Arte, Bibliotecas,

Artista constrói cidade com livros de biblioteca

Instalação celebra a reabertura de acervo da Casa do Povo, no Bom Retiro

06jul2019 - 13h58

Diversos volumes de Finnegan's Wake, de James Joyce, formam a esquina da rua José Paulino com a Silva Pinto. Um exemplar raríssimo do ativista político russo Piotr Kroptokin, em ídiche, está escondido na rua da Graça. Pelas ruas do Bom Retiro estão também os franceses — Dumas, Flaubert, Zola, Victor Hugo. Trata-se da instalação Voz Ativa: Biblioteca Social, na Casa do Povo, em que mais de 8 mil livros dispostos no chão reproduzem o traçado do bairro paulistano onde o centro cultural está situado desde 1947. De autoria da artista e editora Mariana Lanari, a mostra abre neste sábado (6) e segue até o dia 27 de julho (saiba mais aqui). 

Baseada em Amsterdam, Lanari pesquisa as interações entre políticas de acesso ao conhecimento e infraestruturas de memória coletiva em arquivos e bibliotecas físicas e digitais. Com a instalação na Casa do Povo, num espaço expositivo de 500m2, ela celebra a recente reativação da biblioteca, que permaneceu fechada pelos últimos 40 anos. 

“Os livros que formam a biblioteca vieram, em sua maioria, de coleções de moradores do bairro. O mapa funciona como um grid para uma primeira divisão dos livros em blocos, uma forma de iniciar uma investigação sobre a origem destas obras, as histórias que contam e como eles conectam”, conta.


A artista Marina Lanari na montagem da instalação Voz Ativa: Biblioteca Social [Divulgação/ Carol Quintanilha]

Formado em boa parte por coleções de imigrantes que vieram para o Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial nos anos 40, o acervo conta com títulos em português, ídiche, alemão, francês, russo e espanhol, de temas ligados a cultura de resistência, economia, política, movimentos sociais, vanguardas pedagógicas, literatura universal, arte e cultura judaica.

Na instalação, o público é convidado a transitar pelo espaço e participar de uma performance sonora. Numa ação diária, um sistema de som, com microfones distribuídos pelo espaço, permite que qualquer um leia trechos de livros. Essas leituras são mixadas ao vivo e reproduzidas no espaço. 

“Os microfones são também uma metáfora dos conceitos do trabalho: as vozes da biblioteca, as vozes dos livros e a necessidade da coexistência e interação de múltiplas vozes”, diz a artista. “Ao incluir o leitor e a leitura na organização do acervo e do banco de dados, o nosso objetivo é que a biblioteca se torne uma máquina de leitura que, uma vez em movimento, não pare mais.”

Os visitantes podem também interferir na instalação, movendo os livros a seu critério. O conceito evoca a “lei da boa vizinhança”, do historiador de arte alemão Aby Warburg, que não ordenava seus livros segundo critérios alfabéticos ou aritméticos, mas de acordo com um critério pessoal e subjetivo de proximidade entre temas. 


O público é convidado a participar de uma performance sonora [Divulgação/ Carol Quintanilha]

“Diferentemente do que acontece quando há categorizações fixas, as relações podem e devem variar constantemente. Como num rizoma, o que importa é colocar os livros todos em relação e em movimento, e que essas relações sejam determinadas pelo conteúdo e pela leitura, e continuem variando”, explica Lanari, que, entre 2015 e 2016, fez uma performance no Stedelijk Museum, o maior museu de arte moderna da Holanda, na qual reagrupou os mais de 190 mil livros da biblioteca.

Para a artista, o sistema atual de catalogação das bibliotecas está perdendo o sentido, e se beneficiaria com um melhor uso da tecnologia. “Hoje temos tecnologia suficiente para melhorar o acesso à informação e permitir uma interatividade muito maior do leitor. Queremos repensar o sistema para privilegiar o uso e a produção de novos conhecimentos, e com isso ressignificar o papel das bibliotecas”, conclui, defendendo o movimento constante, livre, fluido e imprevisível dos livros — e do saber.

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).