A Feira do Livro, Laut, Liberdade e Autoritarismo,

Luta por memória da ditadura não interessa só a famílias das vítimas, dizem pesquisadores

Camilo Vannuchi e Pádua Fernandes, autores de livros sobre a resistência ao regime militar, defendem que conhecer crimes do Estado é direito da sociedade

07jul2024 - 21h09 • 07jul2024 - 21h34
Fotografias de Matias Maxx

No ano em que o golpe militar de 1964 completa sessenta anos, e três dias depois de o presidente Lula recriar a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos durante o regime, a mesa “Ditadura nunca mais” reuniu no domingo (7), n’A Feira do Livro, dois autores que pesquisam crimes praticados em nome do Estado brasileiro durante o período e a resistência das famílias de vítimas da ditadura.

Camilo Vannuchi e Pádua Fernandes conversaram sobre o assunto com a professora de direito Luciana Reis, pesquisadora do Núcleo de Direito e Democracia do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e integrante do LAUT (Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo).

Durante o encontro, os autores contaram histórias de pessoas torturadas e mortas pela ditadura que aparecem em livros como Eu só disse meu nome (Discurso Direto), que Vannuchi lança nesta edição do festival literário paulistano, e Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, que Fernandes publicou ano passado pela editora Patuá. 

Camilo Vannuchi

Vannuchi relembrou o caso de seu primo em segundo grau, Alexandre Vannucchi Leme, estudante de geologia da Universidade de São Paulo (USP) torturado e morto em 1973 pela ditadura. Eu só disse meu nome, que biografa o rapaz e investiga as circunstâncias de sua morte, traz no título uma frase dele sobre o momento em que foi levado às dependências do DOI-Codi (centro de repressão ligado ao Exército), explicou o autor. “É um livro sobre a luta por memória, verdade e justiça”, disse.

O DOI-Codi foi chefiado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, personagem central de Ilícito absoluto, coletânea de ensaios em que Fernandes trata da batalha judicial da família Almeida Teles para que Ustra fosse oficialmente considerado torturador. Cinco adultos da família, que integravam o PCB (Partido Comunista Brasileiro), foram torturados no centro de repressão, incluindo uma mulher grávida de sete meses. Além disso, duas crianças, de quatro e cinco anos, foram levadas ao DOI-Codi para ver os pais depois de espancados.

“A família entrou com uma ação cível contra Brilhante Ustra em 2005 e ganhou”, relembrou Fernandes, citando sucessivas vitórias em diversas instâncias, incluindo a sentença em que o primeiro juiz a decidir sobre o caso declarou que o DOI-Codi era uma “casa de horrores” onde se praticavam “ilícitos absolutos” — trecho que se tornou o título do livro de Fernandes.

“Quando Bolsonaro homenageou Ustra [na votação do impeachment de Dilma Rousseff], ninguém lembrou que ele tinha sido declarado torturador em 2015”, apontou o pesquisador, que já integrou comissões da verdade da cidade de São Paulo, do estado e em nível federal. “Nem a esquerda lembrou, por isso achei que eu devia escrever esse livro”, disse. Ele ainda destacou que a obra compila registros oficiais produzidos “pelo próprio Estado documentando seus crimes”.

Memória coletiva

Vannuchi lembrou que, apesar da declaração contra Ustra, “nunca um torturador foi condenado no Brasil”. Não esquecer disso, nem dos crimes de agentes da ditadura contra os “desaparecidos”, não é um assunto de interesse somente das famílias das vítimas, enfatizaram os pesquisadores.

“Não é só assunto de família, e não pode ser um fardo somente para elas. Esses familiares têm consciência do caráter coletivo da sua luta”, disse Fernandes. “A memória é um direito social, direito do povo. Quem tenta privatizar essa luta são os conservadores, que tentam esconder essas histórias.”

“A luta por verdade, memória e justiça é uma luta de familiares e principalmente de mulheres”, ressaltou Vannuchi, citando que mães, esposas, filhas e irmãs dos torturados e mortos são as principais responsáveis pelo fato de a sociedade brasileira conhecer hoje os detalhes de muitos crimes do regime militar.

Pádua Fernandes

Ele falou ainda do alcance dos trágicos episódios dentro das famílias. “São diversos matizes de violências e violações, não só com aquelas pessoas que foram torturadas e mortas.” Como exemplo, contou que uma irmã de Alexandre Vannuchi Leme, ao descobrir aos nove ou dez anos a verdade sobre a morte do estudante, passou a ligar um pequeno rádio para conseguir dormir. O som incomodava a irmã que dividia o quarto com ela, então a mãe lhe pediu: “Tenha paciência com sua irmã, ela diz que ouve o radinho para não ouvir os gritos do seu irmão sendo torturado”, relatou Camilo Vannuchi.

“Essas histórias estão nos relatórios das comissões da verdade, mas quem lê esses relatórios?”, questionou o autor, indicando a motivação para continuar escrevendo sobre os crimes da ditadura. Sobre o tema, ele escreveu também Vala de Perus, uma biografia (Alameda Editorial, 2021), entre outros.

Para ampliar o alcance dessas histórias e, consequentemente, da memória coletiva sobre elas, Vannuchi transformou esse livro e Eu só disse meu nome em podcasts narrativos. “Quero que as pessoas de vinte anos de idade conheçam essas histórias. Eu só disse meu nome teve uma tiragem inicial de mil exemplares. No podcast, uma semana depois [de os episódios serem publicados], eram trinta mil downloads.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista e roteirista, traduziu As aventuras de uma garota negra em busca de Deus (Bissau Livros)