Flip,

‘Fogueira libertária’, Pagu é a homenageada da próxima Flip

Atuação transgressora da escritora, poeta, tradutora, jornalista, militante política e feminista norteará a programação da festa literária que será realizada em novembro em Paraty

01jul2023 - 08h00 | Edição #71

Patricia Redher Galvão, a Pagu, é a homenageada da próxima edição da Flip, que será realizada de 22 a 26 de novembro em Paraty.

O nome da escritora, ativista, tradutora, poeta, jornalista e cartunista que atuou na arte e na política na primeira metade do século 20 foi anunciado na manhã de sexta, 30, enquanto o TSE julgava ação que declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos.

Embora coincidência, os dois anúncios se encaixam na visão da curadoria do evento sobre a escolha do nome. “Desejamos que a homenagem possa sinalizar para um espaço de esperança, indicar um Brasil que a gente quer construir”, disse à imprensa Fernanda Bastos que, neste ano, divide a curadoria com Milena Britto. As duas fizeram parte, ao lado de Pedro Meira Monteiro, do coletivo curatorial da festa literária de 2022.

Bastos enxerga a homenagem a Pagu como uma espécie de continuidade à escolha da homenageada no ano passado, Maria Firmina dos Santos: “São vidas dedicadas à palavra sem que isso signifique terem recebido em vida o reconhecimento e a legitimação. Isso continua sendo uma questão para nós”.

Com Pagu, é impossível separar a dedicação à palavra da atuação política, da militância feminista, das várias formas como ela expressou sua arte e suas ideias, de ensaios críticos e traduções a cartuns. “O corpo dela era uma linguagem”, diz Britto, que destacou o objetivo de chegar a Pagu pelo que ela escreveu – embora boa parte de seus escritos não sejam facilmente encontrados. Ela publicou os romances Parque Industrial (sob pseudônimo de Mara Lobo) e A famosa revista, contos policiais (reunidos em 1998 no livro Safra macabra, publicado pela José Olympio), além de poemas e traduções de autores como James Joyce, Eugene Ionesco e Paul Valery.

A vida-obra de Pagu, como chamou Augusto de Campos na biografia  que o poeta concreto escreveu em 1982, passa por colaboração em jornais, atuação no teatro, nas artes visuais, ativismo feminista, perseguição política e uma lista provavelmente maior de modos de atuar no mundo. Não à toa, Pagu dá nome a coletivos de mulheres, bloco de Carnaval e surge até em letra de música de Rita Lee. “Queremos trazer não a Pagu musa, mas a que representa essa paixão pela liberdade, uma fogueira que lança faísca para todo lado”, diz Britto, para quem a escolha da homenageada é também uma oportunidade de pensar a questão contemporânea sobre a possibilidade de separar vida e literatura, vida e arte.   

Para Mauro Munhoz, diretor-artístico da Flip, Pagu representa, de certa forma, a “complexidade polifônica” da Festa Literária de Paraty, para ele “uma experiência de como [o mundo] seria se as manifestações artísticas ocupassem o lugar que lhes é devido”.

A costura da programação da 21ª Flip será norteada por essa Pagu disruptiva e dissidente, segundo as curadoras, que, no entanto, não adiantaram nomes de convidados e mesas. Segundo Munhoz, os primeiros autores serão divulgados, um a um, entre final de julho e agosto. Entre setembro e o começo de outubro será apresentada a programação completa, época em que deve começar a venda ingressos para as mesas da tenda principal. 

Mil faces de Pagu

Jornalista, cronista, ensaísta, cartunista, militante comunista e pelos direitos da mulher, Patrícia Rehder Galvão, a “Pagu indignada no palanque” da música de Rita Lee e Zélia Duncan, também inseriu seus múltiplos talentos no universo literário como dramaturga, poeta, romancista e tradutora. Nascida numa família de descendentes de imigrantes portugueses e alemães de São João da Boa Vista, interior paulista, Pagu firmou suas primeiras raízes na capital enquanto morava no Brás, bairro operário da zona leste de São Paulo.

Próxima à classe trabalhadora e antes de virar “Pagu”, apelido criado pelo poeta Raul Bopp, Patrícia publicou seus primeiros versos e cartuns na Revista de Antropofagia quando ainda era normalista. Em 1933, já filiada ao Partido Comunista (PCB) e companheira de Oswald de Andrade, a musa do modernismo teve inspiração em suas experiências com o proletariado e lançou a novela Parque industrial: romance proletário, sob o pseudônimo de Mara Lobo. 

O próximo título saiu em 1940, após uma de suas passagens pelo cárcere — 23 no total —, sob a alcunha de Pagu: autobiografia precoce, em que contava a própria história, o ativismo feminista e a militância comunista para o seu companheiro Geraldo Ferraz, com quem publicou A Famosa Revista. Sob outro pseudônimo, o de King Shelter, escrevia contos policiais para a revista pulp Detective, que mais tarde foram compilados no livro Safra Macabra.

Morando na capital francesa, Pagu morreu em 1962, em decorrência de um câncer de pulmão. 

(Jaqueline Silva colaborou na apuração desta matéria.)

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.