Literatura,

‘Vamos a la playa’

As reflexões literárias e culturais de Alan Pauls sobre a sagrada trindade do verão: sol, mar e areia

01fev2024 - 00h00 • 20mar2024 - 17h50 | Edição #78

O contraponto às cidades para Alan Pauls é sempre o litoral. “Nunca penso: vou à montanha. Minha relação com a praia é monogâmica”. Mais do que o contato com a natureza ou o ócio merecido das férias de verão, ele é fascinado por essa espécie de tela em branco feita de céu, água e areia, sem fundos falsos para se esconder, como escreve em A vida descalço.


A vida descalço, de Alan Pauls

Espaço imberbe e liso, atravessado por dobras, mas livre de dobramentos, a praia é um lugar franco, transparente, aberto ao céu “como uma boca ou ferida”, como dizia Camus de Argel e das cidades que dão para o mar. Tudo está ali, desdobrado, explícito: o que se vê é o que existe.

O romance (ou ensaio biográfico, como o autor prefere chamar) mistura as experiências da infância de Pauls, no balneário argentino Villa Gesell, com reflexões sobre literatura, cinema, sociedade e as outras praias que marcaram o escritor quando jovem — Cabo Polonio, Ibiza, Copacabana… 

Nascido em Buenos Aires, Pauls é também roteirista e crítico de cinema — outra paixão, assim como a praia. O passado (2003), romance que o projetou como escritor, virou filme, dirigido por Hector Babenco e com Gael García Bernal no elenco. 

Pauls deu esta entrevista para a Quatro Cinco Um de Berlim, onde foi morar com a família. Por videochamada, falou de A vida descalço (relançado no ano passado) e suas ideias sobre essas formações geológicas (e também culturais) que chamamos de praia.

Como é, para alguém que ama tanto a praia como você, viver em Berlim?
Berlim é muito dura, exigente, sacrificada, mas gosto. Sou uma criatura de cidades. Gosto da praia pelo caráter fora da norma, como um lugar de exceção, não para morar o ano todo. Em Berlim, além do frio, o que mais me incomoda é não ter luz do sol por seis meses ao ano. Mas se pode escapar: a Espanha, a Itália e a Grécia estão perto e têm praias muito bonitas.

Qual é a sua praia?
Minha praia sempre foi a escrita. Cada vez que escrevo é como se fosse a primeira. Como minhas experiências com a praia concreta — cada vez que vou, penso: “Uau, que genial essa invenção da natureza!”. A praia é sempre um descobrimento, e escrever também é isso para mim. Ler também, é minha praia top. A leitura é tão genial e reveladora quanto a escrita, mas não implica no sofrimento, no estresse e nas neuroses de escrever. Ler é um prazer absoluto, a droga total. E a praia concreta é o paraíso que te permite entrar em outros paraísos. 

Em A vida descalço você escreve sobre sua paixão pela praia, mas tenta não romantizar demais, como se fosse o paraíso na Terra… 
Mais do que não romantizar, eu não quis mistificar. O que me interessava era pensar até que ponto essa condição um pouco mítica da praia é produto de um trabalho cultural e histórico. E como esse prodígio da natureza que consideramos ser a praia não seria na realidade um prodígio da cultura. Mas pensar nisso não implicou perder o desejo e o amor pela praia. Pensar nela como um objeto cultural me fez entender melhor a paixão que sinto. 

Uma paixão que abarca até as praias invadidas pelo turismo de massa? 
Sim, gosto de todas, mesmo as lotadas de gente, as feias, arruinadas. Eu me interesso pela praia como fenômeno, socialmente é um lugar assombroso. Em A vida descalço tem um momento em que me espanto por a praia ser esse lugar em que todos estão praticamente nus e não acontece nenhum problema. Como é possível ser um lugar tão civilizado? Essa espécie de sociedade da praia é algo misterioso. 

Há um erotismo intrínseco? 
Nunca encontrei atrativo sexual na praia. Há sim certo erotismo, que tem mais a ver com a relação direta do corpo com o sol, com a água. Mas nunca entendi as pessoas que transam na areia, no mar, me parece um pouco incômodo. Em compensação, há algo como um erotismo saudável. Em geral, saúde e erotismo não se combinam, mas na praia isso se dá.

Nunca entendi as pessoas que transam na areia, no mar, me parece um pouco incômodo

Você voltou recentemente à Villa Gesell, a praia de sua infância? 
A última vez que voltei foi há uns quatro anos, mas tento não ir. É um lugar um pouco mítico, no sentido que são míticos os lugares onde se é feliz muito intensamente por pouco tempo. E, nos últimos anos, Villa Gesell sofreu muito. Era um lugar selvagem, mas foi colonizado por um senhor alemão que a transformou em algo estranho: uma praia no Atlântico, onde faz um calor de 35 graus, com uma arquitetura igual à da Floresta Negra, na Alemanha. E cresceu de maneira descontrolada, transformou-se em um subúrbio comercial com areia e mar. Ficou muito desagradável, mas ainda tem seu encanto. Mesmo assim, cada vez que vou lá, fico um pouco triste, porque é como ir a um lugar que se perdeu — por falta de visão e cuidado, essas coisas que se passam na Argentina e em outros países, como o Brasil. 

No livro, você faz reflexões sobre as praias e de suas experiências na infância e na passagem para a vida adulta. Considera uma mistura de ensaio com romance de formação? 
Eu chamaria de ensaio autobiográfico. Foi como reconstituir um pouco minha infância e juventude seguindo a rota das praias. Como uma vida, no caso a minha, pode ser atravessada por uma mesma experiência ao longo do tempo. Recentemente, conheci uma ilha na Grécia e, para mim, foi: “Uau, outra vez a praia”. É algo que sempre se regenera, volta a aparecer e incorpora novas formas de vida. 

O livro trata de reconstituir isso: até que ponto minha vida — a de uma pessoa muito urbana, mais ligada aos livros, à cultura, do que à natureza — está composta da matéria-prima, da experiência, da felicidade da praia. Não há muitos lugares no mundo em que eu tenha sido tão feliz quanto no litoral. O livro tenta investigar um pouco quais são essas condições.

Gosta de ler e escrever na praia? 
Nunca leio tanto como quando estou numa praia. Há vinte anos, passei três semanas em Cabo Polonio [Uruguai] e li umas cinco mil páginas. Não fazia outra coisa além de ler, tomar sol, entrar no mar, comer e dormir. Era uma existência como a de Robinson Crusoé, mas sem a obrigação que tem o pobre do Crusoé de reconstruir a civilização. Por outro lado, para mim é muito difícil escrever. É um lugar muito lindo para ler, imaginar, sonhar. Há algo na paisagem que estimula essa espécie de cinema privado que você frequenta quando dorme. É essa paisagem minimalista, como se o céu e o mar fossem telas em branco. 

Em A vida descalço você ironiza as pessoas que estão lendo na areia, como se não soubessem aproveitar a praia pelo que ela é
É quase uma autoironia, porque sou essa pessoa que pode passar quatro horas lendo debaixo do sol (na verdade, na sombra). E entendo perfeitamente se disserem que poderia estar fazendo isso em outro lugar. Mas não há só uma maneira correta de estar na praia. Muitas vezes, tenho o comportamento de um lagarto, me sinto como o dono do lugar, como os répteis, que são os verdadeiros donos das praias. Para mim, aquele momento em que você perde a sensibilidade na planta do pé a ponto de caminhar pela areia quente e não se queimar é sublime. Já não há muita diferença entre mim e a areia. Para isso, basta simplesmente ficar na praia e deixar que o tempo passe: pronto, já está.

São míticos os lugares onde se é feliz muito intensamente por pouco tempo

O céu de verão e o mar te fazem se sentir mais vivo? 
Sim. O sol e água produzem uma espécie de regeneração, mas na praia também me dou conta da idade que tem meu corpo. Talvez pela nudez. Você passa um tempo com uma relação de intimidade com o próprio corpo muito estranha, porque o observa como se estivesse fora dele. Aí vejo a idade que tem meu corpo. 

Já sentia isso na infância? 
Aí era diferente, o menino nem sabia que tinha um corpo, ele era um corpo. Da infância, lembro da sensação de um excesso de oxigenação e de uma energia que não acabava nunca. Às vezes, estava no quarto do hotel às duas da manhã e me perguntava: “Quanto tempo já vivendo?”. 

Como são essas experiências em praias turísticas? 
Em praias muito populares é outro tipo de experiência. Não busco em Copacabana o mesmo que procuro em Cabo Polonio, sei muito bem o que cada uma pode me oferecer — e me interessa tudo o que todas me oferecem, incluindo o incômodo das praias lotadas. Há uns seis anos, estive no Rio na época do Carnaval, e é algo tão louco, incrível. Não fiquei pensando: “Que lástima Copacabana estar tão cheia”. Para mim, o genial é você cruzar a avenida e estar no coração da cidade.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #78 em dezembro de 2023.