Prêmios literários,
Anne Carson vence o Nobel de Literatura 2026
A autora de poemas, ensaios e traduções do grego antigo foi reconhecida pelo diálogo com a tradição clássica e pela criação de novas formas para a literatura contemporânea
08out2026A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, venceu nesta quinta-feira (8) o Prêmio Nobel de Literatura. O comitê da premiação concedida pela Academia Sueca a reconheceu “por sua obra ousada e inventiva, que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
Uma das escritoras mais multifacetadas da atualidade, autora de poemas, ensaios e traduções do grego antigo, Carson é conhecida por misturar gêneros literários, crítica, filosofia e experiência pessoal em obras como Autobiografia do vermelho (trad. Ismar Tirelli Neto, Editora 34, 2021) e Eros, o doce-amargo (trad. Julia Raiz, Bazar do Tempo, 2022). Em seus livros, reinventa histórias antigas para falar de desejo, identidade e da forma como contamos nossas vidas.
Sempre nas listas de favoritos ao Nobel de Literatura nos últimos anos, Carson estava em primeiro lugar nas bolsas de apostas em 2026. Na casa inglesa Ladbrokes, por exemplo, dividia o favoritismo com a chinesa Can Xue.
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Em seguida, apareciam o japonês Haruki Murakami, o australiano Gerald Murnane e o americano Thomas Pynchon. Margaret Atwood, Cristina Rivera Garza, Enrique Vila-Matas, Jamaica Kincaid, Lídia Jorge, Lyudmila Ulitskaya e Michel Houellebecq também eram cotados.
Anne Carson é a vencedora da 119ª edição do Prêmio Nobel de Literatura, que já premiou outros dois canadenses: Saul Bellow, em 1976, e Alice Munro, em 2013. No ano passado, o ganhador foi o húngaro László Krasznahorkai; em 2024, quem venceu a premiação foi a sul-coreana Han Kang; e, em 2023, o norueguês Jon Fosse.
Diversidade
A autora canadense é a 19ª mulher a ganhar o Nobel de Literatura entre os 123 vencedores — a premiação foi dividida entre duas pessoas em quatro ocasiões. Nos últimos anos, o comitê tem trazido mais diversidade para o prêmio, que ao longo da história foi entregue principalmente a homens europeus e norte-americanos.
Desde o período 2010–2012, quando três homens ganharam em seguida, foram premiadas seis escritoras: além de Carson este ano, a também canadense Alice Munro, em 2013; a belarussa Svetlana Aleksiévitch, em 2015; a polonesa Olga Tokarczuk, em 2018; a norte-americana Louise Glück, em 2020; a francesa Annie Ernaux, em 2022; e a sul-coreana Han Kang, em 2024.
O Nobel de Literatura ainda reconheceu, em 2017, um autor britânico nascido no Japão, Kazuo Ishiguro, e, em 2021, o tanzaniano Abdulrazak Gurnah.
Trajetória
Anne Carson nasceu em Toronto, em 21 de junho de 1950. Filha de um bancário e uma professora, ela começou a se interessar pela Grécia Antiga no ensino médio e se aprofundou na literatura antiga grega e romana na Universidade de Toronto. Depois se tornou professora da área e ensinou em diferentes universidades do Canadá e dos Estados Unidos.

Sua estreia literária foi com o ensaio Eros, o doce-amargo, publicado originalmente em 1986. No discurso de anúncio do Nobel, o presidente do comitê da premiação, Anders Olsson, destacou que a obra lançou as bases da obra da escritora.
“Com uma meditação brilhante sobre eros como a essência e a força motriz da poesia, o livro baseia-se fortemente em um adjetivo composto de Safo, que define eros como a dor e a doçura combinadas. É essa distinção — a distância entre amante e ser amado — que confere força a eros e põe o poema em movimento”, afirmou. “Carson alcança esse efeito em sua escrita ao trazer constantemente vozes distintas que interagem e contrastam entre si.”
Antes do Nobel, a escritora venceu outras premiações internacionais importantes. Entre elas, o Prêmio T.S. Eliot, em 2001, e o Prêmio Princesa das Astúrias, em 2020.
Em um ensaio de agosto de 2024 para a revista inglesa London Review of Books — publicado pela Quatro Cinco Um na edição de abril de 2025, com tradução de Sofia Nestrovski —, Carson revela o diagnóstico de Parkinson e reflete sobre a perda gradual da própria caligrafia, bem como as demais transformações impostas pela doença.
A partir da experiência de ver sua escrita se deformar, Carson aproxima corpo e linguagem, recorrendo a autores como John Keats, Gerard Manley Hopkins e Roland Barthes para pensar a caligrafia como uma marca pessoal que, com o avanço do Parkinson, deixa de ser reconhecida.
“Quando recebi o diagnóstico de mal de Parkinson, um dos sintomas que achei mais humilhantes foi a desintegração da minha caligrafia. Sempre gostei de preencher cadernos, estantes inteiras de cadernos, dia após dia, ano após ano”, escreve.
“Agora minhas linhas verticais saem tortas ou quebradas ou se esparramam em todas as direções, as vogais murcham até virarem manchas, o itálico perde a angulação segura e sutil, é tudo uma vergonha. Esfrego, constrangida, parágrafos inteiros até que sumam.”

No ensaio, a autora também descreve sua prática de boxe, recomendada para estimular o cérebro e controlar sintomas motores, como tremores, lacunas, esquecimento e movimentos interrompidos: “Quando tento fazer uma movimentação complicada no boxe, por exemplo uma sequência um-dois-quatro-cinco (jab de esquerda, direto de direita, cruzado de direita, upper de esquerda), consigo sentir meus neurônios se esforçando, se desdobrando”.
Obras no Brasil
A obra da canadense vem chegando ao Brasil em traduções que preservam a mistura entre poesia, ensaio, crítica e literatura clássica. A primeira obra publicada no país foi O método Albertine (Edições Jabuticaba), em 2017, traduzida por Vilma Arêas e Fernando Guimarães.

Em resenha para a Quatro Cinco Um, a crítica literária Sofia Nestrovski observa que, no livro, com inspiração de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, Carson transforma a personagem-título em ponto de partida para uma investigação sobre desejo, identidade e a impossibilidade de apreender inteiramente o outro.
“Entrar em suas obras é, muitas vezes, abrir duas portas com o mesmo giro da maçaneta: para dentro do mundo da poeta e também para aquele outro, o de um poema de Safo, Gertrude Stein ou Paul Celan”, escreve Nestrovski.

A maior circulação se dá, no entanto, com Autobiografia do vermelho: um romance em versos (Editora 34, 2021), traduzido por Ismar Tirelli Neto. Nele, Carson reimagina o mito grego de Gerião, derrotado por Hércules em um dos trabalhos do herói, transformando o monstro em um menino sensível que se apaixona justamente por seu algoz.
Em 2022, vieram Eros, o doce-amargo, pela editora Bazar do Tempo, com tradução de Julia Ruiz, e Falas curtas, pela Relicário, traduzido por Laura Erber e Sergio Flaksman. O primeiro parte da literatura grega clássica e da filosofia antiga para uma investigação sobre o conceito de eros.

Já o segundo reúne pequenos poemas em prosa que aproximam artistas como Ovídio, Sylvia Plath, Van Gogh e Gertrude Stein de objetos, animais e fenômenos do cotidiano. No especial sobre os melhores livros de 2022, Falas curtas figurou como uma das três melhores obras de poesia do ano.
Em 2023, a Editora 34 publicou Sobre aquilo em que eu mais penso: ensaios (Editora 34, 2023), com organização de Danilo Hora e Sofia Nestrovski, esta última também responsável pela tradução. O volume reúne onze textos originalmente publicados entre 1997 e 2013, nos quais a canadense aproxima figuras e assuntos aparentemente distantes — Virginia Woolf e Tucídides, Homero e Elizabeth Bishop, Francis Bacon e Joana D’Arc, Longino e Antonioni — em uma reflexão sobre tempo, tradução e arte.
Sobre a obra, o crítico Paulo Roberto Pires escreve que, “em movimentos impetuosos, [Carson] recombina cronologias e gêneros, aproxima os distantes e eventualmente ignora a lógica argumentativa”, e que, “afinal, aquilo em que ela ‘mais pensa’ é o erro, o acidente de expressão que se pode chamar de ‘erro’ e que tanto pode ensinar ‘com a justaposição do que vem e o que não vem ao caso’”.
Já em A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos (Bazar do Tempo, 2024), traduzido por Emanuela Siqueira e Julia Raiz, Carson mistura verso e prosa ao acompanhar vinte anos de um casamento atravessado por desejo, traição e erotismo, tendo como referência tanto os mitos gregos quanto as ideias de John Keats acerca da beleza e da verdade.

Mais recentemente, a bibliografia brasileira se ampliou com Vidro, ironia e deus (Relicário, 2026), traduzido por Adriana Lisboa. Publicada originalmente em 1995, a obra reúne cinco ciclos de poemas sobre Emily Brontë, Deus, Sócrates, Safo de Lesbos e Antonin Artaud, além de um ensaio sobre gênero e voz.
Na mesma boa safra, a Bazar do Tempo publicou Antigonick, com tradução de Julia Raiz. Na trama, uma recriação de Antígona, de Sófocles, a poeta introduz o personagem Nick, cria neologismos e aproxima a tragédia clássica do presente. A edição brasileira inclui a carta poética em que a autora reflete sobre o próprio trabalho com tradução literária.
Veja a lista dos livros de Carson que saíram no Brasil:
- O método Albertine (trad. Vilma Arêas e Fernando A. Guimarães, Edições Jabuticaba, 2017);
- Autobiografia do vermelho: um romance em versos (trad. Ismar Tirelli Neto, Editora 34, 2021);
- Eros, o doce-amargo: um ensaio (trad. Julia Raiz, Bazar do Tempo, 2022);
- Falas curtas (trad. Laura Erber e Sergio Flaksman, Relicário, 2022);
- Sobre aquilo em que eu mais penso: ensaios (trad. Sofia Nestrovski, Editora 34, 2023);
- A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos (trad. Emanuela Siqueira e Julia Raiz, Bazar do Tempo, 2024);
- Vidro, ironia e deus (trad. Adriana Lisboa, Relicário, 2026);
- Antigonick (trad. Julia Raiz, Bazar do Tempo, 2026).
