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Sérgio Vaz: ‘A poesia é o que alimenta nossa liberdade’

Poeta conversou sobre literatura, periferia e declamou sua gratidão por Carolina Maria de Jesus e ‘Dom Quixote’

07jul2024 - 13h24 • 10jul2024 - 11h08
(Filipe Redondo)

O poeta Sérgio Vaz agitou o Palco da Praça no sábado (6) com a mesa “Flores da batalha”, nome de seu último lançamento. Um dos convidados mais aguardados do dia, ele falou sobre a alcunha de “escritor marginal”, explicou a pausa do sarau periférico Cooperifa e declamou poemas na conversa com a assistente social, mediadora de leitura e professora Camilla Dias. 

Com nove livros publicados, entre eles Flores da batalha (2023), Subindo a ladeira mora a noite (1988), A margem do vento (1991), Pensamentos vadios (1994), A poesia dos deuses inferiores (2005) e Cooperifa: antropologia periférica (2008), todos pela Global Editora, Vaz é hoje um dos expoentes da cena literária da cidade de São Paulo.

Quando pequeno, porém, era considerado um jovem “esquisito” por gostar de livros, como se tivesse um “defeito de fabricação”, contou. Na década de 70, os jovens de Taboão da Serra, cidade na Grande São Paulo onde cresceu, não entendiam por que aquele menino andava com livros na rua e até nos campos de várzea durante as partidas de futebol. 

“Eu queria ser jogador de futebol e tinha vergonha de gostar de ler. Naquela época, sem ter muita noção, achava poesia coisa de gente fresca. Eu curtia mesmo eram os bailes black no centro de São Paulo. Mas, incentivado pelo meu pai, que sempre comprou livros usados, perdi a vergonha”, contou Vaz. 

“Quando li Dom Quixote descobri que não tinha nada errado comigo, e que, na verdade, eu era um sonhador”, disse, referindo-se ao clássico do espanhol Miguel de Cervantes e ao personagem que sempre imaginava grandes aventuras com ele próprio no papel de herói.

Dom Quixote fez parte da minha adolescência, me ajudou a entender que não tinha problema algum gostar de livros. Esse livro salvou minha vida. Não tinha promessa de [um cidadão periférico] chegar aos sessenta anos, como cheguei, e esse livro meio que falou ‘vai por aqui’”, contou Vaz que, na sequência, declamou um trecho do clássico.

No Palco da Praça, Vaz ainda deu um spoiler de Coração de criança não morre, seu novo trabalho, desta vez na literatura infantil, ainda sem data de publicação. O enredo contará a história de um poeta que se encontra com a criança que foi um dia para tentar mudar seu passado.

Música para os ouvidos

No início da vida adulta, em 1983, o poeta foi para o Exército Brasileiro. Foi nesse período que teve contato com outros gêneros musicais. Se antes só conhecia hip hop, agora conheceu cantores da música popular brasileira como Chico Buarque, Elis Regina, Geraldo Vandré e Caetano Veloso. Ainda sob o regime da ditadura militar, Vaz não entendia o que as músicas diziam, contou.

Mas ao cantarolar pelo quartel a música Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré (também conhecida como “Caminhando e cantando”), que havia sido censurada pelos militares, percebeu que o sargento não gostou. 

“Perguntaram quem era o comunista que estava ouvindo aquilo”, relembrou, entre risadas. “Quanto mais os militares reclamavam, mais eu gostava da música. Através da MPB comecei a querer saber quem era Pablo Neruda, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa.”

E foi com a música que a poesia encontrou, para valer, um lugar definitivo na vida de Vaz. Depois do exército, e sem muita habilidade para o futebol, seguia apaixonado por música e começou a escrever letras para um grupo de samba no bairro em que morava em Taboão da Serra. 

“Você vai ao samba num domingo à noite, lotado, com todos cantando na maior força até tarde, mesmo tendo que trabalhar no dia seguinte. Isso acontece porque o sambista está dizendo o que as pessoas queriam falar, mas não conseguem”, avaliou. 

Simplificando as coisas

A cultura hip hop nunca deixou a vida de Vaz. No começo da carreira, ele fazia poesias em shows de rap porque, sem saber cantar, era a forma como conseguia contribuir. Ele contou ainda que foi por causa de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, que passou a escrever poemas.

“A cultura hip hop me trouxe pertencimento de quebrada, de cor, de raça. Mas quando eu li Carolina me ‘chapou o globo’, tipo ‘pode escrever do jeito que a gente fala e do jeito que a gente é?’”, disse. “Eu queria imitar outras pessoas, mas percebi que vinha do mesmo lugar dela e podia escrever assim também. Carolina é a primeira vida louca da literatura. Nesse sentido, ela foi a primeira pessoa que abriu meus olhos.”

(Filipe Redondo)

“O grande barato da poesia é simplificar as coisas para as pessoas. O país precisa de poesia porque estamos em guerra, se não os canalhas vencem. A liberdade dá medo. A pessoa vai para a igreja para fugir da liberdade. A poesia é o que alimenta a nossa liberdade e faz a gente compreender os caminhos que queremos seguir.” 

O “escritor marginal” contou que prefere a alcunha de “escritor periférico”, porque diz mais respeito à sua realidade. Mas explicou os motivos do apelido. 

“A gente traz a história de um povo esquecido [o periférico]. E é bom contar essas histórias para essas pessoas e para novos leitores, porque de onde a gente vem [a periferia] tem tanta gente bonita. A gente tem que contar que tem mais gente como a gente, não dá para chegar sozinho. Eu não estou à margem de nada.” 

Bar literário

Além da escrita, um dos projetos mais notáveis de Sérgio Vaz é o Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), sarau literário criado em 2000 para reunir artistas da periferia e desenvolver atividades culturais no bar do Zé Batidão, na zona sul de São Paulo. 

“É um lugar onde todo mundo aprende e ninguém ensina. A poesia desce do pedestal e beija o pé da comunidade. É o lugar onde tenho a gentileza de recitar e a população tem a gentileza de ouvir. É feito no bar, para ressignificar esse espaço, que era o lugar de bêbados, malandros. Esse lugar aonde pessoas vêm depois de adorar um deus chamado trabalho”, disse Vaz.

Em março, no entanto, depois de duas décadas, o movimento pausou, para “voltar mais forte”. Segundo o poeta, “não adianta a gente estar doente e querer tratar os outros.” 

“Não quero ser cover de mim mesmo e ficar repetindo. Quero mudança e, para isso, a gente tem que pensar. Eu estava me sentindo pobre de não produzir nada para a comunidade. Nosso barato é abrir a mente. Mas agora estamos fazendo ‘hemodiálise cultural’.” 

Chegando ao fim da conversa, a mediadora Camilla Dias cedeu o microfone ao público para quem quisesse declamar uma poesia ou ler um texto de Sérgio Vaz, o que chamou de “momento Cooperifa”. Algumas leituras depois, foi a vez de Vaz. Ele levantou da poltrona, ajeitou o microfone em um tripé e recitou alguns de seus poemas. Com gestos e habilidades de dar inveja a um rapper, movimentou os braços, ganhando atenção até de quem passava alheio, até então, ao Palco da Praça.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.