Flip,

Bendegó, Burundi, Brumadinho

Flip de Euclides da Cunha cartografa Canudos presentes e passados

15maio2019 - 12h15

No Google Earth analógico do sertão baiano que é "A Terra", o primeiro terço da obra magna de Euclides de Cunha, o homenageado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty, o riacho Bendegó surge numa referência extraterrena: "Martius por lá passou, com a mira essencial de observar o aerólito que tombara à margem do Bendegó e era já, desde 1810, conhecido nas academias europeias, graças a F. Mornay e Wollaston".

Aerólito, meteorito, pedra. Os nomes dados para esse composto de cinco toneladas de ferro, níquel e cobalto variam, mas o aposto geográfico é sempre o mesmo. Esse meteorito sempre vai ser do Bendegó, mesmo que ele seja um corpo desprendido de outro planeta ou tenha passado 130 anos no Rio de Janeiro.


Aparecida Vilaça 

E, numa Flip em que as vinte mesas de debates foram batizadas com nomes de paragens de Os sertões, não poderia ser outro o título da mesa da antropóloga Aparecida Vilaça, autora de Paletó e eu (Todavia), livro sobre a relação filial que nutriu com um pajé Wari e cuja produção é indissociável do Museu Nacional, instituição vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde Vilaça dá aulas, e que sofreu um incêndio que destruiu quase todo o seu acervo em 2018 — ao qual o meteorito resistiu bravamente. 

Nesta quarta-feira (15), a organização da Flip anunciou, em entrevista coletiva na Pinacoteca, no centro de São Paulo, a programação completa do evento, que vai tomar as ruas de Paraty de 10 a 14 de julho. “A Flip funciona como um dispositivo de intervenção na cidade, de ativação de trocas entre as pessoas durante os cinco dias de festa”, diz Mauro Munhoz, diretor geral e artístico do evento.


Jarid Arraes

De dez nacionalidades diferentes, os 33 autores selecionados pela Flip variam de romancistas a cientistas, da cordelista cearense Jarid Arraes, 28, à fotógrafa inglesa radicada no Brasil Maureen Bisilliat, 88. 

A julgar pelo cardápio, virou contrato a carta de intenções proposta pela curadora Fernanda Diamant ao anunciar a escolha de Euclides da Cunha como o autor homenageado da festa, em novembro do ano passado. "Quero debate político a partir da literatura", ela disse na ocasião. 

Fruto do trabalho do escritor como correspondente do Estado de S. Paulo na Guerra de Canudos (1896-97), na Bahia, onde cobriu a rebelião de sertanejos liderada pelo religioso Antônio Conselheiro e massacrada pelo governo federal, Os sertões é um documento histórico que relata uma chacina chancelada oficialmente contra uma minoria. 

Algo que poderia dialogar com a conjuntura atual, na opinião do professor da Universidade de São Paulo Guilherme Wisnik, que compõe uma mesa sobre arquitetura e canção com o crítico português Nuno Grande, da Universidade de Coimbra, e a cantora Adriana Calcanhotto — autora de uma das composições da célebre montagem o Teatro Oficina fez de Os sertões no início dos anos 2000.

"Talvez Canudos possa servir como uma metáfora interessante do que estamos passando, uma guerra covarde num momento de opressão e violência", diz Wisnik, que foi curador da exposição "Infinito Vão – 90 anos de Arquitetura Brasileira", em cartaz em Portugal até abril.

E Calcanhotto não é a única colaboradora da peça teatral a participar da Flip. José Celso Martinez Corrêa, diretor do Oficina, participará da mesa Vaza-Barris com o líder indígena Ailton Krenak no terceiro dia da Flip (12/7). "O Zé Celso faz um teatro milenar, inspirado no teatro grego, e o Krenak defende uma cultura milenar. São duas formas de expressão em perigo", diz Diamant, que enxerga vários pontos de uma aproximação — a princípio despercebida — entre os dois convidados. 

A curadora lembra de um discurso performático de Krenak na Assembleia Nacional Constituinte em 1987, em que ele pintava o rosto com tinta preta de jenipapo à medida que seu protesto contra o desmonte dos direitos indígenas subia de tom. "E fora isso tem também o papel dos dois como defensores de seus espaços geográficos: o Zé que resiste com o Oficina [o teatro é ameaçado pela intenção do Grupo Silvio Santos de construir prédios de até cem metros de altura na região] e o Krenak na luta pelas demarcações de reservas indígenas."

A resistência também é tema de Cumbe, outra mesa do dia 12. Nela o quadrinista Marcelo D'Salete, autor de livro homônimo e em cuja obra é recorrente a luta de negros escravizados no Brasil Colônia e Império, debate com Marcela Cananéa, líder estadual da Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras. Por Cumbe (Veneta), D'Salete venceu o Eisner, o maior prêmio de quadrinhos do mundo.

Uauá, Quirinquaquá

Como de praxe, a Flip terá sua sessão de abertura numa quarta-feira neste ano, 10 de julho, com a mesa que receberá a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, uma das principais especialistas no cânone euclidiano e organizadora da recente edição crítica de Os sertões lançada pela Ubu. Para a festa, a editora Cepe promete a reedição de No calor da hora —  A Guerra de Canudos nos jornais, tese de livre-docência de Galvão, originalmente publicada em 1973. 

Na quinta-feira (11/7), o dia começa com Aparecida Vilaça — sob a mediação de Paulo Roberto Pires, colunista da Quatro Cinco Um — e segue com Uauá, a mesa de Guilherme Wisnik, Nuno Grande e Adriana Calcanhotto. Depois disso, o músico e crítico literário José Miguel Wisnik apresenta seu Maquinação do mundo — Drummond e a mineração (Companhia das Letras), que trata da relação entre a poesia drummondiana com a devastação causada pela mineração em sua cidade natal, Itabira (MG).

Na sequência, Bom Conselho, uma mesa que reúne duas escritoras cuja obra é marcada por anseios contemporâneos muito próprios às mulheres. Uma é a americana Kristen Roupenian, alçada à condição de sucesso editorial após a publicação do conto "Cat Person" na revista The New Yorker em 2017 — nele, a protagonista se vê às voltas com as confusões em torno de papéis de gênero num relacionamento contemporâneo. A outra é a canadense Sheila Heti, autora de Maternidade, lançado no Brasil em 2018 pela Companhia das Letras (mesma editora da coletânea de Roupenian). 

Maureen Bisilliat, radicada no Brasil desde os anos 1950, será a convidada de Serra Grande, que versará sobre fotografia. A inglesa, que se notabilizou por livros com textos dos grandes nomes da literatura brasileira — Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Mário de Andrade e João Cabral de Melo Neto —, relança seu Sertões: Luz & Trevas (IMS), que conta com excertos de Os sertões.

Completando o card estrangeiro de quinta-feira, os trabalhos fecham com Quirinquaquá, sonoro epíteto da conversa entre dois músicos-escritores: o rapper Gael Faye, do Burundi, que publica por aqui Meu pequeno país (Rádio Londres) e o angolano Kalaf Epalanga, um dos precursores do kuduro na cena mundial. 

Política na veia

A sexta-feira (12/7) promete ser o dia em que a política ganhará de vez os palcos da Flip. Além do encontro entre Krenak e Zé Celso e da mesa que reunirá D'Salete e Cananéa, o profícuo historiador José Murilo de Carvalho, 79, que no final do ano passado publicou O pecado original da república (Bazar do Tempo) e que levará à Flip dois novos títulos (Jovita Alves Feitosa: Voluntária da pátria, voluntária da morte, pela nova editora Chão, e Forças Armadas e política no Brasil, em reedição da Todavia), será a estrela da mesa Troia de Taipa – apelido que Euclides da Cunha deu ao enclave de Canudos. 

Miguel Del Castillo, mediador da mesa de Bisilliat no dia anterior, volta à cena para uma conversa com a venezuelana Karina Sainz Borgo, autora de Noite em Caracas, a ser editado pela editora Intrínseca no meio do ano — um livro em torno do qual já se instalou certo burburinho na imprensa brasileira, dada a crise no país vizinho.


Miguel Del Castillo

"Vai ser difícil fugir do tom político, ainda mais em meio a tantos ataques à educação, mas ao mesmo tempo vamos ter grandes ficcionistas tratando de literatura", pondera Del Castillo, cujo conto "Violeta", presente na coletânea Restinga (Companhia das Letras), trata de um drama familiar que tem como pano de fundo a ditadura uruguaia. Indicado pela revista Granta em 2012 como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros após a boa repercussão do seu livro de estreia, Del Castillo tem um romance no prelo — Cancún, um desdobramento de um dos contos de Restinga.

"É um romance de formação, que transita entre a pré-adolescência e a idade adulta de um protagonista cujo pai some por quatro anos", diz o autor, que também trata no livro de questões da Igreja Evangélica e de aspectos de um Rio muito próximo à cidade mexicana que dá nome à obra. "É a Barra da Tijuca, os condomínios fechados que a tornam quase uma Cancún metropolitana. Mas ao mesmo tempo que retrato certos exageros de uma classe emergente, a ideia é enxergar que um lugar assim pode conter afetos, memórias, lembranças". 

Também na sexta-feira, as escritoras Ayelet Gundar-Goshen, israelense, e Ayobami Adebayo, nigeriana discípula de Chimamanda Ngozi Adichie e Margaret Atwood, se reúnem para discutir suas obras: a primeira teve Uma noite, Markovitch publicado pela Todavia e a segunda estreou no Brasil com Fique comigo (Harper Collins). Os livros discutem patriarcalismo e casamento em épocas turbulentas — a Segunda Guerra Mundial, no caso de Gundar-Goshen, e os golpes de Estado no país de Adebayo nos anos 1980. 

Por fim, a portuguesa Grada Kilomba surge como um complemento à destacada participação da compatriota Isabela Figueiredo na Flip de 2018. Se Cadernos de memórias coloniais (Todavia), de Figueiredo, é um testemunho comovente, do ponto de vista de uma branca, da perversa dominação europeia nos estertores do Moçambique colonial, em Memórias da plantação (que ga Cobogó lança em Paraty), fruto de um doutorado em filosofia, a convidada da edição de 2018 aprofunda a teoria de intelectuais negros como Philomena Essed, Frantz Fanon e bell hooks para tentar compreender o racismo contemporâneo. Kilomba, que também é artista plástica, terá uma exposição individual na Pinacoteca do Estado de São Paulo a partir de julho. 

Novos formatos

Ao contrário das últimas edições, a Flip de 2019 apostará em formatos mais curtos — em vez de 75 minutos, algumas mesas terão 45 — e em conversas individuais, apenas entre o mediador e o escritor. 

"A Flip vai completar dezessete anos e a ideia é fazer uma releitura, uma renovação, como acontece com jornais e seus projetos gráficos", diz Diamant, viúva de Otavio Frias Filho (1957-2018), diretor de redação da Folha de S.Paulo. "Desde então surgiram formatos como o TED [organização americana que oferece palestras gratuitas na internet], redes sociais. A ideia é fazer uma coisa um pouco mais dinâmica, variar entre conferências, conversas, performances, apresentações."

Esses modelos serão observados, por exemplo, em duas mesas individuais mais curtas no sábado (13/7), com a escritora pernambucana Marilene Felinto e o neurocientista americano Stuart Firestein. Também no quarto dia da Flip, que usualmente é o que registra maior público, a atriz e dramaturga mineira Grace Passô, fundadora da companhia Espanca!, falará sobre sua obra e terá uma conversa poética com José Miguel Wisnik. 

Ainda no campo das artes dramáticas, a mesa Monte Santo põe o cinema em foco, com o crítico Ismail Xavier, que relança em Paraty a coletânea de ensaios Sertão Mar pela Editora 34, e o cineasta português Miguel Gomes, que vai adaptar Os sertões para as telas. “A obra do Euclides da Cunha é muito presente no cinema brasileiro, não só nos filmes do Glauber Rocha, mas também em diretores menos conhecidos, como Arthur Omar”, comenta Xavier. 

Duas autoras jovens, Carmen Maria Machado, 32 e Jarid Arraes, 28, debaterão questões de gênero, cultura pop, violência, sexismo, misoginia. Em pauta, um interessante diálogo — com muito mais pontos em comum do que uma leitura superficial poderia sugerir — entre as referências hiper-urbanas da Costa Leste americana e a modernidade do Cariri cearense.  “É uma oportunidade de mostrar como a literatura de cordel que proponho rompe expectativas e qualquer caixa”, diz Arraes, que é conhecida por obras como Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis e As lendas de Dandara. “Já participei de uma coletânea de ficção científica (com cordel), meu primeiro livro é de fantasia (embora híbrido com uma proposta de resgate de uma figura real histórica), sou bissexual e tenho personagens bissexuais no meu novo livro”, completa, referindo-se à coletânea de contos Redemoinho em dia quente, que será lançado pelo selo Alfaguara, da Companhia das Letras. 

O sábado fecha com a mesa Cocorobó, que rememora o açude que transbordou e literalmente fez o sertão virar mar, materializando a frase atribuída a Antônio Conselheiro. Dela participarão dois jornalistas marcados pela pauta ambiental: o americano David Wallace-Wells, que terá seu Terra inabitável lançado pela Companhia das Letras — um diagnóstico pessimista sobre o cataclisma climático que prevê fome, metrópoles submersas, escassez de alimento e violência pandêmica num futuro muito mais próximo do que se imagina — e Cristina Serra, que no final do ano passado publicou pela Record Tragédia em Mariana, livro-reportagem sobre a cobertura que a jornalista fez do primeiro desastre provocado pela Vale e macabramente presciente do que estaria por vir — dois meses depois da noite de autógrafos, estourou a barragem da Brumadinho.

"Temos muito o que conversar. Embora o tema dele seja de alcance planetário e o meu diga respeito ao modelo brasileiro de mineração, ambos falamos da atividade econômica exercida em escala predatória" diz Serra, que em 2015 era repórter da TV Globo. 

No domingo (14/7), encerramento da festa, a mesa Santo Antônio da Glória põe uma lupa sobre a literatura fantástica, com o escritor e compositor paraibano Braulio Tavares, que foi letrista de Chico Science e em janeiro lançou Fanfic, pela Patuá, e a romancista argentina Mariana Enríquez, que vem ao Brasil com Este é o mar, publicado pela Intrínseca. 

E, finalizando a 17ª edição da Flip, a tradicional mesa Livro de Cabeceira, durante a qual alguns dos convidados se reúnem para ler trechos de suas obras preferidas. Neste ano, o navegador e best-seller Amyr Klink terá participação especial. 

"Da mesma forma que o Euclides vai Brasil adentro até a Amazônia no final da vida, o Amyr tem esse desejo de ir para o desconhecido. Acho legal encerrar a Flip com um explorador", diz a curadora. 

Mais do que legal, pode ser útil: se as previsões de Wallace-Wells se confirmarem, talvez seja o caso de pegar carona de meteorito para um Bendegó a anos-luz daqui. 
 

Quem escreveu esse texto

Antonio Mammi

É editor do Nexo Jornal.