‘Brasil recuperou normalidade’, avalia Rubens Ricupero

A Feira do Livro,

‘Brasil recuperou normalidade’, avalia Rubens Ricupero

Lançando livro de memórias aos 87 anos, embaixador e ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente diz ter confiança no país, mas se preocupa com aquecimento global

29jun2024 - 18h46 • 10jul2024 - 13h32
Fotografias de Filipe Redondo.

Aos 87 anos e com uma longa carreira pública – foi ministro do Meio Ambiente e da Fazenda no governo Itamar Franco, embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Itália e secretário-geral da CNUCED (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) – Rubens Ricupero lançou um olhar para o futuro durante sua participação na mesa “Meninos, eu vi”, n’A Feira do Livro, neste sábado (29), mediada pelo jornalista João Paulo Charleaux. Ricupero acaba de lançar suas Memórias (Editora Unesp), que cobrem sua trajetória desde a infância no bairro do Brás até a atualidade.

Questionado sobre como enxerga o cenário político nacional e internacional, Ricupero lembrou grandes figuras, como Joaquim Nabuco, que faziam discursos afirmando ter absoluta confiança no futuro do Brasil. “Eu não seria capaz de dizer uma coisa dessas, nem que não tenho ou que tenho absoluta confiança, porque estou convencido de que a história é o domínio do imprevisto”, afirmou.

Rubens Ricupero n’A Feira do Livro 2024

“Mas o futuro do Brasil não é tão preocupante porque recuperamos certa normalidade depois do pesadelo que passamos”, acredita. “Tenho confiança no Brasil porque pela primeira vez estamos incorporando à vida ativa contingentes enormes que estavam excluídos – em primeiro lugar as mulheres, mas também negros, indigenas, pobres. É o que está acontecendo nas universidades”.

Já o futuro do mundo é mais incerto para o ex-diplomata. “O mundo está muito complicado. Há uma deriva para a extrema direita no mundo. Eu nunca imaginei, por exemplo, que chegaria a uma idade em que o futuro dos Estados Unidos seria mais incerto e preocupante que o nosso.”

O grande problema da mudança climática

Para Ricupero, um dos grandes problemas da extrema direita é o fato de que ela desvia a atenção do que ele considera ser o grande problema da atualidade: as mudanças climáticas. “A extrema direita recusa as evidências e nos faz perder um tempo precioso. Há outros problemas, mas se não olharmos para esse, não vai importar muito, porque não estaremos aqui. Todas as outras questões – direitos humanos, igualdade entre mulheres e homens etc. – podemos ter uma perda agora, mas depois recuperamos. O meio ambiente não, se temos uma perda, ela é irrecuperável.”

Sobre a angústia que muitos jovens sentem diante desse cenário de incertezas, Ricupero lembrou que, na sua juventude, em meio à Guerra Fria, havia angústias em relação ao fim de uma determinada cultura, um determinado modo de civilização, mas a ansiedade atual é que “podemos acabar com a vida”. 

“Eu acho que nós vamos evitar, porque ainda acredito que somos seres racionais – não só racionais, mas também. Mas claro que os jovens se angustiam. Eles já têm o problema da precariedade do trabalho. Também se perguntam porque ter um filho se o mundo pode entrar em colapso. É um grande problema. Vemos o Trump, por exemplo, e vemos que não é uma fantasia, é um perigo real”, disse.

Papel do Brasil no mundo

Instigado por perguntas do público, Ricupero opinou sobre a política externa do terceiro governo Lula e a pretensão do atual presidente de posicionar o país como mediador de conflitos. “Foi muito bom que o Lula, no início do mandato, tenha feito uma ofensiva para fazer esquecer a catástrofe que foi o governo anterior, sobretudo a triste figura do ministro das Relações Exteriores. Ele ter feito aquela série de viagens foi muito importante para recolocar o Brasil. Isso está feito”, opinou.

A questão da mediação, no entanto, é mais complexa, na opinião do ex-diplomata. “Ir além disso, assumir uma posição de mediação, é muito difícil. Hoje em dia, para você ser mediador, os dois países têm que querer. E nenhum dos países envolvidos nos conflitos atuais querem. E não querem só o Brasil, não querem ninguém. Porque ambos os lados acham que vão resolver com a guerra. Então, a ideia de que o Brasil possa resolver algum conflito é muito remota.”

Isso não significa, para Ricupero, que o país não deva exercer um papel importante no cenário externo. “O que eu acho que o Brasil deve aspirar é exercer um papel construtivo de moderação nas relações internacionais. Ele deve procurar aproximar posições, ele tem credenciais para isso. Nós completamos 154 anos ininterruptos de paz com nossos vizinhos, nossa última guerra foi a Guerra do Paraguai. Que outro país tem esse tempo sem conflitos com os vizinhos? O Brasil tem uma tradição de paz”, acredita.

“Dos países de proporções continentais e grande população, o único que não tem bomba nuclear e não impõe sanções é o Brasil. Então, nós temos credenciais para exercer essa moderação, mas com o cuidado de manter uma postura de isenção. Por uma razão muito simples: não é nosso interesse jogar lenha na fogueira. Para um país desarmado, o pior cenário é voltar a se dar importância para a capacidade armamentista”, concluiu.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Natalia Engler

É jornalista e pesquisadora de comunicação e gênero.