A Feira do Livro,

Saudações, expressões faciais e até gírias: uma aula de Libras n’A Feira do Livro

A poeta Nayara Silva ensinou gestos da Língua Brasileira de Sinais e questionou a acessibilidade para surdos no Brasil

02jul2024 - 17h31 • 10jul2024 - 11h44
Fotografias de Matias Maxx.

Quem enfrentou o frio do fim da tarde de segunda-feira (1º) para assistir à aula pública de Língua Brasileira de Sinais (Libras) n’A Feira do Livro aprendeu com a poeta Nayara Silva gestos e expressões utilizados no dia a dia pela comunidade surda. Entre o vocabulário ensinado, estavam palavras como “boa noite” e “obrigado”, sinais de palmas, nomes de redes sociais e até gírias.

Com mediação de Paulo Werneck, diretor de redação da Quatro Cinco Um, Silva, que é surda profunda, contou com a ajuda de duas intérpretes para conduzir a conversa. Qualquer pessoa que não consiga ouvir um som abaixo de 90dB, ou seja, o ruído de um cortador de grama, tem surdez profunda. Algumas pessoas com surdez profunda não conseguem ouvir absolutamente nada, como hoje é o caso de Silva. Para fazer o sinal de “boa noite” em Libras siga as etapas a seguir, como ensinou a poeta. 

Boa: se for destro, faça o sinal de “bom” (ou “boa”) colocando a mão direita (mão dominante) com os dedos reunidos em formato de pinça perto da boca e depois, movendo-a para frente, afastando os dedos.

Noite: para o sinal de “noite”, posicione a mão dominante aberta e curva sobre a mão esquerda (mão não dominante), que está com o punho fechado, mas mais abaixo. A mão direita deve cobrir a esquerda como se estivesse representando a chegada da noite.

A Libras é um sistema linguístico assim como o português, mas conta com uma estrutura gramatical independente, ou seja, não tem necessariamente sujeito e predicado como na língua portuguesa.

Silva, que faz parte do núcleo de Libras na Universidade Federal do ABC (UFABC), explicou que existe um sinal próprio para cada pessoa (o nome em forma de gesto), como uma assinatura. O dela é um polegar da mão dominante encostado no queixo.

A professora de Libras Nayara Silva

“O ouvinte não pode criar o próprio sinal, é o surdo que tem que designá-lo. O meu sinal foi escolhido por conta de uma característica minha. Quando eu era pequena, tinha o hábito de chupar o dedo, então o sinal seria esse”, explicou.

“Para batizar alguém é importante uma interação, precisa trabalhar junto, conviver. O ideal é ter contato com surdos e suas características. Porque se derem o sinal errado, outro surdo vai querer trocar de ‘nome’.” 

O público reagiu com os braços erguidos e as mãos girando — ou seja, o sinal de “palmas”. Amanda, uma das intérpretes da mesa que empresta a voz aos gestos e expressões de Silva, gesticulou que o seu sinal é o movimento com o punho fechado de cima para baixo na testa. Ela ganhou esse sinal após utilizar por muitos anos um corte de cabelo com franja.  

Acessibilidade em risco

Com origem na linguagem de sinais francesa e com expressões e regionalismos próprios do Brasil, a Libras foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no Brasil em 2002. Desde então, alguns avanços foram feitos, como a garantia do ensino de Libras e a presença de intérpretes em salas de aula, e a obrigação do domínio da linguagem em certas profissões.

No Brasil, cerca de 10 milhões de pessoas apresentam algum grau de surdez, e parte delas usa a Libras como auxílio para comunicação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A inclusão social e a comunicação ainda estão distantes para muitas dessas pessoas. Além da difusão limitada da língua de sinais entre os ouvintes, os surdos enfrentam barreiras como as máscaras usadas durante a pandemia e o despreparo de profissionais da saúde e de outros setores.

“Comigo já aconteceu, inclusive, a violência obstétrica”, contou Silva. “No parto do meu filho, a equipe médica não sabia Libras e utilizavam máscara, eu não conseguia sequer fazer leitura labial para entender o que me diziam. Fiquei com medo, foi muito ruim.” 

Silva é uma pessoa surda com oralidade, ou seja, consegue fazer a leitura labial. Antes disso, no entanto, a comunicação também foi uma barreira no âmbito familiar. Ela relembrou que não participava das conversas e da confraternização nas festas de Natal, porque, naquela época, a família não se comunicava por Libras. Ela ainda contou sobre como a pandemia apresentou um desafio adicional, com todos usando máscara, inviabilizando essa forma de comunicação.

Ao ser questionada sobre a dificuldade de se aprender Libras, Silva respondeu que é fácil como um curso de inglês, mas que a língua ainda sofre preconceitos. “Inglês é o curso mais procurado do Brasil e Libras vem logo na sequência”, contou, referindo-se a uma pesquisa da plataforma de cursos de línguas Preply. Segundo esse levantamento, realizado em 2022, a procura por cursos e aulas de Libras somou mais de 98 mil pesquisas no país. O inglês ultrapassa 1,2 milhões, conforme o estudo.

“Muitas pessoas preferem o inglês para ter um emprego melhor, e pagam caro por isso”, comentou. “Libra sofre um preconceito porque, apesar de ser importante, a população ainda quer que seja gratuito e não valoriza o trabalho dos professores dessa língua.”

Silva também compartilhou alguns desafios de situações cotidianas. Há alguns anos, marcou um encontro por aplicativo de relacionamento — para simbolizar esse app, a mão dominante imita labaredas de fogo sobre a palma da mão não dominante —, mas o pretendente enviava áudios, o que impossibilitou a conversa. “Quando contei que era surda, o cara não quis me encontrar e me bloqueou na sequência.”

Filho de pais surdos

Hoje, casada com uma pessoa surda, Silva tem um filho de sete anos, que é ouvinte e cresceu em um ambiente bilíngue e bicultural, tendo Libras como sua primeira língua. Pessoas ouvintes filhas de pais surdos são chamadas de coda, acrônimo em inglês que significa Child of Deaf Adults (Filho de Pais Surdos). Existem organizações e comunidades de apoio para codas que oferecem recursos e criam um senso de pertencimento entre essas pessoas.

“Quando [meu filho] era um bebê, percebeu visualmente o sinal que eu fazia quando ele queria mamar. Sozinho, ele passou a gesticular o sinal de Libras. Meses depois, ele engatinhava, tocava na perna do pai, que também é surdo, e fazia o sinal de água”, contou Silva. “Hoje, com sete anos, ele ensina informalmente Libras aos amigos da escola.”

Silva foi oralizada com ajuda de um médico fonoaudiólogo quando criança, mas as dificuldades financeiras acabaram levando-a a abandonar o acompanhamento. A fonoaudiologia pode ajudar pessoas surdas a melhorar a comunicação, mas não faz com que elas “ouçam” da mesma maneira que pessoas ouvintes. Muitas vezes é preciso fazer um implante coclear — dispositivo eletrônico, implantado por cirurgia, que imita a sensação auditiva próxima ao fisiológico.

A professora de Libras Nayara Silva

O tratamento, no entanto, ainda é muito caro no Brasil — assim como os implantes cocleares e aparelhos auditivos, que chegam a custar o preço de um carro popular. “Parei [a fonoaudiologia] por questões financeiras. Os surdos que têm dinheiro conseguem falar porque fazem um tratamento que é caro”, disse Silva, que também contou que, depois de ter encontrado a comunidade surda, passou a não querer mais falar verbalmente.

Outra questão, segundo ela, é respeitar os direitos de escolha de uma pessoa surda, que pode não querer recorrer a terapias ou intervenções para se tornar ouvinte. “Se alguém tem um filho surdo e interfere para que ele ouça logo cedo, quebra o direito dessa pessoa”, disse Silva. “Hoje temos muitas informações, é fácil aprender Libras para conseguir a comunicação e auxiliar o bebê a desenvolver o cérebro.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.