Desigualdades,
Muito além da 25 de Março
Pesquisador do comércio popular mostra como imigração chinesa transformou região de São Paulo com operação complexa na margem flexível da lei
14out2025 | Edição #99A rua 25 de Março e as galerias de comércio popular que povoam as imediações de uma das maiores zonas comerciais da América Latina tornaram-se um cartão-postal não só de São Paulo, mas de sua comunidade chinesa — fundamental para a cara que a região tem hoje. Longe de ser um bloco homogêneo como muitas vezes é tratada — e discriminada —, essa diáspora tem origem variada: sul da China, Taiwan, Hong Kong. Tem ainda uma operação complexa e altamente hierarquizada: no topo, importadores e proprietários de imóveis; na base, vendedores. Separando uns e outros, uma aplicação flexível da lei.
Essa é a tese do sociólogo brasileiro Douglas de Toledo Piza em Beyond Informality: How Chinese Migrants Transformed a Border Economy [Além da informalidade: como imigrantes chineses transformaram uma fronteira econômica, sem tradução]. O estudo condensa os achados de uma pesquisa etnográfica do circuito de produtos comercializados entre Ciudad del Este, no Paraguai, e a capital paulista. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Piza discute como a informalidade e a ilegalidade, longe de serem um problema para o capitalismo, são exploradas para extrair o máximo de ganhos de trabalhadores imigrantes.
No livro, ao explicar os fluxos migratórios chineses, você destaca o papel de organizações da diáspora. Que funções elas cumprem?
Nos anos 70 e 80, foram criadas associações ligadas à China, voltadas a ajuda mútua, assistência e integração, numa época em que não havia sequer consulado chinês em São Paulo. Esse papel é transformado nos anos 90, quando passam a predominar atores chineses em vez de taiwaneses. Nos anos 2000, elas têm papel primordial na integração socioeconômica, especificamente nos mercados populares.
Há associações de vários tipos. As ligadas às cidades de origem são as mais importantes, baseadas na conexão entre conterrâneos. Nos anos 90, com a priorização do aspecto econômico, elas passam a estruturar redes econômicas. Isso é verdade tanto no contexto de Ciudad del Este como no de São Paulo. No lado brasileiro, é muito difícil sair de um ciclo ditado pelas associações, porque são imigrantes recentes que dependem de assistência e proteção oferecidas por elas.
A lucratividade desse circuito depende do que você chama de captura por ilegalidade. Como se dá isso?
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A captura por ilegalidade é um processo de acumulação que não se dá nas relações capitalistas típicas de produção, mas na esfera da circulação. É a apropriação nos espaços ambíguos da legalidade, onde a lei impede certos atores de se beneficiarem do próprio trabalho. Isso ocorre, por exemplo, com os contratos de concessão das zonas econômicas especiais. É uma dinâmica de completa legalidade, mas exclui atores que não têm os mesmos direitos. Outra forma é a valorização de espaços imobiliários, como as galerias. Não é algo ilegal, mas necessita que o comércio informal ocorra em seu espaço.
‘Projetos de revitalização do centro da cidade agora tentam capitalizar espaços informais’
Uma terceira maneira é a extração direta da renda do vendedor. Aí cruzamos a linha da legalidade: é a fiscalização, a criminalização, mas que atinge de modo diferente grupos sociais distintos. Os vendedores nas ruas sofrem mais do que aqueles nas galerias, que sofrem mais do que os grandes comerciantes, que têm menos oportunidades do que os importadores — muitas vezes proprietários de galerias. Esses últimos têm uma posição de diálogo muito mais forte com setores do Estado, seja da política ou das polícias.
É a vulnerabilização desses vendedores por instrumentos específicos que permite a captura dessa grande renda em circulação. Os projetos de revitalização do centro de São Paulo, por exemplo, que antes excluíam ou tentavam eliminar os espaços informais, hoje tentam embelezar e capitalizar esses espaços, reconhecidos como de alta circulação financeira.
O endurecimento das políticas imigratórias nos Estados Unidos e na Europa favorece esse processo?
O endurecimento dessas políticas faz com que as pessoas mais vulnerabilizadas, de menor capital econômico, social, político, linguístico, não consigam fazer o processo migratório de maneira bem-sucedida. Isso afeta menos as pessoas que estão com outros status migratórios e que têm mais capital. Essa elite passa a se beneficiar da vulnerabilização de outros migrantes. Mas há uma interdependência econômica: a dificuldade colocada para a maior parte dos vulnerabilizados pode sufocar a própria participação desses grupos, que geram a riqueza que é finalmente capturada.
O Brasil busca aproximação com a China para reagir à política externa americana. Como isso pode impactar as diásporas em São Paulo?
Nos anos 2000, houve uma guinada no combate à pirataria no contexto da “guerra ao terror”, liderada pelos eua, que colocou Ciudad del Este e o circuito informal de São Paulo como alvos do combate ao crime transnacional. Agora, a 25 de Março voltou a ser grande alvo. Essa criminalização do comércio informal é o primeiro impacto.
Por outro lado, quando há crise econômica, aumenta o número de trabalhadores informais. Pode ocorrer a redução do poder de compra das famílias, mas aumenta a busca por produtos alternativos, mais baratos. Portanto, há mais pessoas trabalhando nas ruas, disputando espaço, enquanto um número potencialmente maior de compradores busca o comércio popular para suprir suas necessidades.
Quando isso ocorre, a presença chinesa passa a ser mais comentada, muitas vezes de modo discriminatório, xenofóbico. Antes da crise de 2015, quando havia expansão do poder de compra, chineses eram vistos como fornecedores de produtos importados a preços acessíveis. Depois, passaram a ser um bode expiatório para reclamações de trabalhadores no mercado informal.
Você vê mais riscos a esse circuito do que benefícios?
Sim. Consigo ver cenários onde a aproximação com a China beneficia outros setores da economia brasileira e, no plano diplomático, vira moeda de troca internacional. Mas os benefícios desse tipo de reposicionamento não chegam aos vendedores da 25 de Março. Ao mesmo tempo, há intensificação da política de combate à informalidade por demanda internacional pautada pelo governo americano.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Muito além da 25 de Março”
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