A Feira do Livro,

“Arrombamos essas portas”, diz Patricia Hill Collins sobre mulheres negras que estão publicando seus livros

Aplaudida de pé, a autora, professora e pesquisadora deu uma aula sobre interseccionalidade, conceito muito falado e pouco entendido

10jun2023 - 12h50 | Edição #70

Cheia de carisma e bom humor, Patricia Hill Collins — professora, pesquisadora e autora de livros escritos a partir da perspectiva do feminismo negro — dominou o Palco da Praça d’A Feira do Livro nesta sexta, 9, na mesa Bem mais que ideias, mediada pela jornalista Semayat Oliveira, e deu uma aula sobre o que é e como surgiu a interseccionalidade, conceito muito falado atualmente, mas pouco compreendido.

Recebida com o público de pé, Collins se levantou para relembrar sua trajetória, desde que era uma criança de cinco anos em uma família de poucos recursos, mas com uma mãe leitora, que a levou para fazer seu cartão na biblioteca local, até galgar os degraus da carreira acadêmica, um mundo dominado por homens brancos, onde ela não via outras pessoas como ela. E, com seu otimismo característico, retomou uma ideia que já havia sido abordada por Sueli Carneiro na mesa Continuo preta, na quinta: as mulheres negras estão arrombando as portas que as excluem.


Djamila Ribeiro, autora de Quem tem medo de feminismo negro?, assistiu a mesa [Sean Vadaru/Divulgação]

“Estamos aqui cercados por livros que não tinham sido escritos há vinte anos. E no pouco tempo que estou aqui no Brasil, já recebi livros lindos, que falam de racismo, de sexismo, até para crianças. Uma geração que já vem com essas questões da igualdade. Porque agora muitas de nós estamos escrevendo nossos livros. A gente está aqui, a gente arrombou essas portas. A minha carreira tem sido arrombar essas portas para pessoas que virão depois de mim, pessoas que precisam entender que fazem parte de uma luta muito importante”, afirmou.

Questionando como havia chegado até aqui, uma leitora e escritora com livros traduzidos para o português, Collins voltou à sua infância. “A minha mãe não teve muitas oportunidades na vida, mas ela me disse que, se eu aprendesse a ler, o mundo se abriria pra mim. E eu acreditei nela, aprendi a ler e comecei a ler tudo que caía nas minhas mãos. A minha lembrança é da sensação de poder que a leitura me deu”, contou.

Ainda assim, a leitura perdeu a magia quando ela estava na escola, lendo e escrevendo coisas que achava muito chatas. “O que eu entendi foi que minha mãe, meu pai, meu tio, minha tia, minha comunidade, todas as pessoas negras que eu conhecia, não estavam ali, não estavam representadas no que eu lia e nem no que me pediam para escrever”, relembrou. “Então eu entendi que, para eu poder ler o tipo de livro que eu queria ler, para minha mãe ler o tipo de livro que ela deveria ter lido, eu teria que escrever aquele livro.”

E os livros que ela queria ler eram livros que conectavam questionamentos e argumentos sobre racismo, heterossexismo, classe, nacionalidade, algo que não acontecia quando ela estava na universidade, em meio à emergência dos movimentos Black Power, feminista, antiguerra e outras lutas sociais. “Cada um desses grupos tinha parte das respostas. Mas era óbvio que as mulheres negras não seriam livres se continuássemos a pensar só numa perspectiva de gênero, ou de raça, ou de sexualidade. Para isso era preciso uma análise de como o racismo e o sexismo se conectavam”, contou.

"Então passei toda minha carreira escrevendo livros que não se encaixavam. Criando os argumentos que as pessoas precisavam para poder ter um olhar crítico sobre o mundo no qual vivemos. Argumentos contra o racismo, o heterossexismo, a pobreza e a exploração do capitalismo. E, ao longo do tempo, argumentos que acabaram por juntar todas essas ideias e críticas que estavam separadas. Isso é a interseccionalidade.”


A mediadora Semayat Oliveira [Sean Vadaru/Divulgação]

Capítulos

Esse trabalho resultou em seu primeiro livro, Pensamento feminista negro, publicado originalmente nos Estados Unidos em 1990 e em 2019 pela Boitempo.

Já em seu livro mais recente, Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica, publicado em 2019 nos Estados Unidos e em 2022 no Brasil, Collins se bate com “os grandes homens que controlam as teorias e controlam as teorias dos outros” para reconhecer os conhecimentos produzidos por mulheres negras como teorias sociais críticas.

“Na universidade a gente lê esses teóricos de maneira muito estrita. Eu não queria argumentar com eles. Eu queria pegar o que eles fizeram e mostrar: é limitado. É muito bom até certo ponto. É apenas uma perspectiva parcial. Eles precisam conversar entre si”, afirmou.

“Então, comecei a escrever esse livro, que aglutinou algumas dessas ideias principais que estão aí em outros campos de estudo. E percebi que as mulheres negras elaboraram teorias sociais críticas a partir de sua experiência. Nesse livro, argumento que a interseccionalidade pode ser uma teoria social crítica para lidar com todos esses problemas sociais sem ficar só na caixinha de gênero, ou de raça, ou de classe, ou de sexualidade. Em vez disso, a interseccionalidade nos encoraja a resolver problemas sociais ao sair dessas caixas isoladas e aprender sobre os problemas sociais dos outros”, explicou.

Além do raciocínio afiado, Collins arrancou risadas do público ao dialogar com as pessoas que faziam a tradução simultânea, surpresa quando passou para uma voz masculina, e fingiu sair de fininho e se esconder atrás de um segurança para fugir das perguntas “difíceis” de Semayat Oliveira. Mas não se furtou a responder uma última, sobre ser uma intelectual que fala sempre sobre a importância de manter a esperança, mesmo em momentos de ataques aos movimentos feministas, antirracistas, LGBTQIA+.


Patricia Hill Collins [Sean Vadaru/Divulgação]

“Não tem como trazer uma criança para o mundo a não ser que você tenha esperança, esperança de que essa pessoa que está chegando vai ter um futuro. Eu sempre agi com esperança. Mas não uma esperança falsa. A verdadeira esperança vem dessa construção de um mundo no qual a gente possa viver, esse mundo ao nosso redor todos os dias. Mesmo que esse mundo seja um mundo pequeno. E essa é a vantagem de vir de um povo escravizado. O que será que essas mães escravizadas diziam para seus filhos? Como tirar um povo inteiro da escravidão sem perder a esperança? Então, a minha missão é informar as pessoas para que elas tenham um pensamento crítico conforme elas forem tocando suas vidas”, afirmou.

“Acredito que não importa qual seja o desafio, há muitas pessoas jovens, determinadas, inteligentes, fazendo acontecer. É aí que mora a esperança. É uma esperança intergeracional. Talvez as coisas não aconteçam pra você, mas podem acontecer para quem vem depois. Então, é sua responsabilidade”, concluiu.

“A análise da nossa situação não me tira a esperança. Na verdade, ela me dá raiva, e a raiva me dá energia. É por isso que eu escrevo tanto, porque tenho muita raiva. Mas também tenho muita esperança.”

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Natalia Engler

É jornalista e pesquisadora de comunicação e gênero.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.