A Feira do Livro,

Milton Hatoum defende literatura contra o autoritarismo: “Ninguém consegue controlar a imaginação das pessoas”

Em mesa pontuada por arte e política, escritor disse acreditar que o país deve se recuperar dos ataques à cultura e à educação

11jun2023 - 16h29 | Edição #70

Em uma mesa literária marcada por muitas memórias e homenagens a grandes mestres da literatura, Milton Hatoum falou de política, de seu processo de criação e defendeu um projeto de país que sofreu ataques nos últimos anos pela ascensão da extrema direita, mas que, na opinião do escritor, ainda pode ser recuperado.

“Nenhum governo autoritário consegue controlar tudo. Por mais autoritário que seja, você não consegue controlar a imaginação das pessoas. Essa é uma das forças da literatura”, disse o autor da trilogia O lugar mais sombrio (Companhia das Letras), iniciada em 2017, em conversa com Roberta Martinelli na mesa Relatos de um certo país. A conversa foi transmitida ao vivo pela Rádio Eldorado e marcou a estreia do Clube do Livro, programa que será comandado pela apresentadora.

Numa fala pontuada por literatura e política, o escritor disse acreditar que o país deve se recuperar dos ataques à cultura e à educação nos últimos anos, mas que é preciso superar bem mais do que as eleições. Citando bell hooks, disse que não há trégua em questões que envolvem injustiças, como o racismo.

“Espero que a gente consiga avançar, apesar do Centrão, esse horror”, disse, aplaudido pela plateia. “Um dia o povo brasileiro vai dizer um basta à chantagem desses políticos. Mas devemos ir às ruas para ver se eles entendem esse recado. Ficam falando que o governo não consegue se comunicar, mas não é isso. Como você vai se comunicar com chantagistas vis?”, completou.


O escritor Milton Hatoum [Sean Vadaru/Divulgação]
 

O escritor de Manaus, cenário de algumas de suas histórias, também falou das várias tentativas de ocupação da Amazônia, “todas nefastas”, e de como esse projeto, na sua visão, teve início depois do golpe militar de 1964. “A destruição sistemática começou com a ditadura e nunca mais parou. O lema ‘integrar para não entregar’ passava pela destruição da floresta e dos povos indígenas”, enfatizou. “Se não fosse a reação do povo brasileiro contra a barbárie, a Amazônia acabaria em poucos anos.”

Início e crítica

Ao responder a uma pergunta da plateia sobre o que faz um livro ser atemporal, Hatoum falou ainda sobre o seu início na literatura, depois de se formar em arquitetura na USP, em São Paulo, e desistir da profissão. Para ele, que disse ter mais de 2 mil páginas nunca publicadas, um escritor deve controlar a vaidade e não se preocupar com as críticas.

“Quando um crítico execra alguém, tem algum problema em quem está execrando. Mas quando é uma crítica refletida e bem argumentada, acho que pode ajudar o autor”, disse. “O grande poeta Ferreira Gullar fez uma crítica horrível ao Grande sertão: veredas, não entendeu nada naquele momento. Se ícones são criticados, por que os pobres mortais não podem ser?”

Criação vs. inteligência artificial

Ao discorrer sobre seu processo de escrita, o escritor arrancou risos da plateia ao contar que sofre do “pânico” de terminar um livro e por isso tenta prolongar o processo: “Quatro frases por dia está bom”. Comentou ainda que no início imitava o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), que não acreditava na inspiração, mas que a literatura poderia ser feita “com toda lucidez”.

“A gente pode discordar. Não acredito que não haja um momento de inspiração que possa ajudar a compor um poema ou escrever uma passagem de um romance. Tem também o imprevisível, às vezes um desvio de rota. Aí está também o encanto da escrita, esse movimento interior da imaginação.”

Questionado sobre o uso da inteligência artificial na criação literária, Hatoum, que disse ainda escrever à mão, se desculpou e disse não saber nada sobre o assunto. “Essa tecnologia tem um lado mefistofélico, como as fake news, que alimentam a extrema direita”, criticou. “Não sei como a inteligência artifical escreveria Guerra e paz, por exemplo.”

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.