Flip,

O conflito de escolher a si mesma

Em entrevista, jovem escritora nigeriana fala como é difícil separar a própria felicidade das expectativas da família

12jul2019 - 04h51

Revelação da literatura contemporânea da Nigéria e convidada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, Ayobami Adebayo afirmou que, em seu país, “existe muita expectativa sobre o que fazer para ser considerado respeitável dentro da sociedade, para agradar aos seus pais. A gente cresce achando que tudo isso é muito importante, e pode ser difícil distinguir entre a sua felicidade e a das outras pessoas. Às vezes, elas não são a mesma e pode ser um conflito pessoal grande escolher a si mesmo. E, por vezes, romper esses laços pode ser a pior escolha a fazer”.

Em seu romance de estreia Fique comigo (Harper Collins), o casal Yejide e Akin é feliz não tendo filhos, no entanto, em meio à pressão do seu entorno social, os dois tentam conceber uma criança, trazendo uma série de problemas para o casamento.

Durante a Flip, Adebayo, que participa nesta sexta de uma mesa às 12h com a israelense Ayelet Gundar-Goshen, conversou com a Quatro Cinco Um e falou sobre anemia falciforme —uma das “personagens” do livro —, como a dor e o luto a impulsionaram a escrever o romance e como Chimamanda Ngozie Adichie abriu as portas para uma nova geração de escritores nigerianos.

O que está esperando da Flip? Quais as suas expectativas em relação à recepção do livro no Brasil? Fico pensando em que tipo de pergunta as pessoas vão fazer para mim, assim eu terei uma ideia de como as pessoas interagiram com o livro, que partes acharam importantes. Também estou interessada em saber o que posso aprender sobre as conexões entre Brasil e Nigéria. É a minha primeira vez no Brasil.

Quais suas primeiras impressões do país até agora? A paisagem é deslumbrante. Vim de carro do Rio ontem e fiquei olhando as montanhas saindo da água, é absolutamente lindo e de tirar o fôlego.

A anemia falciforme é uma parte importante do seu romance. No Brasil, temos um debate sobre racismo institucional em relação a essa doença, que atinge a maior parte da população de descendência africana, pois não recebe muitos investimentos para tratamentos e pesquisa. Como lidar com esse tipo de informação? Claro que essa doença afeta pessoas de descendência africana. Se olhar nos Estados Unidos ou no Reino Unido, países onde existe uma população negra que forma grupos minoritários, acho que só recentemente é que começou a receber alguma atenção institucional, ou ter algum entendimento e suas implicações dentro da comunidade médica. A questão é que tipo de doenças recebem investimentos em pesquisa, remédios e procedimentos que podem facilitar conviver com a doença ou ajudar pessoas a se curarem completamente.

Você quis escrever o romance para trazer alguma visibilidade à doença ou não necessariamente? Não como ponto principal, mas definitivamente era uma coisa que pensei enquanto escrevia. Acho que para muitas pessoas negras é um caminho para uma nova realidade. Ou você conhece uma ou várias pessoas que viveram essa doença, ou você carrega os genes e é algo que você precisa prestar atenção quando quiser casar com alguém e ter filhos. Definitivamente não vi muito sobre isso na literatura.

Em entrevistas, você já havia dito que carrega os genes da anemia falciforme e que revela essa informação ao encontrar um parceiro em potencial. Como você lida com a doença? As pessoas lidam de formas diferentes. Eu já falo na hora, é uma das primeiras perguntas que faço [a um parceiro em potencial], se acho que o relacionamento pode ficar sério. Quero saber o quanto antes, porque pode trazer implicações para as crianças que poderíamos ter juntos. Para outras pessoas pode ser mais difícil lidar com o tema de modo tão direto, mas como eu era próxima de muitas pessoas que conviveram com a doença, e a maioria delas já morreu – apenas duas ainda estão por aqui – e sei como é doloroso para elas. Mesmo sabendo que amam seus pais, às vezes pensam que seus eles poderiam ter sido mais cuidadosos. Então, para mim, é importante tirar isso do caminho.

Você acha que escreveu o livro para lidar com o que estava acontecendo? Sim, de um modo sim. Porque comecei a pensar no romance logo depois da morte de um dos meus amigos. Teve uma conexão direta entre compreender a dor que a família e os amigos estavam passando naquele momento e o início da escrita de um romance que trata do assunto.

Você planeja, então, ter filhos? Sim, acho que seria bom.

Seu romance é sobre um casal, Yejide e Akin, que tenta ter filhos, apesar dos dois serem felizes sem ter crianças próprias nas suas vidas. Você acha que é possível ter um casamento feliz sem ter filhos? Com certeza. Se é o que as duas pessoas querem, é possível. Se conseguir achar um jeito de convencer o mundo a deixá-los em paz (risos), para assim poder fazer o que quiser da sua vida.

Fique comigo também é sobre esse casal feliz tentando fazer todo mundo à volta deles feliz. Esse tipo de relação é muito forte na cultura nigeriana? E se alguém se rebelar? Culturalmente, existem muitas expectativas em relação aos indivíduos, especialmente entre pais e filhos. Há expectativas muito claras. Você cresce e vai fazer determinadas coisas. Isso está mudando um pouco, mas ainda existe muita expectativa sobre o que fazer para ser considerado respeitável dentro da sociedade, para agradar aos seus pais. A gente cresce achando que tudo isso é muito importante, e pode ser difícil distinguir entre a sua felicidade e a das outras pessoas. Às vezes, elas não são a mesma e pode ser um conflito pessoal grande escolher a si mesmo. E, por vezes, romper esses laços pode ser a pior escolha a fazer.

O conflito entre o tradicional e o contemporâneo na Nigéria está presente em todas as famílias, ou mais entre as elites, ou em determinadas partes do país? É diferente de uma família para outra. Há famílias que não têm conflito nenhum com relação aos temas que aparecem no romance. Acho que é algo mais universal, no sentido de que uma geração pensa que as coisas devem ser feitas de um determinado jeito, e a outra vem e diz o contrário. Isso causa tensão, e é um conflito geracional.

Antes de se tornar escritora, você trabalhava em um banco em Lagos, a maior cidade da Nigéria. De onde surgiu essa vontade de escrever e mudar de vida? Sim, parece que foi uma outra vida! Sempre escrevi enquanto trabalhava lá – na verdade, escrevia mais do que trabalhava. Era impossível! (risos) Era um trabalho com muitas tarefas, com uma longa jornada. Se eu conseguisse achar um jeito de trabalhar no banco e escrever, eu teria continuado lá. Mas logo ficou claro que não conseguiria terminar o romance mantendo um emprego, então o abandonei para fazer um mestrado em literatura.

Sua família aceitou o fato de você querer se tornar escritora ou a sua felicidade entrou em choque com a felicidade dos outros? Meus familiares aceitaram bem, na verdade. Alguns amigos da família que não aceitaram muito bem, mas agora eles mudaram de ideia (risos).

Você escreve em inglês. Há alguma razão para escrever nessa língua? É a língua do ensino na Nigéria. Então, quando você vai para a escola, tudo o que você lê é em inglês. Quando você pensa em escrever, naturalmente pensa em escrever em inglês. Eu também falo iorubá, uma língua que ficou mais associada com a língua falada que a escrita na minha geração.

Você acha que Chimamanda Ngozie Adichie abriu o caminho para novas escritoras nigerianas? Definitivamente ela causou um impacto. Só das pessoas considerarem uma escritora nigeriana, porque seus livros foram muito bem-sucedidos. Ela também começou a fazer um workshop de escrita em Lagos todo ano, praticamente, e muitas pessoas saíram desse workshop. Eu fiz parte disso no primeiro ano. Acho que tem uma ligação direta ao ter nutrido novas vozes no país.

Está pensando sobre um novo livro? Sim, estou pensando nisso. Só isso que posso dizer. Já tenho as personagens, vamos ver para onde eles vão me levar.

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).