Literatura infantojuvenil,

Toda bailarina tem

A bailarina Ingrid Silva narra em livro infantil os caminhos que continua trilhando para tornar a dança um espaço antirracista e de contemplação da diversidade

21jul2023 - 08h00 | Edição #71

Em 2019, a bailarina Ingrid Silva viralizou nas redes sociais depois de uma postagem sobre a chegada do seu primeiro par de sapatilhas no tom de sua pele. Nos onze anos anteriores, a carioca precisou pintar as tradicionais sapatilhas cor-de-rosa com tinta marrom para que ficassem uniformes à sua pele negra. O episódio foi contado para o público infantil no livro A bailarina que pintava suas sapatilhas (Globinho, 2023), que conta a trajetória de Ingrid dos primeiros pliés no projeto social “Dançando Para Não Dançar” aos oito anos de idade, em Benfica, na zona norte do Rio, até a bolsa de estudos na Dance Theatre of Harlem School, onde hoje é primeira-bailarina.

Com ilustrações do artista Monge Lua, a protagonista do livro encara o racismo e outros preconceitos dentro de uma arte ainda muito branca e elitizada. Ao longo da narrativa, a dança aparece tanto como arte no palco, quanto como forma de expressão com potencial de ativismo e como espaço de transformação social. Nesta entrevista para a Quatro Cinco Um, feita durante uma das pausas de sua rotina de ensaios, Ingrid fala sobre a luta antirracista e a contemplação da diversidade de corpos e realidades dentro do balé clássico, enquanto cria referências negras para inspirar a filha.

    
A bailarina Ingrid Silva ainda criança e na Dance Theatre of Harlem (Acervo pessoal/Talitha Ramos/Divulgação)

Em que momento surgiu a ideia de contar sua própria história para o público infantil?
Sempre gostei muito de escrever e sempre fui muito inspirada pela minha própria história. Meu sonho era escrever um livro infantil, mas veio a sugestão da autobiografia A sapatilha que mudou meu mundo (2021, Globo Livros). Escrevi o livro infantil no meio da minha gravidez, na loucura da pandemia. No início foi tranquilo, mas o final da escrita foi quando minha filha Laura nasceu. Não sabia se conseguiria terminar o livro. Também me perguntava: como vou me comunicar com as crianças? Dou aulas para os pequenos, então eu sei um pouco como funciona — como entender, como ouvir, como vê-las em determinado espaço. O livro foi como se eu estivesse dando aula e, ao mesmo tempo, me comunicando para além dela: me conectando com a mente das crianças para enxergar o quê cada uma precisa naquele momento de vida, que a gente nunca sabe o que é se não tentar entender.


A sapatilha que mudou meu mundo (2021, Globo Livros)

O intuito do livro sempre foi o de inspirar as crianças, porque nunca tive um livro parecido com o meu. Se eu tivesse, teria sido muito potente na minha jornada e na minha caminhada. A bailarina que pintava as próprias sapatilhas veio justamente para inspirar e mostrar para as crianças que o mundo é cheio de possibilidades.

Como foi a trajetória de se firmar como uma voz no ativismo contra o racismo?
Acho que tudo foi bem orgânico. Eu sou um corpo político por ser uma mulher negra numa arte totalmente branca. Quando eu cheguei ao Dance Theatre of Harlem, foi a primeira vez que me vi no mundo de uma companhia clássica, foi meu primeiro trabalho profissional. Isso abriu muitas portas, com possibilidades que antes nem pensava que eu poderia alcançar. Foi a primeira vez que eu vi pessoas à minha volta que eram parecidas comigo. 

Em 1969, Arthur Mitchell [primeiro bailarino negro do New York City Ballet], cria o look da meia-calça e da sapatilha cor da pele negra [antes, era rosa ou branca] — e isso revolucionou o mundo da dança. O que eu fiz foi contar minha trajetória pintando minhas sapatilhas e questionando o porquê de não termos sapatilhas da cor da nossa pele, tão importante para nossa representatividade e pertencimento no mundo da dança.

Na história, você traz inspirações para a próxima geração de crianças e jovens negros interessados em balé. Você acha que se tivesse havindo um livro como o seu para a sua geração, mais crianças teriam tido vontade de ser bailarinas?
Com certeza. Às vezes, o que a gente não vê ou não sabe ser possível fica parecendo inalcançável. Se eu tivesse visto uma bailarina negra ou um corpo de baile negro que se parecessem comigo, talvez isso teria feito toda diferença. Acho que o que também fez diferença foi ter a mãe que eu tive: ela sempre foi muito inspiradora dentro de casa, dava apoio em tudo o que quiséssemos fazer.

Lendo para a Laura e conversando com ela, vejo como os olhos dela brilham. Óbvio, hoje ela sabe que a mãe dela é uma bailarina, mas ela pergunta “mamãe, essa bailarina é você?”. Eu falo “é, é a mamãe, mas pode ser você também, se você quiser”. Uma das minhas páginas favoritas está entre as últimas, com todos os bailarinos juntos. Ali descrevo como eu gostaria de ver a dança: bem diversificada.

Você também traz a história do seu irmão no balé e conta que vocês dois eram os únicos negros numa sala cheia de bailarinos. Você acha que esse quadro mudou?
Acho que hoje temos um quadro com mais meninos, mas não sei se necessariamente mudou. Principalmente no Brasil, um país racista, quando se trata de balé é bem complicado, ainda existem muitos professores que não têm empatia com o corpo negro. Muitas crianças e bailarinos chegam até mim e falam sobre diversas humilhações em salas de aula, por causa do corpo e de outras individualidades.

A gente ainda tem um caminho longo. Não é apenas ter pessoas que se pareçam com você no ambiente da dança, mas é ver essas pessoas como corpos que dançam e ter a empatia de entendê-los. Obviamente, é um espaço que, se você não tiver dinheiro, terá dificuldades para entrar; e se essas crianças entram por meio de bolsas sociais, é porque elas são muito talentosas, sabe? Então elas precisam ter acesso a essas oportunidades. Sinto que ainda não conseguimos chegar lá, mas acredito que temos espaço para isso.  

Que livro você gostaria de ter lido na infância?
Que pergunta difícil… [pensa um pouco]. O meu! Se eu pudesse voltar no tempo e tivesse um livro desse, eu acho que teria aberto tanto a minha mente em tantas coisas. Hoje em dia, para muitas famílias e muitas meninas, ainda é um sonho inalcançável, mas se você tiver o suporte necessário, você chega lá.

Como podemos incentivar o hábito de leitura nas crianças?
Acho que é importante identificar o gosto da sua criança ou do seu filho, comprar livros como este e incentivar o hábito da leitura neles, nem que seja lendo uma ou duas páginas por dia. Ou para quem está começando a ler, ir juntando letrinha com letrinha com eles. Ou comprar livros com ilustrações interessantes, porque acho que isso também chama muita atenção da criança. Foi assim que eu comecei, então deu certo, né? O hábito de leitura aconteceu muito cedo lá em casa: meu pai costumava guardar a sessão infantil dos jornais de domingo porque sabia que eu e meu irmão gostávamos.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.