Casagrande e Rodrigo Hübner Mendes emocionam ao falar de viradas, autonomia e liberdade

A Feira do Livro, Memória,

Casagrande e Rodrigo Hübner Mendes emocionam ao falar de viradas, autonomia e liberdade

Ex-jogador e educador falam de suas autobiografias n’A Feira do Livro e contam como driblaram dificuldades e deram novos sentidos às suas vidas

05jul2024 - 15h38 • 10jul2024 - 11h39
Fotografias de Matias Maxx

Numa conversa emocionante conduzida pela jornalista e escritora Gaía Passarelli, Walter Casagrande e Rodrigo Hübner Mendes falaram sobre os muitos pontos de virada em suas vidas e deram dicas de como navegar em tempos de incerteza, temas presentes nas autobiografias discutidas n’A Feira do Livro na noite desta quinta-feira (4).

Corintiano, Mendes celebrou estar na praça em frente ao Pacaembu ao lado de Casagrande e contou como o esporte teve papel importante na sua reabilitação após o incidente que mudou sua vida. O educador jogava futebol e foi remador pelo clube antes de levar um tiro, durante um assalto aos dezoito anos, que o tornou tetraplégico.

Dois anos depois, Mendes contou que foi para um centro de reabilitação em Cuba, onde era acompanhado por um ex-atleta, também remador. “A experiência no esporte foi fundamental para não jogar a toalha quando eu estava ali à beira do limite”, disse ele, que no ano passado lançou O potencial da mudança: o desafio de navegar pelas incertezas (Objetiva).

O educador Rodrigo Hübner Mendes

“Depois de infinitas horas de fisioterapia, quando voltei para São Paulo assumi que deveria virar aquela página e iniciar um novo capítulo”, contou. Anos depois, ele fundaria, aos 22, o Instituto Rodrigo Mendes, referência internacional na inclusão de pessoas com deficiência na rede de ensino.

Já o ex-jogador do Corinthians falou das viradas que viveu para superar a dependência química, tema da sua autobiografia Casagrande e seus demônios, escrita em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro e que está sendo relançada pela Record em edição atualizada.

O início de todo o processo, relatou, aconteceu quando sofreu um acidente grave de carro na avenida Pompeia, em São Paulo, e acordou numa clínica, internado compulsoriamente pela família para tratar do abuso de drogas e álcool.

O comentarista e colunista esportivo Walter Casagrande

Após resistir ao tratamento, Casão contou como a ajuda de profissionais também foi importante para avançar. “Um psicólogo que me acompanhava disse que nunca tinha visto, em vinte anos de profissão, alguém com o meu poder de destruição, mas também disse que era do mesmo tamanho do meu poder de me recuperar.”

Aquela seria a primeira das muitas internações que o hoje colunista e comentarista esportivo passaria — as seguintes por vontade própria. Totalmente sóbrio há nove anos, Casagrande disse que teve que reinventar um passado e contou como o esporte também o ajudou nessa travessia.

“Lembrei que sou atleta, que fui jogador de futebol, que sou competitivo, não desisto. Decidi jogar com a droga, mas não queria ganhar dela porque ela é mais forte. O dia em que percebi que podia chegar empatado com ela, eu parei de jogar.”

Um empurrãozinho de Lázaro Ramos

A reflexão sobre processos de mudança se tornou um hábito para Rodrigo Hübner Mendes depois da ruptura que viveu, contou o educador. Mas foram alguns anos -— e um incentivo do ator Lázaro Ramos — até chegar a compartilhar a experiência em livro. 

“O Lázaro Ramos me deu um empurrãozinho durante uma gravação na Globo”, disse. “Conversamos e ele falou o quanto tinha sido importante para ele falar sobre o que sofreu, todo preconceito e racismo no livro Na minha pele [Objetiva, 2017]. Me deu um abraço e disse que eu devia escrever sobre minha experiência.”

Autor de outros dois títulos sobre educação inclusiva, Mendes decidiu relatar sua trajetória durante a pandemia. O intuito, afirmou, é provocar reflexão sobre como a gente se relaciona com o imponderável, já que todo mundo passa por viradas, planejadas ou não. 

“Eu fazia projeções sobre minha vida e via uma linha reta: ia me formar em medicina, seguir jogando meu futebol, tocando meu violãozinho… E o caminho não teve nada de linha reta, parece mais uma montanha-russa”, brincou. “Hoje faço atividades que nunca pensei em fazer, mas que me dão muito prazer.”

Compartilhar histórias

Emocionado, Casagrande contou como a autobiografia o levou a ouvir histórias de leitores que decidiram procurar ajuda para se livrar da dependência química depois da leitura. 

“Durante o lançamento no Rio, uma senhora comprou o livro e pediu para eu assinar para dar de presente ao marido, que tinha acabado de contar para ela que era dependente químico e só chorava”, disse. Outro leitor o parou no parque do Ibirapuera e contou que o ex-craque tinha mudado sua vida depois que a mãe deu o livro de presente como sua “última chance” para tratar o alcoolismo: “Se o Casagrande conseguiu, você consegue”.

“Quando você escuta as histórias de outras pessoas, sabe que não está sozinho no mundo. Esse livro serve pra isso”, disse o ex-jogador. “O que me fez estar aqui hoje são três coisas: minha liberdade, minha sobriedade e a nossa democracia. Essas três coisas eu não negocio com ninguém.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.