostava de viajar. E aí ela resolveu ir para a Amazônia. Veja você, né? Ir para a Amazônia naquela época era uma grande aventura.
Porque, claro, ia-se de barco e tudo, mas ninguém sabia o que poderia acontecer. E aí o Mário achou maravilhosa a ideia, tanto que ele pediu o dinheiro emprestado para o irmão dele para financiar a viagem. Agora, a Dona Olívia convenceu o Mário dizendo que na viagem também iria o Paulo Prado, que iria um grupo de gente conhecida e tal.
PW:
Na primeira parada, ele foi almoçar com o melhor amigo dele, o Manuel Bandeira.
AM:
“8 de maio, Rio de Janeiro. O almoço foi, como sempre nos meus dias de chegada ao Rio, com Manuel Bandeira. Não sei, acho o Rio uma cidade mui feia, mas dizem que é bonita… A natureza sim é maravilhosa, eu sei, mas a cidade, a urbanidade, o trabalho do homem, o sofrimento e a glória do homem, é uma coisa detestável.”
PW:
A viagem mal começou e já veio o primeiro susto. O poeta quase embarcou sem as malas porque o senhorzinho que ele contratou para levar a bagagem até o Cais do Porto não aparecia. O cara chegou na última hora. As malas chegaram a tempo, mas o Mário não demorou a descobrir que estava faltando uma outra coisa que para ele era mais importante do que a bagagem: os outros intelectuais que tinham sido convidados para ir à Amazônia com a Dona Olívia. O Mário foi o último a saber que eles não deram as caras.
AM:
“11 de maio. A bordo do Pedro I. […] Com essa história não me despedi de ninguém direito, nem percebi certo quantos companheiros de viagem iam no bando. […] Pois quando dou o tento mesmo definitivo no caso, toda a gente roera a corda! Estamos apenas Dona Olívia e as duas moças, Dolur e Mag. Dona Olívia, com aquele sorrisinho dela, me fala: ‘Você deve estar bem descontente de ser o único homem da expedição.’ ‘Se soubesse que era assim, não vinha, Dona Olívia.’ Meio áspero, sincero, ela não teve o que dizer, nem eu.”
PW:
Pois é, ele sacou que era o único homem da comitiva. E a comitiva se resumia a ele, a Dona Olívia e a duas acompanhantes dela, duas adolescentes, ou quase isso. Eles mal se conheciam e iam viajar juntos por mais de dois meses. E o Mário ficou muito contrariado.
FTDV:
Ele diz logo no começo, que ele descobre que todo mundo roeu a corda, que todos os outros homens ilustres que o acompanhariam pularam fora. E sobrou ele, a Dona Olívia Guedes Penteado e a Dulur e a Mag. Eu sempre esqueço os nomes reais de Balança e Trombeta. Deixa eu ver aqui. Para mim, elas viraram só Balança e Trombeta.
Então, tem a Dona Olívia Guedes Penteado e ela está com a sobrinha, que é a Margarida Guedes Nogueira, mais conhecida como Mag. E tem a Dulce do Amaral Pinto, ou Dolur, que é a filha da Tarsila do Amaral. E as duas são moças adolescentes, a Dona Olívia e o Mário, que é o único homem ali que sobrou da expedição. Então, é bem menos do que ele esperava para essa grande viagem amazônica. Está ali quase de babá, ele está de secretário da Dona Olívia e de babá das duas meninas.
PW:
Balança e Trombeta são os apelidos que Mário deu para as duas moças. Balança é Mag e trombeta é a Dulur. Elas tinham 19 e 21 anos. E o Mário vai equilibrando o mau humor dele com uma ironia que acaba sendo divertida, um mau humor que acaba sendo engraçado, pelo menos para a gente que está lendo.
A própria condição de turista já é meio ridícula por definição, né? Ainda mais “aprendiz”, ou seja, esse turista desajeitado, atrapalhado, que ainda está aprendendo a “turistar”. É bem diferente de outras categorias mais nobres, de quem corre o mundo, como o viajante, o peregrino, o explorador.
FTDV:
Ah, turista é um papel bem menos nobre, né? É um vocábulo quase patético. Quem quer se sentir turista? Ninguém quer se sentir turista.
PW:
Essa é de novo a Flora.
FTDV:
Turista é aquele sujeito de boné e pochete que está ali posando para a foto em frente ao monumento. Eu acho que desde o primeiro momento, desde o momento em que ele percebeu que ele não estava embarcando na viagem que ele achava que ele estava embarcando, que essa viagem não seria uma grande caravana modernista pela Amazônia, e sim seria ele, Mário de Andrade, acompanhando a Dona Olívia Penteado e as sobrinhas, a amiga da sobrinha, e um monte de gente aleatória, enfim, no vapor, nos vaticanos, pela Amazônia fora, ele percebeu que seria uma turistagem mesmo, que ele não ia conseguir se aprofundar nas coisas, que ele ia ser reduzido a esse papel um pouco patético de, assim, posar para a foto e não penetrar na essência das coisas.
PW:
E o Mário demonstra um incômodo durante toda a viagem.
FTDV:
É só uma sensação íntima de, assim: “eu não fui feito para isso.” E ele vai tentando, mas tem alguns momentos em que ele se encontra ali, que são sublimes, em que ele consegue esquecer um pouco dele mesmo, porque ele consegue se abrir para aquele mundo novo, que ele vê alguma coisa que deixa ele desnorteado, ao ponto de esquecer toda essa angústia, toda essa agonia que ele carrega sempre na malinha de mão.
PW:
Isso é realmente muito interessante, né? Porque o turista tem a oportunidade de abandonar a pessoa que ele era e se entregar às coisas sem o peso de tudo que a gente carrega ao nosso redor.
FTDV:
Então, eu acho que é uma postura, é uma designação, uma denominação muito sincera e eu acho que mais gente é “turista aprendiz” do que sabe. Talvez mais gente se identifique na leitura e passe a se chamar de turista aprendiz.
PW:
Isso é muito legal, porque o Mário não vai para a Amazônia como um especialista, um sabe-tudo. Pelo contrário, ele é alguém que quer aprender. Inclusive, tem gente que pensa que a palavra “aprendiz” tem um peso até mais forte do que “turista”. Um peso político até.
Paulo Nunes [PN]:
Esse título, como é que eu poderia dizer? É um título manifesto. Bem, ele traz “turista” que a gente poderia simplificar dizendo que é sinônimo de viajante, aquela pessoa que está disposta a se renovar descobrindo novos espaços, novas situações. Mas tem a palavra aprendiz e a palavra aprendiz para mim chama a um projeto educativo, chama a um projeto que é político a partir da estética.
PW:
Esse é o Paulo Nunes. Ele é poeta, professor e pesquisador da Universidade da Amazônia em Belém e da Universidade do Estado do Pará, além de ser membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Ele é especializado em literatura da Amazônia e é doido pelo Turista aprendiz.
PN:
Então, este livro, por isso que eu digo, é um livro manifesto. Porque ele se incumbe de dizer assim, “alô, eu estou aqui para estender os meus ossos…” Como ele diz, “sobre o calor de Belém.” Estender meus ossos. Estender minhas musculaturas. O Mário, quando ele faz essa viagem, ele já tinha reputação e fama suficientes para se colocar num estágio arrogante, prepotente, um estágio daqueles que a gente sabe que acontece muito conosco.
PW:
Eu ainda vou explicar para vocês essa história de estender os ossos em Belém. Mas antes, vamos ouvir o Paulo Nunes sobre as coisas que o Mário de Andrade escreveu sobre a Amazônia.
PN:
A Amazônia, em geral, é representada pelos não-amazônidas, como o espaço de solidão, o espaço do exótico, o espaço da não-inteligência, da não-literatura, da não-cultura. E o Mário vem desconstruindo a cada momento esse tipo de ponto de vista. Então, cada local é motivo de uma nova descoberta, de uma nova observação, e ele tem olhos refinados para perceber a diversidade.
PW:
O Mário levou a solidão dentro dele, mas por fora ele se deixou contagiar pelo que estava vendo. Isso que o Paulo Nunes chama de uma nova observação, também tem a ver com uma novidade que o Mário levou na viagem, a tal Codaque. Já fazia alguns anos que ele estava fazendo umas experiências estéticas e documentais com a Kodak Vest Pocket dele. Era uma maquininha pequena, com uma lente sanfonada que você tinha que puxar para fora na hora de usar. Fechada, essa máquina tinha o tamanho de um smartphone.
FTDV:
São centenas de fotos, a gente só conseguiu trazer algumas nessa edição, mas são como se fosse um ensaio paralelo. O Mário tem um olhar muito acurado, ele faz uns recortes muito finos ali. Às vezes ele fala que a paisagem é tão vasta que o único jeito de você comunicar o que ela é, é aprisioná-la em pequenas molduras. Então as fotos são isso, são uma tentativa de recortar toda essa imensidão, toda essa exuberância até ela ficar inteligível, de você conseguir comunicar um pouco do que ela é.
PW:
Uma edição d’O turista aprendiz sem pelo menos algumas das imagens que ele produziu durante a viagem sempre vai ser incompleta. Isso também dá para esse livro um caráter muito moderno, porque ele é a soma do texto com as imagens. E essa coleção de imagens entrou para a história da fotografia brasileira.
FTDV:
Nossa, tem fotos lindas nas cidades das pessoas, dos mercados, de procissões, dos barqueiros, dos remadores, das crianças observando essa tropa. Tem o próprio Mário posando de um jeito mais ridículo do que o outro. Tem as meninas dançando no convés. Tem o pessoal tentando se divertir a bordo. Tem o pessoal empurrando o carro que emperrou. Tem o pessoal puxando a palheta do barco que quebrou. Tem as borboletas que ele tenta fotografar e não saem na foto. Tem a sombra dele na água. São imagens muito especiais, inesperadas e eu acho que complementam de forma muito potente o texto do Mário.
PW:
E até quando a intenção era só documentar a arquitetura ou a paisagem, ele trazia um toque de humor, nem que fosse ao escrever a legenda.
FTDV:
Tem várias fotos que ele está tirando, é documental mesmo. É assim, ele está querendo mostrar como é o vilarejo, como é o barco. Tem uma função documental, além das fotos que são mais experimentais, que é muito importante da gente conseguir vislumbrar essa Amazônia de um século atrás. Mas tem sempre um humor. Você percebe o olhar do Mário, mesmo quando é uma foto direta, mais careta de um prédio, digamos, em ruínas, você percebe o olhar, a curadoria dele ali. Às vezes nas legendas que ele fala ele compara Santarém à Veneza. As legendas também são maravilhosas. As fotos e as legendas são todo um livro à parte, digamos.
Maureen Bisilliat [MB]:
Tem uma foto em que tem milhares de lençóis num varal ao vento. Então eu gostei da soltura que ele fez. Uma soltura do muro, uma coisa em que o texto de repente vem.
PW:
Essa voz é da grande fotógrafa Maureen Bisilliat. Ela está comentando uma das fotos mais famosas que o Mário fez. Umas roupas penduradas no varal que estão infladas pelo vento. Ele colocou uma legenda assim: “roupas freudianas.” A psicanálise, assim como a fotografia, era uma outra novidade daquela época. E ele era bem novidadeiro, né?
MB:
Mário de Andrade é a irreverência, sensibilidade e irreverência. Mas de repente é o imprevisto, é imprevisível. Caiu na minha mão esse livro, uma série de livros das quais a primeira que abri foi O turista aprendiz. Aí eu acho que eu estava com uma vaga ideia, vaguíssima ideia. Talvez pudesse propor, como eu já tinha feito na exposição 1975 do Xingu. Pensei: “Ah, quem sabe 10 anos depois eles aceitam uma ideia.” Então pensei: “Mário de Andrade o turista, interessante.” Qual era a ideia? Era Mário como uma das primeiras pessoas que foi levado às raízes do Brasil, acho. O interessante seria não fazer a viagem dele totalmente, mas começar em Belém e ir de barco fazendo uma viagem parcial do Mário.
PW:
A Maureen, que a gente ouviu aqui num depoimento dado ao Instituto Moreira Salles, faz parte de uma verdadeira legião de turistas aprendizes, né? Jornalistas, escritores, fotógrafos que também viajam pela Amazônia no rastro do Mário de Andrade. Em 1985 a Maureen passou cinco semanas viajando pelo norte do Brasil acompanhada pelo Lúcio Kodato que filmou tudo. A exposição com os fotogramas das filmagens e os textos da Maureen foi montada em uma espécie de varal que nem os lençóis da foto.
AM:
“Belém, 19 de maio. Durante a noite o Pedro I portou em Salinas pra emprestar um tapejara que nos guiasse através da foz traiçoeira do Amazonas e quando nos levantamos no dia de hoje bem cedinho já estávamos nela. Que posso falar dessa foz tão literária e que comove tanto quando assuntada no mapa?… A imensidão das águas é tão vasta, as ilhas imensas por demais ficam tão no longe fraco que a gente não encontra nada que encante. A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções fisiológicas do homem. Nós só podemos monumentalizá-las na inteligência. O que a retina bota na consciência é apenas um mundo de águas sujas e um matinho sempre igual no longe mal percebido das ilhas. O Amazonas prova decisivamente que a monotonia é um dos elementos mais grandiosos do sublime.”
PW:
Vaticano, tapejara, vapor e até canoa são os tipos de barco que o Mário e as três companheiras de viagem dele pegaram durante a viagem pela Amazônia. Como diz o dicionário Caldas Aulete, um vaticano é uma grande embarcação fluvial a vapor e avarandada de porte maior que o gaiola. E gaiola?
Bom, nem precisa de dicionário para imaginar. Mas é, ainda segundo o Aulete, um barco a vapor para transporte de passageiros comum em rios do Brasil. O gaiola tem dois ou três andares. O vaticano, em que os paulistas viajaram em 1927, tinha cabines, que nem a do Mário, e também setores ali cheios de redes de pendurado e todo mundo dormia, passava o dia ali pendurado na rede.
Grande Otelo (Macunaíma)
Ai, que preguiça!
FTDV:
Eles ficam trocando de barco por uma necessidade dos rios mesmo. O Vaticano, que é esse vapor em que eles viajam, ele tem o fundo achatado que é para lidar com essas variações. Tem vários momentos de tensão, assim, quase dramáticas, do capitão tendo que passar por umas corredeiras, que são momentos em que todo mundo sobe ali no convés para ver, assim, será que a gente vai ter que pular fora?
Então, é importante que eles tenham esses vapores com fundo achatado, que não é o mesmo vapor que eles usam para subir a costa, para navegar pelo Atlântico. E tem horas que a palheta quebra, enfim, eles trocam de barco também para ir pelo Marajó, e eu já tinha, antes de traduzir o livro, eu tinha feito um pequenininho trecho dessa viagem que o Mário fez, que era de Santarém até Belém.
Ninguém me falou o nome desse barco, estava mais para balsa,não sei se alguém chamaria de vaticano ou de gaiola, que é outro termo que eles usam, mas são barcos com alguns andares, que normalmente lá embaixo vai carga, bichos, malas, enfim, todos os objetos imagináveis e inimagináveis.
PW:
Pelo caminho, o barco fazia escalas para se abastecer de lenha, que era usada como combustível nas caldeiras, e de canarana, que é um tipo de capim, que era o alimento dos bois que iam a bordo e serviam, por sua vez, de alimento para a tripulação e para os passageiros ao longo da viagem. Imagina só!
AM:
“Madrugada sublime na tolda do vaticano. Manhãzinha paramos pra cortar canarana pros bois. Um casal de araras atravessa o rio. Bandos de borboletas amarelas na pele do rio. De repente uma azul, das grandes. Libélulas em quantidade. E os peixes saltassaltando nos remansos.”
PW:
É engraçado pensar que quando Mário parte para a Amazônia, não fazia nem um ano que ele tinha escrito Macunaíma. E o livro só seria publicado no ano seguinte, em 1928.
FTDV:
Ele já tinha escrito praticamente tudo antes de pôr o pé no vapor que levaria ele para a Amazônia. Macunaíma é muito mais uma criatura nascida das leituras do Mário, das viagens literárias e imaginárias do Mário, do que qualquer coisa que ele tivesse observado ali na viagem de 1927. O que já é uma chave muito bacana da gente pensar o processo do Mário, quem que esse Mário é. Eu penso que esse momento dele fazer essa viagem é quase um “vamos ver”, assim. Ele já escreveu toda essa rapsódia tropical, selvagem e agora ele vai lá mesmo, ele vai para o coração da selva.
PW:
No coração da selva, mas sempre acompanhando Dona Olívia e as duas jovens a tiracolo.
FTDV:
Mas esse Mário, enfim, é um cara jovem, mas já com muito renome e que na viagem ele acaba sendo rebaixado a secretário da Dona Olívia. “Damo” de companhia, enfim, digamos. Ele até fica espantado… Todo o brilho dele é apagado, ele está ali só de acompanhante dessa grande dama. Ele fica até espantado na primeira vez que alguém quer homenagear ele num desses discursos; toda vez ele chega na cidade, desce o prefeito, desce todo mundo e ele tem que fazer o mesmo discurso de como eles estão felizes, está ali, não sei o quê. Ele quase vai se apagando. Ele não é mais… Ele vai perdendo tudo.
AM:
“Anedotinha. Não conto o lugar. Estávamos chegando numa cidadinha. Dona Olívia a meu lado, encostados na amurada, entre outras pessoas, vendo a cidade chegar. Nisto dona Olívia dá um suspiro de se ouvir. – Que é isso, Rainha! suspirando? – Ah, Mário… (com ar de enfado) essa história de todos os prefeitos se verem na obrigação de acompanhar a gente, levar na prefeitura, no grupo… Pois essa cidade visitamos sem prefeito, livres, mandando em nosso passeio.”
PW:
Bom, seja como for, pulando de cidade em cidade, de barco em barco, eles chegam finalmente a Belém, cidade pela qual o Mário fica de quatro.
Joelma – Voando pro Pará
“Eu vou tomar um tacacá, dançar, curtir, ficar de boa / Mas quando chego no Pará, me sinto bem, o tempo voa”
AM:
“Belém gostosíssima, a melhor coisa do mundo.”
PW:
Aqui, sim, o Mário de Andrade usa e abusa dos adjetivos e do superlativo também. E se a gente discorda sobre o que ele falou do Rio de Janeiro, que é uma cidade mui feia, sobre Belém é impossível discordar. Belém é realmente gostosíssima e a melhor coisa do mundo.
PN:
Tanto que eu brinco no meu texto, que o grande amor era São Paulo. Mas a paixão extraconjugal, digamos assim, foi por Belém.
PW:
Esse aqui é o Paulo Nunes de novo. Ele escreveu um texto que se chama Traços e trocas: Belém embalando Mário de Andrade.
PN:
E você vê que algumas das páginas mais bonitas que ele escreve é a carta que ele faz a Manuel Bandeira em 1927, quando ele já está na cidade, imerso na cidade curtindo a cidade, descobrindo a cidade. Todo, como eu digo, enfatiotado dentro daqueles ternos de brim, mas ele não perde a oportunidade de ir todo dia ao mercado Ver-o-Peso.
Então ele diz: “Manu, amanhã se chegue em Manaus e não sei mais que coisas bonitas enxergarei por esse mundo de águas, porém, me conquistar, mesmo, a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém” — que já não existe mais, né? — “o direito de sentar naquela terraça em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz sem mais nada chupitando um sorvete de cupuaçu ou de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa melhor que isso, Manu?”
PW:
Pois é, como bom turista aprendiz, o Mário sai provando as coisas que oferecem para ele. Por isso, o diário dessa viagem é considerado um documento importante para a história da alimentação no Brasil. É ali que alguns ingredientes, frutas e comidas populares tem um registro escrito pela primeira vez.
Quem diria que o Mário de Andrade também era um crítico gastronômico aprendiz? Isso, aliás, é uma delícia desse livro. Não só as iguarias que ele vai provando e que a gente saboreia por meio das palavras, a delícia para o leitor é a mistura de registros e de gêneros literários que ele vai fazendo ao longo do diário.
E quando um grande escritor faz essa alternância de tons e de gêneros literários, de registros, o tradutor fica com um desafio a mais que é conseguir conciliar e fazer essas mudanças também no texto da tradução. Vamos ouvir de novo a Flora Thomson-DeVeaux.
FTDV:
É uma coisa que eu sempre falo que o maior desafio, as minhas maiores angústias quando eu estava traduzindo Brás Cubas foram na fase até eu conseguir ouvir a voz de Brás Cubas, até eu conseguir entrar numa zona de conforto em que eu sentia que eu tinha uma conexão que podia só embarcar nesse tom e seguir.
E o turista aprendiz apenas não tem isso, porque o Mário está trocando de tom, ele está trocando de estilo, de gênero o tempo inteiro. Você tem, enfim, tudo, desde o tom pseudo etnográfico, que ele fica inventando povos indígenas. Tem, enfim, os Pacaás-Novos são um povo de verdade, que ele inventa toda uma etnografia.
E aí tem os índios Domi Sol que é esse povo que se comunica através da música, que é o Mário professor de piano inventando ali uma outra rapsódia, no meio da selva. Você também tem transcrições de sonhos, você tem muitos diálogos dele, tanto dele quanto entreouvidos no navio.
Tem umas passagens um pouco mais etnográficas dele, conseguindo observar alguns eventos, conseguindo transcrever algumas músicas, conseguindo observar algumas danças. Então, o livro é cheio desses vai e vem, assim. Dessa tentativa de se aproximar dessa Amazônia que ele tinha sonhado, que ele tinha imaginado, a maior parte de desencontros e de alguns encontros raros e muito bonitos.
PW:
O leitor vai navegando por esses diferentes planos narrativos que podem ir da descrição literária do gosto do açaí aos relatos de sonhos, da anedota à confissão, do exercício de estilo ao registro seco de etnógrafo. É uma curiosidade infinita e sem limites. E quando a gente diz curiosidade também poderia dizer libido ou então, desejo.
Eliane Robert Moraes [ERM]:
Mário tinha uma curiosidade infinita por tudo que existe no mundo, né? Mas ele tinha realmente uma curiosidade, um interesse muito grande, muito particular pela erótica, pela erótica literária. Então, isso aparece tanto na sua produção literária como aparece também nas compilações que ele faz, nas suas leituras, em tudo que ele lê, nas suas pesquisas. E por isso, por essa razão, eu organizei um livro chamado Seleta erótica de Mário de Andrade.
PW:
Essa aqui é a Eliane Robert Moraes, professora de literatura brasileira na USP, que organizou uma seleta erótica do Mário de Andrade para a editora Ubu. Tem vários trechos d’O turista aprendiz nesse livro. A Eliane faz uma abordagem bem menos tradicional da obra do Mário.
O Mário estabelecia uma relação sexual ou erótica com tudo que ele via na frente. O Mário flertou com muito mais gente e muito mais coisas durante essa viagem. Esse foi um aspecto que meio que sumiu depois que ele morreu, porque a sexualidade era uma coisa muito reprimida nos estudos literários, ainda mais quando se tratava de um autor tão importante quanto o Mário. Houve um esforço para omitir um fato que era óbvio para quem conheceu o homem. Ele era homossexual ou então pansexual.
O pessoal só começou a falar abertamente nessa questão a partir de 2015, mas hoje isso já é um fato estabelecido. Já rolou até uma exposição no MASP sobre esse assunto, além de muito material impresso por aí. Seja como for, o Mário parece que se soltou durante essa viagem. Ele que estava tão mal-humorado no começo parece que ficou possuído por um fogo impossível de apagar durante aquele rolê pela Amazônia.
AM:
“Canto ao luar, desabaladamente em puro êxtase descontrolado, com a melhor voz que jamais fiz na minha vida, voz sem trato, mas com aquela natureza mesmo, boa, quente, cheia, selvagem mas sem segunda-intenção, generosa. O que eu sinto dentro de mim! nem eu sei! não poderia saber, nem que pudesse me analisar, estou estourando de luar, tenho este luar como nunca vi, me… em mim, nos olhos, na boca, no sexo, nas mãos indiscretas. Indiscretas de luar, nada mais. Sou luar!”
PW:
Ele deseja até a cidade. Vamos ouvir o Paulo Nunes lendo uma carta que o Mário mandou pro Manu, ali no calor da hora.
PN:
“Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim… Um abraço do Mário de Andrade”
PW:
Dá pra ver que o Mário ficou apaixonado de verdade. Ele passou alguns dias em Belém na viagem de ida e mais uns tantos na volta. E essa afinidade erótica do Mário de Andrade com a capital do Pará é uma coisa que tem a ver com o corpo, com a experiência física de estar lá. Lembra que o Paulo Nunes disse que em Belém ele estendeu os ossos, estendeu a musculatura? Calma lá, eu já vou explicar o que ele quis dizer com isso, mas antes vamos continuar a ouvir a professora Eliane Robert Moraes.
ERM:
O Mário, quando ele se intitula pansexual, que eu acho que é interessante, ele não está de jeito nenhum falando só da sua sexualidade, da sua experiência sexual, erótica no mundo, mas ele está pensando na sua experiência no mundo. A experiência humana no mundo do Mário, ela é muito atenta a essa questão erótica. Ele é um daqueles autores, e não são todos, que erotiza toda a sua experiência, e quando eu digo que erotiza, ele não está assim genitalizando, ele não está pensando só no ato sexual, mas ele está alargando isso, aquilo que é eros, que é o poder de eros, que é a força de eros para o seu estar no mundo.
PW:
Lembra daquela foto dos lençóis freudianos que a Maureen Bisilliat comentou? Pois então.
ERM:
Eu acho que uma coisa também que ele faz, e que nessa sequência é legal a gente lembrar, é a fotografia. Tem momento em que faltam palavras e ele vai lançar a mão da fotografia. E a fotografia do Mário no Turista ela é cheia de truques, porque, por exemplo, ele fotografa aquele lençol que a gente tem aqui no Brasil, que é um país muito solar e sobretudo realmente no norte e no nordeste do país, aqueles lençóis que ficam pendurados na rua, nos quintais e tal.
PW:
Daria, então, para dizer, parafraseando o Freud, que um lençol nem sempre é só um lençol.
ERM:
E o que ele olha ali no lençol? Ele olha já as pessoas que ali dormiram. Quer dizer, ele no lençol, ele vai procurar o corpo e ele vai então pensar o lençol como aquilo que guarda, como uma espécie quase que de recalque o que aconteceu no lençol, o que aconteceu embaixo do lençol que está sendo lavado. Então a gente vai vendo aí uma coisa que puxa a outra.
Quer dizer, começa com a palavra, aí você tem a palavra que está faltando, aí você tem uma busca por outros métodos de captar esta realidade, mas aí essa realidade chama outras realidades, que são os corpos que ali estiveram, e chama as fantasias destes corpos que estavam fazendo amor por baixo ou por cima dos lençóis.
PW:
Ou seja, para além do texto, o Mário também deixava essa sexualidade aflorar nas fotografias.
Milton Hatoum [MH]:
O livro está cheio de um lirismo também e de um erotismo que é muito interessante. Essa sexualidade também, quer dizer, ele sente aí alguma coisa que é quase um êxtase, é um sentimento estático, estático no sentido do afloramento de alguma coisa que parecia guardada e que explode nessa viagem. Então, há um trecho muito lindo também, isso me lembro…
PW:
Esse que você escutou agora é o Milton Hatoum, escritor brasileiro nascido em Manaus. Ele é tão identificado com a capital do Amazonas que até ganhou esse apelido na época da faculdade, Manaus. A obra do Manaus, livros como Dois irmãos e Relato de um certo oriente, abriu uma porta do tamanho da foz do Amazonas para que as pessoas conhecessem a Amazônia e a sua cultura. E ele, naturalmente, é um super leitor do Mário de Andrade.
MH:
Aí ele fala: “Tudo em volta do trem é de uma luminosidade encantada, cheia de respeito e de mistério.” Ele sente essa uma paixão irrefreável. Nesse sublime, ele passa ao canto, né?
Quer dizer, “eu canto tudo o que sei, desamparado. Canto ao luar, desabaladamente em puro êxtase descontrolado, com a melhor voz que jamais fiz na minha vida, voz sem trato, mas com aquela natureza mesmo, boa, quente, cheia, selvagem mas sem segunda-intenção, generosa. O que eu sinto dentro de mim! nem eu sei! não poderia saber, nem que pudesse me analisar, estou estourando de luar, tenho este luar como nunca vi. em mim, nos olhos, na boca, no sexo, nas mãos indiscretas. Indiscretas de luar, nada mais. Sou luar! E de repente me agacho, fico quietinho, pequenino, vibrando, imenso, fulgurando por dentro, sem pensar, sem poder pensar, só.”
Aí depois tem uma ruptura: “Chegada a Porto Velho, meia-noite. Sono de pedra.” Mas é quase um… Esse êxtase é quase delirante, esse fogo incontido que ele sente… Que está presente essa sensualidade de si em relação a esse céu, a esses elementos da natureza que ele sente muito nessa viagem e sente profundamente em Belém.
PW:
O que chega na gente ao ler esse livrinho bonito e esquisito, como bem definiu a Flora, são essas sensações todas. Ao ler, dá pra sentir o encantamento do Mário.
MH:
E aí ele fala desses momentos em que está chovendo e ele está no terraço do Grande Hotel, chupitando sorvete. Ele diz: “Sem vontade, só pra agir, isso me dá um gozo incontestavelmente, uma realização de amor, de tão sexual.” Então há essa espécie de orgasmo nessa viagem amazônica. A sexualidade é um dos centros importantes na obra do Mário. E na Amazônia eu acho que esse lado telúrico, esse lado tão poderoso e tão grandioso da natureza despertou nele todo esse êxtase, essa coisa interior, forte, como um jorro que ele traduz tão belamente com as palavras.
PW:
E apesar de dizer que ele não foi feito para viajar, o Mário até que consegue aproveitar bem essa viagem. Ele se entrega. E o mais legal, ele escreve esse diário que é puro prazer na leitura. Esse êxtase chega até nós pela escrita, como se a gente pudesse espiar o escritor por um buraquinho na parede da cabine.
FTDV:
Então, o Mário tá sempre ali na parte mais nobre dos vapores. Tem a cabine pra ele e as meninas na cabine do lado e tem até registro de que elas fizeram um pequeno buraquinho na parede pra poder observar o Mário.
E descobriram, pra decepção delas, que ele tava só escrevendo. Ele só passava o dia escrevendo, não tinha nada de interessante acontecendo. Uma das frases que ele mais fala é: “Vida de bordo.” E depois de ter passado 48 horas apenas num barco indo de Santarém a Belém, eu sinto que eu sei exatamente o que é isso.
PW:
E é nessa “vida de bordo” que tudo acontece… e de monótona, a vida de bordo não tem nada. É na vida de bordo que surgem os momentos excepcionais.
AM:
“Vida de bordo, e continuo suando cada vez mais.” “Vida de bordo. É uma delícia estirar o corpo nestas cadeiras confortáveis da proa, e se deixar viver só quase pelo sentido da vista, sem pensamentear.” “Vida de bordo numa ventania formidável.”
FTDV:
Tem uma coisa do balanço do barco, do balanço da rede, desse verde passando bem devagarinho, assim, da luz mudando bem devagarinho, que é absolutamente hipnótico. você entra numa outra temporalidade. E vai ficando meio surreal mesmo, mas é todo um estado de espírito, um estado de ser.
A vida de bordo são uns exercícios, entre os raros momentos de encantamento de: “Ai, apareceu um jacaré ali!” “Ai, apareceu um pássaro ali!”. No dia, a maior parte é essa vida de bordo, que é essa monotonia, esse calor, esse balanço. Então, são exercícios de matar o tédio. O que você faz? Você observa a paisagem humana, você conversa com as pessoas, você inventa brincadeiras.
PW:
Inventando brincadeiras, como ele diria, para não pensamentear. O que será que ele queria dizer com isso? Talvez pensar nas preocupações que ele tinha deixado em São Paulo. E uma das coisas que o turista faz para se distrair das preocupações é comer.
AM:
“O lanche de hoje foi sapotilha, beribá, abricó nacional, que é outra coisa, e refresco de cupuaçu, ora isso é língua que se fale!” “No almoço o peixe tambaqui, ótimo, de uma delicadeza superfina. E tartaruga com recheio da mesma, obra-prima.” “Só de pique, o cozinheiro, na janta, nos apresentou um tucunaré ‘à portuguesa’. Posso lhes garantir que é peixe gostosíssimo.” “No almoço provamos o matrinxão, que achei dos milhores peixes do Amazonas.” “Recepção do intendente, em cuja casa provo licor de taperebá, muito bem feito. É delicioso.” “Compramos castanhas, comemos castanhas em quantidade.”
PW:
Vamos ver o que um belemense autêntico acha dessa turistada gastronômica do Mário.
PN:
O que me chamou a atenção mesmo, demais, na visita que ele faz a Belém é, quando ele vai ao Ver-o-Peso, ele busca tomar mingau de milho, também reconhecido como munguzá. E eu fico impressionado, porque veja, não é fácil você querer, você que não é da região amazônica. Então veja, o Mário ia para o mercado tomar munguzá. Então veja só que coisa extraordinária essa forma de deslocamento, essa disposição de deslocamento e inserção na cultura.
Joelma – Voando pro Pará
“Chegou o mês de férias, vou voando pro Pará / Vou direto ao Ver-o-Peso, apurar meu paladar / Ficar bem à vontade e fazer o que quiser / E matar minha saudade da pupunha com café / Eu vou…”
PN:
Eu acho que isso o Mário trouxe na sua formação e na sua observação da cidade. Então eu acho que essa coisa dele ir, dizem que todos os dias que ele esteve em Belém ele foi ao mercado tomar mingau, e é uma tradição na cidade até hoje. Então é uma tradição você ver na feira do Ver-o-Peso aquelas mulheres com as panelas imensas, são panelas e guardanapos tão limpos e tão bonitos, de ser tão alvos os guardanapos e as panelas tão limpas que você se enxerga nas panelas. E o Mário, interessante, não mudou nada do que ele descreve lá em 1927 do que se tem hoje aqui. O que muda são os sabores de mingau que foram ampliados.
PW:
O Mercado Ver-o-Peso continua sendo até hoje uma das principais atrações para quem visita Belém. Esse nome vem do período colonial, na época nesse mesmo lugar tinha um posto fiscal onde os portugueses verificavam o peso das mercadorias que chegavam à cidade para pagar os impostos devidos.
Hoje em dia, ele está reformado e é uma experiência muito impressionante, porque os agricultores, os pescadores, coletores de castanhas, de açaí e de todos os produtos possíveis e imagináveis que vêm de dentro da floresta se encontram lá no Ver-o-Peso. Então, você tem um contato numa capital de estado brasileira com as coisas mais incríveis que são produzidas no interior da floresta. O açaí é motivo de uma dúvida atroz no paladar do turista aprendiz.
AM:
“Será que gostei mesmo do açaí? Não é propriamente gostar, mas em Belém fica divertido tomar açaí. É dessas comidas ‘locais’ que, mesmo quando não são gostosas, participam de tal forma da entidade local que fica um muro na frente, a gente não usar. E é indelicadeza não gostar. […] O açaí não chega a ser ruim, longe disso, mas está longe de ser bom, como é bom um pato com tucupi, um casquinho de caranguejo e quatorze outros comes e bebes destas Amazonas.”
PW:
Isso chegou a irritar a nossa tradutora e organizadora aprendiz.
FTDV:
Nossa, minha maior birra com o Mário é a incapacidade dele de entender a importância do açaí. Ele fala que açaí é uma coisa que a gente come de dó. “A gente tem dó do açaí por isso a gente come, mas tem gosto de mato pisado.” Tipo, Mário, pelo amor de Deus, você não entendeu nada! Mas a comida é um dos grandes divertimentos. É uma das formas, assim… É que nem quando a gente é bebê e a gente está conhecendo o mundo, a gente bota tudo na boca. É meio assim, a comida de você conhecer… De você comer essas frutas, de você comer esses peixes, de você entrar em contato com essa paisagem engolindo, deglutindo, saboreando, assim, é uma das coisas mais sensuais do livro todo. As refeições são muito importantes.
PW:
Foi numa dessas missões folclóricas em 1938 que o Mário deixou gravado um documento histórico para a posteridade e que só seria revelado muitos anos depois, em 2015, lá na época daquela Flip do Mário de Andrade. O pesquisador Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, encontrou no acervo de um linguista americano, o Lorenzo Turner, um disco de alumínio que tem a voz do Mário gravada. Até então ninguém conhecia a voz dele, não sabia como ele falava, só quem conheceu o homem de carne e osso. Vamos ouvir…
Mário de Andrade
Eu acho que quem cantou com maior caráter foi Rachel de Queiroz, a nossa grande romancista cearense. Ela que tem bem o timbre do nordeste. Todas as nossas canções, quase todas pelo menos, cantadas hoje foram do nordeste, menos o toca zumba de que não sabemos bem a origem, e o zum zum que Mary Pedrosa cantou e que deve ter vindo de Minas Gerais porque é em Minas Gerais que até hoje se conservam as canções de bebida de depois do jantar.
PW:
É impressionante como a personalidade da pessoa aparece de uma vez só quando a gente ouve um documento desses, né? São poucos minutos e parece que a pessoa está ali na sua frente. Na mesma época foram divulgados dois filmetes mudos que mostram a imagem do Mário de Andrade em movimento. Também ninguém tinha conhecimento disso, a não ser quem conheceu ele. Ao ouvir esse áudio e ver essas imagens, a gente consegue imaginar um pouco melhor o poeta de carne e osso. Mas também dá pra sentir isso ao ler O turista aprendiz e ver as fotos dele pegando jacaré na praia do Chapéu Virado, pertinho de Belém, em 22 de maio. Eles tinham acabado de aportar na Amazônia, em 18 de maio, ou seja, 11 dias depois de saírem de São Paulo. Vamos ouvir o Paulo Nunes.
PN:
O Mário passa pelo rio Amazonas, pelo Solimões, pelo Negro, pelo rio Caripi, ele passa pelo rio Madeira, pela valentíssima Baía do Marajó, e ele então faz toda essa descoberta do rio. O rio, ele define a trajetória até Iquitos, no Peru.
PW:
Para chegar até a cidade peruana de Iquitos, eles levam mais de 20 dias rio acima e chegam lá em 22 de junho. Hoje em dia, um voo Belém-Iquitos leva cerca de doze horas de viagem. O tempo de uma viagem pra Europa. No Peru, o Mário prova uma saladinha de abacate. Ao subir o rio Amazonas, eles passam por Santarém, Óbidos, Parintins, Itacoatiara, Tefé, e depois de passar por Manaus, eles vão subindo Solimões, que é o rio que forma o Amazonas junto com o rio Negro.
Em 24 de junho, começa a descida de volta até o ponto em que o Solimões encontra outro rio muito importante da Amazônia, o Madeira. Os viajantes viram então à direita no Madeira e chegam até a Bolívia, na cidade de Puerto Sucre, no dia 13 de julho. Puerto Sucre hoje se chama Guayamerím, que é um nome muito parecido com o da cidade brasileira, que fica do outro lado do rio, Guajará-Mirim, em Rondônia, um estado que nem existia naquela época.
PN:
Portanto, os rios são a grande estrada, tanto que um contemporâneo dele, que é Raul Bopp, ele diz algo que é muito importante, ele diz assim, olha, não é possível renovar as artes e as letras no Brasil se nós não escutarmos as vozes da floresta. E num outro momento, ele usa uma metáfora que é reaproveitada por Rui Barata, poeta de Santarém, professor da UFPA, de saudosa memória, que ele diz que “Esse rio é minha rua”.
PW:
Está explicado porque um urbanoide que nem o Mário de Andrade ficou tão à vontade naquelas ruas de água.
PN:
Ele percebe que os rios são então uma fonte inesgotável, não só para a vida, para os biomas, mas para a cultura. As nossas culturas vão, de uma forma direta ou indireta, referir-se ao rio. E o grande rio é o Amazonas e todos os seus afluentes. Por exemplo, Belém fica na confluência do rio Pará com o rio Tocantins, na baía do Guajará. Então, são diversos rios que o Mário explorou e passou quando ele esteve por aqui.
PW:
Mas a viagem ainda não está completa, porque o subtítulo diz, “por Marajó, até dizer chega.” Ou seja, na volta, eles passam pela ilha de Marajó, que fica pertinho de Belém. Pertinho para a escala amazônica, né? Eles dormem na ilha, na noite de 29 de junho. A noite é um desespero, com bilhões e bilhões de carapanãs. Carapanã é o nome genérico que os amazônidas dão para qualquer mosquito que suga o nosso sangue.
“Pela primeira vez, não resisto e me emporcalho da tal pomada inglesa, feita com citronela de Java, bom cheirinho aliás”. Apesar de estar todo besuntado de “pelotes de pomada na cara” o poeta é mordido pelos bichos mesmo assim e eles “morrem grudados na pomadaria”. No jantar vem um pato seco, com um pichizinho desagradável, como ele escreve.
E eles terminam a noite cantando: “Cantamos assim mesmo, engolindo mosquito”. Essa cantoria com gosto de mosquito faz a gente entender o que significa o “até dizer chega” do título. Tem hora que o que o turista mais quer é voltar para casa. Mas ainda faltava uma coisinha. Fazer uma escala final em Belém, era o plano perfeito.
AM:
“1° de agosto. Último dia de Belém, me sinto comovido, palavra. Nunca na minha vida encontrei uma cidade que me agradasse tanto, com que eu simpatizasse tanto. Como enchimento de gostosura, passei em Belém os melhores dias de minha vida, inesquecíveis.”
PW:
Pois é, o Mário se encontrou em Belém. Ou melhor, o corpo dele encontrou a alma. E isso foi ele quem disse. Porque o Mário era um homem bem alto, nas fotos ele sempre é o maior de todos, mas a alma dele era ainda maior. Olha só o que ele escreveu sobre Belém na viagem de ida em 23 de maio: “Tenho gozado por demais. Belém foi feita pra mim e caibo nela que nem mão dentro de luva. Em Belém o calorão dilata os esqueletos e meu corpo ficou exatamente do tamanho de minha alma.”
Repórter 1
Em estado de alerta, o rio Madeira atingiu um nível histórico de seca. De acordo com o boletim de monitoramento, a estiagem está ligada a dois fatores que impedem a formação de chuvas na região. O aquecimento das águas no Atlântico Norte e o fenômeno El Ninho.
PW:
Se, como bem disse o Paulo Nunes, em cada rio existe não apenas uma fonte inesgotável para o bioma, mas também para as culturas, quando o rio seca, as consequências são desesperadoras. Nas reportagens da seca de 2024, que bateu recordes históricos, a gente via os ribeirinhos caminhando pelos bancos de areia, os barcos encalhados no leito seco dos rios. Além da emergência climática, as mesmas regiões que o Mário visitou e a Amazônia como um todo, na verdade, estão sendo invadidas e destruídas por garimpeiros, madeireiros, grileiros e outros invasores.
Repórter 2
Depois da manhã, agora já começando o Bom Dia, imagens de satélite flagraram dezenas de balsas atuando na extração ilegal de ouro no rio Madeira. Isso cinco meses depois de mais de 400 balsas de garimpo serem destruídas em uma operação conjunta entre a Funai, o Ibama e a Polícia Federal, na mesma região.
PW:
O Mário também passou pelo Vale do Javari, onde muitos anos depois, em 2022, o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira foram assassinados por criminosos que atuavam na região. Mas tem uma melancolia no ar, segundo o Milton Hatoum.
MH:
Ele antecipou muitas coisas, não apenas sobre essa visão das cidades, mas também um certo sentimento de que há uma certa melancolia nesse livro. Talvez já pensando mesmo, não dá para ser otimista, porque naquela época já havia questões. Basta lembrar que poucos anos depois houve a tentativa de Fordlândia lá em Belterra, lá no Pará. Houve também ali uma devastação, uma loucura também do capitalismo que tentou implantar, vamos dizer, seringueiras lá perto de Santarém e claro que não deu certo.
E depois aconteceu o que a gente sabe, vem acontecendo. O livro se sustenta. Eu acho que não é uma obra secundária, ao contrário, eu acho que está no centro da obra do Mário de Andrade que foi um dos grandes intelectuais desse país. Um dos mais apaixonados escritores do seu país.
PW:
Por um lado, a Amazônia que o Mário viu naquela época já não existe mais. Por outro, ao ir para lá e fazer esse diário e essas fotos, ele demonstra que era uma espécie de visionário. Ele estava apontando para a gente uma coisa que hoje é óbvia e urgente para todo mundo, mas que na época ninguém prestava atenção.
MH:
Mas ele disse uma coisa linda que é mesmo verdade. Ele diz que a Amazônia é um infinito que deve ser dosado, pouco a pouco, lentamente. E é isso, esse sentimento de enorme perplexidade diante de uma natureza tão portentosa que o que resta para a gente é admirar. Porque são milhares e milhares de espécimes mesmo, é impossível catalogar tudo, nem de longe. Tem coisas que já foram extintas, espécimes que já foram extintas, sem serem catalogadas, quer dizer, a devastação está tendo esse efeito nocivo, terrível, criminoso, de exterminar o que nós ainda nem conhecíamos.
PW:
Em 2 de agosto começa a viagem de volta. O vapor vai descendo pelo litoral e faz escalas em São Luís, Natal, Recife e Paraíba, que era o nome de João Pessoa naquela época.
Furacão do Calypso – Saudade
“Saudade! / Tava doente de saudade (saudade).”
PW:
Quando eles chegam na Bahia, uma surpresa: a pintora Tarsila do Amaral e o escritor Oswald de Andrade estão lá esperando a chegada do Mário. Ele não consegue esconder a alegria.
AM:
“10 de agosto. Vida de bordo esperando a Bahia que só aparece pela tarde. Sou o primeiro a ver Tarsila e Osvaldo no cais, nos pegando de surpresa. Alegria sem limites mais. Passeios às gargalhadas. […] Que pensar em dormir nem nada! Conversas paulistas, blagues, artes.”
PW:
Essa felicidade em encontrar o Oswald tem um significado especial, afinal, eles eram grandes amigos, mas logo depois aconteceria uma coisa muito séria entre os dois e eles ficaram afastados para sempre. A briga foi tão séria que ao passar limpo as anotações d’O turista em 1943 o Mário chegou a riscar o nome do Oswald, que ele chamava de Osvaldo. A nossa organizadora, a Flora Thomson-DeVeaux, acabou fazendo uma intervenção nos critérios dela e desacatou essa supressão feita pelo autor, ela restituiu o Oswald de volta no livro. Eles nunca fizeram as pazes porque o Mário morreu logo depois, em 25 de fevereiro de 1945, 80 anos atrás.
AM:
“13 de agosto. Vida desagradável de bordo, vencendo a última etapa marítima da viagem, já não é viagem mais, e estamos não chegados, coisa idiota.”
PW:
A última etapa marítima era a chegada ao Rio de Janeiro. Finalmente, o Mário avistou a Baía de Guanabara. Mais uma vez ele aproveitou para se encontrar com a galera nos bares: o Dante Milano, que era poeta, o Manu, o melhor amigo dele, que eu já falei aqui, o escultor Antonio Bento e o compositor Jayme Ovalle, paraense de Belém, que é o autor da trilha de piano que a gente ouviu aqui nesse episódio.
Pois é, a viagem acabou e as preocupações e neuras de São Paulo já estão todas de volta. A alma dele já não estava mais dilatada como ficou lá em Belém. O Mário ainda passa no Copacabana Palace para pegar um dinheiro emprestado com o Paulo Prado e pagar as dívidas da viagem.
Imagina que ele teve que emprestar dinheiro até para a dona Olivia que, segundo ela, esqueceu de tirar dinheiro na parte final da viagem. Só então é que ele pega o trem de volta para casa mas não consegue chegar: um trem tinha descarrilado em Mogi, uma cidade que fica pertinho de São Paulo e os passageiros tiveram que descer e ir de carro.
O Mário acabou se desencontrando da turma que estava com ele e alugou um carro sozinho. Mais uma despesa de viagem. Para completar ele ainda se viu obrigado a dar uma carona para um desconhecido, o que deixou ele ainda mais aperreado. Era segunda-feira na Barra Funda, na rua Lopes Chaves 546, em São Paulo.
AM:
“15 de agosto. Enfim, pelas quatorze horas, são exatamente quatorze horas e onze minutos e doze segundos, na ‘minha’ casa, com os ‘meus’, com a ‘minha’ gente. Fecha bem a porta, Bastiana! Fecha a porta com a chave, Bastiana! Atira a chave na rua!”
Furacão do Calypso – Saudade
“Pra começar estou feliz em te ver e te tocar, porque te esperei, te esperei / Amar é perder, é sofrer e ganhar…”
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Brenda Melo e Mauricio Abbade
Edição: Cláudia Holanda
Mixagem: Ana Sucha
Entrevistados: Eliane Robert Moraes, Jason Tercio, Paulo Nunes, Milton Hatoum e Flora Thomson-DeVeaux.
Leitura de trechos de O turista aprendiz, de Mário de Andrade: Amara Moira
Trechos de áudio: Beatriz Sarlo na Flip, depoimento de Maureen Bisiliat (2015, Instituto Moreira Salles), Toada de Exu (1938, Missão de Pesquisas Folclóricas no Nordeste), Grande Otelo em Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, e Bom Dia Amazônia
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Podcast
Transcrição: especial Fernando Pessoa no podcast 451 MHz
Episódio narrativo investiga a vida e o legado do poeta português nos noventa anos da morte do autor
JULHO, 2026
