A Feira do Livro,

“O saber de vocês é sintético”, diz pensador quilombola

Antônio Bispo dos Santos comparou Jesus a Marx, criticou Dilma Rousseff e defendeu a contracolonização

09jun2023 - 06h08 | Edição #70

Antônio Bispo dos Santos pediu licença para falar em pé n’A Feira do Livro, pois queria ver todas as pessoas da plateia. Uma das principais lideranças pela luta das terras quilombolas no Brasil, autor de A terra dá, a terra quer (Ubu), ele conversou com Bianca Tavolari, professora, pesquisadora e colunista da Quatro Cinco Um, na mesa Da praça pública ao quilombo.

 “Está faltando poesia nas nossas vidas. Já fomos mais poéticos. Estou fazendo campanha para poetizarmos mais. E nossas poesias devem ser, ao máximo, orgânicas”, disse Bispo, que se considera um “lavrador de palavras”.

Ele questionou a hierarquização entre os saberes escritos e orais, que não devem rivalizar, mas sim ser compartilhados: “Sim, nós concordamos que vocês sabem ler. E acreditamos que vocês concordam que nós sabemos falar. Também concordamos que vocês podem e devem escrever. Mas nós os provocamos a crer que nós também podemos palavrear. E assim podemos estabelecer não um limite, mas uma fronteira entre os saberes”.


Antônio Bispo dos Santos [Sean Vadaru/Divulgação]

O pensador quilombola falou sobre a circularidade de pensamento de seu povo. “O saber de vocês é sintético, o nosso é orgânico. Vocês pensam de forma linear, por isso chegam ao limite. Nós pensamos de forma circular, por isso a nossa vida não tem limite. A roda é começo, meio, começo; ela não tem fim. A capoeira é circular. O samba, o batuque, até meu cabelo quando cresce é circular. É assim que eu compreendo a vida, e é assim que eu tento me localizar nela: na circularidade.”

Convidando a plateia a rever suas relações com a terra, ele falou sobre a importância de, mais do que preservar o meio ambiente, relacionar-se com ele. “A árvore transa com tudo. Ela é poligâmica. E faz tudo com raízes na terra. Sendo alimentada por ela, para nos alimentar, e retroalimentando-a. É uma biointeração. Se você não der, a terra também não dá.” A fala dialoga com uma frase de seu livro, que Tavolari leu para o público: “Eu não sou humano, sou quilombola”.

Para Bispo, o humano, cuja trajetória é fundamentada nas escrituras e no monoteísmo, se considera melhor do que os animais. “Ele é o sábio. Só ele escreve. Só ele precisa de remédio. Só ele precisa de escola. É esse tipo de humano que não sou. Eu sou animal. Convivo com serpente, rato, morcego, sapo, peixe, flor, árvore, pedra. O humano não convive nem com ele mesmo.”


Bianca Tavolari e Antônio Bispo dos Santos [Sean Vadaru/Divulgação]

Autor de diversos escritos sobre a “contracolonização”, ele comparou o adestramento de animais à colonização. “Já fui adestrador. Eu confinava o boi, cercava-o, mudava a sua alimentação para que ele viciasse naquela comida e pensasse que dependia de mim para comer, e botava nele um nome — a arte de nomear é a arte de dominar. Quem bota um nome manda”, contou. Segundo ele, da Lei Áurea até a Constituição de 1988, o quilombo era considerado uma organização criminosa. A Constituição, no entanto, limita-se a um direito colonialista. “Criminalizaram nossas manifestações. Criminalizaram nosso corpo. Depois nos acolheram, mas na mesma escola deles, na mesma saúde deles. O Estado é colonialista.”

Em um dos diversos momentos que provocaram risos na plateia, Bispo disse não querer a morte dos colonizadores, “mas se alguém quiser voltar para a Europa a gente faz vaquinha para pagar a passagem”. Foi aplaudido também com uma bem-humorada crítica: “A luta de classes é a luta do trabalhador contra o patrão. O quilombola e o indígena não são uma coisa nem outra, ficamos de fora. Essa é uma luta cristã. Tanto Jesus quanto Karl Marx concordam que o trabalho é a base de tudo”.


Antônio Bispo dos Santos [Sean Vadaru/Divulgação]

Em tom mais sóbrio, criticou a atuação da ex-presidenta Dilma Rousseff: “Por que a Dilma fez a Comissão da Verdade do Araguaia, mas não fez a do Caldeirão, a de Canudos? Eu não tenho uma fala radical, tenho uma fala consequente. Dilma fez isso porque também é colonizadora. Ela errou em não ter feito a Comissão da Verdade do Povo Preto”. E, questionado sobre a questão da demarcação das terras indígenas, respondeu: “Darei uma resposta simplista sobre o marco temporal: essa terra pertence a quem estava aqui antes de 1500”.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.