Festival literário,

Desfazer o pacto com a morte

Sexta edição da Festa Literária Internacional da Mantiqueira instigou escritores a imaginarem novos futuros

26out2023 - 11h49 | Edição #74

O planeta vive um momento com prognósticos muito ruins para todas as espécies e a nossa permanência por mais tempo depende de uma mudança radical de curso, por meio do resgate de nossa ancestralidade. Para o neurocientista e escritor Sidarta Ribeiro, conflitos atualmente em curso, como na Ucrânia e em Gaza, mostram que estamos cada vez mais distantes desses ensinamentos.

“Temos de desfazer o pacto com a morte, que é o pacto patriarcal, racista, homofóbico e transfóbico. Para isso, é necessária uma edição na nossa ancestralidade. A boa notícia é que temos muitas e é aí que somamos o amor na jogada, que é tão antigo e ancestral quanto a guerra da morte com a morte, que não sobra ninguém”, disse Sidarta para um auditório lotado, na tarde de 13 de outubro, durante a Flima, a Festa Literária Internacional da Mantiqueira.

“Sonhar, imaginar, transformar”, tema da sexta edição do evento em Santo Antônio do Pinhal, cidade a 170 quilômetros de São Paulo, ganhou destaque na mesa Oráculos Ancestrais, que recebeu o neurocientista e Marcelo Leite, jornalista de ciência e ambiente na Folha de S.Paulo, para falar sobre sonhos, psicodélicos e cosmovisões ancestrais.

Sidarta Ribeiro e Marcelo Leite em sessão de autógrafos [Leonardo Matos/Divulgação]

De acordo com o neurocientista, há sinais do cuidado humano no Paleolítico: há 40 mil anos, seres humanos conseguiam ajudar alguém que tinha quebrado a perna a sobreviver. “Não há outro animal que consiga fazer isso. Isso não é uma tradição a ser honrada? Não é daí que podemos buscar saídas e sobrevivência?”, disse.

Os dois defenderam que, além do resgate à ancestralidade, deve haver uma espécie de “curadoria” das tradições: “Se entendermos que tradições foram construídas no conflito de classe, raça, gênero, uso da terra, do território, e migração, perceberemos que as tradições na verdade são uma fotografia da história dos vencedores”, explica Sidarta. “A violência e a competição são tradições humanas milenares, mas não significa que devemos mantê-las pelos próximos anos e séculos.”

Ciência psicodélica

Autor de Psiconautas: Viagens com a ciência psicodélica brasileira (Fósforo, 2021), o jornalista Marcelo Leite contou que a sucessão de dados e notícias ruins por vezes o deixaram mais pessimista. Com o renascimento da pesquisa sobre substâncias psicoativas e psicodélicas e o interesse da juventude sobre decisões que afetam o planeta, algo mudou.

“Antes eu era excessivamente racional, seguia uma frase que diz que ‘confiança é bom, mas controle é melhor’. De seis anos para cá, pautar a ciência psicodélica me tornou mais próximo à experiência do outro e da alteridade. Atualmente, o lema é: ‘controle é bom, mas confiança é melhor’. Eu confio nos jovens e em cientistas como o Sidarta”, disse Leite.

A luta pela descriminalização de substâncias psicoativas e das “plantas professoras”, que têm o uso baseado nas práticas dos povos originários, também faz parte da busca por esse futuro ancestral, na visão dos dois convidados. Ribeiro, que lança As flores do bem (Fósforo) em novembro, sobre a história do uso da maconha no mundo, diz ver frestas de luz que apontam para a existência de um futuro real — embora não fácil. “Há uma articulação global para deter destruições. Isso tem poucas décadas, mas tem mais poder do que jamais teve”, disse. “Enquanto essas lutas não estiverem vencidas, dá para inverter até o final. A gente não tem muito tempo, mas meu otimismo apocalíptico diz que a gente é um bicho danado e o futuro é tangível.”

Violência e religião

Diálogos Ancestrais, título da mesa de abertura, reuniu os escritores Aline Rochedo Pachamama e Adilson Zambaldi, com mediação do curador Roberto Guimarães. Autora de Boacé Uchô (Pachamama, 2023), Rochedo falou sobre a realidade do povo puri da Mantiqueira antes da chegada do homem branco à serra, o apagamento da comunidade e a importância da oralidade para a existência indígena. Já Zambaldi, autor de Tronco de canoa (Reformatório, 2023), falou sobre os estereótipos em relação ao caiçara e de sua experiência de compilar descobertas sobre mais de cem comunidades caiçaras de Ubatuba.

A escritora Aline Pachamama em apresentação musical de canção do povo puri, o escritor Adilson Zambaldi e o curador da Flima, Roberto Guimarães [Leonardo Matos/Divulgação]

No terceiro dia da Flima, a mesa “Para além do crime” debateu “Fato e ficção no Brasil do século 21”, com Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, e o antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor de Elite da tropa (Objetiva, 2006).

Autor do recém-lançado A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século 21 (Todavia), que examina a diminuição da violência nas periferias pela ação conjunta do crime organizado e igrejas evangélicas, Paes Manso falou sobre a mudança de pensamento e de atitude dos matadores no Brasil, depois da conversão ao pentecostalismo.

“Durante o processo de urbanização do país, entre as décadas de 50 e 80, das áreas rurais para os centros urbanos, a fé começou a ser utilizada como autoridade e justificativa para um controle de uma ‘guerra contra o mal’. Em uma lógica de organização de mercado, o crime começou a banir pensamentos e atitudes consideradas ‘atrasadas’ ou ‘rurais’ a fim de formar um pensamento atual, novo”, relatou o jornalista.

O jornalista Bruno Paes Manso, Roberto Guimarães e o cientista político Luiz Eduardo Soares na mesa ‘Para além do crime’ [Silvinha Amelia/Divulgação]

Soares apontou o período analisado por Paes Manso como o de maior transformação do Brasil, tema também do seu romance Enquanto anoitece (Todavia, 2023), que explora o processo de urbanização do Brasil de 1955 a 2005 a partir da violência da ditadura e uma rendição pela vida familiar. 

“Essa conversão às religiões após uma vida violenta também trouxe fantasmas ao controle, utilizando a imagem da família e dos bons costumes. É parte do que levou o governo Bolsonaro à personificação de uma ‘ordem’, não de segurança, mas da ideia de ‘macho’ perante políticas de identidade, como o direito das mulheres e comunidade LGBTQIA+”, disse o antropólogo.

Homenagem a Krenak

Desde a primeira edição, em 2018, a ideia da Flima é pensar de “dentro para fora”, diz Roberto Guimarães, jornalista e idealizador do evento. “Nosso desejo é reunir quem mora na Serra da Mantiqueira e tem essa ligação com o território, fazendo-os ter um panorama sobre os mais diversos debates e olhares para o mundo.”

“O tema ‘sonhar, imaginar, transformar’, inspirado no homenageado desta edição, o escritor e ativista Ailton Krenak, mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras, nasceu como um respiro após uma longa asfixia que todos sentimos na pele: o conjunto emergência climática, pandemia, ascensão da extrema direita e bolsonarismo”, conta o curador da Festa.

“Já era hora de voltar a sonhar possibilidades de futuro, e as cosmovisões dos povos originários, junto ao pensamento do Krenak e ao otimismo apocalíptico do Sidarta, nos deu essa ideia poderosa”, complementa.

Com mais de cem atividades gratuitas, numa programação que contemplou adultos e o público infantojuvenil concomitantemente, o evento trouxe onze mesas literárias, além de lançamentos de livros, exibição teatral e a mostra de filmes audiovisual indígena Narrativas Originárias, Imagens e Oralidade: cinemas de autoria indígena.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.