Fichamento,

Ale Santos

Finalista do Jabuti em 2020 e criador do podcast Ficções selvagens, o escritor e roteirista que vive no interior de São Paulo lança romance afrofuturista

20nov2021 - 23h49 | Edição #52

Escrito em ritmo veloz e furioso, O último ancestral (HarperCollins), de Ale Santos, convoca as periferias, o hip hop, as séries de ação, os orixás e os povos originários para combater uma ditadura tecnocrática.

Para você que é do ramo, dá para dizer que O último ancestral bebe no universo dos games?
Sou alimentado pelas séries nerds e de ação, sempre deixo um gancho no final de cada capítulo empurrando para algo mais tenso no outro. Também uso imaginário do rap, do hip hop. Escrevo ouvindo música, monto uma playlist para cada cena, coloco o fone estourando e vou seguindo o ritmo para escrever. Só na hora de revisar consigo ficar em silêncio. O Hemingway dizia: “Escreva bêbado, revise sóbrio”. Eu escrevo totalmente inebriado pela música e por minhas emoções.

Como foi escrever esse livro durante a pandemia?
Eu pensava: “E se esta for a última história da minha vida?. Tem que ser uma história para comover, seja no terror, no espanto ou no ódio, sei lá, não posso passar por esta vida sem causar um trauma emocional nas pessoas”. Mas também foi uma espécie de fuga, eu precisava sair da realidade e contar essa história, que já estava definida antes. A pandemia trouxe a sensação de desolação, mas a gente precisava seguir em frente. Um pouco disso está no livro. Os personagens vivem em uma realidade totalmente quebrada, mas decidem se mobilizar, e eles fazem isso em comunidade. Pelo título, pode parecer que se trata de apenas um homem, Eliah, o último ancestral, mas as coisas acontecem por causa de várias pessoas, principalmente Hana, irmã do protagonista, e Selci, uma cantora poderosa que, para mim, é muito a cara da Ludmila e da Negra Li.

A importância das mulheres é evidente na trama.
Foi proposital, não para tentar ser feminista, mas por ter tudo a ver com minha vida. Tenho uma avó que criou oito filhos sozinha, outra que foi uma das pioneiras da Pastoral da Criança em sua cidade. Minha mãe mudou a vida da família quando começou a vender perfumes. Na maior parte das famílias são as mulheres que estão fazendo tudo acontecer. No livro, os homens podem até fazer coisas revolucionárias, mas são as mulheres que estão no comando. Elas têm uma importância real para o que eu queria dizer.

O que quis dizer com essa história?
Contar um pouco como é ser uma pessoa negra fora do centro das grandes discussões, mostrar como a tecnologia pode criar cisões. A história fala desse abismo criado por quem desenvolve novas tecnologias sem ter um olhar sensível ao outro, ao diferente. Uso a ficção para alertar como isso pode dar muito errado. E também para mostrar como a periferia pode desenvolver sua própria linha de pensamento sobre a tecnologia da informação e inverter todo o jogo. O último ancestral não trata só do futuro, é também uma hipérbole para tudo o que a gente está vivendo agora.

Como você vê o afrofuturismo hoje?
Ser negro é pop, as narrativas negras estão em alta, mas me preocupo por quase só ter autores afrofuturistas norte-americanos chegando aqui. O Brasil deveria ser o polo do afrofuturismo; somos o povo mais negro fora da África. Tento olhar mais para coisas brasileiras, criar uma mitologia nova. No livro, construí uma realidade hipertecnológica a partir de um pensamento afro-indígena: há uma sociedade que resiste à ditadura tecnocrática e usa as árvores e a música como forma de transmissão de dados. Usei também um pouco do imaginário do candomblé e da umbanda, o culto a São Jorge, mas também o hip hop, o reggae —se você inverter o nome do protagonista, Eliah vira Hailé, como o deus encarnado do rastafári, Hailé Selassié. Tentei fazer um castelo de mitologias, ou algo assim.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #52 em outubro de 2021.