A Feira do Livro, Literatura brasileira,

Especialistas em literatura debatem a nova lista de leituras obrigatórias da Fuvest

Por anos as listas do vestibular reuniram apenas homens brancos e isso não era considerado identitarismo, afirmam professoras

05jul2024 - 14h44 • 05jul2024 - 14h47
(Fotografias de Matias Maxx)

Desde 1989, a Fuvest — um dos vestibulares mais concorridos e tradicionais do Brasil — inclui uma lista literária na prova. Em vinte das 36 edições realizadas, as leituras obrigatórias eram exclusivamente de autoria masculina. Divulgada em dezembro passado, a nova lista para quem aspira entrar na Universidade de São Paulo será, pela primeira vez, composta integralmente por livros de autoras mulheres. 

A notícia teve recepção mista, com alguns críticos afirmandoque a decisão teria sido baseada somente em pautas identitárias. “Só se torna ‘identitário’ quando a lista é 100% composta por mulheres. Por anos as listas reuniam apenas homens brancos e isso não era considerado identitarismo”, criticou a educadora e gestora de educação Lara Rocha, que conversou com a editora e professora Fernanda Sousa na mesa “Leitura obrigatória”.

O quinto encontro do Seminário Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas aconteceu na quinta (4), n’A Feira do Livro, com mediação da educadora Janine Durand. Foram debatidas a seleção das obras, a interpelação do cânone literário e uma nova fase para a promoção da literatura feita por mulheres. 

Na nova lista, que entra em vigência para a Fuvest 2026 e vai até a edição 2029, figuram nomes como Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Djaimilia Pereira de Almeida, Julia Lopes de Almeida, Lygia Fagundes Telles, Narcisa Amália, Nísia Floresta, Paulina Chiziane, Rachel de Queiroz e Sophia de Mello Breyner Andresen.

Até hoje, apenas cinco mulheres estiveram nas listas de outros anos: Cecília Meireles, Clarice Lispector, Helena Morley, Lygia Fagundes Telles e Ruth Guimarães.

Subjetividades 

Sousa questionou o perfil do leitor que a academia tinha em mente e a ideia de um leitor universal. “Esse universal era a imagem de um homem branco. Com essa nova lista que vai na contramão do hegemônico, há o efeito transformador para os leitores que estão nas periferias”, disse a editora. 

Pesquisadora da obra de Carolina Maria de Jesus, ela contou que a literatura da autora mineira foi um divisor de águas em sua vida quando a leu, já na faculdade, por indicação de uma amiga. “Quando cheguei na USP, as histórias das mulheres da minha família não estavam ali”, disse Sousa. “Penso que como Carolina foi decisiva para mim, ela também seria decisiva para outros.”

A educadora Janine Durand, a editora e professora Fernanda Sousa e a educadora e gestora de educação Lara Rocha

Janine Durand também ressaltou a importância de trazer outras vozes e personagens para o centro. “Quando a gente não acessa a literatura, a gente mutila as subjetividades”, disse Durand, citando Antonio Candido, que elencava a literatura como um direito, por ser capaz de humanizar as pessoas. 

A mediadora ainda questionou se seria preciso implodir os critérios anteriores da lista para nascer uma nova ideia de literatura brasileira. Segundo ela, a ausência histórica de livros de mulheres considerados “clássicos” escancara o desprestígio que a sociedade dá às obras de autoria feminina. “Queremos ampliar as perspectivas do que é considerado cânone, que pode incluir mais autoras”, respondeu Sousa.

“Carolina Maria de Jesus falava do poder da literatura de mostrar que há um mundo maior do que o nosso bairro e cidade. É com autores como ela que mais gente entenderá que histórias de pessoas como nós podem ser escritas e lidas”, completou Sousa.

Cuidados e críticas 

Um ponto de atenção levantado pelas especialistas foi que categorizar obras como “obrigatórias” pode fazer com que leitores percam o encantamento que deve acompanhar a literatura aconselhada pelas instituições que constroem essas listas. 

“Não existe ‘certo’ e ‘errado’ durante a leitura, mas o que o professor deve fazer é tentar treinar o olhar dos alunos para tornar os livros mais interessantes e prazerosos. Sendo mais cuidadosos, podemos tentar conectar com as coisas do nosso cotidiano”, afirma a educadora Lara Rocha.

As convidadas também citaram a carta aberta de professores universitários e críticos literários publicada em veículos jornalísticos após a divulgação da nova lista. O documento criticava que apenas três mulheres negras figuravam na lista. “Isso é o triplo de mulheres negras que estiveram na lista todos esses anos”, rebateu Lara Rocha.

Segundo a editora Fernanda Sousa, há outras coisas em jogo, como equidade, inclusão e igualdade. “A universidade mudou, mas há quem pense que já fez muito ao ‘deixar’ que outros perfis entrassem. O fim desses mundos para alguns é o começo de mundos para vários outros.”

Ao final da conversa, a editora recitou trechos dos diários de Carolina Maria de Jesus e ressaltou a necessidade de haver mais acesso a histórias escritas por mulheres sobre mulheres. “Graciliano e Machado de Assis criaram personagens mulheres fascinantes, mas ainda são homens escrevendo sobre mulheres”, disse Sousa. “Precisamos ler mais sobre as subjetividades, intimidades e realidades das mulheres escritas por elas próprias.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.