Listão da Semana,

Olga Tokarczuk, Fernando Pessoa, Roberto Piva e mais

Uma reflexão do historiador Christopher Lasch sobre a cultura narcisista, uma análise sobre como as redes sociais reprogramaram nossa mente, um dicionário biográfico de líderes russas que enfrentaram o regime tsarista

07mar2023 - 14h33 | Edição #68

No narcisismo, cultiva-se um individualismo — e uma necessidade de ser admirado — que corrói a possibilidade de um presente satisfatório e gera uma visão desesperançosa do futuro. É o que defende Christopher Lasch em A cultura do narcisismo, que chega nesta semana às livrarias brasileiras. Para o historiador norte-americano, a ideia de que o mundo deve espelhar as ânsias do sujeito para que este esteja satisfeito é perigosa e resulta em uma “era de expectativas decrescentes”. Como consequência, ocorre a trivialidade e o despedaçamento dos relacionamentos interpessoais — a “experiência subjetiva de vazio”.

Completam a seleção da semana ensaios da Nobel polonesa Olga Tokarczuk, a reedição de um clássico de Fernando Pessoa, uma análise sobre como as redes sociais reprogramaram nossa mente, um dicionário biográfico de líderes russas que enfrentaram o regime tsarista, a poesia completa de Roberto Piva e uma autoficção do espanhol Manuel Vilas, entre outras novidades quentinhas.

Viva o livro brasileiro!

A cultura do narcisismo: a vida americana em uma era de expectativas decrescentes. Christopher Lasch.
Trad. Bruno Cobalchini Mattos • Pref. E. J. Dionne Jr. • Pref. Camila Rocha • Fósforo • 416 pp • R$ 99,90 

Publicado originalmente em 1979, este diagnóstico crítico da cultura moderna mantém uma atualidade impressionante. Inspirado na psicanálise e nas ideias da Escola de Frankfurt, o historiador norte-americano mostra que as pessoas perderam seus vínculos familiares, sindicais e políticos e passaram a se dedicar cada vez mais ao seu próprio bem-estar. Ele destaca o consumo desenfreado de imagens e o culto às personalidades da atualidade e mostra que “toda política se tornou uma forma de espetáculo” em que os indivíduos se identificam com os “vencedores” por medo de serem tachados de “perdedores”, antecipando várias características da Era Trump.

Trecho do livro:
“A despeito de suas ilusões esporádicas de onipotência, o narcisista depende dos outros para validar sua autoestima. Ele não consegue viver sem uma plateia de admiradores. Sua aparente liberdade com relação a laços familiares e constrangimentos institucionais não o libertam para que siga seu próprio caminho ou se regozije em sua individualidade. Pelo contrário, alimenta a insegurança que o narcisista só consegue superar ao ver seu ʽself grandiosoʼ refletido na atenção dos outros ou se associando a pessoas dotadas de celebridade, poder e carisma. Para o narcisista, o mundo é um espelho, enquanto o individualista rústico o via como uma imensidão vazia a ser moldada conforme suas vontades”.

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Escrever é muito perigoso: ensaios e conferências. Olga Tokarczuk.
Trad. Gabriel Borowski • Todavia • 264 pp • R$ 82,90

Nestes ensaios, a escritora polonesa, ganhadora do Nobel de Literatura de 2018, expõe o método utilizado na construção de seus livros, nos quais procura incorporar a alteridade, o diferente e o estranho, mas se defronta com o conflito entre a infinitude da imaginação e a finitude entediante da vida cotidiana.

Em resenha do livro publicada na Quatro Cinco Um, Noemi Jaffe pontua: Escrever é muito perigoso mapeia em profundidade o ʽcredoʼ literário e autoral de Tokarczuk, explicitando o perigo de que fala o título. Desde o primeiro ensaio, ʽO viajanteʼ, adverte-se sobre a oposição entre a infinitude da imaginação e a mesmice finita a que somos submetidos cotidianamente, seja pelo apelo do consumo, pelas cidades idênticas umas às outras ou pelo algoritmo que nos oferece o que supostamente queremos”. Leia o texto na íntegra. 

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Livro do desassossego. Fernando Pessoa. 
Tinta-da-China Brasil • Org. Jerónimo Pizarro • 608 pp • R$ 99 até 10/3, R$ 140 a partir de 11/3

Chega agora às livrarias a segunda edição da coletânea póstuma com mais de quatrocentos fragmentos de prosa poética de Pessoa. Escritos entre 1913 e 1934, durante praticamente toda a sua vida literária, nunca foram organizados em uma forma definitiva por ele, embora tenha elaborado planos de publicá-los sob os nomes de Vicente Guedes e Bernardo Soares. Publicado pela primeira vez em 1982, este work in progress constitui uma espécie de romance que espelha a vida de Lisboa no início do século 20.

Leia mais: Quarenta anos depois, Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, segue como bula para a condição humana.

Ouça também: Em episódio do podcast 451 MHz, José Miguel Wisnik fala sobre a multiplicidade de Pessoa e sua importância para o Tropicalismo.

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A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. Max Fisher.
Trad. Érico Assis • Todavia • 512 pp • R$ 99,90

O jornalista do New York Times investiga o funcionamento das grandes empresas do Vale do Silício (Facebook, Google, Twitter, Youtube) e o modo como as redes sociais se aproveitam das fragilidades psíquicas dos indivíduos para criar algoritmos que estimulam a disseminação de fake news, preconceitos e teorias da conspiração. Segundo ele, isso levou à disseminação do discurso de ódio entre pessoas até então pacíficas e à multiplicação de ações discriminatórias e violentas.

Leia também: Jornalista da revista The New Yorker conta suas memórias sobre o período em que trabalhou no setor de tecnologia.

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As bolcheviques. Mariana Waechter (ilus.) e Óscar de Pablo.
Trad. Barbara Corrales • Veneta • 304 pp • R$ 114,90

A artista visual paulistana e o escritor mexicano compõem um dicionário biográfico das mulheres russas que lideraram greves e enfrentaram a repressão do regime tsarista, como Alexandra Kollontai, Inessa Armand, Evguenia Bosch e Angelika Balabanoff. Graças a elas a legislação adotada no país após a Revolução Russa foi a mais progressista que o mundo tinha visto até então: não só descriminalizou o aborto como tornou obrigação do Estado oferecê-lo gratuitamente; concedeu dois meses de licença maternidade e uma licença menstrual de alguns dias por mês; concedeu o direito ao casamento civil e ao divórcio e descriminalizou toda prática sexual voluntária entre adultos.

Leia também: Revista Granta destaca a importância da cultura russa em um momento delicado.

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Morda meu coração na esquina: poesia reunida. Roberto Piva.
Org. Alcir Pécora • Companhia das Letras • 504 pp • R$ 99,90/39,90

O volume traz a obra completa do poeta paulistano, incluindo poemas esparsos. Influenciado pelo surrealismo e pela geração beat, em 1963 Piva publicou Paranoia, que foi destacado pela revista oficial do surrealismo francês como “o primeiro livro de poesia delirante publicado no Brasil”. Com Piazzas (1964), que tinha como pano de fundo uma São Paulo noturna e caótica, sua obra ganha uma dimensão mística e visionária, e uma forte inspiração xamânica em Ciclones (1997). O volume reconstrói a trajetória do escritor livro a livro com textos de Claudio Willer, Eliane Robert Moraes e Davi Arrigucci Jr.

Leia também: O poeta, tradutor e ensaísta Claudio Willer criou uma das mais poderosas ações culturais em torno da poesia.

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Em tudo havia beleza. Manuel Vilas.
Trad. Sandra Martha Dolinsky • Tusquets/Planeta • 352 pp • R$ 79,90

Autoficção do escritor espanhol que recebeu os prêmios Femina Étranger 2019 e Artes & Letras de Literatura do El Heraldo, o livro retrata um homem de meia idade que enfrenta seus fantasmas (o divórcio, a distância imposta pelos filhos, o abuso do álcool) enquanto tenta superar suas perdas e recompor sua vida.

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Vapt-vupt
+ novidades quentinhas

A tristeza dos anjos. Jón Kalman Stefánsson.
Trad. João Reis • Companhia das Letras • 312 pp • R$ 109,90/44,90

Narra a história de um carteiro islandês que precisa de ajuda para entregar a correspondência a fiordes longínquos onde começa o inverno eterno.

Marxismo negro: a criação da tradição radical negra. Cedric James Robinson.
Trad. Fernanda Silva e Sousa e outros • Perspectiva • 688 pp • R$ 149,90

Examina a história do socialismo europeu, as raízes do radicalismo negro, a formação da intelectualidade negra e sua crítica à narrativa racialista.

O crime do bom nazista. Samir Machado de Machado.
Todavia • 128 pp • R$ 59,90

O autor de Tupinilândia cria um thriller no Recife dos anos 30 envolvendo baronesas misteriosas e espiões comunistas em meio à ascensão do nazismo.

O girassol que nos tinge: uma história das Diretas Já, o maior movimento popular do Brasil. Oscar Pilagallo.
Fósforo • 416 pp • R$ 99,90

Nos quarenta anos da campanha, o livro reconstitui a história do movimento em defesa do restabelecimento das eleições diretas no Brasil.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.