Alimentação,

Quem sustenta o sustento

Em livro, Bela Gil critica o sistema falho em que se escora o trabalho doméstico

18maio2023 - 07h12 | Edição #70

“Uma comida boa é a que alguém fez, que provavelmente saiu de uma panela, não do micro-ondas nem da fábrica”, diz a chef e apresentadora Bela Gil em entrevista à Quatro Cinco Um. “Quando falamos em ‘comida de panela’ fazemos uma ligação automática com a pessoa que a fez porque não há panela mágica que faça comida sozinha.” Quem vai fazer essa comida? é um livro sobre os paralelos entre o trabalho doméstico não ou mal remunerado e o sistema alimentar hegemônico — que só dá de comer ao capitalismo —, mas também sobre as soluções coletivas e urgentes para garantir a valorização desse trabalho e o direito humano à alimentação adequada. 

“Mulheres, trabalho doméstico e alimentação saudável” é o subtítulo do livro em que a cozinheira dispensa receitas e dicas culinárias e, munida de inspirações como a filósofa Silvia Federici e a bióloga Marion Nestle, vai galgando seu próprio espaço em uma literatura ainda pouco ocupada por autoras. O resultado reflete a trajetória da comunicadora que nunca “não foi ativista”, mas que nos últimos anos tem se empenhado para que as mudanças na esfera alimentar ultrapassem o caráter individual e atinjam aqueles que têm o poder de escolha cerceado.

“Eu quero democratizar a comida de panela, fazer com que ela chegue à mesa de todo mundo. E isso só é possível por meio da política.” Gil fez parte do gabinete de transição de Lula, integrando o grupo de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, e é voluntária no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do governo.

Não há justificativa biológica que valide a predominância das mãos femininas nas atribuições do lar

Para falar da ligação entre o trabalho doméstico não remunerado e o capitalismo, Gil amarra no livro as pontas que mantêm esse sistema exploratório tão coeso: o agronegócio e os agrotóxicos, a indústria de ultraprocessados e a publicidade, os pântanos e os desertos alimentares. Enquanto os afeitos à temática se sentirão em casa, os leigos não terão dificuldade em entender em que chão estão pisando. As notas de rodapé são para isso: conduzir o leitor pelos artigos, teses, estudos e livros que nortearam a pesquisa.

Suas vivências também conduzem sua reflexão. Ao citar as mulheres da sua vida, instiga o leitor a também nomear as que se encarregam dos cuidados ao seu redor. “Se o trabalhador chega ao escritório de blusa passada e com café da manhã tomado e produz para a empresa lucrar, é porque uma mulher fez isso acontecer”, diz. Em um trecho do livro, ela resume: “A mulher produz e mantém o maior bem da economia, que é a força de trabalho — ou seja, as próprias pessoas.”

Apesar de o trabalho doméstico não remunerado gerar cerca de 13% do pib mundial — mais de R$ 50 trilhões —, quem movimenta as engrenagens não recebe nada por isso. Pior: gera lucro para as empresas que dominam o mercado. E, por trás da exploração nem tão velada assim, dois pilares se mantêm imóveis: o amor e a herança escravocrata.

Além do afeto

“Ninguém tem prazer absoluto em cozinhar, lavar a louça. Quando vira um fardo, uma obrigação exaustiva, quando a casa inteira depende de você, existe uma carga mental muito forte”, diz Gil. As mulheres estão cansadas, “à beira de um ataque de nervos”, e não há justificativa biológica que valide a predominância das mãos femininas nas atribuições do lar. 

O afeto está longe de ser desculpa para que restem à mulher as incumbências de planejar, comprar, preparar, cozinhar, servir e limpar tudo depois. Se a divisão entre os gêneros já deveria estar superada, o próximo passo para avançar na discussão, segundo Gil, está fora, e não dentro de casa. “Temos que ter mais creches, cozinhas e lavanderias comunitárias e restaurantes e hortas populares. Se eu sei que meu filho está comendo bem na escola, uma comida de boa qualidade, feita por merendeiras que estão felizes naquele trabalho, está tudo certo.” A responsabilidade sai do individual e passa, então, a ser partilhada com a sociedade — sobretudo com o Estado, peça-chave na justiça social.

“Acredito que um país sem a necessidade de trabalho doméstico remunerado atingiu mesmo a igualdade de classe, raça e gênero. Ao mesmo tempo, estamos em uma transição. Enquanto isso, a gente pode remunerar bem quem o faz e tratá-lo com valorização.” A fala de Bela vai ao encontro de outra vertente do trabalho doméstico, o mal remunerado, exercido, em uma sociedade de raízes escravocratas, majoritariamente por mulheres pobres e racializadas.

No livro, Gil tece críticas ao feminismo da década de 60 e também ao marxismo e à teoria de Adam Smith, que não incluíram o trabalho doméstico e reprodutivo na equação da “produtividade econômica”. O movimento feminista, por sua vez, deixou de lado a parcela das mulheres que não pertencia às classes mais abastadas da sociedade. “O feminismo branco esqueceu de perguntar na mão de quem estava o poder e como ele era distribuído. Assim, perpetuou a opressão e os costumes do patriarcado”, diz.

Bela Gil tece críticas ao feminismo da década de 60, ao marxismo e à teoria de Adam Smith

Segundo uma pesquisa feita em 2022 pelo IBGE, cerca de 17% dos brasileiros realizam trabalho doméstico remunerado. Muitas dessas trabalhadoras seguem à margem da sociedade, invisibilizadas, mal pagas e, muitas vezes, destratadas por seus patrões e suas patroas.

Todos os dias a comida era farta e havia dias, inclusive, que ia um buffet cozinhar para eles. Porém, os empregados não podiam comer dessa comida e minha tia cozinhava uma comida diferente e mais simplória pra gente. Sempre sobrava alguma coisa da comida deles, mas mesmo assim não podíamos comer

O trecho é parte de um relato do livro Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada (Letramento, 2019), da rapper, escritora e apresentadora Preta Rara. “É hora de repararmos nisso e repararmos isso”, diz Gil.

A guerra contra os ultraprocessados — que invadiram as despensas na mesma época da segunda onda feminista, quando a mulher foi inserida no mercado — está diretamente relacionada à valorização do trabalho doméstico, mas as reflexões, segundo Gil, precisam ir além. Ao informar os malefícios dos produtos que matam mais que homicídio no Brasil (60 mil contra 40 mil), ela alerta sobre a principal arma para combater o consumo excessivo — os acessos, que enumera como seis: intelectual, geográfico, financeiro, à água potável, tecnológico e, não menos importante, o tempo.

Para dar alguns exemplos: nos pântanos e desertos alimentares, onde a oferta de alimentos frescos é baixa, os ultraprocessados chegam de forma agressiva, oferecendo preço baixo, praticidade e até saúde aos consumidores. “É o esgotamento físico e mental vivenciado pela maioria das mulheres que as faz recorrer à comida ultraprocessada”, escreve Gil. A falta de instrumentos e insumos é outra barreira que dificulta comer com qualidade — retrato de um país em que o gás de cozinha esteve ausente em 11 milhões de residências, segundo dado de 2019. A briga entre comida de panela e os industrializados é desigual, e a mulher fica à mercê desse embate injusto.

“A responsabilidade de comprar os ingredientes, pensar em uma receita, cozinhar, comer e limpar é muito maior, enquanto com comida-porcaria você pode comprar alimentos prontos ou parcialmente preparados, pulando completamente as fases de cozimento e limpeza”, escreve a autora. Além de recaírem sobre a mulher as decisões sobre como a família vai se alimentar, é ela que, muitas vezes, abre mão da comida de panela em benefício dos demais.

Política sexual 

Uma pesquisa recente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que relaciona a diminuição do consumo de feijão à obesidade, apontou que, desde o último ano, as mulheres comem a leguminosa menos de cinco vezes por semana, enquanto os homens só devem chegar a esse número em 2029. É a falácia de que os homens precisam de mais proteína, citada por Carol J. Adams em A política sexual da carne (Alaúde, 2018). “Carregamos essa ideia de que o homem precisa estar bem alimentado, e sabemos que arroz é uma coisa e arroz com feijão é outra. Se não tem feijão para todo mundo, e vão ter que escolher quem vai comer, vai ser o homem. É muito triste ver que ainda existe essa divisão alimentar dentro das casas”, diz Gil. 

Em defesa da democratização da comida de panela, no novo livro Bela Gil se esforça em fazer com que se entenda: a valorização de quem alimenta o mundo, hoje, é fundamental para evitar um colapso generalizado. Para ela, a remuneração do trabalho doméstico precisa e pode entrar nas contas governamentais, bem como devem ser reforçadas e ampliadas as políticas públicas que dão suporte às práticas de cuidado e as ferramentas comunitárias que desopilam os serviços em casa.

Para a autora, a tecnologia e a indústria podem ser utilizadas a esse favor, desde que não fiquem restritas à parcela mais rica da população, assim como o cuidado como serviço econômico pode existir, contanto que não perpetue a exploração capitalista do trabalhador. Reivindicar salários para o trabalho doméstico não é apenas romper com essa lógica, mas também negar a associação de tais tarefas à natureza feminina. 

O conceito é diferente da generosidade feminina — abordada pela professora Larissa Bombardi e pontuada por Gil —, usurpada pelo capitalismo para justificar a doação compulsória do tempo e do trabalho doméstico. “Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não remunerado”: a frase de Silvia Federici resume bem a apropriação do afeto pelo sistema vigente. 

Com a publicação de Quem vai fazer essa comida?, Gil nos convida à ação: 

Quanto mais pessoas perceberem que não tem como resolver os problemas da má alimentação, do processamento dos alimentos e da desigualdade de gênero, raça e classe sem olhar para a questão do trabalho reprodutivo, mais rápido chegaremos a soluções eficazes e sustentáveis.

Quem escreveu esse texto

Ana Mosquera

É jornalista e especialista em história e cultura da alimentação.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.