Fichamento,

Clara Drummond

A escritora carioca, que lança romance sobre a elite jovem no mundo das artes, fala sobre dinheiro, caricatura e relações utilitárias

01abr2022 - 03h51 | Edição #56

Considerado pela autora seu livro mais político, Os coadjuvantes (Companhia das Letras), novo romance de Clara Drummond, traça um fiel retrato de uma elite jovem, meio intelectual, meio perversa, em busca de prestígio no mundo das artes.

O livro surgiu de alguma motivação especial?
Sim e não. Comecei a escrever um romance com uma motivação específica. Dos doze aos 22 anos tive uma depressão muito pesada, que se tornou controlável até 2016, quando veio uma crise muito forte e fui internada. Achei que seria um bom tema para um livro — há toda uma tradição de escritora branca de classe média que é internada e escreve sobre isso. Mas aconteceu algo, não sei explicar, esqueci toda a minha experiência na clínica.

Certo dia, parti para um texto novo, outro romance — e bem melhor. No primeiro texto, eu não era dura com a personagem (eu mesma), e sim um pouco complacente, moralista, coisa que odeio. Veio essa outra personagem, Vivian, bem mais legal, porque é meio má, meio amoral. Fui adiante com a personagem mais escrota, joguei fora quase tudo o que já tinha escrito, só deixei a parte da depressão na infância e a internação, mas os motivos para isso são diferentes em Os coadjuvantes.

O foco do livro são a visão de mundo e os comportamentos de uma elite jovem e narcisista. Como é sua relação com esse universo?
Acho que sou uma antropóloga frustrada; tenho bastante interesse em papéis sociais e suas interações. Quis fazer um recorte de um grupo com poder financeiro e cultural. Eu me sinto permanentemente desconfortável no mundo, o que é ruim na vida cotidiana, mas é bom para escrever. Na primeira vez em que tive um grupo de amigos estava com 25 anos, eu era um alien que brotou na sociedade jovem. Quase todos os meus amigos são gays ou queers, e isso está no livro — tinha de ser assim porque é o único modo de vida que conheço, e o conceito de “família escolhida” da comunidade queer me abraça muito. Mas muita gente só está atrás do pink money, não está nem aí com os direitos dos gays, só quer lucrar com eles. A protagonista do livro, uma curadora de arte, é uma personagem análoga a essas pessoas. Quis deixar claro o utilitarismo de todos os seus relacionamentos.

Por que escolheu o universo das artes plásticas para esse recorte?
Todo meio tem seu networking, suas relações utilitárias, mas o mundo das artes plásticas talvez seja mais cruel por ter muito dinheiro envolvido. Um dos primeiros títulos que pensei foi “Em busca do primeiro prestígio”, mas ficou meio proustiano, e meu livro não tem nada a ver com Proust. Na época, eu estava lendo sobre interpretação em teatro e cinema e pesquisei expressões nessa área para o título. Fiquei em dúvida entre protagonistas e coadjuvantes e este último soou melhor.

Como fez para evitar o risco de estereotipar seus protagonistas e coadjuvantes?
Já disseram que é muito difícil fazer um bom filme sobre a elite brasileira porque ela é muito caricata. Eu anoto coisas que vejo ou ouço e essas são provavelmente as partes mais caricatas do livro. São situações verídicas, mas parecem diálogo de vilão de novela mexicana. Em alguns momentos tive de diminuir o tom para deixar o texto verossímil. Mas os comportamentos e opiniões baseados em fatos são os que têm mais humor.

Há muito humor, mas também algo de trágico na narrativa. Foi inevitável esse tom?
Toda comédia é um pouco trágica; quase sempre o humor tem elementos de desconforto e tristeza. Humor é uma das coisas mais importantes da minha vida. Quis ser muito engraçada neste livro, mas cortei muitas piadas quando pensei: “Clara, isto é um romance, não uma comédia stand-up”.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.