A escritora santista Maria Valéria Rezende (Adriano Franco/Divulgação)

Fichamento,

Maria Valéria Rezende

A escritora santista recria vida e obra de autores como Machado de Assis, Drummond e Kafka em nova coletânea de contos

01jan2026 • Atualizado em: 05jan2026 | Edição #101

João que, em vez de Teresa, amava J. Pinto Fernandes, uma barata que acorda como Gregor Samsa e Capitu feliz da vida em Paris se encontram nas páginas de Recapitulações (Editora 34).

Em Recapitulações, você reinventa vários autores, como Machado de Assis. Ele é uma grande inspiração? 

Não posso imaginar minha vida sem Machado de Assis. Minha mãe, uma artista, trabalhava o dia inteiro, mas lá pelas cinco da tarde parava tudo e se sentava para ler Machado em looping. Eu ficava olhando o rosto dela tentando imaginar por que estava sorrindo ou fazendo uma expressão de espanto. Aquilo me deu vontade de ler e estou sempre relendo Machado, não posso evitar. 

Relendo e reescrevendo? 

A brincadeira não acaba. Minha cabeça nasceu vazia; tudo que sai dela é porque entrou — grande parte entrou pela leitura, outra, pela observação direta da realidade. Tive a sorte de andar pelo mundo e ver muitas coisas. Tudo se mistura e a gente reelabora. Vemos só um pouco da realidade — o resto é a imaginação que completa. 

A literatura ajuda a completar a realidade? 

Quando lemos ficção, o cérebro produz muito mais que a compreensão das palavras escritas. É fundamental, porque o cérebro precisa de exercício e, para isso, nada substitui a literatura. Eu sou antiga — só tive TV em casa aos dezessete anos, ler era o grande lazer e me acostumei assim. Graças a Deus, porque, quando eu já estava nos meus sessenta anos e não tinha o vigor para andar com uma mochila nas costas no meio dos canaviais fazendo educação popular, descobri outra maneira de continuar meu trabalho, que era escrever.

Mas já escrevia desde menina? 

Sim. Santos (SP), onde eu morava, tinha um concurso municipal de composição escolar. Muitas vezes eu ganhava a melhor composição da escola, mas, quando chegava ao nível municipal, era desclassificada porque sempre tinha um parente no júri. Minha mãe era mineira e o meu pai, santista — duas famílias de escritores. Eu achava que todo mundo iria escrever um livro na vida, que era a coisa mais banal. Não achava nada de mais. Eu queria era dar a volta ao mundo, que para mim era muito mais desafiador do que escrever um livro. 

Hoje, acha mais desafiador escrever um livro do que dar a volta ao mundo? 

As duas coisas estão ligadas. Quanto mais eu vejo o mundo, mais história tenho para contar. Ainda ontem, fui a um evento no sertão da Paraíba e o pessoal estava me homenageando — agora estão com mania de me homenagear, acho que pela idade; estou entrando nos 84. Eu agradeci, mas disse: “Reparta essa homenagem com todo mundo com quem convivi, que me contou as histórias que são o material do que eu escrevo”. 

E o material também pode ser a obra de outros autores, como em Recapitulações

As histórias foram escritas ao longo da minha vida. Só depois percebi que tinha vários contos em que ou esses escritores são os personagens ou eu roubo os personagens deles e contesto a história que contaram. 

É muito divertido ler os contos e descobrir o “original”. Mas dá para ler sem conhecer as obras ou os autores que inspiraram as histórias? 

A boa literatura, para mim, é aquela que confia no leitor, não deixa tudo explicadinho. Gosto de quando o livro exige a parceria do leitor e de me sentir parceira dos autores. Recapitulações foi feito assim, transformando os escritores ou mexendo na trama para dar aquele final que a gente quer. A Capitu indo morar em Paris. Não precisa conhecer o original, mas fica mais divertido quando se conhece.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Maria Valéria Rezende”

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