Listão da Semana,

A voz do morro de Geovani Martins e mais 12 lançamentos

‘Via Ápia’, primeiro romance de Geovani Martins, chega nesta semana às livrarias

22set2022 - 17h17 | Edição #62

Batizado com o nome de uma importante rua do centro comercial da Rocinha (e também uma das principais estradas da Antiga Roma), Via Ápia percorre a vida da juventude na favela tendo como pano de fundo a instalação de uma UPP. É de lá também o autor, Geovani Martins, que teve sua coletânea de contos O sol na cabeça (2018) publicada em dez países e agora estreia no romance explorando com maestria temas como a pobreza, a guerra às drogas e as políticas da morte no Brasil. Martins é um dos convidados da Flip 2022, que a curadoria definiu como uma edição “com menos terno e gravata”.

Completam a seleção da semana uma antologia de crônicas políticas de Antonio Prata, o novo romance da francesa Annie Ernaux, uma análise sobre a tensão entre técnica e política no Brasil pós-1988, uma biografia do líder indígena Arariboia, uma célebre conferência do filósofo espanhol Paul B. Preciado e um livro infantojuvenil sobre Benjamim de Oliveira, primeiro palhaço negro do Brasil.

Viva o livro brasileiro!

Via Ápia. Geovani Martins.
Companhia das Letras • 344 pp • R$ 64,90/ 39,90 

O primeiro romance do autor dos treze contos de O sol na cabeça (2018, vencedor do Prêmio Rio de Literatura) é centrado na vida de cinco jovens que assistem à instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela da Rocinha. O livro descreve as expectativas da população em relação à nova etapa da guerra às drogas, a ruidosa instalação da UPP e seus impactos perversos na vida da comunidade e, posteriormente, a silenciosa partida da polícia e a retomada dos ensurdecedores bailes funk. Martins é um dos convidados da Flip 2022, que acontece de 13 a 27 de novembro. 

Leia também: Livro de estreia de Geovani Martins é mosaico de imagens cintilantes e sombrias.

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Por quem as panelas batem: crônicas políticas (2013-2021). Antonio Prata. 
Companhia das Letras • 320 pp • R$ 59,90/ 37,90

Mais de sessenta crônicas políticas publicadas pelo escritor e roteirista Antonio Prata na Folha de S.Paulo, entre junho de 2013 e o final de 2021, são reunidas no livro. Após os governos Lula, segundo o autor, “veio 2013 e pareceu que a história nacional, de 1980 até então, era só a subida da montanha-russa. Este livro é uma espécie de diário da queda”. Para Prata, o descalabro do bolsonarismo é “o grunhido do velho mundo, agonizante, sendo arrastado para o passado”.  

Ouça também: Em episódio do 451 MHz, o escritor Antonio Prata fala de roteiro, história, política e os dez anos do livro que o colocou no mapa.

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A vergonha. Annie Ernaux. 
Trad. Marília Garcia • Fósforo • 88 pp • R$ 54,90

Ganhadora de muitos prêmios (Strega, Formentor, Renaudot, Hemingway, Marguerite Yourcenar), a escritora francesa Annie Ernaux rememora um episódio traumático ocorrido quando ela tinha apenas doze anos: seu pai, num acesso de fúria, tentou matar sua mãe num domingo de junho. A partir daí, ela passou a sentir vergonha por estar ligada a essa família quando a comparava com as famílias das outras meninas que frequentavam a mesma escola. O episódio incutiu nela um agudo sentimento de inferioridade de classe, que ela tentará superar pelo acúmulo de capital cultural. Esse fato despertou sua consciência de si e de certa forma encerrou a sua infância. Ernaux é uma das escritoras confirmadas para a Flip 2022

Trecho do livro:
“Ali tínhamos deixado de pertencer à categoria das pessoas corretas, que não bebem, não batem umas nas outras e se vestem de modo adequado para ir à cidade. Mesmo tendo um jaleco novo a cada começo de ano e um missal bonito, mesmo sendo a primeira da turma e fazendo minhas orações, eu já não me parecia com as outras meninas da classe”.

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A democracia equilibrista: políticos e burocratas no Brasil. Pedro Abramovay e Gabriela Lotta.
Companhia das Letras • 176 pp • R$ 69,90/ 39,90

Pedro Abramovay, ex-secretário nacional de Justiça, e Gabriela Lotta, professora de administração pública da FGV-SP, refletem sobre a tensão entre técnica e política no Brasil pós-1988. Eles discutem temas como o fetichismo da meritocracia, o patrimonialismo, as reformas do Estado de Fernando Henrique a Lula, a política de drogas, a politização do Judiciário e a Lava Jato, o Marco Civil da Internet, o Estatuto dos Povos Indígenas e o caso Battisti.

Leia também: Em coletânea, o jornalista Paulo Roberto Pires interpela o sujeito letrado que se calou ante a barbárie na política brasileira.

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Arariboia: o indígena que mudou a história do Brasil. Rafael Freitas da Silva.
Bazar do Tempo •  248 pp • R$ 76

Principal líder indígena do século 16 e figura decisiva nas batalhas entre portugueses e franceses, Arariboia tem sua vida reconstituída pelo jornalista Rafael Freitas da Silva. Exímio estrategista, o chefe da tribo dos teminimós se aliou aos portugueses e derrotou as tropas francesas apoiadas pelos tamoios de Aymberê na batalha de Uruçumirim, em 1567. Araribóia foi catequizado e ganhou as terras que deram origem à atual cidade de Niterói.  

Leia também: Mário de Andrade reforçou em Macunaíma o sentimento anti-indígena dos brasileiros, que quase um século depois persiste.

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Eu sou o monstro que vos fala: relatório para uma academia de psicanalistas. Paul B. Preciado.
Trad. Carla Rodrigues • Zahar/Companhia das Letras • 96 pp • R$ 39,90/ 27,90

Em 2019, o escritor e filósofo espanhol Paul B. Preciado foi convidado a falar para 3500 psicanalistas em Paris. Sua conferência, reproduzida nesse livro, se inspirava no célebre Um relatório para uma academia, de Franz Kafka, no qual um macaco que se tornou humano explica que, para escapar da jaula em que tinha sido jogado, precisou aprender a imitar o comportamento humano, e o fez tão bem que se tornou um ex-macaco: não encontrou a liberdade, apenas uma saída para a jaula. A partir daí, Preciado apresentou à plateia o dilema enfrentado pela psicanálise: seguir operando com a velha epistemologia da diferença sexual e validar o regime patriarcal colonial que a engendrou, ou abrir-se a um processo de crítica política de suas linguagens e práticas.
 
Leia também: O filósofo e escritor trans Paul B. Preciado relata suas experiências com testosterona e defende a liberdade individual nas questões de gênero.

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Menino Benjamim. Otávio Júnior.
Ils. Isabela Santos • Yellowfante/Autêntica • 42 pp • R$ 54,90

Um dos criadores do circo-teatro no Brasil, Benjamim de Oliveira (1870-1954) foi o primeiro palhaço negro do país. Atuando como ator, cantor, músico, dramaturgo e produtor, Oliveira ampliou a presença do teatro nas apresentações circenses. A partir dos anos 90, sua importância vem sendo ressaltada em teses, livros, peças teatrais, filmes e desfiles de escolas de samba. Nesse livro infantil, Otávio Júnior mostra aos jovens leitores o legado desse grande artista.

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+ novidades quentinhas

Agência de viagens. Krystyna Dąbrowska.
Trad. Piotr Kilanowski • Âyiné • 156 pp • R$ 69,90

Coletânea de poemas da escritora e ensaísta polonesa, traduzida para 17 idiomas e ganhadora do Prêmio Wisława Szymborska de 2013.

Gay de família. Felipe Fagundes.
Paralela/Companhia das Letras • 272 pp • R$ 49,90

Um gay vive bem longe de sua família tóxica, mas um dia seu irmão lhe oferece dinheiro para ser babá de três sobrinhos complicados por um fim de semana.

Governar o mundo, sem governo mundial. Roberto Mangabeira Unger.
LeYa • 64 pp • R$ 30

Uma análise das relações internacionais e da importância da cooperação entre Estados para evitar as guerras e defender o meio ambiente.

Moeda vencida. Francisco J.C. Dantas.
Alfaguara/Companhia das Letras • 192 pp • R$ 74,90

Autor de Coivara da Memória (1991) e de Os desvalidos (1993), Dantas recebeu em 2000 o Prêmio Internacional da União Latina de Literaturas Românicas. Seu novo romance narra a vida de um homem do interior sergipano que ama os animais.

O som do vermelho. Cătălin Partenie.
Trad. Tanize Mocellin Ferreira • DBA • 176 pp • R$ 64,90

 

Professor de filosofia em Bucareste, traduziu as obras completas de Platão para o romeno. Seu romance de estreia retrata um estudante expulso da faculdade de filosofia que se torna guitarrista de uma banda na época do colapso do regime comunista.

Uma breve história da igualdade. Thomas Piketty. 
Maria de Fátima Oliva do Coutto • Intrínseca • 304 pp • R$ 69,90

 

Autor do influente O capital no século 21 (2013), o economista francês sustenta que, apesar das aparências, o mundo caminha rumo a uma maior igualdade, mas isso exige a adoção de reformas sociais e econômicas.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.