O escritor paulista Raduan Nassar (Renato Parada)

Ensaio,

Fulgor da linguagem

Notas sobre Raduan Nassar, Lavoura arcaica e outras pequenas obras-primas nos noventa anos do escritor paulista

27nov2025 • Atualizado em: 01jan2026 | Edição #101

I.

Outro dia, relembrei a Raduan nosso primeiro encontro, em abril de 1988, quando lhe pedi que lesse o manuscrito de Relato de um certo Oriente. Foi um ato bastante presunçoso, movido pelo ímpeto de um escritor ainda jovem. O que seria uma breve visita tornou-se uma amizade para toda a vida.

Em 1975, eu tinha lido a primeira edição de Lavoura arcaica, obra notável em todos os sentidos. Treze anos depois, Raduan apontou na garagem de sua casa uma parede coberta de exemplares de Lavoura: “É o maior encalhe da paróquia”, ele disse, e deu uma gargalhada.

II.

Cada livro faz a sua história. Leitores são seres misteriosos: nem sempre abrem os olhos para um grande romance no momento de sua publicação. A reedição de Lavoura arcaica pela Companhia das Letras, em 1989, sua leitura e estudo em escolas e universidades, bem como o filme dirigido por Luiz Fernando Carvalho, em 2001, foram fundamentais para conquistar e expandir o público leitor. Contudo, a recepção crítica de Lavoura foi entusiástica já em 1975.

Leyla Perrone-Moisés publicou um excelente ensaio no Caderno de Literatura Brasileira (IMS, 2001) dedicado à obra de Raduan. Recentemente, Davi Arrigucci Jr. deu um belíssimo depoimento sobre Lavoura arcaica ao podcast Rádio Companhia.

Desde a década de 90, pesquisadores mais jovens têm publicado ensaios acadêmicos não apenas sobre Lavoura arcaica, mas também sobre a novela Um copo de cólera e os contos de Menina a caminho, publicados posteriormente. Esses contos são um convite aos que ainda não conhecem a obra de Raduan.

Raduan Nassar em sua casa (Renato Parada)

“Menina a caminho”, texto escrito no início dos anos 60, é uma pequena obra-prima. O título já aguça a curiosidade: a caminho de quê? Também o gênero literário é estranho: não se trata exatamente de um conto, que pede tensão, intensidade e uma relativa brevidade; tampouco é uma novela. Essa indefinição parece ecoar o mistério do título.

A menina sai para dar um recado de sua mãe a um homem, seu Américo, e, depois de uma longa caminhada pela cidade pequena, volta à casa dos pais. O percurso erradio dessa andança, cheio de lances surpreendentes e momentos de devaneio, será o caminho de várias descobertas. O olhar da menina, atento e perscrutador, é guiado pelo narrador. Ela só fala nas páginas finais: “uma fala de susto, uma cachoeira”. Até esse momento, as emoções que ela sente são traduzidas por gestos e pelo olhar. Deixo ao leitor as surpresas e a natureza das descobertas dessa menina, uma das grandes personagens de Raduan.

Os demais contos — três do começo da década de 70 e um de 1996 —, muito concisos, mas igualmente excelentes, já contêm alguns temas que serão centrais em seus dois outros livros.

III.

Lavoura arcaica é uma imersão na memória familiar. Nas relações entre os membros de uma família libanesa surge uma paixão dilacerante entre o narrador André e sua irmã Ana, que “trazem a peste no corpo”. André, o “tresmalhado”, é o filho arredio sobre o qual “pesa na família ser um fruto diferente”. Ele abandona a casa e vai morar no quarto de uma velha pensão interiorana. Pedro, o irmão mais velho, levará o “desgarrado” de volta para casa, numa tentativa de restabelecer a harmonia familiar. A narrativa é marcada por uma dramaticidade teatral, também presente em Um copo de cólera.

O capítulo 9 de Lavoura arcaica (“Sermão do Pai”) é uma fala solene sobre a prudência, a paciência, o autocontrole, a moderação, a vida gregária e equilibrada de um clã.

“A justa medida do Tempo dá a justa natureza das coisas”, diz o pai nesse sermão repleto de conselhos sérios; alguns soam como advertência ou premonição:

O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado.

A densidade da experiência familiar e rural do autor alimentou os temas abordados em seu livro

Nessas trevas arde a paixão incestuosa de André e Ana, que acaba por fraturar as relações familiares. Mas é o refinamento estilístico da linguagem que faz desse romance uma obra singular. A voz do filho passional e epiléptico e a do pai austero são plenas de metáforas, não poucas com ressonâncias bíblicas. Davi Arrigucci Jr. notou que:

Lavoura arcaica tem um lastro telúrico muito forte, não se trata simplesmente de uma história. O romance expressa alguma coisa profundamente vivida e experimentada, e essa matéria complexa do livro está exposta na forma misturada de uma narrativa de grande força poética com uma corrente de imagens marcadas por uma visão subjetiva, uma das preciosidades da prosa do Raduan.

Os narradores alternam habilmente o tom solene e elevado com o prosaico e o terreno, numa combinação precisa e sofisticada de prece e imprecação. Além disso, a narrativa acompanha os ciclos da natureza e é profundamente ligada à terra, aos animais, à vegetação. As alusões ao corpo são recorrentes, e as analogias entre este e a natureza são erotizadas num acasalamento, como se lê nesta fala de André:

[…] amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho.

O perdão do filho ao pai — e aceito por este — é uma promessa de reconciliação, que, no entanto, não se cumpre. Nenhum espírito de reconciliação será possível, como se lê nas belas e terríveis páginas que narram a dança final de Ana.

IV.

Nesse rito que culmina no trágico, é a filha que protagoniza o último ato transgressor diante da família que festejava o retorno de André. No auge da dança, o primogênito Pedro vocifera uma “sombria revelação” ao pai, cuja reação rompe com violência e para sempre os laços da família. De nada adianta o apelo desesperado da mãe a Iohána (Graça de Deus) face à ira do pai, cujo poder e palavra foram gravemente violados.

[…] era o próprio patriarca, ferido nos seus preceitos, que fora possuído de cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a tábua solene, era a lei que se incendiava […]

Numa longa entrevista de 1998 a Norma Couri,* publicada no Estado de S. Paulo, Raduan disse que parou de escrever porque não tinha mais sede de ficção. Do projeto de uma novela sobre episódios da infância em Pindorama, restou apenas o título: As três batalhas. Ao mencionar as conversas com Newton Santos Corrêa — um querido amigo seu que trabalhava na então fazenda Lagoa do Sino (Buri) —, Raduan enfatiza que a “densidade” da fala desse amigo “vem da experiência, das coisas da terra”.

De modo análogo, a densidade da experiência familiar e rural do autor alimentou os temas abordados em seu livro, cuja forma artística é inseparável da beleza poética presente em cada página. Nesse sentido, Lavoura arcaica é uma rara narrativa ficcional em que a linguagem, ao adquirir um forte componente lírico, vai além da transparência da prosa. Esse fulgor da linguagem que narra paixões tumultuadas faz do romance de Raduan Nassar um verdadeiro clássico da literatura brasileira contemporânea.

Quem escreveu esse texto

Milton Hatoum

Escritor e tradutor, é autor de A noite da espera (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Fulgor da linguagem”

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