Literatura,

Detestado por Bolsonaro, Paulo Freire é homenageado em três capitais

A partir de amanhã, o festival gratuito Balada Literária leva autores para Salvador, Teresina e São Paulo

20ago2019 - 16h02

E teve boatos de que Paulo Freire estava na pior. No primeiro semestre deste ano, segundo a editora Paz & Terra, as vendas da magnum opus do educador, Pedagogia do oprimido (escrita em 1968, quando estava exilado no Chile, e publicada no Brasil somente em 1974), registraram um crescimento de 60% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado. A editora lança em setembro Direitos Humanos e Educação Libertadora, com textos inéditos de Freire organizados por sua viúva, Nita Freire, e pelo professor Erasto Mendonça.

Pivô da polarização política e da guerra cultural que se travou no Brasil desde 2013 e particularmente detestado por Bolsonaro — para quem Freire deveria ser destituído do título de Patrono da Educação Brasileira e expurgado das escolas —, o inimigo público do presidente faz justamente o movimento contrário do que desejam seus opositores: ganha força por meio de reedições, homenagens, debates, capas de revista

É o caso da Balada Literária, que chega à sua 14a edição com eventos em Salvador (de amanhã, 21 a 25 de agosto), Teresina (27 e 28 de agosto) e São Paulo (4 a 8 de setembro), tendo Paulo Freire como autor homenageado. A escolha, segundo o criador e curador da Balada, Marcelino Freire, em entrevista por e-mail à revista dos livros, deu-se “porque precisamos dizer, em alto e bom som, o quanto amamos e respeitamos o legado do educador e pensador Paulo Freire; porque precisamos dizer que queremos e prezamos por mais educação, mais consciência crítica, mais conhecimento de causa, mais respeito aos professores e professoras, mais amor aos nossos mestres e mestras; porque não concordamos com essa perseguição ao conhecimento, à liberdade de expressão; porque defendemos a democracia”.

Leia a resenha das duas biografias de Paulo Freire recém-lançadas, publicada na edição de agosto da Quatro Cinco Um

Ouça no podcast 451 MHz uma conversa com o biógrafo de Paulo Freire, Sérgio Haddad

Desde a estreia, em 2006, a Balada tem programação quase inteiramente gratuita e se define como “feita verdadeiramente para todos e todas”, o que se reflete na variedade de vertentes literárias contempladas e na multiplicidade de vozes dos convidados, que variam de gênero, idade, etnia, orientação sexual, ideologia política e por aí vai. 

“Vem autor (e fotógrafo, ator, músico, artista plástico, transformista, crítico literário, drag queen) de Porto Velho, Macapá, Rio Branco desde o primeiro ano. É uma festa sem preconceito. É a literatura verdadeiramente sem frescura”, conta Marcelino, destacando a participação de Rogéria, Antonio Candido, Raduan Nassar e Conceição Evaristo ao longo dos anos. 

Neste, uma das maiores apostas do curador é o escritor português Valter Hugo Mãe, que passa pelas três cidades. A pedido da Quatro Cinco Um, Marcelino pincela outros destaques da programação. Em São Paulo, ele destaca “aulas especiais”, com o autor infantojuvenil Daniel Munduruku, o poeta mineiro Ricardo Aleixo e a crítica literária e ativista trans Amara Moira, além de uma conversa com a cirandeira e compositora Lia de Itamaracá, conterrânea do curador e do autor homenageado, todos de Pernambuco. “Teremos pelo sexto ano, em São Paulo, o Sarau da Diversidade — o dia em que a Balada vira LGBTQI+”, conta Marcelino. “É emocionante de ver.”

“Em Salvador, homenagearemos a contadora de histórias Dona Cici. Em Teresina, a homenagem vai para o professor e poeta Elio Ferreira, e o encerramento terá show de Rita Benneditto.” As homenagens a Paulo Freire incluem uma conversa com a educadora Ana Maria Araújo Freire, viúva de Paulo Freire e autora da biografia Paulo Freire: uma História de Vida (Paz e Terra), Sérgio Haddad, que estará lançando O Educador – Um Perfil de Paulo Freire (Todavia), e Madalena Freire, filha do homenageado. “Vamos abraçar Paulo Freire conjuntamente”, conclama o curador. “Eis a nossa revolução. Está na hora de dizermos de que lado estamos. Nós estamos ao lado da educação.”

Em relação à homenagem da edição 2020, que já está fechada, Marcelino não revela o nome, mas dá pistas: “Será uma mulher e ela já aceitou a homenagem. Ela vive no interior de São Paulo. Uma escritora que o Brasil precisa conhecer melhor”. Palpites? Cartas para a redação.

A programação completa da Balada Literária está disponível no site baladaliteraria.com.br.

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).