

Desigualdades,
Selva interseccional
Sérgio Costa percorre 21 anos da história recente para entender um país marcado por conquistas sociais e seu posterior desmantelamento
01abr2025 • Atualizado em: 31mar2025 | Edição #92Se sempre foi um desafio analisar a sociedade brasileira — que pouco encarou seu passado escravocrata, que sempre conseguiu conciliar conservadorismo com desbunde —, imagine realizar essa tarefa a partir da nova ordem dos algoritmos, redes sociais, ascensão da extrema direita, plataformização do trabalho. Autor de livros como Um porto no capitalismo global (Boitempo, 2020), escrito com Guilherme Leite Gonçalves, o sociólogo Sérgio Costa encarou o desafio: em Desiguais e divididos: uma interpretação do Brasil polarizado, ele adentra a selva multidimensional e interseccional brasileira em busca de respostas sobre nossas recentes escolhas políticas e os deslocamentos e aparentes contradições das hierarquias sociais do país.
Como ponto de partida para chegar até 2024, ele sai de 2003 (início dos
governos do PT) e percorre os dois primeiros mandatos de Lula, o impeachment de Dilma e a volta de Lula à presidência para sublinhar os elementos que vão integrar uma sociedade riscada tanto por conquistas sociais quanto pelo desmantelamento destas mesmas conquistas.

O professor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim procura ir além das explicações econômicas, ideológicas e culturais sobre o aparecimento de fenômenos como o bolsonarismo, tentando encaixar tais análises a observações mais delicadas. Um exemplo é entender que tanto a eleição de um nordestino vindo da pobreza em 2002 quanto a de um militar punido com prisão e sem expressão no Congresso Nacional estão interconectadas.
O autor entende que os governos do PT, principalmente de 2003 a 2014, bagunçaram moderadamente hierarquias sociais, o que provocou deslocamentos interseccionais no tecido social brasileiro. As políticas públicas, por exemplo, são mais permeadas por questões de raça, classe, gênero. Nesse contexto, as rendas dos mais pobres e dos milionários são as que mais crescem. Para Costa, isso vai também embaralhar percepções de classe. Com o fenômeno Junho de 2013, vamos entendendo que não só a insatisfação de grupos específicos achatados economicamente aumenta quando um sentimento de “perda de um mundo como era” aparece. Vem a Lava Jato e, segundo o sociólogo, a sensação de um freio de arrumação se torna impera-
tiva, algo que conserte “tudo o que está aí”. Interseccionalmente, ele entende, quem sentiu que perdeu menos na hierarquia social tendeu a votar no PT, enquanto o contrário se voltou à legitimação de Bolsonaro ou à direita. De Berlim, Costa conversou sobre outros pontos dessa polarização com a Quatro Cinco Um.
No começo do livro, você afirma que “a capacidade de resistência política e eleitoral da esquerda, ainda que muito menos comentada e estudada, não é menos desafiadora que a ascensão aparentemente repentina da direita”.Essa resiliência da esquerda vem sendo deixada de lado pela academia e imprensa, que se voltaram ao fenômeno da extrema direita?
O que chamamos hoje de esquerda e direita no debate brasileiro são certamente campos muito heterogêneos e devemos ver os dois termos como parte do vocabulário êmico dos atores políticos. Visto de uma perspectiva histórica, não faz muito sentido chamar o governo atual de esquerda.
Do ponto de vista de sua composição, o governo é, como se sabe, eclético, compreendendo desde setores fortemente clientelistas do Centrão até movimentos sociais. Em suas ações político-institucionais e nas políticas públicas adotadas é um governo de centro que respeita as regras democráticas e tenta, na medida em que as negociações com o Congresso o permitem, implementar ações sociais para reduzir a pobreza e conceder mais direitos a grupos menos favorecidos, sem contudo mexer com os interesses dos mais privilegiados.
‘Big techs se associam à direita radical para liberar as fake news de controle democrático’
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A oposição mais ruidosa não é de direita, mas de extrema direita, que só aceita as regras democráticas se não há alternativas. Idolatra lideranças autocráticas mundo afora e pede anistia a grupos que, pelo que indicam as provas já conhecidas e as condenações existentes, tentaram abolir pela força o estado de direito democrático. Quando menciono a capacidade de resistência da “esquerda”, estou me referindo mais precisamente a este centro democrático que sobreviveu e foi capaz inclusive de vencer as eleições presidenciais de 2022.
Se os governos anteriores do PT intensificaram o neoliberalismo, o que dizer do cenário atual, em um contexto de mais força do Congresso e da tão falada necessidade de ampliar as bases?
Os governos do PT intensificaram no passado o que a filósofa da teoria crítica Nancy Fraser chamou de neoliberalismo progressista, o qual combina políticas econômicas claramente pró-mercado com políticas de transferência de renda para reduzir a pobreza e outras de fortalecimento de direitos em termos de gênero, sexualidade, igualdade racial etc. Ainda que o PT nunca tenha tido sozinho maioria parlamentar, conseguiu, no passado, implementar essas políticas, com mais ou menos êxito, negociando ministérios e cargos com o Centrão.
O problema é que nem mesmo esse modelo de negociação nada transparente funciona mais. Os partidos aceitam ministérios mas não entregam votos, em parte porque foram ampliados os mecanismos pelos quais os parlamentares podem abocanhar fatias do orçamento, através de emendas, por exemplo, sem que tenham que compor com o governo. Sem mudanças legais e institucionais substantivas — que o governo não é capaz de implementar porque não tem força no Congresso —, não vejo como essa situação pode ser modificada.
A tendência é que se debilite cada vez mais, corroído, por dentro, pelos partidos que supostamente compõem a base parlamentar mas não entregam votos, e por fora, pela direita radical que tem enorme capilaridade social e tem se mostrado capaz de desmoralizar publicamente mesmo políticas públicas muito bem justificadas.
Como vê o fenômeno da deposição dos incumbentes (Bolsonaro-Lula, Trump-Biden-Trump)? O eleitorado já não tem paciência para o tempo da política ou a carga de sofrimento social se tornou insuportável?
A questão da incapacidade dos incumbentes de se reelegerem pode ter razões internas, como no caso brasileiro, onde a articulação entre governo e parlamento vem funcionando mal, mas tem seguramente razões mais amplas que são estruturais. Eu destacaria duas: a primeira é uma expansão sem medida das expectativas políticas alimentadas em parte pelo cassino de ofertas que se tornou o debate político, sobretudo nas redes sociais.
A segunda razão é vinculada à redução brutal das possibilidades de que governos nacionais produzam transformações significativas na vida dos cidadãos. Boa parte dos fatores que definem a qualidade de vida, como o volume de investimentos internos e externos, a estabilidade política internacional, a qualidade dos empregos criados, escapa à capacidade de gestão e coordenação dos governos.
Para dar um exemplo concreto: o Partido Verde alemão entrou na coalizão que ainda hoje governa a Alemanha dizendo que ia promover uma transformação verde da economia. Nos anos em que governou, contudo, a agenda ambiental perdeu força internacionalmente e o temor de que a invasão da Ucrânia extravase para o resto da Europa passou a dominar as discussões políticas. Neste contexto, o Partido Verde não conseguiu entregar o que prometeu e foi punido pelos eleitores nas eleições de fevereiro.
Há um contingente de trabalhadores “fantasmas” ao redor do mundo que trabalham por centavos tentando um ganho extra a partir de casa. Como a aliança entre big techs e forças da extrema direita redesenha a desigualdade já multidimensional?
Essas questões precisam ser pensadas a partir de dois horizontes temporais. O primeiro é o passado recente e o presente já observados e pesquisados. Não sou especialista no campo, mas como leitor de estudos nessa área, o que fica evidente é que a possibilidade de trabalho remoto amplifica em muito as desigualdades.
É possível manter os trabalhadores em seus países de origem, e nem mais acontece o compartilhamento de infraestrutura e instituições de bem estar social que observávamos quando, por exemplo, uma trabalhadora migrava do Peru para trabalhar no setor de cuidados da Itália. No trabalho remoto — e um colega da sociologia da USP, Alvaro Comin, vem mostrando isso com propriedade —, é possível extrair excedente sem nem mesmo compartilhar bens públicos, o que amplia radicalmente a desigualdade entre países pobres e ricos.
O outro horizonte temporal é o futuro, isto é, o que acontece quando as grandes empresas de tecnologia se associam à extrema direita para, de um lado, liberar as máquinas de produção de fake news de qualquer tipo de controle democrático — como de certa forma já se deu nos Estados Unidos — e de outro forçar o desmantelamento dos controles sociais e ambientais criados nas últimas décadas, de sorte a desatrelar a expansão do capitalismo de qualquer tipo de responsabilização social, ambiental e climática.
Se essa estratégia avançar, nestes dois âmbitos, político e econômico, teremos o abismo absoluto tanto para a democracia quanto para a vida no planeta. Já vemos resistências se formando não só na sociedade, mas mesmo em Wall Street ou na Faria Lima, de modo que ainda tenho esperança de que esta grande investida sobre o que restou de garantias democráticas, sociais e da vida vai fracassar.
A tal comunicação ruim das esquerdas frente aos conteúdos da extrema direita já virou um clichê. Boa parte do que circula traz desinformação, linguagem favorecida pelas redes sociais. Qual seria a boa comunicação para vencer esse cenário?
Não me parece que a comunicação da extrema direita prospera porque difunde mentiras. Seu êxito me parece fundado em sua capacidade de transformar descontentamentos difusos em ação política ou ao menos em ilusão de empoderamento.
‘O êxito da extrema direita está em transformar descontentamentos difusos em ação política’
A extrema direita conseguiu transformar o homem branco pequeno burguês — que viu sua autoassumida superioridade frente a mulheres, LGBTQIA+ ou imigrantes derreter com as transformações políticas, sociais e econômicas das últimas décadas — de novo no valentão que insulta o presidente da República ou um ministro do STF nas redes. Esses insultos são lidos e compartilhados por muita gente e são vocalizados na mídia ou por parlamentares.
As mentiras alimentam essa ilusão de poder, mas o que atrai esse homem do exemplo é a sensação de retomar as rédeas de sua vida. O que as forças progressistas podem fazer diante disso? Disputar a hegemonia neste campo, o que não implica difundir mentiras, mas criar redes, formas atraentes de circulação de conteúdos que também gerem a possibilidade de subjetificação política. Isto obviamente não funciona sem o trabalho político corpo a corpo no cotidiano, nas instituições, na cultura, no tratamento de questões que afligem os diferentes grupos.
Matéria publicada na edição impressa #92 em abril de 2025. Com o título “Selva interseccional”
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