Fichamento,

Sabina Anzuategui

A escritora e professora curitibana joga suas cartas em romance de formação passado no começo dos anos 90

31jul2023 - 20h00 | Edição #72

Escrevi pra você hoje (Quelônio) acompanha o amadurecimento de uma adolescente por meio da troca de cartas com uma jornalista que ela admira.

Escrevi pra você hoje é uma troca de cartas entre duas mulheres. Por que a escolha do formato epistolar?
Na juventude, li Drácula, feito de cartas, notícias de jornal, diários e fiquei fascinada com essa montagem de elementos que não parecem literários. O meu romance é baseado em algumas cartas guardadas desde a adolescência. Sempre quis fazer algo com elas, mas antes não tinha domínio narrativo para construir uma história. Eram cartas que eu mandava para a [revista de música] Bizz e para jornais. Às vezes, eu recebia respostas e tentava repetir um certo formato de escrita para ver se seria respondida de novo. Com uns dezenove anos decidi parar com isso, não podia ficar sempre esperando a aprovação dos outros. Quis passar isso no processo de amadurecimento da protagonista, como ela encontra seu caminho sem depender da resposta dos outros.

Apesar de ser baseado em cartas que você escreveu na adolescência, não é autoficção, certo?
Não faço autoficção, é ficção mesmo. As coisas que puxo da minha vivência são percepções, pequenos amadurecimentos Tem uma brincadeira que diz respeito só a mim: sou de Curitiba e vim para São Paulo fazer faculdade e trabalhar na área cultural. Fiz a protagonista ficar em Curitiba e seguir uma área ligada à matemática — um pouco por não ter muitas mulheres nessa área, um pouco por eu ter sido boa em matemática, algo que abandonei. Realizei esse meu lado no livro.


Escrevi pra você hoje, de Sabina Anzuategui, lançado pela Quelônio

Outro ponto é quando a Luísa [a protagonista] faz a resenha de um show e a Érica [a jornalista com quem se corresponde] dá uma cutucada sobre o jeito que ela escreve e como as pessoas vão ler. Nessa parte, falo da minha experiência ao lançar meu primeiro livro, Calcinha no varal [Companhia das Letras, 2005]. É um romance muito explícito sobre as experiências sexuais da personagem que não recebeu resenhas literárias, só uma coluna do Contardo Calligaris [na Folha de S.Paulo]. E começaram a me chamar para escrever livros sobre comportamento feminino, não de ficção. Isso me incomodou. Essa conversa sobre “como as pessoas vão ler seu texto” tem a ver com isso.

Neste e em seus outros livros você procura uma escrita de mulher e sobre mulheres?
Agora, acho que menos. Fiz um exercício mais radical em Luciana e as mulheres [Quelônio, 2019], em que as relações profissionais e afetiva só se dão entre mulheres.

Mas isso não acontece também neste último romance?
Sim, mas este já escrevi mais relaxada, não era tão programático. Não sei se deveria dizer isso, mas às vezes acho que meus livros são subvalorizados não por eu ser mulher, mas por escrever só sobre mulheres.

O mercado está mudando em relação a isso?
Não sei. Tem muita mulher publicando. No meu caso, quem sabe a questão de gênero seja secundária, mas o assunto que me interessa talvez seja pequeno. Meus temas não são as situações-limite, mas o estranhamento comum, e isso pode ser menos vendável. Mas parei de me preocupar com o resto.

Já está preparando um novo livro?
Terminamos um. É uma espécie de livro de memórias do [crítico e diretor de cinema] Jean-Claude Bernardet — ele foi meu professor. A [editora e tradutora] Heloisa Jahn começou a fazer esse livro, mas morreu no meio do projeto. Então eu trabalhei com o Jean-Claude para finalizar. Heloisa e Jean-Claude foram as pessoas que mais me ajudaram quando eu estava começando a entender esse mundo das editoras.Além disso, comecei a escrever um novo livro, algo mais ensaístico sobre o mundo da educação e das escolas. 

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.