Fichamento,

Micheliny Verunschk

Autora de ‘O som do rugido da onça’, vencedor do prêmio Jabuti 2022, lança romance sobre intolerância religiosa e feminicídio

30jun2023 - 07h00 | Edição #71

Caminhando com os mortos (Companhia das Letras), novo livro da escritora e historiadora pernambucana, encara o horror de uma mulher queimada viva por sua família.

Você se inspirou em algum caso específico de feminicídio para escrever Caminhando com os mortos?
Brinco que esse livro é uma história de zumbis, pessoas seguindo cegamente alguns preceitos até virarem walking deads. Quando comecei a escrever, li uma notícia sobre uma mulher queimada viva como bruxa. E um pouco antes de eu começar o livro, um grande amigo meu, ator e homossexual, morreu assassinado queimado. Queria pensar esse lugar do assassinato dentro da esfera da intolerância religiosa e da intolerância com o corpo.

E falar da violência em um contexto mais amplo?
Desde meu primeiro romance tenho um projeto literário de pensar o Brasil a partir de suas violências fundantes: a violência de Estado, a ditadura militar, a violência contra a mulher. Quem ler todos os livros vai perceber que alguma pecinha de um sempre remete ao outro.

Qual peça de O som do rugido da onça, seu livro anterior, remete a Caminhando com os mortos?
O som do rugido da onça parte desse olhar europeu que não leva em conta a criança, o bicho, o meio ambiente. Caminhando com os mortos tem o pregador dizendo que plantas locais evocam o pecado e alguns corpos não são aceitáveis, que tenta colocar numa jaula toda uma comunidade. É a perspectiva do projeto de ruína que uma parte do Brasil quer para a outra parte.

Espera alguma mudança no país?
Coloco na epígrafe do livro: “Deus é grande, mas o mato é maior”. Eu vou confiar no mato. Moro no 12º andar e na porta de correr da varanda, entre o piso e o alumínio, nasceu uma planta. Minha esperança é nessa força vinda sei lá de onde que chega e rompe tudo. De algum modo o mato, se não salvar a gente, vai salvar o território.

Como podemos nos salvar?
Precisamos escancarar a hipocrisia. É muito risível: essas pessoas se arvorando em determinar o que os outros são, esses nomes de igrejas que estão no livro: igreja Automotiva ou do Perfume de Jesus são nomes reais de congregações. E existe essa gente, que está no Congresso, sem a menor noção do ridículo, querendo legislar sobre o corpo e a moralidade. Não tem a ver com a crença, mas com essa hipocrisia e a falta de compreensão do outro.

Continuaremos caminhando com os mortos?
Precisamos colocar os mortos em pé para caminhar conosco. Só assim podemos entender nossa história e honrar a memória dessas pessoas.

A escritora italiana Ginevra Lamberti e a jornalista brasileira Camila Appel defendem a discussão da morte e suas dimensões políticas

A literatura faz isso?
Quando escrevo um país, minha ideia é colocar os personagens e paisagens em pé para o leitor. Não tenho interesse em escrever sobre mim, minha vida é muito chata. Entendo quem escreve sobre si, mas não serve para mim. Quero exercer a alteridade na escrita.

Você trabalha com a memória social?
Dentro da grande história, as pequenas histórias são, no máximo, a areia que mistura com o cimento. Não quero escrever a partir da perspectiva dos vencedores, os que ganharam as batatas, me interessa quem ficou sem a batata. Mas tenho um cuidado grande em não ser maniqueísta. E não tenho história alegre, é só porrada.

Sofre muito ao escrever essas histórias tão pesadas?
Só sofro quando termino de escrever o livro, porque as personagens com quem convivi vão embora e eu fico sozinha. Mas descobri um antídoto para meu banzo: emendar uma história na outra. Estou escrevendo um livro e já tenho outro na cabeça, é maluquice.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.