Fichamento,

Marina Colasanti

A premiada jornalista e escritora carioca lança romance histórico-afetivo sobre a vida de sua tia-avó

01jan2022

Em Vozes de batalha (Planeta), Marina Colasanti resgata parte da história da elite cultural e econômica da capital federal nos anos 20-40 ao contar a trajetória da cantora lírica italiana Gabriella Bensazoni, que, junto com o marido, o empresário Henrique Lage, construiu a mansão que é um dos cartões-postais do Rio.

Vozes de batalha retrata a sociedade carioca e o Brasil nos anos 20. Como foi recriar essa época? 
Tive de pesquisar muito porque cheguei ao Brasil com dez anos, não sabia de tudo o que estava acontecendo. Então fiz uma costura entre memória e pesquisa. Usei minhas lembranças: como era a vida na mansão do Parque Lage, como reencontrei tia Gabriella na Itália, nossa viagem em um navio transatlântico, as roupas que minha tia usava, as joias, como ela sempre se atrasava quando ia assistir aos espetáculos — chegava no fim do primeiro ato, mas tinha reservada a frisa número 1 do Theatro Municipal, o mais importante do país quando o Rio era a capital. Não tenho ido ao Municipal, que ficou fechado por causa da pandemia e parece que está caindo aos pedaços por falta de verba. 

A pesquisa entra sempre em seus livros? 
Quando faço livros de minicontos, que são temáticos, pesquiso para estabelecer as colunas de sustentação do tema. Mas quando escrevo um livro de contos maravilhosos, teoricamente chamados contos de fada, recorro apenas à emoção. Se uma frase, uma imagem, um verso ou uma canção me emocionam, anoto e guardo em um envelope de plástico. Está imundo, porque faço isso há anos. Quando entro em um projeto de contos maravilhosos, percorro essas anotações e, se tiver sorte, uma mínima chama se acende e me conta o princípio de uma história, e eu a interrogo: “O que vai acontecer, o que faz esse personagem?”. É como puxar um fio muito delicado que a qualquer momento pode se partir. É assim que funcionam os contos maravilhosos. 

A vida de sua tia-avó seria um conto maravilhoso?
Poderia ser. O livro tem uma rainha dos palcos líricos e um rei da indústria brasileira, um homem muito bonito e muito ousado. Ele foi um industrial importantíssimo e foi esquecido porque o Brasil não tem interesse em se lembrar de que deve uma fortuna a Henrique Lage. 

O país parece não querer se lembrar de muita coisa…
É, o país se esmera em apagar sua história. Há uma lenda de que o Brasil é o país do futuro e minha geração esperava ser a que entraria nesse futuro deslumbrante. Não aconteceu, o Brasil regrediu e a história continua sendo apagada, agora com maior determinação. 

No final do livro, está escrito que ele é o cumprimento de uma promessa nunca feita. Por quê? 
Porque eu não sabia que seria escritora. Eu me formei em belas-artes e derivei para o jornalismo porque sempre fui muito independente e sabia que com artes plásticas demoraria muito para ganhar o dinheiro para me sustentar. Um amigo me disse que tinha uma vaga de repórter no Caderno b do Jornal do Brasil e lá fui eu. De repórter passei a redatora, depois substituí o cronista do jornal em suas férias e comecei a escrever meu primeiro livro. Escrever é minha profissão, minha vontade, o que sei fazer. Não, eu sei fazer muitas outras coisas: sei pintar, ilustrar meus livros, costuro minhas roupas, cozinho — muitíssimo bem, na opinião de meus amigos. Enfim, sou uma pessoa das artes manuais. 

E, como escritora e jornalista, da linguagem.
Desde meu primeiro livro, decidi qual seria minha linguagem: extremamente econômica. Jogo fora o que não for necessário para contar o que quero, jogo fora a maioria dos artigos, escolho só um adjetivo para definir o personagem. Trabalho a linguagem como um avião que está perdendo altura e o piloto joga fora as malas e o que for preciso para o avião recomeçar a subir.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)