Filosofia,

“É preciso mudar a história da filosofia”, diz filósofo senegalês

Souleymane Bachir Diagne ainda explicou que ser negro vai além da cor da pele

22ago2019 - 05h20

“É preciso mudar a história que se conta, de que a filosofia é algo exclusivamente europeu. Isso simplesmente não é verdadeiro. A bibliografia sobre o tema costuma dizer que a filosofia nasceu na Grécia, a partir de um ‘milagre’, não foi precedido por nada”, disse o filósofo senegalês Souleymane Bachir Diagne à Quatro Cinco Um, em entrevista em São Paulo, no início desta semana. Diagne veio à cidade para o lançamento de seu livro Bergson pós-colonial: o elã vital no pensamento de Léopold Sédar Senghor e Muhammad Iqbal, pela Cultura e Barbárie. A editora promoveu um debate sobre a filosofia africana contemporânea em parceria com a N-1 Edições e o centro cultural Tapera Taperá, no centro de São Paulo, na segunda (19).

Na visão de Diagne, a filosofia consiste no diálogo, não pertencendo a uma única geografia ou uma única história, pois ela dialoga com a humanidade inteira, em todas as línguas. Deve-se, portanto, retomar essa configuração para aplicá-la no mundo atual que se encontra cada vez mais fragmentado. Assim, defende a proposição de que a humanidade precisa recuperar a ideia do universal “verdadeiramente universal”, “não um ocidentalismo disfarçado de universalismo”, integrando uma pluralidade maior ao conceito.

Professor de filosofia e de francês da Universidade Columbia, em Nova York, Diagne tem uma produção eclética, que vai de tradições filosóficas africanas e islâmicas até a lógica e a matemática. O livro Bergson pós-colonial é a primeira obra de sua autoria traduzida no Brasil. Nesse livro, Diagne mostra como a filosofia não tem fronteiras através do pensamento do francês Henri Bergson (1859-1941), que influenciou os movimentos de descolonização do século 20 a partir da sua apropriação por Muhammad Iqbal (1877-1938) – escritor e político muçulmano que lutou pela independência da Índia do império britânico e hoje é considerado o “pai espiritual do Paquistão” – e Léopold Sédar Senghor (1906-2001) – o primeiro presidente do Senegal independente e um dos fundadores do movimento negritude dos anos 1930, juntamente com Aimé Cesaire (1913-2008) e Léon Damas (1912-78), que pregou a revalorização da cultura africana.

Ao longo do debate, Diagne contou como se aproximou do pensamento de Bergson, Iqbal e Senghor e afirmou que “não é preciso ter a pele negra para ser negro”. Para explicar essa ideia, comentou como o pensamento de Senghor calcou-se em Bergson, Charles Baudelaire (1821-67), Paul Claudel (1869-1955) e o poeta Arthur Rimbaud (1854-91), que escreveu “eu sou um negro” (je suis un nègre), em Uma temporada no inferno, de 1873. Aqui, Rimbaud seguiria o que Gilles Deleuze (1925-95) chama de “linha de fuga”, constituindo-se ser negro como uma saída ao positivismo e ao triunfo da razão mecanicista e dualista, ao revalorizar o intuitivo e do conhecimento vital do mundo, bases do movimento negritude. “É a filosofia de ruptura radical com o mecanicismo reinante até então do ‘estúpido século 19’”, declarou, aproximando essa explicação ao conceito de “devir-negro do mundo” de Achille Mbembe (1957-). Nesse sentido, Diagne vê Bergson como “negro”.

Na sua leitura, Bergson descoloniza e libera o tempo dessa razão analítica, esse tempo fixo e serial, análogo a uma operação matemática. Ao dizer que tempo é duração, Bergson teria recuperado a experiência do filósofo pré-socrático Heráclito (conhecido pela máxima “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”) da realidade como movimento. Seguindo essa linha, Diagne conclui com uma citação do filósofo camaronês Engelbert Mveng (1930): “Nós produzimos o tempo de que precisamos”.

O professor senegalês também falou sobre como a filosofia de Senghor é uma “filosofia da dança”, como é difícil combater o racismo estrutural e que “a força de viver e de amar é uma forma de resistência”. Em seguida, conversou com a revista sobre a importância da filosofia para o mundo atual.

A visita do filósofo ao Brasil foi realizada com o apoio do Estágio Intensivo Master Mundus Europhilosophie/Unilab, uma cooperação entre o programa master mundus Europhilosophie e o grupo de pesquisa Geofilosofia e Performances do Pensamento da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), e com apoio da Embaixada da França e Aliança Francesa de Salvador.

É a primeira vez que o senhor vem ao Brasil? Sim, está sendo extraordinário. Foi uma grande descoberta. Fui a Salvador, depois a São Paulo, e existe um grande contraste entre os dois lugares.

Qual a importância de ter sua obra traduzida no Brasil? Vejo como uma boa porta de entrada para o Brasil, pois nesse livro trabalho com um filósofo europeu, então há muitos bons especialistas aqui no Brasil, e mostro como a filosofia desse europeu teve importância no mundo colonial, no mundo africano e no mundo muçulmano. Para mim, esse é o encontro ideal: de uma filosofia profundamente europeia com o movimento de emancipação anticolonial e decolonial, possibilitando minha vinda ao Brasil.

O que o senhor pensa quando se diz que a filosofia é uma disciplina ocidental e que, por isso, não é possível fazer uma filosofia africana? Devemos descolonizar a história da filosofia. É preciso mudar a história que se conta, de que a filosofia é algo exclusivamente europeu. Isso simplesmente não é verdadeiro. A bibliografia sobre o tema costuma dizer que a filosofia nasceu na Grécia, de um “milagre”. Um “milagre” por definição, que não foi precedido por nada. Daí, essa filosofia seguiria pela Antiguidade europeia, pelo mundo medieval europeu, pelo mundo moderno europeu e pelo mundo contemporâneo europeu. Como se em outros lugares, como no mundo muçulmano, não se pensasse em filosofia. Isso é falso. Mesmo se compreendermos somente a filosofia grega, ela não passou simplesmente da Grécia para o mundo europeu. Ela adentrou também o mundo muçulmano. Foi apropriada e desenvolvida pelo mundo muçulmano, que traduziu a filosofia grega, que fez reflexões na língua árabe, e esse mundo muçulmano chegou até a África. Em Timbuktu [atualmente no Mali, que foi um dos principais centros do pensamento islâmico], estudou-se Aristóteles e os outros filósofos do mundo grego. Portanto, a história da filosofia é uma história profundamente humana. Hoje, é o momento de chegar a essa visão. Compreendo que a filosofia é diálogo, que não fica confinada a uma única geografia ou a uma única história. Ela dialoga com a humanidade inteira, em todas as línguas. Devemos retomar essa configuração mais exata da filosofia no mundo em que vivemos, que está cada vez mais fragmentado.

É essa, então, a importância da filosofia na atualidade? Exatamente. É a importância da filosofia do encontro, da filosofia da tradução, porque o mundo em que vivemos demanda isso.

Em Bergson pós-colonial, o senhor destaca o caráter da espiritualidade na filosofia. Não se deve considerar que a filosofia seja um discurso que descarta a espiritualidade. Por exemplo, a importância de Bergson mostra a sua fé na figura do místico, que é a figura da espiritualidade por excelência. É preciso abrir as abordagens e considerar filosoficamente a espiritualidade. Isso é uma coisa muito importante a ser feita.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).